A IMPRENSA EM QUESTÃO

JORNAL PESSOAL
O jornal acabou. Viva o jornalismo

Lúcio Flávio Pinto (*)

Na quinta-feira (11/7), quando começou a circular a edição nº 289, encerrou-se a história do Jornal Pessoal, editado em Belém (PA), a dois meses da festa dos seus 15 anos. A decisão é de absoluta responsabilidade pessoal, conforme autoriza o título da publicação. Sempre enfrentando enormes dificuldades para cumprir o compromisso de colocar um novo número na praça a cada quinzena, acabei por me impor um princípio semelhante ao do "gol de ouro" da Copa do Mundo: no dia em que o jornal voltasse a ser deficitário, como havia ocorrido em momentos anteriores da sua história, eu encerraria de pronto sua publicação, sem outras considerações. Nas ocasiões difíceis do passado havia ainda uma certa poupança para suplementar o caixa. Agora ela inexiste.

Para reequilibrar as contas seria preciso elevar o preço de capa. Há mais de sete anos ele se mantém em 2 reais, um dos raros casos de abstinência de aumento durante a vigência do plano de estabilização econômica (na verdade, monetária e financeira) da era FHC. Não foram poucos os que reclamaram desse valor. No início de 1995 ele realmente continha uma delgada camada de gordura, sem a qual não atravessaria o inverno hostil que se delineava no horizonte. Hoje, é um osso só, no qual bate a lâmina do custo crescente de produção. Mas elevar o preço para 3 reais representaria mais uma auto-limitação de público, capaz de tirar o estímulo para trabalhar nessa pedreira que é o jornalismo independente pra valer. O que me animou a manter o JP ao longo desta década e meia foi o entusiasmo. Esse gás tonificante está escapando.

Mas também reconheço que a razão de ser do jornal se exauriu. O JP sempre foi uma anomalia, um desafio às regras da natureza, como um helicóptero de papel. Concebido para voar, o helicóptero contraria as regras da permanência no ar. Que sucesso se podia esperar de um jornal em formato pequeno, que não usa fotos, não tem cores, às vezes é maçudo, dá destaque a assuntos áridos, não distingue nem seleciona adversários, não tem senso da oportunidade, não faz concessões ao gosto fácil e se recusa a ter publicidade, limitando-se a faturar o que lhe paga o leitor – e ainda sujeitando-o a ir buscar seu exemplar em bancas de revista e umas poucas livrarias?

Assim, desafiando 11 das 10 regras do decálogo publicitário e mercadológico, este jornal resistiu durante quase 15 anos, com duas interrupções na circulação, que somaram menos de dois anos (intervalo proporcionalmente menor do que o sofrido por A Província do Pará, teoricamente o quarto jornal mais antigo do país com seus 126 anos). Nesse período, o JP foi selecionado como a melhor publicação do Norte e Nordeste do país pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e recebeu um dos mais influentes prêmios de jornalismo na Itália, que fez deste David impresso o primeiro não-europeu a ganhar o Colombe d’Oro per la Pace.

Destas deferências honoríficas talvez fique uma moral de interesse coletivo, estimulando os jornalistas a respeitar princípios éticos e compromissos profissionais na execução de sua tarefa: manter a opinião pública bem informada, no grau máximo de possibilidade. A única limitação neste jornal sempre foi a capacidade pessoal do seu redator solitário, tanto a dos seus atributos intrínsecos quanto a dos seus meios materiais de trabalho. Jamais uma amizade ou qualquer outra circunstância, subjetiva ou objetiva, condicionou o ato de redigir o material aqui publicado. Falhas na cobertura, limitações na apuração ou erros nos textos resultaram unicamente de deficiências do redator ou insuficiência dos seus instrumentos operandi.

Isto significou perder amizades e ganhar inimizades, algumas capitais. Fui processado12 vezes no período por matérias do Jornal Pessoal, as 12 ações movidas por apenas quatro personagens, todos poderosos, nenhum dos quais exerceu o direito de resposta a respeito do conteúdo das matérias deste jornal, que sempre considerou sagrado esse direito. Todas as matérias eram de relevante interesse público, relacionadas à liberdade de imprensa, ao uso da máquina pública para intimidar adversários e ao valioso (e dilapidado) patrimônio fundiário do Pará.

Em nenhuma dessas matérias incômodas, seu redator ultrapassou o limite da vida privada dos personagens citados, cujos interesses e personalidades, hipertrofiados, os levam a considerar lesiva qualquer crítica a suas condutas e a estender o sagrado manto da privacidade por sobre a cena coletiva, agindo como aquele tipo popular que atira a pedra e esconde a mão.

Esses processos são medalha e não desonra. Atestam o exercício do compromisso deste jornal com a verdade, independentemente do preço que se deva pagar para proclamá-la. Em 10 anos de via crucis forense, paguei o preço que os usurpadores me cobraram. Tenho esperança de um dia escrever sobre essa experiência para socializar o que nela aprendi. Mas ficaria muito grato se um advogado competente, honesto e corajoso também auditasse esses processos.

