VIDA DE REDAÇÃO
Fritz Utzeri

"Vovô", copyright Jornal do Brasil, 11/4/01

"Escreve-me Zé Silveira, que sabe tudo sobre jornal, e sobre o JB em particular. Sua observação: ‘Lamentei que ninguém tenha lembrado de um dos que partiram: Lago Burnet, meu chefe no copy e o mais talentoso reescrevedor de chamadas e autor de títulos que conheci.’ Você tem razão Seu Zé, esqueci também, entre os que partiram, do Sandro Moreira (O Saldanha foi lembrado pelo suplemento 110). Durante anos comecei minha leitura do jornal pela historieta do Sandro, bem no pé de sua coluna. Em 99% dos casos era mentira, mas eram pequenas jóias, obras-primas do texto. Dava gosto começar o dia lendo-as.

Vale lembrar também Lea Maria, Bella Stal e Beatriz Bomfim. Foi Lea, antes do Zózimo, que inaugurou o colunismo social diferente, no estilo que consagraria o JB nos anos 60-70. Bellinha é dona de uma risada luminosa e de uma sensibilidade apurada. Beatriz foi ‘a moça do guarda-chuva’, como chegou a figurar em peças de propaganda do jornal. Ela se especializara em educação e foi uma pioneira.

Também quero prestar tributo aos motoristas, numa época em que eles participavam efetivamente das equipes de reportagens e não eram terceirizados, como ocorre hoje nos jornais. Vestiam a camisa, apuravam e, sobretudo, jamais deixavam os profissionais na mão. Ao Luis, tão bom que era conhecido como ‘Luis Motorista’. Conhecia a cidade como a palma da mão, fora motorista de Noel Rosa e de ambulância e contava histórias saborosas. Além disso, dotado de extraordinária força física, chegava a brigar com a polícia quando via algum colega ameaçado, o que era freqüente nos anos 60. O fotógrafo Alberto Jacó que o diga. Mas havia ainda o Marcelino, o Gilberto, o Nelcy e tantos outros.

E para encerrar minhas memórias, cito duas figuras. A telefonista Jaycy (‘linha não tem’), ainda na sede velha que, sem querer, foi responsável por um episódio que me caracterizou como maluco no JB. Por incrível que pareça, louco impõe algum respeito...

A segunda era figura muito querida: o Vovô, ascensorista do elevador das docas. Negro, atarracado, vascaíno roxo, Vovô levava o seu elevador para cima e para baixo com muita alegria e calor humano. Quando o Vasco perdia, ele segurava a onda da rapaziada que o gozava. Quando ganhava, era a sua vez de gozar. Um dia fui mandado pelo JB, como correspondente, para Nova Iorque. Alguns dias depois de minha chegada, lembrei-me do Vovô, comprei um cartão-postal para ele e mandei, com algumas bobagens e a informação de que não tinha encontrado um só vascaíno em Manhattan. O Vasco não estava com nada em NY...

Alguns dias depois, um amigo me ligou e contou que Vovô estava no elevador quando recebeu o cartão. Leu, parou num andar e saiu. Como demorasse muito, a turma do elevador saiu para ver o que acontecia e foi dar com o Vovô encostado numa coluna, segurando meu cartão numa mão e chorando copiosamente.

Nesse dia aprendi uma lição: muitas vezes não medimos a importância que nossos pequenos gestos têm para os outros. Eu vivia num mundo a anos-luz do de Vovô e o fato de mandar-lhe um cartão era para ele algo extraordinário, enquanto para mim representava apenas uma brincadeira, algo sem grande importância. Eu, sem pensar, mexi com a alma dele e ele me amou. Não havia qualquer possibilidade de comparar nossos dois sentimentos. Do fundo do coração, peço perdão ao Vovô e tenho certeza que nem em mil anos serei um ser humano à altura dele."



ASSESSORIA & LOBBY
Karla Monteiro

"O lobista do Brazil", copyright no. (www.no.com.br) 13/4/01

"Higienópolis, o estiloso bairro onde mora o presidente Fernando Henrique Cardoso, no centro de São Paulo, é um dos lugares mais ‘cosmopolitan’ e ‘cool’ no mundo. Já o bar Baretto, na rua Amaury, também em São Paulo, está no ‘Top 25’ das coisas mais bacanas do planeta. E é muito ‘trendy’. O Planetário carioca é um dos lugares mais astrologicamente educativos do universo. Sem falar na agência de publicidade DM9, que além de ser um das mais premiadas do sistema solar, ainda funciona no último andar do prédio comercial mais alto de São Paulo!

O listão, bastante, digamos, lisonjeiro para quem achava que o Brasil só tinha o estádio do Maracanã entre as maiores coisas do mundo, foi publicado em uma penca de edições desde março do ano passado, da revista britânica Wallpaper, o catálogo do que há de mais moderno e descolado na galáxia. Nas páginas da revista, vê-se um país cult, antenado, classudo e endinheirado, que também tem aparecido com bastante frequência nos últimos meses em outras publicações que são referência de estilo, como a Big, a Dazed Confused e a americana Surface. É tanto confete que o consumidor distraído das bíblias modernas pode até achar que alguma espécie de programa do governo, como o Avança Brasil, coloca finalmente o Brasil entre os mais desenvolvidos do mundo. Que nada. O que acontece é que o país entrou na rota do mundo fashion por uma mistura de curiosidade e interesses comerciais. Mais ou menos como acontecia com as especiarias dos países exótico nas época das grandes navegações. Nesse ‘novo mundo’ das publicações de estilo, pode-se dizer que o paulista Chico Lowndes é o maior lobista do país.

