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LULA PRESIDENTE Dioclécio Luz (*)Eleição é o horror. Na semana do combate do segundo turno, a revista Veja anunciou na capa: os radicais do PT vão exigir sangue na estrada. A ilustração era uma besta apocalíptica com as cabeças terríveis de Marx, Lênin, Trotsky. Lá dentro o texto nem falava neles. Mas isso é o de menos o terrorismo é liberdade de expressão. Veja alertava o povo que o PT é um aparelho comunista, e que comunistas, como se sabe, costumam fazer churrascos infantis às terças. É o mote do pensamento único na imprensa nacional. Na TV, Regina Duarte, tão CIA quanto a Veja, diz que tem medo de um possível governo Lula. A dúvida é se foi contratada para fazer o terror, ou se fez isso pelo ideal pessedebista. Como não estava fazendo propaganda de xampu nem de fraldas descartáveis, mas difundindo o medo sobre o futuro do país, recebeu o devido troco. Na TV ainda, Boris Casoy também tem medo de Lula. Na entrevista com o presidente eleito perguntou se ele usa ternos Giorgio Armani. Não. Não é pergunta. BC quer apenas informar ao público que Lula traiu a classe popular, seu povo, porque agora se veste bem. É da mesma turma de Elio Gaspari, que indignou-se publicamente porque Lula bebeu um vinho caro, o que seria uma traição ao povo. Não colou. O que ficou claro foi a manifestação de preconceitos contra o pobre: pobre não pode se vestir bem nem comer bem; pobre tem que comer pão com ovo, e se vestir de mulambento. PFL da imprensa Nas eleições de 2002, o preconceito descobriu a imprensa brasileira. Veículos como Folha, O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e, evidentemente, O Globo gastaram tintas e celulose na campanha "PT dividido". Descobriram que o Partido dos Trabalhadores tinha vários pensares. E que, internamente, era uma briga desgraçada pelo poder. A se acreditar na quantidade de matérias publicadas no período, imagina-se que o PT é um antro de gente com os mais variados interesses, onde todos brigam pelo poder. Para essa imprensa oficial, o mote não acabou: mesmo com Lula eleito, continuam a produzir matérias sobre o tema. E vai ser assim até que apareça um cadáver na cozinha do PT. Até que surja um escândalo, eles farão isso intriga. De fato, chamar de jornalismo político essa futricaria sobre as relações internas de um partido é um exagero. Tudo é fofoca. A grande imprensa mascara o que expõe, o mexerico é visto como notícia. É a notícia do momento. Caras, Capricho, Contigo, Veja, Folha, Estadão... É tudo a mesma coisa. A falta de um cadáver no armário para destruir a campanha de Lula foi um problema para seus adversários. Ainda tentaram manter aceso o caso Santo André, a morte de Celso Daniel. Mas, sem provas, sem sombras, sem nada, o TV Fama não se sustentou. Em último caso deve-se destacar o choro e a cobrança dos neoliberais derrotados: a Veja pós-eleições e o discurso de Arnaldo Jabor são os mesmos: a gente deixa Lula governar, mas desde que mantenha as conquistas do governo FHC. Quais? Por exemplo, a entrega do patrimônio público aos saqueadores nacionais e internacionais? O desemprego de 10 milhões de pessoas? A expulsão de 5 milhões de pessoas do campo? A miséria de 35 milhões de brasileiros? A TV Globo merece uma avaliação especial. Afinal, o que todos esperavam é que ela fosse coerente com sua história e fizesse a campanha do candidato do poder. Foi assim no regime militar, depois com Tancredo Neves/Sarney no Colégio eleitoral, com Fernando Collor, com Fernando Henrique Cardoso. Por que mudaria? A Globo é o PFL da imprensa brasileira sempre grudou no poder. Botes salva-vidas E até que a família Marinho sinalizou neste sentido, quando arrumou emprego para Henri-Phillipe Reichstul na Globopar. O ex-presidente da Petrobras é amigo íntimo de FHC. Botando Philipe no cargo já se estava garantindo um pé num futuro governo Serra. O diabo é que Serra, com aquele olhar de