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O recuo do bode
Lições do caso Los Angeles Times
Depois de seis semanas de investigação, o jornal Los Angeles Times publicou em 20/12/99 uma auto-análise de 14 páginas em que examina os termos do acordo, firmado em outubro passado, que dividiu os lucros da revista dominical do jornal com seu assunto único, o centro esportivo Staples Center.
A decisão de realizar a investigação, tomada depois que a divisão dos lucros foi revelada por outros órgãos de imprensa e que o assunto despontou como escândalo de violação ética no jornalismo, foi a saída encontrada pelos executivos da empresa editora para recuperar a credibilidade do jornal.
O repórter David Shaw, crítico de mídia do Los Angeles Times e vencedor do prêmio Pulitzer, foi escolhido para apuração e redação das matérias. George Cotliar, ex-editor administrativo do jornal aposentado em 1997, foi apontado para editar o material na tentativa de torná-lo independente e livre de influências da direção.
De acordo com o jornal, ninguém teve acesso ao conteúdo das matérias antes de serem publicadas, exceção feita somente a funcionários responsáveis pela produção do jornal escolhidos pessoalmente por Shaw e Cotliar. Nem mesmo o editor do jornal, Michael Parks, a publisher Kathryn Downing ou o diretor-executivo (CEO) Mark Willes, executivos intensamente criticados pela imprensa por decidirem aproximar o departamento comercial da redação, leram as histórias antes de sua publicação.
Pedido de desculpas
"A credibilidade do Los Angeles Times é de extrema importância - para nós e para você." Assim começa o pedido de desculpas estampado na primeira página do jornal de domingo (19/12/99) do Los Angeles Times, um dia antes da publicação das matérias de Shaw sobre o acordo com o Staples Center.
Assinado pela publisher Downing e pelo editor Parks, o pedido de desculpas veio acompanhado dos "Princípios do Los Angeles Times", espécie de código de conduta que expõe os compromissos, missões e obrigações do jornal. Desta vez, claro, com os interesses dos leitores em primeiro lugar. Ambos os documentos estão abaixo traduzidos na íntegra.
O pedido de desculpas afirma que a divisão dos lucros com o Staples Center "foi um erro". Os documentos prometem ainda que, quando a linha editorial e os interesses comerciais entrarem novamente em conflito, a integridade editorial falará mais alto.
Downing, que assumiu o posto de publisher em 1998 sem possuir nenhuma experiência prévia em jornais, foi quem firmou o acordo com o Staples Center. Parks, que por sua vez soube da tramóia a tempo, não impediu a distribuição da revista domincal encartada no jornal.
Em 10 de outubro, o Los Angeles Times publicou uma edição especial de sua revista totalmente dedicada ao centro esportivo Staples Center. Que o jornal é sócio e fundador do Staples todos sabiam, mas que os lucros da edição seriam divididos só foi descoberto pela imprensa três semanas mais tarde. O centro esportivo fez com que alguns de seus fornecedores anunciassem na revista, conseguindo uma renda de 2 milhões de dólares para a edição.
Assim que o acordo foi revelado, membros da redação iniciaram um protesto que obrigou Downing a pedir desculpas à equipe. O caso também causou discussões na imprensa sobre a distância que o departamento comercial deveria tomar da produção de notícias. Este Observatório vem acompanhando o caso desde o início [ veja remissões abaixo].
Jornais e negócios
As 14 páginas que resultaram da investigação de David Shaw criticam frontalmente a divisão dos lucros e seus responsáveis diretos. Mark Willes, diretor-executivo que sempre propôs a aproximação do departamento comercial da redação, e Kathryn Downing, publisher que assinou o acordo, são acusados de não saberem lidar com negócios em jornais e de sobreporem seus interesses comerciais aos editoriais.
"Eles [Willes e Downing] não tinham nenhuma experiência em jornais. Eles pensavam que poderiam dirigir um jornal sem saber nada sobre as tradições do negócio jornalístico. Willes freqüentemente dizia: ‘Negócios são negócios’. Ele não percebeu que jornais são diferentes", declarou Bill Isinger a David Shaw. Isinger trabalhou no Los Angeles Times por 23 anos, sete dos quais em postos da diretoria, e deixou o jornal seis meses depois que Downing assumiu.
De acordo com Shaw, os jornais são certamente "um negócio bem diferente". Ao contrário dos negócios tradicionais, nos quais todos trabalham juntos para melhorar o desempenho comercial da empresa, no caso dos jornais muitas vezes o departamento editorial trabalha em desacordo com o comercial, desgastando ou rompendo acordos lucrativos firmados com anunciantes.
"Na verdade, essa é a característica que mais distingue os jornais de qualquer outro negócio - sua prontidão (e muitas vezes obrigação) de morder a mão daqueles que os alimentam", escreveu Shaw.