Não tenho dúvida que eles caracterizam um odioso processo de perseguição política, ao qual serviu a ignomínia, o despreparo ou a omissão de alguns magistrados do Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Eles foram cúmplices na trama de me colocar na pele de Prometeu, atado à pedra nada independente da justiça para servir de festim a abutres, sem pelo menos a garantia de que a peça papachibé reeditava a matriz grega.

Nos autos também está documentado para sempre o mais tenaz processo de sufocamento de um órgão de imprensa por outro órgão de imprensa, sem paralelo nos anais do jornalismo brasileiro (e mundial?). Ah, se nossos pesquisadores tivessem o hábito de pesquisar documentos em fontes primárias...

Bugigangas informáticas

Creio não ser desmedida a confiança de que o JP serviu de documento para alimentar a agenda dos que o leram nesta Amazônia fascinante (e triste), e continuará a servir de referência aos que eventualmente vierem a lê-lo nos arquivos (se possível, num futuro não muito remoto, que o nosso talvez venha a ser mais curto do que mereceríamos). Na maioria das vezes, o "furo", a abordagem exclusiva, a angulação privilegiada ou a informação única não proporcionaram a sensação de realização, mas a incômoda perturbação da solidão. O JP esteve só em diversos temas porque a grande imprensa deles fugiu como o diabo da cruz. Para não se comprometer, por exemplo. Ou para não atingir interesses comerciais. Não raro, infelizmente, por crassa incompetência.

Não se trata, porém, ao contrário do que muitos proclamam, apenas de um problema de linha editorial, de desvio corporativo, de vício gerado pelo exercício do poder. Os jornalistas devem fazer um sério exame de consciência para verificar se muitas dessas lacunas não foram abertas individualmente, sem qualquer ordem superior ou condicionamento externo. Deveram-se a covardia, desleixo ou irresponsabilidade estritamente pessoal. Para atender interesse comercial de um ente único: o autor daquele texto viciado, ou aquele que se ausentou do tema por deliberado oportunismo (ou esperteza). Já é expressiva a quantidade de jornalistas pessoas jurídicas, que vendem mercadoria de exclusivo direito de jornalistas pessoas físicas. Por ser expressiva, é uma situação desconfortável. E nada honorável.

Disse Drummond, num dos seus muitos versos maravilhosos, que da luta pela palavra muitos deserdaram e outros nela nem chegaram a entrar. Mas agem como se fossem ex-combatentes, exibindo medalhas fictícias e ferimentos falsos. A imprensa da Amazônia não tem estado à altura da Amazônia dos nossos dias. Essa inadequação causa um imenso mal à missão de impedir que esta região se incorpore ao acervo de áreas espoliadas na história do colonialismo no planeta.

Não dou entonações épicas a esse desafio. Vejo-o na sua dimensão técnica, como algo amplamente viável. A nós bastaria que fossemos escravos dos fatos, apurando-os com todo rigor e divulgando-os com o máximo de clareza e profundidade que nos fosse possível.

É tão simples ser jornalista. E é tão complexo!

Onde estão os fatos? Eles se esgotam na sua aparição superficial, no que as assessorias de imprensa divulgam, nos comunicados oficiais e no que dizem os personagens nas entrevistas? Tudo o que são é o que ocorre em nossos limites territoriais? Os fatos são aqueles códigos embaralhados e para chegar a eles é preciso decodificar os sinais? Um fato é autônomo ou só adquire sentido no conjunto, no contexto que o ilumina? É preciso seqüênciá-lo e encadeá-lo para que ele deixe de ser controlável (e manipulável) apenas pelos que lhes deram causa, entrando no mercado dos acessos mais amplos?

No JP ao menos se fez o esforço para atender a cada uma dessas perguntas, e de numerosas outras. Sem as devidas respostas, o jornalismo vira essa sensaboria de boletim burocrático e essa carta enigmática que a grande imprensa publica todos os dias, com muitas cores e bugigangas informáticas.

Sempre, é claro, há um ou outro órgão em dia com sua missão e uma ou outra exceção em publicações em regra desavindas com sua tarefa, a renovar a esperança de que o jornalismo possa vir a ser praticado com mais constância e conseqüência. Mas logo a exceção retorna à sua condição de acidente e o percurso segue o padrão cosmético de um jornalismo acomodado às supostas leis do livre mercado, refletindo as tendências e padrões projetados a partir de algum laboratório sagaz, dono da marca "livre mercado" (que, de justiça, deveria ser "livre o mercado").

