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RBS
Pícaros ou malandros

Gilmar Antonio Crestani (*)

Na terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos. (Dostoievski)

A originalidade de algumas obras literárias cunham para sempre expressões ou comportamentos que são arquétipos. Por vezes, o conjunto da obra de um autor ou a complexidade de personagens traduzem todo um universo psíquico ou social que, ao citá-los, já temos por inteira a idéia que se quer demonstrar. Coisas homéricas, por exemplo, traduzem grandiosidade.

Um único personagem de Luciano da Samosata, Menipo, deu origem a um estilo literário chamado menipéia, cujo expoente no Brasil foi Machado de Assis, com Memórias póstumas de Brás Cubas. O sério-cômico das narrativas oscila e, por isso, confunde o leitor, por transitar com naturalidade em mundos opostos, alternando a realidade atual com outra mais antiga, ou mesmo mesclando vulgaridade com erudição. Não deixa de ser uma espécie de sátira com algumas especificidades.

Na Espanha se desenvolveu um outro gênero, o picaresco. O pícaro vive de ardis e espertezas, pensando exclusivamente em obter lucros e vantagens. O gênero que domina o romance anônimo Lazarilho de Tormes também aparece nas Novelas exemplares, particularmente na novela Rinconete e Cortadilho, de Miguel de Cervantes. Novelas exemplares carregava na sátira já no título.

Com vistas a esta obra cervantina, o contista Dalton Trevisan desenvolveu outra faceta do pícaro, que mistura violência e sexo no submundo curitibano, em Novelas nada exemplares.

Mas, em se tratando de malandragem, o gênesis da literatura brasileira é Memórias de um sargento de milícias, publicado em folhetim, em capítulos como as novelas da Globo de hoje, por Manuel Antônio de Almeida. A violência policial, o carteiraço, as relações de compadrio encontram aí sua aula inaugural. A obra mereceu um clássico da crítica literária brasileira, Dialética da malandragem, por Antônio Cândido, que a afasta do picaresco para identificar nela mais brasilidade que tradição européia.

No Brasil do jeitinho e da originalidade, onde o legal é levar vantagem em tudo, é que se desenvolve o malandro (malandro é malandro e mané é mané, diz a letra do samba do malandro-mor, Moreira da Silva). Nesta terra em que se plantando tudo dá, até notícia se fabrica. E se misturar malandragem com violência e sexo temos um prato cheio, que virou prato do dia de quase todos os meios de comunicação, do rádio à tevê, sem deixar fora jornais e revistas.

"Caudilhismo

Virabosta é preguiçoso,

Mas velhaco passarinho;

Pra não fazer o seu ninho,

Se apossa do ninho alheio;

Este há de, segundo creio,

Seguir o mesmo caminho."

Como o Rio Grande do Sul está mais próximo de Buenos Aires do que do Rio de Janeiro, é natural que sofra grande influência da cultura platina. Não por acaso, também, foi aqui que o caudilhismo encontrou terra mais propícia nestes pagos que alhures. Se a vida social carioca propiciou o surgimento do malandro para driblar as agruras do Brasil Regente, aqui no Sul, das epopéias e degolas, das disputas políticas polarizadas, não tivemos um Lusíadas, mas há um poemeto campestre, escrito por Ramiro Fortes de Barcellos sob o pseudônimo Amaro Juvenal, chamado Antônio Chimango. Em estilo gauchesco, nos moldes do Martin Fierro platino, o político e escritor traçou o perfil "... de um tal Antônio Chimango por sobrenome..."

O tal chimango era nada menos que o então presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros. Enquanto o Brasil é dos Fernandos, o Rio Grande tem seus Antônios...

O poema satírico gravou na paleta do caudilho que mandava e desmandava por estes pagos, o velho e sempre presente maniqueísmo da política gaúcha, que confunde bons e maus segundo o momento em que cada um ocupa o poder. A detenção do poder não se resume em abarcar a área que o delimita, mas estende as garras em searas alheias como forma de açambarcar tudo que o rodeia, nas mesmas relações de compadrio que marcou o Brasil Império, confundindo o público e o privado, mas só com os amigos ou patrões. O mundo seria uma porção de terra ao redor do umbigo, para não dizer da estância, hoje falida, à espera do MST.

A grandiloqüência dos gestos, a megalomania dos feitos, e a determinação de tosquiar qualquer um que apareça nas coxilhas para fazer sombra agora atende pelo nome caudilhismo eletrônico.

Por estas bandas, não basta estar por cima, é preciso que os adversários estejam por baixo. E para isso faz-se o que der na telha. E uma das formas é estar presente sempre e em tudo, monopolizar. E como o apetite é imenso e as regras são frouxas, o que era regional pode virar nacional numa tacada via Diários Associados...