vampiro da novela das sete, não deu ibope. O povo não conseguiu mastigá-lo. Não colou fora nem dentro do PSDB. E se chegou a 40% dos votos é algo que só o mistério das urnas eletrônicas pode explicar. As elites tinham a opção de Ciro. Mas Ciro não tinha ninguém: mostrou a cara cedo demais, era um Collor perfeito. E foi imediatamente execrado: já pensou cometer-se o mesmo erro, botando no governo outro egocêntrico? Então, o jeito era engolir um Serra com sabor baunilha e colorau, ou o Lula batizado pejorativamente (por eles) de light. Na dúvida, optaram pelo "ou". Ou seja, se a Globo tinha que engolir alguém que fossem os dois: Lula ou Serra. Por isso foi tão carinhosa com eles. Nada de baixaria, era a ordem interna. Pode ser que um deles ganhe, e, sendo poder, é mais saudável ficar com ambos. Ainda mais que Lula mantinha-se à frente das pesquisas, como demonstração clara de que o povo estava farto de FHC e suas variações genéticas. Portanto, nada de prejudicar o cara. Vai que ele ganha... A Globo pode precisar de um hospital público... Afinal, sua saúde não vai bem. Em 2001 conseguiu dinheiro público do serviço de filantropia do BNDES, quando a pereba lhe apareceu no lombo. Na época, o presidente deste banco de caridade pública foi à Câmara dos Deputados dizer que a operação era segura. Não era. O buraco aumentou. Agora a dívida da Globopar é de 2,6 bilhões de dólares (ou 1,6 bilhão de dólares, por outras fontes). Mais de 80% em dólar. Coube ao povo pagar pelo erro de avaliação de mercado dos executivos da empresa. Quem apostou na TV por assinatura se ferrou: há anos que a quantidade de usuários não passa da marca dos 3,5 milhões. A Globo fez corte de 25% nos gastos e colocou à venda 30 emissoras afiliadas. A internet cresceu, mas não o bastante: eram 5 milhões de assinantes em 2000, agora está em 8 milhões. Vai tudo devagar porque o mercado consumidor já se esgotou tem pobre demais neste país e não há mais como sustentar esse barco de luxo. Em outras palavras: já começaram a distribuir os botes salva-vidas e o capitão já se despediu da mulher em terra. Camelôs de Quibocó A Proposta de Emenda Constitucional que admite o capital estrangeiro nas empresas de comunicação é de 1995. E a Globo era contra. Em 2001, quando apareceu o buraco, a Globo convocou os deputados para votar a PEC. E foi tudo rapidinho. Depois, ainda faltava regulamentar a emenda por projeto de lei, que o Executivo deveria mandar ao Congresso Nacional, para ser discutido e votado. Não havia tempo, porém. O barco estava (está) afundando. Então, em plena campanha eleitoral, Fernando Henrique Cardoso despachou a Medida Provisória nş 70. Ele mesmo, o autor de cinco mil MPs, que posa de democrata. Numa hora dessas, a imparcialidade jornalística, um mito similar ao de Papai Noel, é difundido como fachada oficial da imprensa brasileira. Num dia fazem uma entrevista emocional com o presidente eleito; no outro, uma entrevista puxa-saco com o presidente que sai. E a democracia está salva. FHC deixa o país num atoleiro, o povo na miséria, mas posa de estadista, diz que vai ser um "consultor especial" da política brasileira, e tudo bem. As matérias continuam. Elas se resumem a fofoca, a revelação de encontros dos radicais do PT ou do MST, que seriam tentativas de desestabilizar o governo Lula, e de mostrar ao povo que o melhor ainda é o que está aí. Enquanto isso, Gugu, que fez campanha para Serra, discretamente tenta abocanhar sua emissora de TV. Pensando no futuro e na salvação da pele perfumada de seus donos, a TV Globo faz um Globo Repórter especial para Lula. Mas não perde a mania de jornalismo futrica: a partir de hoje o Jornal Nacional (como o restante da grande imprensa) vai cobrir todos os encontros do MST, da CUT, do sindicato dos camelôs de Quibocó; enfim, onde se acharem os tais radicais do PT. (*) Jornalista e escritor em Brasília, autor do livro Trilha apaixonada das rádios comunitárias | ||