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CASO SARNEY-MURAD
Vazamentos, grampos & fitas:
um caso de moralismo seletivo

Alberto Dines

Cometeu uma infração quem passou aos semanários as informações sobre as diligências da Polícia Federal em curso na sede da empresa de Roseana Sarney, sexta-feira (1/3). Mesmo que o vazamento tenha antecipado em apenas 48 horas os resultados da diligência. Um princípio foi transgredido e os responsáveis devem ser apontados.

Este Observatório é um dos poucos com autoridade moral para veicular a acusação, respaldado nos quase seis anos de contínuos e veementes protestos contra a pragas do "jornalismo fiteiro", contra o vício da arapongagem jornalística e o abominável pool denuncista que tanto desmoralizaram nossa mídia e escancararam sua fragilidade.

Carecem de autoridade aqueles que, a serviço dos clãs Sarney-ACM, tentam esconder o escândalo e enfiá-lo debaixo da questão do vazamento de informações sigilosas. Com o opinionista Elio Gaspari à frente (conforme seu artigo de 6/3).

O ex-senador ACM com sua equipe de assessores pagos pelo erário foi um dos maiores fornecedores de dossiês, grampos e fitas dos últimos anos em benefício de seus interesses políticos, pessoais e econômicos. E o grupo de jornalistas com o qual o caudilho baiano tem um "pacto de sangue" fez o trabalho de retaguarda e de apoio psicológico – legitimar a pilantragem conferindo-lhe o galardão de "reportagem investigativa".

Agora essa mesma tropa de choque está procurando esquecer a enormidade do escândalo Sarney inventando que a ação da Polícia Federal originou-se num dossiê fabricado pelo candidato do PSDB e que o diretor da Polícia Federal, sendo filiado ao partido, agiu politicamente.

Puro engodo, guerrilha de desinformação: a Polícia Federal num caso desses só pode agir por ordem da Justiça e esta precisa ser acionada pelo Ministério Público, que não pode ser impulsionado por dossiês mas por processos formais decorrentes de investigações legais. O MP foi incensado por esta camarilha quando lhe convinha. Agora, como não pode combatê-lo, procura obliterar a sua ação moralizadora.

Nem Época (que mudou sua principal matéria) ou Veja (que apenas conseguiu enfiar um box de última hora) fizeram qualquer coisa que se assemelhe a jornalismo investigativo. Simplesmente aproveitaram material alheio, previamente investigado, ao qual deram forma jornalística. Se algum desses ingênuos jurados que distribuem à rodo prêmios de jornalismo no fim do ano achar que foi mais um "feito de reportagem", problema dele. Para nós, não foi.

Jornalismo investigativo verdadeiro, autêntico, são as denúncias que O Globo vem fazendo a partir do domingo (10/3), sobre a corrupção de três magistrados e de um tribunal cariocas. O resto é conversa fiada.

É preciso que fique bem claro também que se IstoÉ deixou de aproveitar o vazamento sobre o escândalo Sarney não o fez por razões deontológicas ou econômicas (estaria sem recursos para reimprimir a edição, conforme alegou). O semanário está sob estrito controle de Orestes Quércia, a quem só interessa o sensacionalismo contra o atual governo. Razão pela qual armou-se esta exótica parceria – ACM produzia as denúncias e Quércia as divulgava com estardalhaço.

E por que razão o clã Sarney-ACM tenta agora esconder o escândalo do Maranhão sob a alegação de que foi produzido às vésperas de um pleito presidencial? Simplesmente porque no Maranhão não existe um jornalismo independente. Sarney e seu grupo não deixam. O oligarca brasileiro do século 21 difere do modelo anterior, que só mandava nos currais eleitorais. Os de agora, além disso, controlam os meios de comunicação locais de forma a que o resto do país ignore os crimes que lá ocorrem.

Só estamos conhecendo agora alguns detalhes sobre o clã Sarney porque a grande imprensa do eixo Rio-São Paulo desmantelou sua rede de correspondentes estaduais que até os anos 90 funcionava como antídoto às mentiras veiculadas pela mídia oligarca.

Quando a pré-candidata do PFL começou a despontar nas sondagens, a chamada grande imprensa "descobriu" o Maranhão e mesmo assim tratou-o na base estatística com índices e rankings obtidos, em sua maioria, nos gabinetes de Brasília. Poucos se deram ao trabalho destacar correspondentes para contar, in loco, a história pregressa do clã. A Rede Globo, que poderia fazê-lo, ficou atada porque o grupo suspeito é o controlador da sua afiliada no Maranhão e vizinhanças.

As estrepolias de Jorge Murad com pleno conhecimento do sogro, cunhados e consorte só começam a aparecer porque a mídia até a semana passada estava completamente omissa. Por economia, preguiça, simpatia ou jogada política. Idêntico mecanismo deu tamanha sobrevida a Jader Barbalho no Pará e a ACM, na Bahia.

Tem mais: Paulo Maluf ainda não foi completamente escorraçado da vida pública simplesmente porque uma das baterias com maior poder de fogo da mídia brasileira está parcial e voluntariamente recolhida, resignada ao compromisso de apenas acompanhar as investigações, auto-impedida de comandá-las.

Sarney tentou a quartelada midiática na semana passada porque confiava que os fartos benefícios que distribuiu quando ocupou a presidência – e ACM o Ministério das Comunicações – conseguiriam calar os mais exaltados. E esses benefícios não se resumem à copiosa oferta de concessões de rádio e TV. A Previdência Social também foi acionada no período 1985-1990 para facilitar a vida e os balanços de determinadas empresas jornalísticas.

Confiava Sarney também no engajamento ideológico de parte ponderável dos opinionistas que preferem criticar o governo pelas providências legítimas da Polícia Federal contra a corrupção do que indignar-se ante o espetáculo daquele milhão e trezentos mil reais nos cofres de uma pequena empresa de consultoria.

Esta hipocrisia é um dos aspectos mais aterradores do "milagre de São Luís": alguns articulistas da grande imprensa, engajados na oposição sistemática, inspirados na própria tática de alguns partidos de oposição, não estão incomodados com aquela foto dos milhões nem com a tentativa de obstrução de justiça, muito menos com o escândalo que escorre do Maranhão. Estão apenas pensando nas eleições, fazendo contas, ajustando as revelações às posições ideológicas previamente assumidas.

É um caso de moralismo seletivo, indecente e profundamente desabonador. Claro que um articulista como Clóvis Rossi, da página 2 da Folha de S.Paulo – um dos mais tenazes críticos do governo – não entra neste jogo militante, caolho e oportunista de acobertar a corrupção. O mesmo pode-se dizer de um articulista como João Ubaldo Ribeiro, que se envolve pouco com política mas que não agüentou as marotas manobras do clã Sarney para esconder sua pilantragem debaixo do tapete.

Estamos assistindo em cores e ao vivo a uma tomografia da corrupção brasileira. Ela é endêmica, profunda, horizontal, vertical e sistêmica porque é impune. E ela é impune porque nossa mídia não está cumprindo com uma de suas principais atribuições – fiscalizar. A todos, sem preferências ou relativismo. Com rigor, sem favorecimentos ou jogadas eleitorais.



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