No coração e na vontade

O JP foi, com todas as suas muitas limitações e deficiências, uma exceção de longa duração aos secos & molhados jornalísticos, mas não podia desafiar incólume e olímpico os riscos da lei da selva. Por falta de recursos, foi deixando a linha de frente, que está sempre a se deslocar e se aprofundar no território amazônico, recuando para uma posição mais de retaguarda, analítica. Para não cair numa visão de luneta ou satélite, foi gastando o capital acumulado em anos de testemunho direto.

Embora seu esquema de funcionamento colidisse com a equação de viabilidade econômica, mantendo-se com obstinação como um micronegócio, confiei em que o outro lado do ponto de equilíbrio pudesse entrar com a sua parte. Como este não é um jornal de rabo preso com o leitor apenas para efeito de marketing, só podia sobreviver se o leitor pegasse o pião com a unha. Cada vez que alguém se dispunha a ajudar, lhe sugeria que comprasse mais de um exemplar. Se possível, vários. De preferência mandando o jornal para fora de Belém, o que já não mais podia fazer por meus próprios meios.

Aí surge um problema de natureza editorial: há mais interesse pela Amazônia fora da região do que dentro dela. O que conta, porém, não é um interesse massivo, que, como sempre, acaba sendo distorcido pela incompreensão a respeito do que é a Amazônia. Poucos, fora da região, sabem o que ela realmente é. Interpretam-na com base em valores a ela atribuídos, o colonizador impondo o que quer ao que é.

Para completar a tragédia, o colonizado (mais uma vez) pensa pela cabeça do colonizador, sem o consolo de poder ser contemporâneo de sua própria história. Mesmo olhando com os olhos arregalados, vê mais miragem do que realidade. A realidade que ele vê é apenas uma parte da realidade e, talvez, a sua parte menos heurística. A parte principal está fora da região. A Amazônia sempre foi internacionalizada. Agora mais do que nunca. Definitivamente. Só conseguirá entendê-la e dominá-la quem for capaz de vê-la nessa moldura maior, puxando todo o fio do novelo ao invés de se contentar com sua ponta visível, que emerge neste quintal da vontade metropolitana. Só há hinterland por existir o outland.

Como compor uma agenda essencial, combinando os dois elementos, o externo e o interno, as razões do colonizador e as do colonizado, e oferecer o produto dessa cozinha jornalística nos dois planos, intervindo como um agente da libertação?

O público interno quer saber do jogo de poder local, no que está certo. Mas ele precisa saber também que há um jogo de poder mais amplo, não necessariamente tão convencional quanto o jogo mais imediato. É preciso forçá-lo a encarar essas questões mais complicadas e – como se diz costumeiramente – mais áridas. Inclusive com a matéria de primeira página, num texto mais longo, proporcional à complexidade do assunto.

Já o público de fora que interessa a uma publicação verdadeiramente amazônida não quer perder tempo com as adiposidades paroquiais: o que lhe interessa é ir ao cerne das questões de fundo. É preciso balancear essas duas demandas. Mas é fundamental dispor de capacidade de atingir os dois públicos. Com que catapulta?

Cada vez mais o JP vinha sendo um jornal de Belém, que monopolizava quase 90% da sua tiragem. No passado, quando circulava apenas entre assinantes, essa proporção chegou a baixar para menos de 60%, um perfil mais coerente com os propósitos da publicação. Como uma solução intermediária, tentei a Agenda Amazônica, publicação mensal, com 50% a mais de páginas (e no preço), mais temática, empunhando com maior decisão uma bandeira de combate pela consciência do ethos amazônico (e contra o pathos colonial). Dois anos depois, com a venda abaixo do ponto de nivelamento econômico, foi preciso acabar com ela para que ela não viesse a acabar com o JP. Foi a indesejada comemoração dos seus dois anos de vida.

Agora é a vez do Jornal Pessoal. A iniciativa é penosa. Dói. Mas não a adoto com mágoa, rancor ou a sensação de que tudo foi inútil. Muito pelo contrário: o leitor do JP me permitiu a suprema graça de ser feliz fazendo o jornalismo de que gosto (e o único que sei fazer) contra todas recomendações dos analistas econômicos, todas tão certas nas conseqüências quanto indesejáveis como prospecto político. Provei que o inviável é possível, ainda que possa não ser eterno ou duradouro. Mas, como consagrou o poeta Vinícius de Moraes, sendo eterno enquanto durar. A despeito do preço.

Fiz o Jornal Pessoal sempre pensando nele como eterno. Encerro sua história esperando que dure. Ao menos na memória, no coração e na vontade dos que, com sua leitura, honraram a pequenina folha impressa. Se o vento soprado por estruturas mais poderosas pode levá-la, o seu perfume fica morando no ar, como na música do grande poeta maranhense João do Vale.

Que este perfume more no ar que oxigena a cabeça dos personagens empenhados em construir uma história melhor para a Amazônia, é a esperança que fica, a renascer em novos combates e em novas trincheiras jornalísticas.

(*) Jornalista, editor do Jornal Pessoal

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