| ||
|
IMPRENSA EM QUESTÃO WASHINGTON OLIVETTO Alberto Dines Se o cidadão médio já suspeitava que os jornalistas brasileiros não sabem fazer perguntas, graças ao publicitário Washington Olivetto isto ficou patente, gritante, incontestável. A entrevista coletiva do Seqüestrado do Ano (quinta-feira, 7/2, em São Paulo) foi uma exibição da incapacidade de formular questões e extrair do entrevistado o que se quer saber (e não o que ele quer dizer). Basta reparar que a pergunta que mais interessava à mídia como instituição – devem os seqüestros ser mantidos em sigilo? – só conseguiu ser formulada no fim, quando todos queriam sair correndo para escrever suas matérias. E foi formulada por uma profissional, colaboradora freqüente deste Observatório. A resposta foi publicada por um único jornal no dia seguinte (O Estado de S.Paulo) de forma precária (veja abaixo) Washington Olivetto – em qualquer circunstância – é um showman capaz de entreter e fascinar uma multidão durante horas com suas tiradas, sua irreverência, sua forma vital de ir ao fundo das questões. Ao transformar-se em narrador de um episódio com tamanha intensidade magnificou-se sua capacidade inata. Se o amigo André Midani, companheiro na mesa, tivesse aberto a sessão dizendo "então, conta como é que foi", cerca de 80% das perguntas poderiam ter sido dispensadas. Pelo rádio e TV, ao vivo, ficou evidente que: ** grande parte das perguntas foi lida; ** inúmeras foram repetidas; ** isso significa que os perguntadores não prestavam atenção ao que o entrevistado revelava – tinham que aparecer de qualquer maneira, caso contrário, levariam bronca do chefe; ** em conseqüência, poucas foram as perguntas nascidas de alguma resposta, capazes de exigir algo mais do entrevistado; ** prevaleceu a banalidade; ** evidenciou-se, mais uma vez, a incapacidade de articular uma pergunta de forma direta e clara. Apenas um jornal -- novamente o Estadão – descreveu o clima de happening (8/2/02, pág. C-1, "Olivetto mantém estilo durante a entrevista"). Seu concorrente, a Folha, aderiu ao desbunde, atenta às irrelevâncias e modismos cult. Não poderia ser diferente: a Folha freqüentemente contrata a W/Brasil para campanhas especiais. Íntegra da resposta de Olivetto à questão do sigilo em seqüestros: "Eu aprendi a função de noticiar ou não... Pensei nisso muito seriamente ontem num almoço em casa...Você leu o Gay Talese [nome do livro inaudível]? É uma questão caso a caso. Existem momentos em que noticiar pode ser favorável. Nesse meu caso, pelas informações que o André [Midani, amigo que cuidou das negociações] me deu, noticiar era trágico..." Dos quatro semanários, apenas Época tratou do sigilo nas edições do último fim de semana. E o fez de forma serena, elegante e irrespondível no artigo "A Imprensa ajudou" assinado pelo diretor de redação. Carta Capital perdeu excelente oportunidade para exibir o potencial de um semanário alternativo. Veja também Compacto do Observatório na TV, que tratou do Caso Olivetto
| ||