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OI DEMITIDO DO UOL
Anatomia da paranóia

Alberto Dines

Tutti buona gente.com. O título [remissão abaixo] referia-se às transações da Globo.com e os italianos. O texto de 42 linhas estava centrado nesta operação. Definia um site de conteúdo como veículo jornalístico e, portanto, sujeito a todos os privilégios, responsabilidades e limitações previstos na lei. Considerava inconveniente a abertura do capital de uma empresa jornalística a estrangeiros antes de aprovada a nova redação do artigo 222 da Constituição, que deverá ocorrer em agosto.

As duas referências ao UOL ocupavam no total sete linhas (1+6). Repetiam tudo aquilo que carro-chefe do Grupo Folha já noticiara nas suas próprias páginas sobre a parceria de suas subsidiárias com grupos estrangeiros.

O mal-estar entre a Abril e a Folha (sócios majoritários do UOL) efetivamente jamais foi noticiado pela Folha de S.Paulo; mas, como todos sabem, o noticiário do jornal no que tange à internet e aos interesses do UOL é rigorosamente controlado. Portanto, suspeito. É voz corrente no meio publicitário. O Sr. Mercado sabe das desavenças.

A demissão deste Observador da Folha como castigo por ter comentado aqui os negócios da empresa com grupos estrangeiros é fato público e notório [remissões abaixo]. Noticiado até pelo jornalão, mereceu ampla discussão nas páginas do Observatório.

Quando denunciamos uma novela pedófila no UOL, o UOL não bufou. Enfiou o rabo entre as pernas e a pedofilia saiu do ar [remissões abaixo].

Quando mostramos que a Folha manipulava o noticiário referente ao mercado da internet para proteger o UOL, ninguém da Folha ou do UOL achou necessário contestar.

O que teria levado agora o Grupo Folha a perder a cabeça "demitindo" o Observatório e arriscando-se a desmoralizar-se internacionalmente como o primeiro provedor de conteúdo do mundo a adotar a prática ostensiva de censura num site voltado para a defesa do interesse público?

Arrogância.

E/ou algum negócio com grupos internacionais que nós, comuns mortais, ainda não temos o direito de conhecer.




O caso da monetização dos conteúdos

A.D.

O desenvolvimento do jornalismo pela internet no Brasil deve muito a Caio Túlio Costa, criador e animador do UOL. Entre outros méritos, ele foi o primeiro ombudsman da Folha de S.Paulo – o que pressupõe não apenas experiência profissional mas sólidos compromissos éticos.

O jornalista Caio Túlio Costa escorregou ao inventar o pretexto da "estratégia de monetização (argh!) de conteúdos" para justificar a denúncia do convênio firmado em 1996 e automaticamente renovado desde então.

Para quem não sabe, monetização (argh!) é um eufemismo produzido pelo jargão dos economistas para disfarçar um processo de converter alguma coisa em moeda, dinheiro, grana. Monetizar é, em última análise, vender. Como não fica bem assumir que uma informação está sendo vendida, a turma dos punhos de renda compraz-se em usar o preciosismo desta Era do Vale Tudo – monetização(argh!) de conteúdos.

Se Caio Túlio Costa não podia assumir abertamente o ato censóreo imposto pelos escalões superiores, compreende-se. Mas não precisava usar como exemplo da "estratégia de monetização (argh!)" a saída de O Dia do UOL. O jornal carioca, com a sua imensa tiragem e suas fabulosas promoções, é um caso clássico de monetização (argh!) de conteúdos. Ninguém pode tirar-lhe este mérito. Sairá do UOL por livre e espontânea vontade para juntar-se ao argentino El Clarín num novo portal altamente monetizado (argh!).

Neste exato momento, o UOL hospeda mais de 100 jornais diários e outro tanto de revistas. Clique "Jornais" e, depois, "Revistas" na home-page do UOL e verifique, pelos títulos, se está vigorando mesmo a tal monetização (argh!) de conteúdos.

Balela pura.

Na verdade, estamos voltando à tacape + zação do fluxo informativo.




