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VENEZUELA, GOLPE E CONTRAGOLPE
O golpe de Estado e o noticiário

Ivo Lucchesi (*)

A sabedoria do observador crítico (caso efetivamente ela exista e, em existindo, possa ainda sobreviver) consiste em extrair dos acontecimentos da vida o fundamento e o significado que eles têm a revelar. Este é o diferencial entre o pensamento ativo e o senso comum. O primeiro abre caminho; o segundo planta barreiras. Entre as duas possibilidades se aloca a fronteira a fixar, de um lado, a interpretação, e, de outro, a informação. Claro, ambas são passíveis de distorções. Todavia, o ato interpretante, por requerer uma pausa reflexiva, colabora para conter o impulso gerador do equívoco – pelo menos contribui para inibi-lo, ou seja, o processo interpretativo opera com maior margem de segurança quanto à eficácia comunicativa. Já o regime da informação é determinado pela agilidade voraz em capturar o instantâneo. Nisso, se abre espaço para a "espiral do desentendimento".

O problema assinalado acima adquire gravidade exatamente pelas diferentes conseqüências que se originam da escolha entre a reflexão e a emocionalização. O pensamento hesita; a informação excita. A hesitação, portanto, convida a ponderações e análises, enquanto a excitação induz a aprovações radicais, bem como a condenações sumárias. A questão fica bastante clara no recente evento político que teve como palco a Venezuela.

O golpe e a "grande" imprensa

A "grande" imprensa, cujo olhar parece insistir em ser "pequeno", sob os ditames da Nova Ordem Mundial, submeteu-se a mais um "teste de fidelidade": quanto resistirá a "camisa-de-força"? O noticiário inicial abusou na relutância em respeitar a ferramenta básica da informação: a objetividade. O ocorrido na Venezuela não poderia, jornalisticamente, merecer outra manchete, diferente de "Golpe de Estado na Venezuela". No entanto, a "grande" imprensa brasileira preferiu, uma vez mais, "romancear" o acontecimento, estampando chamadas como: "Venezuela se une e depõe Chávez", acrescida da seguinte linha-fina: "Presidente cai em meio a protesto de milhares de manifestantes e rebelião de militares" (Jornal do Brasil, 12/4/02). No mesmo exemplar, em página interna, a chamada era: "Generais forçam renúncia de Chávez". É flagrante a disjunção semântica entre os dois enunciados. No primeiro, revitaliza-se o antigo slogan "a união faz a força"; no segundo, pode-se deduzir o oposto, "a força faz a união". Ou não?

Estaremos diante de um fato a atestar incompetência jornalística ou manipulação da informação? Em edição de 13/4, a manchete da Folha de S. Paulo destacava: "Militares depõem Chávez; civil toma posse e dissolve poderes". Na mesma data, o Jornal do Brasil noticiava: "Militares prendem Chávez, fecham Congresso e assumem poder no país". Afinal, quem, nesse pífio enredo, fez o quê? E mais: quem, nessa trama de folhetim barato e surrado, tem poder real? Essa é a pergunta a provocar os limitados redutos da informação. Fora daí, é mais uma "fofoca palaciana".

Tudo de novo ou nada de novo

A reunião dos dados que culminaram com a queda do governo de Hugo Chávez pouco tem a ensinar à memória brasileira, depositária de tudo que envolveu o Golpe de 64. Igualmente, nada se soma à memória chilena, com base nos acontecimentos que cercaram o Palácio de La Moneda, em 1973. Claro, há diferenças (e acentuadas) nos perfis de João Goulart, Salvador Allende e Hugo Chávez. Isto é notório e, portanto, indiscutível, razão pela qual não se vai aqui discorrer a respeito. Todavia, as motivações e a salvaguarda de interesses em jogo conferem às três épocas a mesma trama e igual procedimento. Foi puro "mimetismo estratégico". O que, porém, mais preocupa na realidade presente é o fato de o fantasma de outrora ressurgir como um dado natural e até previsto. Se no passado ficara visível a intenção de militarizar-se a América Latina, povoando-a com ditaduras, percebe-se agora que, com pequenas alterações no figurino, reinstala-se o quadro.

Uma preocupação fundada e legítima toma conta de algumas consciências mais exigentes quanto ao processo de desmantelamento institucional na Venezuela (bem mais afrontoso e grave que o ocorrido recentemente na Argentina, e pouco antes no Peru), na contramão de um olhar plácido (e até simpatizante) da "grande" imprensa. Nenhum sinal de repúdio nas matérias oficiais. Nenhuma denúncia contra a violência que atropelou de forma inapelável um governo que, bem ou mal, chegara ao poder pelo voto. Mais escandalosa ainda é a escolha de um "presidente interino", desprovido de qualquer representação eleitoral. O "sucessor" é um líder empresarial de amplo trânsito nos grandes setores da elite econômica venezuelana e principal gerenciador dos negócios ligados ao ramo petroquímico.

A gravidade da crise institucional na Venezuela, ao longo das primeiras articulações que nortearam o golpe de Estado, consiste no fato de ela comunicar que, na Nova Ordem Mundial, a política é respeitada (e tolerada) caso ela atenda aos anseios do "mundo dos negócios". Em contrário, a democracia política será exterminada pela ditadura econômica, acima de qualquer respeito ou obediência a texto constitucional ou a regras previstas para situações de exceção. Essa é a redução essencial da trama: um empresário, representante de forças expressivas no tocante à tutela dos interesses corporativos (indústria, Igreja, mercado de capitais, mídia e afins), escudado na garantia das armas (apoio de alguns segmentos das Forças Armadas), assume o posto máximo de uma nação, aniquila os ícones da democracia (Congresso, Constituição, mandatos) e senta para "legislar" em causa própria e dos seus parceiros.