O jornal propagandeia a rádio, a TV anuncia o jornal, todos anunciam uns aos outros, num círculo vicioso centrípeto, abafando qualquer iniciativa que não dispõe dos mesmos mecanismos.

Não bastasse o monopólio, professa tamanho devoção aos números do Ibope a ponto de relegar às calendas gregas uma precaução mínima nos seus objetivos.

Iter Criminis ou Via Sacra

Uma tentativa de assalto de um casal de namorados, seguido de seqüestro da família da moça, ocorrido em 2000 mas só concluído judicialmente em dezembro de 2001, veio à luz espontaneamente. Avisada por terceiros, a Brigada Militar, corpo policial gaúcho, interveio e imediatamente desencadeou negociações. Os criminosos queriam se entregar mas, para maior segurança, obrigaram os seqüestrados a contatarem a RBS.

O depoimento de uma das vítimas não deixa margem para dúvidas:

"...ficou acertado que demoraria "um pouquinho" para já aproveitar e aparecer no Teledomingo, que eles falaram: ‘Então ao invés da gente mandar uma equipe agora, a gente segura um pouquinho, manda que já aparece ao vivo no Teledomingo. Daí os assaltantes tinham ficado brabos porque eles iam demorar, mas ao mesmo tempo ficaram felizes porque iam aparecer no Teledomingo. Daí nesse meio-tempo que eles ficaram nervosos com a polícia (...)"

Caso o leitor ainda tenha dúvidas, atente para o que a outra vítima relata:

"A demora se deu porque estava no ar o Sai de baixo, e eles queriam esperar até o Teledomingo para botar no ar, por isso que demorou e toda aquela coisa e eles queriam confiança de que eles estariam ali, a dúvida maior deles, o medo dos dois é que a imprensa não estivesse ali, por isso que eles demoraram a nos liberar, enfim, a situação a se finalizar."

Concedo ao desembargador Ilton Carlos Dellandréa, relator da Apelação Criminal de nº 70 002 658 870, a palavra:

"Ou seja, como estava transmitindo o programa Sai de baixo, em rede nacional, a RBS impôs o interesse de que se lhe aguardasse o final para que o assalto pudesse ser transmitido ao vivo no programa local Teledomingo, logo em seguida...

Isto foi conseguido sem que se sopesasse o perigo que corriam os reféns e a situação aflitiva em que se encontravam. Certos segmentos da imprensa – não se generaliza – parecem supor que, por deter o indiscutível poder de influir na opinião pública (e não de expressá-la), podem, agora, influir também diretamente nos fatos e seus desdobramentos, demonstrando evidente insensibilidade com a sorte de reféns submetidos à sanha sempre imprevisível de assaltantes para atender aos interesses de sua ‘programação’.

A situação demonstra uma ausência de Ética à toda prova exatamente de quem, travestida de dona da verdade, vem impondo regras e normas de conduta e exigindo dos outros aquilo que ela própria despreza, como visto, exatamente a lisura no comportamento e a honestidade das relações humanas.

Dia virá, espero, em que a Imprensa mal intencionada deste país deva prestar contas de sua conduta perante a opinião pública que diz representar. Isto é difícil de ocorrer pelas circunstâncias: o corporativismo, tão atacado em outros segmentos, mas nela também presente, certamente dificultará o processo, e porque, afinal de contas, é ela própria a fonte da comunicação, como megalopicamente se vê (quando na verdade deveria ser um canal, afora o jornalismo opinativo). A sutileza na autoqualificação passa despercebida. Mas predicando-se de fonte permite-se-lhe a faculdade de mudar a gênese dos fatos, ao passo que, se mero canal fosse, a gênese restaria intocada."

O que a técnica jurídica identifica como "iter criminis", o caminho do crime, para as vítimas quase se confundiu com uma via-sacra. Só faltou algo, lança ou bala, traspassando o corpo dos crucificados pelo Ibope. É sabido que o Poder Judiciário, mesmo sem Lei da Mordaça, é normalmente comedido nas suas palavras, principalmente nos tribunais, aonde seus integrantes chegam depois de terem passado por uma longa experiência jurisdicional. Para se ler um juízo de valor como o transcrito acima é porque, realmente, como Shakespeare, "há algo de podre no Reino da Dinamarca", digo, da RBS.

Contra a falta de ética, que não se avexa de usar de malandragem para alavancar o Ibope, só nos resta o samba-rock do Barão Vermelho:

Malandragem, dá um tempo!

(*) Funcionário público federal

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