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ASPAS
FITAS & ROLOS
Ricardo A. Setti
"Jornalista pode ter amigos?", copyright Exame, 25/7/01
"Não durou mais que 30 segundos, mas foi uma lição de como um jornalista deve se relacionar com suas fontes. Aconteceu há poucos meses, no excelente 60 Minutes, programa semanal de jornalismo da rede americana de TV CBS. O tema era a indústria de cigarros e as evidências de que durante anos a fio seus principais responsáveis ocultaram dos fumantes, propositalmente, a extensão dos riscos que correm. A repórter Leslie Stahl entrevistava um executivo graúdo. A certa altura, Stahl assinalou que, ao contrário do que dizia naquele momento diante das câmeras, o entrevistado havia admitido, sim, fora delas, pouco antes, a possibilidade de ter havido a ocultação. ‘Mas aquilo não foi uma entrevista, só estávamos conversando’, reclamou o executivo.
Sem mover um músculo do rosto, sem agressividade alguma, mas com voz firme, Stahl respondeu:
– Não sou sua amiga. Nós não somos amigos. Sou uma jornalista e não vim conversar com o senhor. Vim em busca de informação para uma reportagem.
Bem, mas o que é que o leitor tem a ver com esse tipo de assunto?
A resposta é simples: muito.
Relações pessoais de um jornalista com uma fonte situam-se na perigosa área do conflito de interesses, um terreno pantanoso que pode engolir ou danificar o maior patrimônio de quem tem o dever fundamental de informar o público: a credibilidade. (Nunca é demais lembrar que credibilidade é um conceito que se refere a como os outros nos vêem, independentemente de como somos de fato. Ou seja, não basta a um jornalista ser íntegro: ele precisa também ser considerado e visto como íntegro).
O assunto conflito de interesses está quente na imprensa brasileira devido à recente demissão de um jornalista competente e experimentado: Ricardo Boechat, titular da coluna que trazia seu nome no jornal O Globo e uma das atrações do telejornal Bom Dia, Brasil, da Rede Globo. Boechat escreveu meses atrás uma reportagem - de teor não contestado - sobre a briga entre dois grupos pela disputa do controle de uma empresa de telefonia com base em informações passadas por uma fonte que também era seu amigo pessoal. A demissão do jornal e da TV ocorreu depois de a revista Veja ter publicado, no fim de junho, a transcrição de parte de uma conversa entre o repórter e sua fonte. A fonte trabalha para um dos empresários envolvidos nessa disputa no setor de telefonia - e esse empresário, meses atrás, havia feito uma proposta de trabalho a Boechat. As Organizações Globo não detalharam publicamente suas razões, mas ficou evidente terem considerado intoleráveis o conteúdo e o tom da conversa.
As considerações que seguem sobre a relação fonte-jornalista são de caráter doutrinário, e não representam um juízo de valor sobre Ricardo Boechat, que continua merecendo o respeito do signatário.
As formas mais escancaradas de conflito de interesses são as mais fáceis de identificar e de evitar. É óbvio que um jornalista sério de uma publicação econômica não pode fazer merchandising de um banco, por exemplo. Da mesma forma, fica evidente, mesmo para os observadores mais distraídos, que não tem cabimento um repórter correto de qualquer veículo ir - exageremos no exemplo hipotético - ao Iraque com todas as despesas pagas pela ditadura de Saddam Hussein e depois escrever sobre o país e seu regime pretendendo ser lido como isento. E não se concebe que um jornalista político de respeito assessore um candidato ou faça algum tipo de proselitismo eleitoral, misturando suas preferências pessoais com a necessária imagem de repórter que não toma partido e, portanto, é confiável para o leitor.
No Brasil, manifestações desta última praga - a contaminação da objetividade jornalística pelas preferências político-ideológicas entre os jornalistas dos grandes veículos - arrefeceram consideravelmente após a tormenta que foi, em 1989, a primeira eleição presidencial direta depois do regime militar. Naquele ano, os comandos das redações correram o risco de perder o controle do processo de apuração e edição. Ocorreram manifestações impensáveis, em se tratando de profissionais - houve, de um lado, quem brindasse à vitória de Fernando Collor publicamente, e, de outro, jornalistas que provocaram Collor cantando o Lula-lá, jingle de campanha de Luís Inácio Lula da Silva.
Se, porém, essa questão hoje não representa mais grande problema, ainda persistem, em nossa imprensa, sérios bolsões de conflitos de interesse, sobretudo nas áreas da cobertura de negócios e de turismo. (Podem-se escrever tratados sobre isso. Por ora, você, leitor de Exame que é empresário ou executivo, acredite numa coisa: o jornalista que aceita presentes valiosos, convites para viagens boca-livre ou vantagens materiais assemelhadas é o pior contato que você pode escolher para ter num veículo de informação.)
Voltemos à questão das relações pessoais dos jornalistas com uma fonte. Por que, afinal, isso interessa a você? Porque a credibilidade não é apenas um patrimônio do jornalista, mas uma garantia para o leitor sobre a qualidade da informação que ele vai receber. A principal razão de ser, o alvo, o cliente de um veículo de comunicação - de uma revista, no caso de Exame - é o leitor, e, em nome do direito do leitor à informação, é dever fundamental da revista e de seus jornalistas servir à verdade dos fatos. É para isso, e apenas para isso, que o jornalista se aproxima das pessoas que, a título próprio ou representando instituições, detêm informações - as fontes.