A questão aqui alinhavada não é a de oferecer um texto a favor ou contra Chávez. A intenção explícita é a de repudiar qualquer ato de aviltamento às regras com as quais se pauta o campo das relações democráticas. É isto que efetivamente está em foco aqui: uma denúncia contra o sucateamento e a banalização da política ante a ferocidade do capital.

A "grande" imprensa, no calor da primeira hora, evita assumir atitudes que a ética por si só respaldaria para comportar-se burocraticamente: anota, fotografa e repassa na certeza de que, em assim procedendo, está em harmonia e sintonia com o pensamento da população. Para tanto, ela se empenha em noticiar que "o povo venezuelano festeja a ruína do desgoverno". Que povo? Segmentos organizados por partidos de oposição, facções religiosas, fatia do sindicalismo (basicamente o sindicato dos petroleiros), tudo acrescido de um punhado de estudantes oriundos da classe média e, por fim, tem-se o retrato do "povo", quantificado e descrito em "milhares de pessoas protestam nas ruas de Caracas" E outras cidades? E outros segmentos populacionais? Quem ouviu suas vozes? Quem os viu? Nada disso é problema no "admirável mundo novo" da Nova Ordem Mundial. Flores e espinhos são regados igualmente em nome de um belo "jardim das novas delícias" por onde haverão de desfilar legiões de pessoas vestindo a nova grife "a sustentável leveza do ser".

Em outro cenário paralelo, grupos fechados discutem como obter lucros máximos, vampirizando um país que ainda é o quarto maior exportador de petróleo no mundo. Terá este fato alguma importância (se não a tiver totalmente) na venezuelana narrativa de suspense? Se assim for, uma coisa é certa: não será a "grande" imprensa a esclarecer. Cada qual, portanto, fique com a versão que melhor lhe convier. Afinal de contas, a "verdade" acaba sendo a deusa do apaziguamento. A "verdade" pode ser a Hydra(massagem) das nove cabeças a produzir nove (per)versões. Na Nova Ordem Mundial, a "verdade" está sempre em leilão... Quem dá mais?

Nem tudo está perdido

Em função do que havia sido divulgado pela mídia até o momento de enviar este artigo para publicação neste Observatório, a avaliação era a que acima foi exposta. Na madrugada de sábado para domingo, porém, chegavam pela internet relatos de novas ocorrências, o que me fez acrescer o que segue:

É verdade que a ordem do capital aspira à hegemonização do controle sobre os desígnios da vida, contudo algo sempre escapa pelas mais sinuosas e imprevistas veredas que se apresentam à condição humana. Assim é que se agruparam, em várias regiões da Venezuela, reações de indignação, exigindo a renúncia do "novo proponente". Pedro Carmona teve de renunciar, abdicando de sua prepotente e inconstitucional ambição.

Enquanto bolsões de protesto em favor da normalidade democrática, a mídia venezuelana se mantinha omissa, conforme registrava matéria da Reuters, publicada no sítio Folha OnLine: "Apesar de a mídia local ignorar a reação da maioria pobre da Venezuela, na periferia de Caracas Chávez é considerado mais herói do que nunca". Não menos expressivo é o depoimento contido na mesma matéria, prestado por José Delgado, um sapateiro de 45 anos: "O que acontecerá a nós, o povo humilde e pobre? O presidente Chávez nos ajudou. O país está dividido entre ricos e pobres". É um depoimento pungente, próprio de quem lida com a vida em sua face mais cruenta e abandonada.

Enfim, não se pode antecipar que desdobramentos a crise venezuelana apresentará nos próximos dias e meses. Seja como for, algo ainda se move no interior da grande caldeira das insatisfações. Nela estão reunidos injustiçados e todos que se sentem aviltados pelo esmagamento que vem imprimindo à vida o modelo da Nova Ordem Mundial. O horizonte da sociedade brasileira não parece reservar muito com que nos possamos tranqüilizar – pelo menos no curto e no médio prazos. A propósito, vale ressaltar a preocupante observação, fruto de análise, promovida por Kenneth Maxwell, historiador inglês radicado nos EUA, e autor de vários estudos sobre a realidade brasileira, em seu recente artigo publicado pelo suplemento Mais! (Folha de S.Paulo, 7/4/2). Afirma Kenneth, a respeito das tendências da política externa dos EUA em relação a países latino-americanos:

"Haverá discussões intransigentes, decisões difíceis e pouca tolerância para com os sofismas já tradicionais vindos do lado latino-americano e com as expressões de solidariedade vazias de significado proferidas pelo lado americano. E, como as tendências parecem estar indicando, essa mudança vai ajudar o México a fortalecer seu papel de interlocutor latino mais destacado em Washington, ao passo que o Brasil será relegado à margem ou, o que é pior, a um isolamento hostil, dentro de um conjunto reconfigurado de prioridades americanas no hemisfério Ocidental".

O que pode estar oculto no vaticínio demoníaco de Kenneth Maxwell é algo ainda a ser objeto de melhor e mais cuidadosa avaliação. Uma coisa, contudo, parece o autor pretender sinalizar: o Brasil a caminho de um descarte. Se correto estiver, o que nos aguarda é o enfrentamento de nossas próprias dilacerações.

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ.


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