16/12/2003

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NOTAS DE UM LEITOR
Sombra na imprensa

Luiz Weis

Dos três mais importantes jornais brasileiros, apenas a Folha de S.Paulo teve, na semana passada, a correção de chamar o tempo todo pelo nome – Sérgio Gomes da Silva – e não pelo incriminador apelido "Sombra" o empresário preso sob a acusação de ter arquitetado o assassínio de seu amigo Celso Daniel, prefeito de Santo André, em janeiro do ano passado.

Para atrair leitores ou, quem sabe, sugerir com veleidades de sutileza que de uma figura assim sombria podem-se esperar coisas da pesada, até a concepção de um homicídio, O Estado de S.Paulo, na sua caudalosa cobertura do caso afinal reaberto, fartou-se de apelar para o apelido em manchetes, títulos e textos – sem ao menos revesti-lo de decentes pares de aspas. O Globo, então, fabricou um híbrido Sérgio Sombra, que deve ter dado indigestão ao seu crítico interno Luiz Garcia.

Esse tratamento leva a supor que os dois jornais, principalmente o primeiro, tomaram a temerária decisão de aceitar, de bate-pronto, as conclusões da equipe do Ministério Público paulista de que Sérgio, entre outros delitos, foi o mandante da eliminação do prefeito. (O Estado deu a um editorial a respeito o eloqüente título "Agora, o motivo do crime".)

Tratamento respeitoso

Claro que não foi a imprensa que inventou o Sombra. Ele já vinha carregando o apelido por sua proximidade com Celso Daniel, de quem era guarda-costas, e por sua influência na prefeitura de Santo André, da qual era eminência parda. Nessa condição privilegiada, ele teria sido o cabeça de um esquema de extorsão de empresas que fazem negócios com o governo da cidade.

Segundo o irmão do prefeito assassinado, João Francisco Daniel, o pedágio sistematicamente cobrado de concessionários de serviços públicos deveria irrigar o caixa 2 do PT. Ao descobrir que parte do butim era, porém, apropriado pelos envolvidos no "dá ou desce", em vez de forrar os cofres do partido, o prefeito teria ameaçado desmontar o esquema inteiro de vez. Ou sabe-se lá mais o quê.

Depois do seu seqüestro e morte, a imprensa ficou com um pé atrás diante da versão da polícia paulista, pressurosamente endossada pelo acompanhante petista do inquérito, deputado Luiz Eduardo Greenhalg, de que se tratara de um crime comum. Para a polícia, quando os seqüestradores descobriram, pela mídia, que a sua presa não era um mero ricaço, mas um "peixe grande" da política, trataram de eliminá-lo.

Assim, quando o Ministério Público Estadual encontrou elementos capazes, a seu juízo, de desmentir a polícia, as dúvidas que o Estadão, por exemplo, nunca ocultou ter sobre a história foram legitimadas – e a legitimação passou a respaldar a cobertura agressiva do "escândalo de Santo André".

A partir daí, do ângulo da ética jornalística, as coisas começaram a se complicar. A leitura do noticiário do Estado deixa a forte impressão de que se estabeleceu um pacto de mútua conveniência entre o jornal e o MPE, pelo qual o primeiro recebe do segundo informações quentes e exclusivas e o segundo recebe do primeiro espaço destacado e tratamento respeitoso, passando à opinião pública a certeza de que os acusadores são gente séria que se desdobra no cumprimento do dever (o que pode ser rigorosamente verdadeiro).

Cabeça de juiz

Um veemente indício dessa profana aliança tácita apareceu na página A 5 do Estadão de sábado (13/12). Como se sabe, por motivos insuficientemente explicados, o processo envolvendo Sérgio Gomes corre em segredo de Justiça (contra o que se insurge, em primeiro lugar, a própria família de Celso Daniel).

Pois bem. Naquele dia e página, o jornal transcreveu largos trechos dos argumentos alinhavados pelo juiz que ordenara a prisão preventiva do "Sombra", para justificar a sua decisão. A matéria, assinada pelo repórter Fabio Diamante, lembra que o despacho é sigiloso, assim como todo o processo – imediatamente antes de informar, com louvável transparência, que o jornal obteve o teor da decisão "no Ministério Público".