DEMOCRACIA CÍNICA

O rei está nu! (*)

Lira Neto (**)

Nenhuma história marcou mais minha infância do que aquela em que um meninote, no meio da rua, aponta para o cortejo real e grita, a plenos pulmões: "o rei está nu!". Na verdade, em sua santa e cruel inocência, o tal garoto não fazia nada mais do que dizer aquilo que toda a multidão, silenciosa e reverente, já sabia. Um daqueles óbvios ululantes rodrigueanos, mas que, entretanto, sob pena de parecer ignorante ou insano, até então ninguém ousara denunciar: a roupa nova do imperador não passava de uma ilusão, um embuste, artifício para inflar vaidades palacianas e camuflar a estupidez de súditos bajuladores.

Não nos foi dado conhecer o destino daquele menino da historieta infantil. A dúvida atroz, inclusive, povoou boa parte de minha meninice: não sabia se, ao fechar o livro, o garoto teria sido aclamado pelo povo como herói ou se sofrera a ira do monarca desnudo. Mas, com o tempo, quando crescemos, mais cedo ou mais tarde percebemos que, na vida de verdade, todo aquele que resolve apontar o dedo para a nudez escancarada dos pretensos imperadores costuma amargar conseqüências vis. E foi o que aconteceu, em pouco mais de um ano, por duas vezes seguidas, com o jornalista Alberto Dines, uma das maiores competências éticas e morais da imprensa brasileira.

Em sua biografia irretocável, absolutamente irrepreensível, Dines sempre fez questão de se comportar como o indispensável garoto da nossa historinha: nunca deixou de apontar o dedo para as farsas estabelecidas e para os conchavos institucionalizados. É claro: como era de se esperar, também sempre teve que pagar um preço muito alto por tal desenvoltura. Isso sem jamais recuar um milímetro sequer de seu compromisso e de sua dedicação por uma imprensa mais justa, mais isenta, mais verdadeira.

O fato é que Dines acaba de ter o site de seu Observatório da Imprensa – a mais ousada e mais bem-sucedida experiência de crítica da mídia no Brasil – solenemente dispensado pelo Universo Online (UOL). O contrato entre as partes, que expira em setembro, não será mais renovado. O motivo é torpe: a mais pura e explícita retaliação. Dines foi comunicado da decisão do UOL, pelo telefone, dez dias depois de ter publicado um artigo, no Observatório, em que comentava a compra de 30% do Globo.com pela Telecom Italia. No mesmo artigo, fazia referência à venda anterior de 10% do capital do Universo Online para grupos internacionais. Detalhe: pela atual legislação (artigo 222 da Constituição) as empresas de comunicação brasileiras não podem ter sócios estrangeiros.

O UOL é controlado pelos grupos Abril e Folha. Esse último, controlador também da Folha de S. Paulo, jornal que, há pouco mais de um ano, demitiu Dines por motivo semelhante. Na ocasião, ele escrevera um artigo em que comentava a parceria da Folha com um grupo norte-americano. Não se tratava propriamente de uma denúncia. Muito pelo contrário, o objetivo era estimular a tramitação mais rápida para uma emenda constitucional que altera de vez o artigo 222. "Se esta emenda não vier depressinha vamos assistir a outras parcerias enviesadas e escondidas. As empresas jornalísticas brasileiras estão com a corda no pescoço", chegou a escrever Dines.

Resumo da ópera: nos dois casos, a mesma marca da censura e da intransigência. Ou, como afirma o próprio Dines: "a liberdade da imprensa no Brasil é um jogo de faz-de-contas – as empresas, por intermédio de seus representantes, estipularam os limites da liberdade e os jornalistas não ousam questioná-los. Quem ultrapassa esses limites deve ser fuzilado no paredón".

Não foi à toa que, no artigo que motivou o fim do contrato do Observatório com o UOL, Dines recorria justamente à imagem do rei pelado em praça pública: "Já que a mídia está contando as coisas pela metade ou omitindo o principal, conviria que alguém mostrasse o resto: os reis estão nus", escreveu. E reforçou: "Peladinhos".

Não é bonito ver um senhor de quase setenta anos nos dando um exemplo de que não podemos matar o menino irrequieto e necessário que, quem sabe, ainda existe em cada um de nós?