É evidente que jornalistas e fontes são seres humanos e, portanto, o tratamento civilizado e cordial é adequado, e aproximações pessoais acontecem. Se, porém, essa aproximação se transforma em uma amizade, o jornalista precisa acender um sinal amarelo: ele está caminhando para uma situação em que, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer um conflito de interesses. A amizade, uma das manifestações nobres da alma, pode toldar, no profissional, a clara visão de sua missão. É aí que podem acontecer coisas: talvez aquelas informações que aquele empresário amigo tanto gostaria de ver divulgadas não sejam suficientemente importantes para o leitor - mas, que diabo, ele é tão bom sujeito, temos uma relação tão boa, e afinal de contas não vai custar nada... Ou aquele escorregão ético daquele funcionário da área econômica. Será que é mesmo tão necessário divulgar isso para o público? Será que, só por esta vez, não dá para relevar?
Não é por acaso que colossos de credibilidade como o jornal The New York Times recomendam, em seus códigos de ética, que o jornalista deixe de cobrir a área em que a fonte tornada amigo atua. Outro jornal americano, o Detroit Free Press, é taxativo: ‘Nenhum membro da nossa equipe deve escrever sobre, realizar cobertura jornalística, (...) ou publicar um juízo de valor a respeito de qualquer indivíduo a ele relacionado por laços de sangue ou casamento, ou com quem mantenha uma relação de amizade’. No Brasil, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, é claríssimo a respeito: ‘Quando o jornalista tiver algum tipo de envolvimento pessoal ou emocional com o fato ou entrevistado, deve declarar-se impedido de realizar a tarefa’.
Essa situação de conflito foi vivida, e superada, por vários jornalistas mitológicos. O falecido Carlos Castello Branco, o ‘Castellinho’, o maior colunista político do Brasil em todos os tempos, conseguiu ser secretário de Imprensa do presidente Jânio Quadros, em 1961, e sair ileso da experiência. Ele continuou sendo um baluarte de credibilidade e distanciamento de paixões e preferências políticas, e por mais três décadas continuou espalhando sabedoria na ‘Coluna do Castello’ do Jornal do Brasil.
Walter Cronkite, o célebre âncora do principal noticiário da CBS durante duas décadas, foi amigo do presidente Lyndon Johnson a ponto de se hospedar em seu rancho no Texas. No auge da guerra do Vietnã, em 1968, porém, Cronkite não hesitou, ao voltar do front, em comandar uma cobertura de tal forma crítica sobre a condução da guerra que Johnson acabou proferindo a célebre frase: ‘Se eu perdi [a confiança de] Cronkite, perdi a Middle America [forma de designar a maioria silenciosa dos Estados Unidos]’. Semanas depois, o presidente desistiu de se candidatar à reeleição.
Ben Bradlee, o hoje aposentado e ultra-influente editor executivo do jornal The Washington Post, era amigo do presidente John Kennedy desde que o então jovem senador recém-eleito de Massachusetts tornou-se, por casualidade, seu vizinho no bairro de Georgetown, em Washington. Pois Bradlee não teve dúvidas em colocar a amizade em risco quando Kennedy lhe fez confidências durante uma festa na Casa Branca, em 1962. O piloto Francis Gary Powers, capturado em 1961 depois que seu avião-espião foi abatido ao sobrevoar território da União Soviética, estava sendo trocado pelo mais importante espião russo jamais capturado pelos Estados Unidos, o legendário coronel Rudolf Abel. Kennedy aparentemente se confundiu: soltou a bomba para Bradlee ao saber que a edição daquela semana da revista Newsweek, adquirida no ano anterior pela mesma empresa proprietária do Post, já não mais podia mudar sua capa. Bradlee, que era ligado aos dois, revista e jornal, deu um jeito de sair da festa e, de um telefone da própria Casa Branca, passou a notícia para o Post, que furou todos os concorrentes - em vários dos quais o presidente tinha amigos que detestou desagradar.
O problema é que não se acham Castellinhos, Cronkites e Bradlees em cada esquina. Nós outros, jornalistas simples mortais, devemos cuidar para separar cuidadosamente em dois campos bem distantes as amizades e as fontes que nos dão notícias. É melhor para nós, para nossa credibilidade e para quem, em última instância, é o nosso verdadeiro patrão: você, leitor."
Edson Luiz
"Perícia em fita deve ser ponto para Jader", copyright O Estado de S. Paulo, 12/8/01
"Depois de sofrer duas derrotas consecutivas, o presidente licenciado do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), pode ter uma vitória. As investigações feitas pela Comissão de Ética do Senado e pela Polícia Federal da suposta cobrança de propina pelo senador para ajudar a liberar dinheiro de projetos da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) não devem dar em nada. Pelo menos para Jader.
