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IMPRENSA EM QUESTÃO O LIBERAL Lúcio Flávio Pinto (*)O Liberal, de Belém, voltou a publicar peça publicitária de página inteira para festejar seu amplo domínio no jornalismo impresso, algo sem paralelo em qualquer outro estado brasileiro. Só que os números do índice de preferência do jornal se inverteram: os 98% de leitura registrados até três anos atrás se transformaram, em maio deste ano, data da última pesquisa do Ibope, em 89%. Esses 9% provavelmente foram engolidos pela nova cria da casa, o Amazônia Jornal, apontado na sondagem como o segundo mais lido, com 22%. Se o mais recente dos veículos das Organizações Romulo Maiorana tirou leitores do concorrente na posição seguinte, essa conquista foi de pouca expressão: o Diário do Pará, do senador Jader Barbalho, aparece com 14%, apenas um pouco menos do que o pique da sua participação nesse segmento, que chegou a atingir 18%. Na última posição entre os diários está A Província do Pará, da antiga rede dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, com 5%. É claro que os índices confirmam o maciço domínio dos veículos do Grupo Liberal na disputa dos diários. Mas o tamanho dessa hegemonia provavelmente está superdimensionado, tarefa facilitada pela recusa sistemática da empresa em publicar a íntegra da pesquisa encomendada. Com 89% da preferência, O Liberal seria lido por 911 mil pessoas, ou 15% de toda a população do Pará, incluindo crianças ainda totalmente incapazes para a leitura. Se reduzido o alvo àquela parte da população com possibilidade teórica de ler um jornal, mesmo que na prática não tenha condições de acesso a um exemplar, significaria que um em cada três paraenses lê O Liberal. É façanha que nenhum jornal do mundo conseguiu. Quando souber do fato, o pessoal do New York Times ficará deprimido. Como perfume vagabundo O feito seria ainda mais notável se o universo de referência deixasse de ser todo o estado e passasse a ser considerada apenas a capital. Não menos de 80% da circulação de O Liberal estão em Belém. Isto significaria que quase 800 mil leitores que honram o jornal com sua leitura diária são belenenses. O que equivalia a dizer que todo morador da muy heróica cidade lê a folha dos Maiorana, excluindo-se as crianças e os incapacitados totais à mera leitura de um papel impresso. O Liberal tem todo o direito a reivindicar sua presença no livro do Guiness. É recordista absoluto em matéria de leitura de jornais. Ao menos se o que diz sua peça publicitária traduzisse a verdade. Calcula-se em, no máximo, cinco leitores por jornal (outras estatísticas usam como parâmetro três leitores por jornal). Nesse caso, a tiragem média de O Liberal seria de mais de 180 mil jornais. Ou seja: seria superior à tiragem do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, em plena campanha para recuperar o segundo lugar na antiga capital do Brasil, onde o mercado de leitores de jornais é muito maior do que o de Belém. Sabe-se, pelo boletim do IVC (Instituto de Verificação de Circulação), que a tiragem média de O Liberal gravita em torno de 50 mil exemplares (bem abaixo em alguns dias da semana e um pouco acima no domingo). Para ser verdadeiro o universo de leitores indicado na peça publicitária, seria preciso que quase 20 pessoas lessem cada exemplar do jornal, subvertendo a noção estabelecida internacionalmente sobre padrão de leitura de jornais. Expurgadas as fantasias e manipulações, contudo, ainda fica um índice invejável, que nenhum concorrente tem conseguido derrubar. O leitor continua a optar maciçamente pela leitura dos veículos das ORM, o que diz bastante sobre o estado da informação no Pará. O pulo que o Amazônia Jornal deu, para o segundo lugar, o mais próximo que qualquer veículo já chegou de O Liberal em tantos anos, deve-se à entrada no mercado de um novo tipo de leitor, que antes simplesmente não se interessava por jornais, informando-se apenas através do rádio e da televisão. Ele é fisgado pelo visual da publicação, pelo mundo do entretenimento (e sua cultura da futilidade), pela tal da virtualidade, que a publicação explora sem o menor escrúpulo. É, rigorosamente, o mundo da fantasia, tanto no conteúdo como na sustentabilidade desse consumidor. Ele pode evaporar mais rapidamente do que perfume vagabundo. Nada transcendental Além do menu que oferece e de sua aparência, o Amazônia se segura no seu preço, inferior ao dos demais concorrentes. É um pastel muito bem frito, mas oco. Por isso o anunciante não se entusiasma por essa mídia. Sua equação só dará certo com vendagem ainda maior, mas num ponto de equilíbrio em que o consumo de mais papel não engula sua receita da venda avulsa, um item sempre inferior do faturamento global em todas as empresas jornalísticas sólidas. Conseguirá o jornal caçula dos Maiorana conquistar maior quantidade de novos leitores, ou incursionará na seara do irmão por afinidade? Chegará ao ponto de equilíbrio ou morrerá na beira? O sucesso que alcançar na resposta a essas perguntas nada terá a ver, entretanto, com qualidade da informação, contribuição da imprensa para a cidadania e outras questões mais nobres. O anúncio de página inteira para celebrar o sucesso das folhas das ORM tem pouco a ver com temas transcendentais, embora a peça atribua essa liderança a um jornalismo "feito com seriedade" (a ironia, portanto, é involuntária). Tem a ver com o que lhes interessa: os cifrões. Um símbolo tão concreto e decisivo quanto fugidio e perigoso nesse ramo sensível de negócio com a informação. Jornal não é quitanda, mesmo quando tratado por esse prisma. (*) Jornalista | ||