A IMPRENSA EM QUESTÃO


ROLO HISTÓRICO – I
O fetiche das fitas

Alberto Dines

A discussão sobre as gravações está ocupando grande parte do espaço dedicado ao teor das acusações nelas contidas. Embora a mídia não esteja revendo seus métodos ou procedimentos, a questão palpita subterraneamente quando se discutem as discrepâncias entre as duas versões da transcrição da conversa entre o senador ACM e três procuradores do Ministério Público federal em Brasília, divulgadas pela IstoÉ [veja Aspas, nesta rubrica].

Comprova-se o que foi dito na edição anterior: a afoiteza em publicar gravações clandestinas sem verificações prévias ou investigações paralelas compromete a validade da denúncia. Pior: confunde a opinião pública, desqualifica a função fiscalizadora da imprensa e banaliza o próprio sentido das denúncias [veja remissão abaixo].

O feitiço virou contra o feiticeiro: ao contratar um foneticista para identificar os interlocutores do encontro, IstoÉ não contava com a possibilidade de que este viesse a contestar a transcrição que a revista publicara, dias antes, de uma fita posteriormente destruída.

Na realidade IstoÉ repetia o que já havia feito no "depoimento" do juiz Lalau, quando chamou um perito para atestar que a voz era mesmo do ex-juiz. Era. Mas a direção da revista mandou anular a voz do "entrevistador" para não revelar sua identidade. De nada adiantou: foi logo identificado como assessor ou assecla do senador cassado Luiz Estêvão.

Se na ocasião a mídia tivesse a coragem de discutir o jornalismo fiteiro, a situação, hoje, seria diferente. O corporativismo não deixou: é arriscado colocar em dúvida as gravações de um concorrente quando no futuro pode cair dos céus (ou de Fernando César Mesquita...) uma gravação sensacional.

Aquele episódio foi paradigmático e ainda mais grave do que o corrente: não se tratou de uma gravação forjada mas de um depoimento montado. Ao ex-juiz Lalau e seus advogados interessava tornar públicas certas denúncias. Para que tivessem repercussão, imperioso embrulhá-las numa embalagem com alta dose de magnetismo e/ou sensacionalismo. Solução: gravar num restaurante uma "entrevista" fictícia onde o interlocutor contratado faria AQUELAS perguntas capazes de provocar as respostas esperadas. Não houve flagrante de uma conversa secreta e explosiva. Foi uma nota oficial de um foragido (ou release, para usar a comparação de Luís Nassif [veja em Aspas, nesta rubrica] entregue a um semanário desesperado – e que o resto da mídia encampou e multiplicou ingenuamente sem o menor zelo pela legitimidade [confira remissões abaixo].

IstoÉ, desta vez, encalacrou-se: tratou o caso rotineiramente imaginando que seria como das outras vezes. Não foi. Desta vez os dois grupos de interlocutores têm tradição no ramo da divulgação de gravações. De um lado, o senador ACM e o seu principal assessor nesta matéria (Fernando César Mesquita) e, do outro, três donos do material gravado, os procuradores da República presentes à conversa. O desentendimento entre estes, envolvendo inclusive o veículo destinatário das gravações, criou todo o imbróglio.