O Estado de S.Paulo não se cansou de criticar em editoriais – com razão – o toma-lá-dá-cá entre os procuradores de Brasília que queriam o escalpo do ex-secretário do presidente Fernando Henrique, Eduardo Jorge Caldas Pereira, e órgãos da imprensa que divulgavam com exclusividade, e assim realimentavam, as denúncias do procurador Luiz Francisco de Souza e seus companheiros, vazadas debaixo dos panos exatamente com esse propósito. A Folha de S.Paulo era um dos principais escoadouros desse material plantado verde para ser colhido maduro.

Como fica agora o mesmo Estadão? Afinal, o diário publicou passagens de um texto sob sigilo judicial, confessadamente recebido de servidores públicos que não tinham a autoridade de promover a sua divulgação (e o fizeram, presumivelmente, estimulados por esse insalubre clima de boa vizinhança).

Pelo menos o "furo" serviu para os leitores terem uma noção do que vai pela cabeça – e, principalmente, pela pena – do juiz Luiz Fernando Migliori Prestes, da Primeira Vara Judicial de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

** Trecho: "Sérgio, pelo fato agora exposto no sentido de a vítima querer frear trama de corrupção na Prefeitura de Santo André, revelou insensibilidade e frieza para engendrar o crime".

** Trecho: "É claro que as considerações acerca da personalidade do agente não têm sentido de julgamento, mas apenas visa (sic) a avaliar a necessidade de prisão provisória em função da personalidade do réu".

** Trecho: "(…) justifica a custódia cautelar no sentido de garantir a ordem pública, já que as circunstâncias do delito apontam a personalidade dotada de estruturação criminosa dos réus".

Luz no noticiário

Na mesma hora em que ficou sabendo, na quarta-feira (10/12), que a sua prisão havia sido decretada, Sérgio Gomes da Silva dava uma entrevista ao repórter Marcelo Godoy, do Estadão. Diz ele a certa altura: "Estão fazendo comigo pior do que na Escola Base. Ali foi a precipitação de um delegado. Aqui, estamos tratando com gente que deveria promover a Justiça".

Só o tempo dirá – se é que – se o seu desabafo era sincero ou uma jogada para o seu autor se fazer de vítima. Por ora, o que importa, parafraseando o acusado, é que estamos tratando também com gente – repórteres, editores e diretores de jornais – que deveria promover o princípio de que qualquer pessoa é tecnicamente inocente antes de ser declarada culpada, em sentença irrecorrível, obedecido o devido processo legal.

O uso abusivo de um apelido comprometedor, formas de editar o noticiário que repartem desigualmente o espaço entre a acusação e a defesa, e a mensagem, não propriamente sutil, de que já se sabe quem mandou matar o prefeito, faltando apenas descobrir exatamente por que ele foi morto – isso tudo lança uma sombra sobre o modo como uma parte da imprensa vem cobrindo a grande virada na tragédia de Celso Daniel.

Salvo melhor juízo, a única luz que apareceu na mídia sobre essa história escabrosa foi o artigo "Não é elementar, Watson", de Clovis Rossi, na Folha de S.Paulo da sexta-feira (12/12), chamando a atenção para o que ele entende ser a falta de lógica de importantes pontos do que se tem alegado sobre os motivos e a perpetração do crime.

O comentário de Rossi ilumina o noticiário porque cumpre o dever – esse sim, elementar – de levar o leitor a pensar duas vezes sobre o que lhe tem sido dado ler e ouvir. E a sua conclusão soa convincente: "É possível, claro, que tudo se tenha passado rigorosamente como dizem os promotores. Mas falta algum elo para dar lógica a essa história".

P.S. Tanto o citado Marcelo Godoy que entrevistou Sérgio para o Estadão como o seu colega Gilmar Penteado, da Folha, que entrevistou o detento Ailton Alves Feitosa, segundo o qual a eliminação do prefeito foi "queima de arquivo", tratam os seus entrevistados por "você". De um: "Você mandou matar Celso Daniel?". De outro: "Você aparece na denúncia do Ministério Público como testemunha-chave. Você confirma seu depoimento?" Será que não vamos aprender nunca a usar "senhor", "senhora" em entrevistas formais – com quem quer que seja?


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