A PF ouviu duas testemunhas que confirmaram que a conversa do deputado estadual pelo Amazonas, Mário Frota (PDT), com o empresário amazonense David Benayon, na qual o parlamentar supostamente pede US$ 5 milhões em nome de Jader, não existiu. Os senadores da Comissão de Ética e o delegado federal Nilson Antunes, que preside o inquérito da gravação da suposta conversa, só esperam o resultado final da perícia - que deve sair em dez dias - para dar ao senador o atestado de que nada consta, pelo menos nesse caso.
Jader colecionou, em apenas uma semana, duas derrotas. A primeira aconteceu na Justiça, quando seu sigilo bancário e fiscal foi quebrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), numa decisão histórica e inédita. A segunda foi política, quando a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) concordou em investigar o senador.
Desde que foi publicada a denúncia da suposta cobrança de propina por parte de Jader, a PF tinha desconfiança de que tudo era uma grande farsa. O primeiro indício era a falta do outro interlocutor, já que, na gravação da fita, só aparece uma voz, atribuída a Frota. Quem conhece o deputado e teve acesso à gravação diz que a voz não é dele. ‘Aparentemente, não se trata da mesma voz’, diz o senador Jefferson Peres (PDT-AM).
A outra suspeita era de que, sendo Frota um deputado estadual sem grande expressão nacional, chefiando um escritório insignificante da Sudam, não teria cacife para receber propostas diretamente de Jader, o então mandatário da autarquia.
Pelo fato de ter sido indicado pelo senador para a Sudam, o ex-superintendente Arthur Guedes Tourinho será chamado pela Comissão de Ética para falar sobre sua relação com Jader. ‘Ele mandava praticamente em todos os projetos da Sudam no Norte do País’, contou Frota ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP). ‘É importante ouvi-lo’, diz Tuma.
Alívio - Até o fim do próximo mês, Jader poderá respirar aliviado, pelo menos no que diz respeito às denúncias de fraudes na Sudam e na venda de Títulos da Dívida Agrária (TDAs). O senador não é citado em nenhum nos 25 inquéritos sobre os desvios de dinheiro de projetos na Amazônia em Manaus.
Mas tanto a PF quanto os senadores pretendem se aprofundar nas denúncias feitas por Frota. ‘A fita é apenas um componente do caso’, avisa Tuma.
Quanto aos TDAs, o delegado Luiz Fernando Ayres Machado deve voltar às investigações no próximo mês, quando começarão a chegar os resultados da quebra de sigilo bancário e fiscal de Jader. Até lá, continuará analisando os documentos sobre imóveis do senador, enviados por cartórios do Pará.
Ayres Machado pretende, porém, dar mais dor de cabeça para a família Barbalho. Ele não desistiu de ouvir Laércio Barbalho, pai de Jader, de quem deve tomar o depoimento na próxima semana, em Belém.
O maior problema para Jader continuará sendo a acusação de desvio de dinheiro do Banco do Estado do Pará (Banpará). Além da abertura de inquérito, que deve ser autorizada pelo STF, ele deverá enfrentar pedido de abertura de processo pelo Ministério Público do Pará, cobrando a devolução dos recursos."
Gabriela Wolthers
"O leitor é o único que não sabe", copyright Folha de S. Paulo, 10/8/01
"Quem é jornalista já passou pela situação. Basta se reunir com amigos que invariavelmente surge o assunto: ‘Conte o que você sabe sobre os bastidores políticos e que não pode publicar’.
A resposta acaba despertando bocejos na platéia, pois a matéria-prima da imprensa é ir atrás de histórias que as ‘autoridades’ prefeririam não ver mostradas. A não ser que sejam notícias não confirmadas, mas aí não dá para publicar mesmo.
Pois, da próxima vez que esse assunto aparecer, já há uma boa história a ser contada. São as fitas que sugerem que o governador Anthony Garotinho teria participado da negociação para subornar um fiscal da Receita em 1995, quando ainda era apresentador de programas de rádio.
A Folha tem as fitas desde o dia 13 de julho. A transcrição já está pronta, mas guardada num arquivo de computador. Isso porque, no mesmo dia em que obteve as gravações, o jornal recebeu uma notificação do Tribunal de Justiça do Rio que proibia a sua divulgação.
As fitas já se tornaram um artigo tão comum que elas pululam no Rio. Os principais meios de comunicação têm cópias. Os políticos têm cópias. Ontem mesmo, um dos trechos foi mostrado no plenário da Assembléia Legislativa.
Ou seja, o leitor é o único que não tem acesso ao conteúdo integral das fitas, o único que não tem o direito de ler a transcrição para chegar à conclusão sobre estar o governador, que é candidato à Presidência da República, envolvido ou não na denúncia. Mesmo o ‘Jornal do Brasil’, que conseguiu obtê-las antes da proibição da Justiça e chegou a publicar trechos, agora está impedido de repetir o ato.
Como diz o chavão, gravações ilegais são uma praga que se alastra pelo país de uma maneira descontrolada. Cabe à polícia e à Justiça investigar e julgar quem comete o crime de grampear ligações telefônicas sem autorização judicial. Mas será que a solução é simplesmente negar ao público o acesso à informação?"

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