(*) Copyright O Povo, Fortaleza, 15/7/00

(**) Jornalista




Cinismo e democracia adjetivada

Vera Silva (*)

É interessante, embora decepcionante, notar que vivemos numa democracia cínica. Interessante porque nunca tinha me ocorrido pensar que o cinismo fosse a escolha de tantos entre aqueles que se apresentam como líderes na democracia brasileira. Decepcionante porque constato que ainda não conseguimos deixar de adjetivar a democracia no Brasil.

O recente aviso do UOL de que não vai renovar o contrato com o Observatório da Imprensa por falta de retorno financeiro é um exemplo desse cinismo. Não ocorreria a nenhum empresário pensar que um sítio como o do Observatório da Imprensa pudesse dar retorno financeiro direto ao UOL e, certamente, isto não deve mesmo ter passado pela cabeça de quem autorizou o contrato. Mas, na democracia cínica de quem resolveu encerrá-lo, falta coragem para assumir que o Observatório da Imprensa não combina com a imagem que o UOL pretende assumir perante seus parceiros e usuários, o que, sejamos justos, poderia fazer o grupo perder dinheiro.

Aplaudindo o cortejo

Outro exemplo recente é a propaganda da Abert na TV, em que se diz que a proibição da propaganda de cigarros vai contra a liberdade de expressão. Um cinismo de tal proporção só poderia vir de quem está acostumado a relacionar fumar com saúde física em monumentais propagandas que trazem muito dinheiro aos cofres das TVs e mais dinheiro ainda aos cofres das empresas cigarreiras.

Querem mais um exemplo? O do ex-senador que disse não pretender fugir do país, pois, se quisesse, não teria entregue o passaporte à Polícia Federal. Mais um? O do ex-secretário que disse estar apenas acertando com o juiz foragido uma forma de evitar nomear juízes que fossem contra o Real. É ou não é uma democracia cínica, aquela em que um ex-secretário presidencial considera que discriminar juízes pelo que pensam não é crime, tanto que usou isto, com a concordância do presidente, para se eximir de um crime?

Quero esclarecer, contudo, que meu espanto não se refere à existência dos cínicos, mas à aceitação de seus argumentos pela maioria dos veículos de mídia. Paira uma espécie de burrice sonsa sobre uma grande parte da imprensa, que faz de conta que ouviu uma grande defesa de um grande estadista e que, por isso, todos deveriam aplaudir o cortejo real como se fossem os súditos daquele rei idiota que se achava muito inteligente por desfilar nu nas ruas de seu reino.

Gritem, crianças

Meu espanto é pela falta de muitos que gritem que o rei está nu. Ou será que é possível esperar tanta burrice, insensatez e desatenção de gente tão cheia de MBAs e PhDs? Será que é falta daquela famosa inteligência emocional que fez tanto sucesso no meio empresarial algum tempo atrás?

Democracia cínica é praticada por cínicos, não há como fugir dessa conclusão. Há alguns anos estamos alimentando no seio da classe média e da elite o cinismo como forma de ação, sob o manto do individualismo que alavanca o progresso. Há alguns anos todos aqueles que ousaram protestar foram mortos ou apelidados de dinossauros. Havia um ex-ministro que adorava epitetar assim os seus críticos. Como nós, os não-poderosos-sem-MBA, porque tememos o ridículo, nos encolhemos, o treinamento do cinismo foi assim instituído, passando a ser item de currículo para ocupante de função pública, empresário de sucesso, político esperto e ladrão de colarinho branco.

É preciso que por todos os cantos desse país as crianças grandes e pequenas sejam estimuladas a gritar que o rei está nu. Caso contrário a coitadinha da nossa democracia vai continuar a desfilar nua, para o deleite concupiscente de seus algozes.

(*) Psicóloga




APOIO CIDADÃO

Hospitalidade solidária

Até que demorou o pessoal do UOL "despejar" o nosso Observatório. Sou jornalista aqui em Camboriú (SC) e solidário com seu trabalho de melhorar o jornalismo brasileiro. Certamente você vai receber várias ofertas, e até remuneradas, mas não custa fazer minha colocação: além de um jornal local sou proprietário de um servidor virtual, onde hospedo sites de terceiros. Coloco desde já ao seu dispor o espaço e os recursos técnicos que forem necessários, sem qualquer custo ou outra forma de remuneração, para hospedar o site do Observatório pelo tempo que você necessitar. Se tiver interesse peça ao seu webmaster para me enviar um e-mail ou telefonar. Abraço,

