13/01/2004 6/7

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SÃO PAULO, FESTINHAS E LANTEJOULAS
Cidade: 450; jornalismo de cidades: zero

Alberto Dines

Em dezembro começaram a preparar o arraial para a festa dos 450 anos mas o Espírito de Natal & Fim de Ano foi mais forte (por Espírito de Natal entenda-se também o razoável volume de anúncios e os sucessivos enxugamentos nos quadros).

Agora, véspera do grande niver – trisessquicentenário???–, e com os jornais entregues ao Vazio do Verão, criaram-se finalmente as condições para a entrada de um novo player ou nova pauta: a urbe, a metrópole, a maior e mais importante cidade brasileira na sua data natalícia.

Hora de pensar no jornalismo local ou metropolitano. A reportagem de cidade já foi uma escola – aquela em que o repórter aprendia a gastar a sola do sapato. Já foi um gênero – aquele em que o profissional envolvia-se 24 horas por dia. Hoje converteu-se em contingência da nova topografia dos grandes diários imposta pelo modismo da cadernização. Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Aquelas páginas que já foram as mais palpitantes porque tratavam do universo imediato das suas audiências converteu-se num espaço indiferenciado onde cabe tudo, desde o desastre ocorrido a 500 quilômetros de distância como a discussão em Brasília sobre a maioridade penal.

Nossos cadernos de cidade separados do resto do noticiário foram criados na Era da Bolha (anos 80-90) quando os manda-chuvas reunidos em algum seminário decidiram que o jornalista do futuro era o jornalista-marqueteiro. A palavra de ordem passou a ser "segmentação". Como se a cabeça do leitor fosse dividida em editorias e sua curiosidade seccionada por temas e, não, pela importância do acontecimento.

O caderno dito local do Estado de S.Paulo chama-se "Cidades", lá abrigam-se notícias não apenas da Grande São Paulo mas também de acontecimentos ocorridos em Palmas, Osasco, Araraquara ou Uruguaiana.

Numa de suas sucessivas reformas, o Jornal do Brasil criou o caderno "Cidade", no singular, para designar a cobertura do Grande Rio. Mas cerca de 40% do seu espaço é efetivamente ocupado pelo noticiário local, 10% por uma coluna mundana e os restantes 50% pela cobertura de economia & negócios.

O caderno da Folha (como sempre o precursor) leva o título de "Cotidiano". Como se as notícias da página de política nacional ou internacional não fossem igualmente cotidianas, fatos do dia. Nossos dicionários ainda consideram o vocábulo "cotidiano" como sinônimo de qualquer publicação diária, tal como acontece com o quotidien, em francês. O pior é que o título não tipifica coisa alguma, disfarça uma terra de ninguém onde pode caber matéria local, assuntos federais ocorridos nas suas imediações ou o noticiário esportivo (nos dias em que não há um caderno especializado).

O Globo fez a opção mais sensata e profissionalmente mais correta: não tem caderno de cidade. O noticiário local tem a mesma importância do noticiário nacional. Ambos hierarquizados no primeiro caderno. Atende, assim, ao seu histórico como vespertino (onde predominam os fatos locais) mas também assume o compromisso de obrigar o leitor a interessar-se pelos problemas que o afetam mais diretamente e, em geral, considerados não-transcendentais.

Encontro com o passado

Qualquer que seja o nome ou a sua localização no jornal, a verdade é que o noticiário de cidade desfigurou-se. Não se cobrem as secretarias municipais, prefeitura (ou prefeituras das regiões metropolitanas) e também não se cobrem as "gaiolas de ouro" (apelido da Câmara de Vereadores do Rio transformado em genérico). Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Sob o ponto de vista jornalístico, a cidade deixou de ser o território cívico mais imediato. Agora é apenas uma convenção, perímetro urbano onde registram-se as ocorrências mais próximas (escândalos, crimes ou desastres).

Exemplo da desfiguração da cobertura local está sendo o caso da construção simultânea de duas passagens subterrâneas num dos polígonos mais importantes da cidade de São Paulo (avenidas Faria Lima, Rebouças e Cidade Jardim), iniciada há dias e que já está provocando radical modificação no trânsito.

As alterações foram intensamente badaladas simplesmente porque a prefeitura da cidade, naturalmente preocupada, adiantou-se e preparou farto e competente material explicativo, inclusive um mapa em cores distribuído dentro dos jornais.

Não houve debate na hora da licitação da obra ou quando foi definido o seu cronograma. Nada foi escondido pelas autoridades, mas, em compensação, nada foi adiantado pelos jornalistas. A população de uma metrópole de 10 milhões de habitantes, a mais importante do país e da América do Sul, foi surpreendida por uma obra dessas proporções quando o fato estava consumado, irrecorrível. Porque os repórteres de cidade não lêem o Diário Oficial do município, não acompanham o expediente das secretarias ou do gabinete da prefeita e porque os editores não querem incomodar-se com questões mais complicadas. Com as honrosas exceções etc., etc.

Ninguém duvida: a obra é imperiosa. Mas a cobertura prévia também, tal como o direito do cidadão de opinar sobre aquilo que lhe diz respeito.

Cobrir uma festa não tem problemas, todos são a favor. Quatrocentos e cinqüenta anos de fundação de uma cidade num país apenas 54 anos mais velho é um reencontro benfazejo e estimulante com o passado. Nostalgia não incomoda ninguém.

Um pouco mais complicado é discutir algo que vai mexer com a vida de milhões de pessoas durante 11 meses. Dá trabalho. E o jornalismo, hoje, pauta-se pela lei do menor esforço. Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Em tempo: Em sua edição de terça-feira (13/1), a Folha puxou a discussão sobre as obras do complexo Faria Lima. Não era sem tempo. (A.D.)

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