O Brasil sensacional das revistas modernas sai dos fundos de um antigo casarão da rua Groelândia, no Jardim Europa, um dos nacos mais chiques de São Paulo. Ali funciona o quartel-general de Chico Lowndes. Não é fácil rotulá-lo profissionalmente. Ele acumula tarefas: é um misto de empresário, editor, produtor, agente de fotógrafos bambas, representante comercial e relações públicas. Mas pode-se dizer que ele abriu uma espécie de Companhia das Ìndias, uma empresa que aproveita o interesse do mundo fashion pelas ‘especiarias exóticas’ do país. ‘A Wallpaper, como qualquer outra revista, quer curiosidades. O Brasil é surpreendente para quem vive lá fora’, justifica Lowndes.

A ligação desse sujeito multimídia com as badaladas publicações internacionais começou há dois anos, quando ele abocanhou a representação comercial de seu primeiro título, a Wallpaper. Na paralela, ia tocando uma produtora de fotografias chamada Super Studio, que passou a reunir alguns dos melhores fotógrafos para participar da elaboração de catálogos de grifes internacionais como a Kenzo. Como se deu bem nas duas funções – a de homem do comercial e a de produtor de conteúdo fotográfico – acabou ganhando a confiança do escritório da revista em Londres. Por tabela, o Brasil entrou na pauta da publicação. Um ano depois, a revista colocou em seu expediente, pela primeira vez, o nome de um correspondente no Brasil, o suíço Lorens Ackerman, que hoje é o parceiro de Chico na produçãos das grandes matérias brasileiras da revista.

Para entender o contato de primeiro grau que Chico estabeleceu com as publicações representantes do circuito fashion, é preciso evocar o frisson em torno do Brasil. De uns tempos para cá, tonou-se ‘in’ ser brasileiro. Graças, talvez, ao estouro da top Gisele Budchen e de tantas outras modelos made in Brazil. Chico soube aproveitar a onda ‘Brasil tem estilo’. ‘O país está em evidência e tende a continuar assim por um bom tempo, muito pelo esgotamento do primeiro mundo’, acredita Ale Faljone, editor e publisher da revista Simples? e ex-gerente de circulação e marketing da Dazed Confused, em Londres. ‘O maior mérito do Chico é imprimir profissionalismo ao Brasil. Os estrangeiros tendem a achar que aqui é um lugar confuso, desorganizado.’, completa.

Gurgel é bacana

Aos 30 anos, Chico Lowndes tem estilo mauricinho, é bom de papo e às vezes disfarçadamente arrogante. Tipo blasé. Formado em administração de empresas pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), ex-militante do mercado financeiro, filho de pais ricos e muito amigo de quem interessa, ele embrenhou-se no mundinho dos modernos em 1990, quando criou a Super Studio, a primeira empresa brasileira especializada em produção de fotografia. No começo, a produtora fazia exclusivamente publicidade. ‘Fizemos campanhas importantes como da Souza Cruz, Shell, General Motors, Zapping, Iódice, Zoomp, entre outras’, recita.

Pouco tempo depois a produtora já estava metida em campanhas internacionais. E começou a paquera com o mercado de fora. Em pouco tempo, a representação comercial derivou para outras brechas. ‘Começamos a sugerir pautas e fazer a produção fotográfica dessas reportagens’, explica. Com a multiplicação de tarefas, Chico foi criando empresas para atender aos diferentes segmentos. Hoje são quatro empresas. No comando delas, ele vai se metendo em novas empreitadas. Pense em um título ligado ao mundo moderno e ele está no meio. Sua última é a parceira com o fotógrafo Bob Wolfenson no lançamento da revista ‘55’. ‘O Chico é um empresário de imagens. É uma figura rara no Brasil. Ele não tem pretensões artísticas. Mas sabe vender arte’, comenta Wolfenson. Outra parceria de Chico, com a editora Denise Maler, emplacou o país duas vezes na revista Big, que já dedicou duas edições ao Brasil. Até mesmo na underground Dazed Confused ele deu um jeitinho de abrir espaço. A revista publicou reportagens sobre Chico Science, Oscar Niemeyer e a São Paulo Fashion Week.

De seu escritório de pé-direito alto, com fotos de nomes conhecidos como o da fotógrafa Cláudia Jaguaribe na parede, móveis baratos misturados a objetos de design e pilhas de revistas internacionais espalhadas por todos os cantos, Lowndes continua a dar pitaco na área editorial. Na maioria das vezes acerta. A reportagem publicada na Wallpaper de novembro de 2000 sobre as obras de Oscar Niemeyer na Pampulha, em Belo Horizonte, por exemplo, traz belas fotos e vende o bem o patrimônio arquitetônico modernista brasileiro.

Mas como a Wallpaper transformou-se na bíblia da turma que tem ‘atitude’, ‘proposta’ e sabe distinguir trance de drum’n’bass – suas dicas tendem a ter a força de um mandamento para os afeitos às modernidades em geral. É aí que está o perigo. Em sua fissura por mostrar que o Brasil tem selva, índios e onças mas ainda assim é habitado por gente que conhece ar condicionado e design, a revista acaba publicando coisas para gringo ver. O carro nacional Gurgel, considerado por aqui o maior mico da indústria automobilística ‘nacional’, apareceu na lista dos 25 coisas mais surpreendentes do mundo. O bar Baretto, aquele que também foi classificado no ‘top 25’ é até bom, mas não tem nada que justifique sua inclusão em uma lista de melhores do mundo. Ainda assim, a qualquer momento algum moderno brasileiro vai aparecer no Baretto. De Gurgel."



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