Waldemar Cezar, jornal Página3


Hospedagem na Bahia

Fui tomado de enorme surpresa pela noticia da "saída" do Observatório do portal UOL. Primeiro porque considero um erro empresarial abrir mão de um site tão competente e que prima pela seriedade no que faz. Segundo pelas circunstâncias que levaram à medida. Terceiro pela importância do Observatório para a imprensa nacional. Não sou grande, não tenho fama nem rios de dinheiro. Administro um pequeno grupo jornalístico no Sul da Bahia, com dois jornais e uma rádio. Mas me orgulho de nunca, em tempo algum, ter censurado previamente meus jornalistas nem demitido qualquer um deles por causa de matérias publicadas. Se não gosto, falo. Se estou errado, admito. Se estou certo, peço que seja corrigido. E só. Por isso escrevo este e-mail para oferecer minha solidariedade e minha humilde oferta de hospedar o seu site. Estou assumindo um provedor de internet em Itabuna (BA), muito bem montado e com linhas de qualidade, a partir de agosto.Você é bem-vindo para hospedar o Observatório em meus servidores, sem custo algum nem qualquer tipo de obrigação. O Observatório é importante demais para o país, para o público e inclusive para nós, comunicadores. Não pode ficar fora do ar. Da mesma forma teria imensa honra em publicar, na internet ou fora dela, qualquer texto vindo de sua [de Alberto Dines] pena (ou de seu teclado).

Marcel Leal


Até a chuva passar...

Sei que não é grandes coisas, mas se precisarem de uma hospedagem até a chuva passar, podem contar comigo. Tenho um bom espaço ainda no meu provedorzinho.

Ivson Alves de Sá
<www.coleguinhas.jor.br>


Energia renovada

Como cidadão brasileiro e jornalista, cumpro o dever e tenho o prazer de transmitir a vocês todos do Observatório da Imprensa todo o estímulo que merecem. O contrato que a empresa UOL não renova é o inverso do que fazemos. Sua luta é nossa. Assim que chegar ao Rio saberei transmitir-lhes o que hoje tento passar-lhes. Em vez de esmorecimento, energia nova. Unidos venceremos.

Alexandre Salles


O trabalho continua

Aqui é do portal Cidade Internet, que está sendo lançado esta semana no Brasil. Soube que vocês, do OI, estão saindo do UOL. Gostaria de conversar com você sobre uma possível hospedagem no nosso portal. Não é solidariedade, e sim uma forma de garantir a um grupo, reconhecido pelo trabalho sério que vem executando, a continuidade deste trabalho. Um abraço,

João Wady Cury, diretor de conteúdo


Guia da Imprensa

Gostariamos de verificar seu interesse em uma ping pong para publicacao no site do Guia da Imprensa <www.guiadaimprensa.com.br>. Naturalmente o ponto seria, a esta altura, o processo de divórcio do UOL. Se possível, ainda, gostaríamos de fazer a entrevista via chat
privativo (de algum programa como ICQ, por exemplo) ou forma semelhante. Embora não muito usual, isso nos daria maior facilidade de edição final – bem sabe o quão desagradável e lento é levantar fitas de entrevistas –, além de assegurar a acuidade da
conversa.

Além disso, gostariamos de oferecer nossos servidores para abrigar seu site. Nao temos nenhuma estrutura (técnica e de pessoal) como do UOL mas com certeza bons servidor e link. Um abraco.

Mauricio Bonas




VEJA & PLUTOCRACIA

Lições de sociologia amadora

Rafael Evangelista (*)

Com o intuito de mostrar quem são os ricos brasileiros, o que pensam e como gastam, a revista Veja (nΊ 1657, 12/7/00) fez uma das reportagens mais ofensivas àqueles que têm um conhecimento mínimo sobre os problemas sociais brasileiros e suas origens históricas. Como é de costume, em se tratando de Veja, a reportagem é um misto de arrogância, preconceito, achismo e desprezo por qualquer tipo de conhecimento científico sobre a sociedade.

