| ||
|
A IMPRENSA EM QUESTÃO CASO SARNEY-MURAD Alberto Dines O PFL foi empurrado para a sua desmoralização por um senador do PMDB, oligarca do Maranhão, mas abancado num curral do Amapá, pai de uma governadora que, embora eleita, entrega toda a gestão do Estado ao marido empresário, suspeito de improbidade. O PFL tem um histórico de hipocrisias, cinismo e empulhação. É o partido cara-de-pau. Ao invés de repudiar a corrupção e o nepotismo, no lugar de prestigiar a Justiça e promover a honradez, o PFL está ensinando ao povo brasileiro que quando alguém é pego com a mão na botija é melhor disfarçar e gritar "pega-ladrão". O PFL acaba de consagrar uma vertente do malufismo – ao invés do velho "rouba mas faz", inventou o "esconde e esperneia". E numa espetacular operação de propaganda à altura de Goebbels está conseguindo espalhar a noção de que o agente da lei e defensor da sociedade é culpado por cumprir com seus deveres. O PFL assumiu-se plenamente na quinta-feira como o partido da impunidade. Algumas almas puras estavam visivelmente constrangidas ao se deixarem fotografar com a representante de uma oligarquia que avilta a democracia brasileira e espezinha a moralidade. A contragosto talvez, mas de forma inequívoca, manifestavam-se contra o Ministério Público, contra o Judiciário, a favor da mistificação e da patranha. Não querendo ou não sabendo rebelar-se contra a perfídia, acabaram por consagrá-la. Declaram-se abertamente adeptos do acobertamento e da dissimulação. Fiéis ao partido, infiéis à decência. Ao alinhar-se incondicionalmente às trapaças do clã Sarney, o PFL reaviva todo o seu inglório passado de filho da Arena com o golpe militar, herdeiro da perversidade e da mentira. O PFL foi preparado pelo general Golbery para ser um clone do PRI mexicano – arapuca ideológica, palhaçada política, embromação democrática. José Sarney, agora no PMDB, junto com seu amigo, aliado, parceiro, inspirador e confidente ACM, compõe a versão nacional da impostura mexicana que Golbery pretendia impor ao país. Sarney, nosso Suharto de jaquetão, conseguiu ser o artífice dos maiores abusos e atentados à democracia brasileira e, não obstante, proclamar cinicamente que a oposição esmagada por ele era a única culpada pela violência cometida. No pacote de abril de 1977 e no pacote de novembro de 1981, com esta mesma desfaçatez, Sarney fez exatamente o que está fazendo agora. Antes, teve a ajuda de uma imprensa auto-amordaçada, agora é secundado por aquela parte da mídia que tanto beneficiou. Abuso de poder é impedir que prospere a busca da verdade. Colocar o Estado a serviço de causas subalternas – como reclamou ontem [8/3] na baboseira semanal na Folha de S.Paulo – é o que ele e seu grupo sempre fizeram na iminência de serem flagrados e escorraçados. A tentativa de invalidar a ação judicial contra o casal Murad sob o pretexto de vazamento de informações para a imprensa é uma grosseira caricatura de um debate que o grupo Sarney-ACM e seus acólitos nas redações sempre evitou aprofundar. Praticamente todos os vazamentos de processos sigilosos, divulgação de grampos ilegais e dossiês secretos ocorridos nos últimos anos foram facilitados pelo mesmo grupo que, por casualidade, tinha o mesmo assessor quando abancado na presidência do Senado. O mesmo articulista que no Globo de quinta-feira [7/3] deblaterou contra o condenável vazamento de informações na diligência da semana passada no Maranhão sempre saudou como "reportagens investigativas" os vazamentos anteriores promovidos por seu mentor. O que estamos assistindo agora é uma gigantesca operação de engodo promovido pela mesma dupla que entre 1985 e 1989 – um na qualidade de Presidente da República e outro como seu ministro das Comunicações – perverteu e corrompeu parcela considerável do rádio e da televisão brasileira com quase mil concessões indevidas e vergonhosas. Jornais que deviam somas fabulosas à Previdência Social de repente ficaram em dia. Forjou-se naquele período o modelo do Milagre de São Luís da semana passada, em que o cofre de uma empresa insignificante é recheado com um milhão e trezentos mil reais. Em espécie, embrulhados para pronta entrega. Milagre secundário: as cédulas não são falsas. A recompensa pelas benesses à mídia veio agora com a extraordinária metamorfose do vilão em vítima. José Sarney, histórico conspurcador do jogo político, não admite o escrutínio da sociedade e, para isso, não tem escrúpulos em comprometer a credibilidade da imprensa às vésperas de uma eleição presidencial. O que ele e seus sócios do PFL estão querendo fazer é um autêntico golpe de mão, quartelada midiática para evitar que a sociedade tome conhecimento de uma portentosa negociata com cinco décadas de vida. Todos os crimes são políticos, sim. Todos os roubos são atos contra o bem comum. Mas o circo armado em Brasília pelos caciques do PFL é um escárnio. A questão de ficar ou não ficar no governo não é política, é apenas partidária. Mas está sendo usada para esconder uma monumental agressão moral: surrupiar do cidadão brasileiro o conhecimento pleno de um caso policial. Os Sarney querem a obstrução da Justiça. Os Sarney converteram o PFL no partido da pizza. (*) Copyright Jornal do Brasil, 9/3/02; publicado originalmente com o título "O partido da pizza" | ||