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GUERRAS: LÁ E AQUI
Nada de novo no front da mídia
Alberto Dines
Não são aparentadas nem estão vinculadas. A guerra (inevitável)
no Iraque e a guerra (iminente) contra o narcoterrorismo ocorrem em mundos antípodas,
têm dimensões desiguais, são fenômenos díspares,
com motivações diferentes, personagens e armamentos dessemelhantes.
Embora tão discrepantes estas guerras comunicam-se através dos
meios de comunicação. Nivelam-se enquanto fatos que precisam ser
expostos, explicados, entendidos. Ambas engasgam narradores despreparados, simplificam
a narrativa e convertem a crônica diária da vida numa interminável
sucessão de miudezas.
A questão do Iraque foi erroneamente conduzida e reduzida pela mídia
(nacional e internacional) ao confronto Bush vs. Paz. Isto ficou visível
novamente nas passeatas do último final de semana nos quatro cantos do
mundo. Mas quem é a favor da Paz não pode militar em favor de
um dos antagonistas porque, neste caso, a paz seria apenas uma forma mascarada
de alinhar-se.
A paz é necessariamente neutra, abdicação do recurso bélico,
eqüidistância da idéia do confronto, qualquer confronto. Assim
foi em 1914-1918, assim deve ser agora. Se o pacifista consegue enxergar os
dois contendores como representações de algo que ele recusa, então
é efetiva e convictamente um pacifista. E o pacifista é aquele
homem que resiste a todas as persuasões, fiel à sua consciência.
Se um adversário é apresentado como o mal absoluto e o outro
como mal menor, o pacifista deixou de ser pacifista – tomou partido, aderiu,
engajou-se, quer apertar um gatilho.
Cinco séculos
A mídia não conseguiu explicar aos pacifistas o que é
o pacifismo. Perdeu uma chance de ouro oferecer o sentido das coisas. Também
não conseguiu oferecer aos leitores e telespectadores uma alternativa
real à guerra. Esta alternativa teria que considerar Saddam Hussein como
uma espécie de Slobodan Milosevic que precisa ser controlado, neutralizado
e, eventualmente, julgado por organismos e tribunais internacionais.
Se, desde o início, a mídia conseguisse mostrar que ser contra
a guerra não significa ser a favor da Saddam as coisas poderiam ter-se
encaminhado em outra direção. A oposição à
guerra, compreende oposição a toda sorte de violências,
inclusive oposição às ditaduras. O povo iraquiano precisa
ser protegido das bombas, inteligentes ou não, mas precisa também
ser protegido da estupidez do clã de Saddam. Isto não tem sido
proclamado como deveria.
Se desde o início a questão fosse colocada como um conflito entre
o unilateralismo de Bush e o multilateralismo da comunidade internacional, a
França de Chirac não conseguiria fingir-se de boa-moça
como está acontecendo e, há muito, já estaria pressionando
a favor de uma ação pacífica da ONU.
Não se pode falar em paz no Iraque sem mencionar os curdos. Não
adianta lembrar como Saddam matou dezenas de milhares de curdos iraquianos se
os outros curdos – os iranianos, sírios e turcos – ficarem esquecidos
no limbo. Uma ação internacional a favor de algum tipo de autonomia
para o Curdistão servirá de advertência à Turquia
de que a sua candidatura à União Européia é incompatível
com a repressão à minoria curda.
A humanidade nunca foi tão informada e nunca esteve tão desinformada.
Pela simples razão de que a mídia impressa – aquela que explica,
baliza, relaciona e interpreta – está mimetizando a mídia eletrônica,
fascinada pelos impactos, sínteses, imagens, espetáculo. Os grandes
ensaios são geralmente chatíssimos simplesmente porque os jornalistas
– com raras exceções – não se sentem seguros no terreno
das referências, preferem transitar na esfera das evidências, enquanto
historiadores e "cientistas" são geralmente incapazes de funcionar como
efetivos narradores.
O encontro do último domingo (16/3) nos Açores dá uma
dimensão da falta de dimensão do noticiário. A Espanha
de José Maria Aznar dominou o mundo no fim do século 16 ao 17.
A Inglaterra de Tony Blair dominou o mundo no século 18 e 19 (até
o comecinho do 20). E os EUA de Bush dominam o mundo ao longo do século
20 até o 21. Portugal, o anfitrião, foi sombra da Espanha e da
Inglaterra.
Aula viva de cinco séculos de história, cúpula das hegemonias
passadas, clube exclusivo de fantasmas, objeto de desejo dos tiranos autônomos
(Bonaparte, Hitler e Stalin). Se o noticiário internacional da grande
mídia impressa não consegue descortinar panoramas com tais perspectivas
não precisamos perder tempo com a mídia impressa – um talk-show
será mais eficaz.
Distúrbio óptico
A cobertura da nossa guerra contra o narcoterrorismo também foi caracterizada
pela visão fragmentada, simplificada e autarquizada. A começar
pela identificação do adversário (narcoterrorismo) que
poucos tiveram a ousadia de utilizar nas últimas semanas. E não
o utilizaram por engajamento político com medo de estender às
FARC da Colômbia a classificação de grupo terrorista.
Editores e editorialistas estão examinando a violência no Rio
dentro da galeria dos grandes bandidos. Só agora – com o editorial de
1ª página do Globo no sábado, 15/3, servindo de marco –
nota-se na imprensa brasileira um olhar mais alargado e mais amplo para a onda
de violência. A questão transcende ao facínora Luís
Fernando da Costa, transcende à incompetência e à demagogia
do casal de governadores do Estado do Rio, transcende ao próprio Rio
de Janeiro.
O narcoterrorismo não cabe na pasta da Justiça nem do sistema
penitenciário, não pode ser enfrentado com a simbologia da presença
das forças armadas nas ruas do Rio. Tem a ver com a defesa do Estado
brasileiro e suas instituições. Implica alterações
do Judiciário capazes de coibir a cumplicidade de juízes, implica
agilizar as Corregedorias e Comissões de Ética da Câmara
e do Senado de modo interromper o conluio do Legislativo com o crime.
A sociedade brasileira não pode ser ludibriada com a impressão
de que a taxa de juros é a Inimiga nº 1 e o ministro Graziano, porque
ainda não emplacou o Fome Zero, precisa ser afastado. O elaborado edifício
da credibilidade fiscal pode desabar no exato momento em que os investidores
perceberem que o governo é capaz de manter o superávit primário
mas foi incapaz de suprir o déficit de determinação para
enfrentar o narcoterrorismo.
Nossa mídia sofre de um grave distúrbio óptico: não
sabe enxergar a dimensão dos fenômenos que cobre. É frustrante
para cidadania, privada de participar da história. É dramático
para aqueles que precisam da mídia para tomar suas decisões.
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