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ARTES DE GAROTINHO
Grampo cresceu e virou
mordaça – o que é pior?
Alberto Dines
As denúncias do Globo contra o governador Garotinho desenvolveram-se como uma investigação legítima:
Primeiro Dia: "Garotinho acusado de fraude em sorteios de rádio e TV" (manchete de terça, 10/7). A notícia refere-se à investigação da Receita Federal nas contas do governador fluminense e da primeira-dama. Levantamento do jornal revelou que, pelo menos, três dos dez sorteios do Show do Garotinho foram feitos sem o aval da Receita Federal. Nas três páginas maciças de uma reportagem bastante investigada não há referência a grampos ou fitas.
Segundo Dia: "Fitas mostram que Garotinho sabia de suborno a fiscal da Receita" (manchete de quarta, 11/7) Com as mesmas três páginas, o jornal agora revela que teve acesso às gravações de conversas que teriam acontecido em 1995. Não há transcrições, nem aspas. As informações oriundas das fitas estão perfeitamente encaixadas no contexto das matérias. O governador fica muito mal nelas.
Terceiro Dia: "Garotinho impede a divulgação das fitas que o comprometem" (manchete de quinta, 12/7). Assustado, o governador obteve uma liminar para impedir todos os veículos jornalísticos do grupo Globo, assim como outras empresas, de divulgar o conteúdo das fitas. Erro fatal. Jader Barbalho, em pior situação, jamais tentou impedir a publicação de qualquer denúncia. Recebe os sucessivos trancos, esperneia, tenta escapar e explicar mas não ousa censurar a divulgação de grampos. Legais e ilegais. Mesmo impedido de transcrever os grampos, O Globo conseguiu apresentar duas páginas de sólidas novidades. Sobretudo sob o ponto de vista jurídico: o ministro da Justiça, em declaração, afirmava que o recurso do governador ia na contramão da praxe jurídica brasileira. A norma democrática é não criar impedimentos ao livre fluxo de informações para depois, eventualmente, acolher ações contra os responsáveis pela divulgação.
A sexta-feira 13, azarada para Garotinho, foi felicíssima
para o Jornal do Brasil. Em manobra audaciosa, o jornal lançou
em segundo clichê uma substancial transcrição
das fitas. O segundo clichê foi recurso para iludir qualquer
tentativa de impedir a circulação do jornal. Mesmo
que muitos leitores fora do Rio tenham recebido uma edição
fria, aqueles que receberam ou compraram a edição
"quente" foram premiados com uma primeira página
tipográfica, de grande impacto visual e sustentada por uma
Nota da Redação curta, serena e até solidária
com o concorrente O Globo. [clique
aqui para ver íntegra
da NR]
Perguntará o leitor: qual a diferença entre a divulgação de um grampo ilícito do qual foi vítima há três semanas o próprio JB (junto com o colunista global Ricardo Boechat) e o grampo igualmente ilícito transcrito pelo mesmo JB e que vitimou um candidato à sucessão presidencial?
A diferença foi estabelecida pela reação do governador: tentativa de calar a imprensa. O governador auto-incriminou-se ao tentar impedir a circulação de informações desfavoráveis. E o pior: assumiu-se como o primeiro censor ostensivo desde o fim da censura. Indefensável.
Este Observador vem criticando a praga da transcrição de grampos ilegais desde o seu início. E assim o fez porque a utilização abusiva de gravações ilegais acabou comprometendo a noção de jornalismo investigativo no Brasil e a própria equidistância da imprensa, convertida em joguete de interesses contrariados, geralmente escusos.
A própria direção do Globo já pensava em rever sua participação nesses pools de denuncismo, segundo foi anunciado numa intervenção telefônica do jornalista Rodolfo Fernandes no programa do Observatório na TV, em 26/6/01 [remissão abaixo]. Prova da nova disposição está no cuidado com que agora foram apresentadas as denúncias contra Garotinho – as fitas só foram mencionadas no segundo dia e, mesmo assim, sem transcrição. O que não deixa de constituir um avanço.
Este Observador entende que a decisão de divulgar ou não divulgar gravações ilegais deve ser de foro íntimo do jornalista. Livre arbítrio. Consciência ética ou código deontológico. Nunca uma imposição de autoridades. O episódio Garotinho e o conseqüente quid pro quod jurídico podem servir para colocar o grampo ilegal no seu devido lugar.
Ao converter grampo em mordaça e acionar um salutar debate jurídico, o governador Garotinho acabou prestando um grande serviço à depuração do jornalismo brasileiro.
Leia também
Transcrição
de um diálogo –
[Rolar a página. Reprodução da
intervenção, por telefone, de Rodolfo Fernandes, editor-chefe
de O Globo, no Observatório da Imprensa na
TV, em 26/6/01]
Notas adicionais
A.D.
** Na edição de sábado [14/7], O Globo não soube retribuir a elegância do gesto do Jornal do Brasil: fez duas menções, breves, ao feito do concorrente.
** No mesmo sábado, a Folha de S.Paulo – que precisa mostrar-se protagonista de tudo – afirmou que também teve acesso às fitas. Por que não fez como o JB, solidarizando-se com o seu parceiro-agora-desafeto O Globo?
** Os semanários que deveriam fechar na sexta pela manhã incluindo na presente edição o assunto em torno da liberdade de informação nada registraram. Sequer leram o editorial do Estado de S.Paulo protestando contra a proibição de transcrever grampos, assunto que tanto lhes diz respeito. Apenas reproduziram pequenos trechos das conversas gravadas. Veja nem isso.
** O importante jornalista cujas colunas são reproduzidas nos principais jornais do país e que, em geral, costuma louvar a transcrição de gravações ilegais agora as designa "como epidemia de grampos". Também é um avanço.

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