Com a desculpa de ocupar uma hipotética lacuna criada pela ausência de trabalhos de pesquisa sobre quem são e o que pensam os ricos do Brasil, a revista afirma ter extraído, a partir de dados da Receita Federal, "uma fotografia fiel dos ricos brasileiros que pagam impostos". Sua "fotografia fiel" é apenas um elogio ao trabalho como única forma de possível ascensão social e que considera o pobre como o único culpado pela sua pobreza. Um discurso que a própria revista afirma ser o das elites, mas que ela reproduz.

Para legitimar a reportagem, Veja retira do contexto alguns trabalhos de sociologia e economia e usa-os da maneira como lhe interessa. Logo no texto de abertura, busca um trecho do texto A ética protestante e o espírito do capitalismo, do sociólogo alemão Max Weber, para dizer que "a riqueza, como empreendimento de um dever vocacional não é apenas moralmente permissível, como diretamente recomendada". Entretanto, quando Weber escreveu esta frase não fazia um julgamento sobre a riqueza de uma maneira geral, mas falava especificamente de como ela era entendida pela ética protestante. Apesar do crescimento espantoso das religiões protestantes no Brasil, o catolicismo – em que a pobreza é elogiada, já que os pobres vão para o céu – ainda é a maior religião do país, e certamente está muito mais ligado à nossa cultura. Ou seja: a frase de Weber certamente não se aplica para explicar a nossa realidade.

Outro autor clássico que Veja cita é Adam Smith, o pai do liberalismo econômico, autor bastante adequado para referendar as opiniões neoliberais repetidas na reportagem.

Solene desconhecimento

Um dos – "pouquíssimos", como qualifica a revista – trabalhos acadêmicos contemporâneos existentes sobre os ricos no Brasil é o da pesquisadora Elisa P. Reis, da UFRJ, intitulado "Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade" [veja remissão abaixo].

É um trabalho sério, fruto de entrevistas realizadas com membros da elite brasileira e comparadas a entrevistas com elites da África do Sul e Bangladesh. No entanto, Veja só utiliza a pesquisa da professora Elisa Reis para afirmar que a elite não se sente responsável pelo problema da pobreza e da desigualdade, transferindo esta culpa ao Estado. A pesquisa da professora tem outros dados muito interessantes, como o resultado de entrevistas realizadas com mais de 300 membros da elite brasileira, que respondem a questões como "quais são os principais problemas nacionais?" e "quais devem ser as políticas prioritárias no combate à desigualdade?". Veja não menciona esses dados, talvez porque a reforma agrária seja citada, pelas próprias elites, como uma política prioritária no combate à desigualdade.

Para saber o que a elite pensa, Veja preferiu encomendar entrevistas com ricos a um instituto de pesquisa privado. Aqueles teriam que ter ganhado dinheiro apenas por seu esforço pessoal. Dado o recorte encomendado, as respostas são previsíveis e se pautam pela caracterização do pobre brasileiro como conformista, negligente, indolente e acomodado. Quando faz este recorte Veja se esquece de que ninguém nasce com condições iguais no capitalismo, ainda mais no Brasil.

Ao fazer seu trabalho de sociologia amadora, a única coisa que Veja consegue provar é que seu texto reproduz o discurso de nossa elite neoliberal. A crítica ao tamanho do Estado, a visão do capitalismo como sistema justo que premia o mais esforçado, o deslumbramento com os Estados Unidos e o anticomunismo que condena todas as experiências socialistas são os elementos integrantes do discurso. A isso somam-se a arrogância e os julgamentos de valor usuais da revista, que nesta reportagem a fazem desprezar anos de pensamento da história, da sociologia e da economia.

(*) Antropólogo.



Leia também...

... e acompanhe a novela OI – Folha:

tutti buona gente pontocom – Alberto Dines

Projeto Folha chega ao fim – A.D.

Os barões da Limeira – Luiz Egypto

A palavra da Folha de S.Paulo – Otavio Frias Filho

Retrato da prepotência: o reizinho está nu – A. D.

A patologia do coice – A.D.

Maluf, Folha e, agora, Adhemar – A. D

Solidariedade da ABI – Cícero Sandroni

Cartas 1

Cartas 2

Aspas


Sobre pedofilia no UOL

UOL adere a campanha contra pornografia infantil depois de veicular novela pedófila durante um ano – Mauro Malin

Crítica da mídia é incompatível com pornografia – Mauro Malin


Sobre a plutocracia brasileira

Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade – Elisa P. Reis



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