A pesquisa investigativa de Sahw remonta ao final de 1998, quando o Los Angeles Times decidiu ser sócio-fundador do Staples Center. De acordo com o repórter, uma das cláusulas do contrato já previa a veiculação de um suplemento ou seção no Los Angeles Times com divisão de lucros com o Staples Center. "[O Staples Center] concorda em cooperar no desenvolvimento e implantação de oportunidades de renda conjunta (...) (ex. uma seção especial no Los Angeles Times ligada com a inauguração do centro esportivo, ou uma edição especial comemorativa)."
Além do centro esportivo ter recebido parte dos lucros da edição da revista dominical, Shaw apurou que o Staples colaborou na venda de anúncios. Dos seus dez sócios-fundadores, nove anunciaram na revista.
"Se o assunto da cobertura editorial em uma revista pede que empresas anunciem nela, isso deixa a impressão de que o assunto tem alguns interesses comerciais na revista ou alguma influência sobre seu conteúdo - ou, no pior das hipóteses, que o assunto tem certeza de que a cobertura da revista será lisonjeira", escreveu Shaw.
Separação saudável
Três semanas depois da publicação da revista, Felicity Barringer, repórter de mídia do New York Times, apurou o caso da divisão de lucros e a manchete foi dada na primeira página da seção de negócios do diário novaiorquino: "Revista de jornal divide seus lucros com tema da matéria".
A redação do Los Angeles Times se rebelou, os órgãos de imprensa iniciaram suas investigações e novamente despontou a discussão ética sobre a separação entre o departamento comercial e o editorial. E mais: a credibilidade do Los Angeles Times passou a ser duramente questionada.
Downing pediu desculpas pessoalmente à redação e Parks afirmou a Shaw que o acordo foi um erro. "Certamente eu subestimei o impacto do acordo com o Staples na nossa credibilidade, na ética jornalística que alimentamos, no nosso comprometimento com a comunidade e com a profissão, e, por todas essas coisas, eu me arrependo profundamente."
O jornal inicia agora a reconstrução de sua parede virtual, algo que torne o departamento de notícias independente do comercial. Além do pedido de desculpas publicado na primeira página e o código de conduta, Downing pediu para que Julie Xanders, vice-presidente sênior, revisasse todos os contratos do jornal.
Como Xanders encontrou vários problemas em potencial, Downing ordenou que esses contratos fossem modificados - o que custará 208 mil dólares ao jornal. Los Angeles Times está também esclarecendo acordos que contenham linguagem ambígua sobre as obrigações de publicar seções especiais.
Menos mau.
Aos nossos leitores (*)
Kathryn M. Downing, publisher
e Michael Parks, editor
A credibilidade do Los Angeles Times é de extrema importância - para nós e para você. Recentemente, nossa integridade jornalística ficou sob suspeita. Em outubro, publicamos uma edição da Los Angeles Times Magazine dedicada à inauguração do Staples Center. Como nossas reportagens mostraram, The Times é patrocinador e fundador do Staples, mas nós não revelamos à nossa redação ou a vocês, nossos leitores, que compartilhamos os lucros desta edição da revista com o Staples. Isto foi um erro.
Como resultado, estamos revisando extensivamente nossas políticas, práticas e acordos de negócios. Encontramos um punhado de situações que não condizem com independência jornalística, e nós as estamos corrigindo.
Nós estamos tomando também os seguintes passos para assegurar que o jornal que você lê todas as manhãs seja merecedor de sua confiança:
Primeiro, escrevemos nossos princípios de integridade editorial. Acreditamos que seja muito importante compartilhar isso com você, e eles estão logo abaixo.
Segundo, solicitamos a David Shaw, nosso repórter de mídia e vencedor do prêmio Pulitzer, que se encarregue de realizar uma análise completa e independente desse assunto. Publicaremos seu relatório na segunda-feira [20/12/99]. Acreditamos que devemos ser capazes de acender uma luz brilhante sob nós mesmos como fazemos com os outros. George Cotliar, editor-administrativo aposentado do Los Angeles Times, está editando a história.
Terceiro, estamos desenvolvendo diretrizes para implementar esses princípios e assegurar que nossas ações sejam governadas todos os dias por nosso comprometimento com a independência e a integridade editorial. Estamos revisando também nossos códigos de ética e implementando uma nova política para corrigir os erros que apareceram no jornal.
Todos nós do Los Angeles Times devemos, e iremos, continuar a trabalhar juntos para melhorar este grande jornal para vocês, nossos leitores. Nós damos boas-vindas aos seus comentários.
Os princípios do
Los Angeles Times (*)
"Nosso compromisso com os leitores é publicar um dos melhores jornais do mundo. Nossa missão é fornecer notícias, informações, análises e comentários que eles precisam para levar vidas bem sucedidas e para serem cidadãos efetivos de uma democracia.
Nossa obrigação está com a verdade. Nós nos comprometemos em buscar e reportar a verdade com honestidade, precisão, justiça e coragem. Ao buscar a verdade e ao compartilhar a compreensão dos fatos, nós nos esforçaremos para a melhoria da sociedade.
Nós não mostraremos nenhum favoritismo. Nossa redação operará livre de influências de funcionários de instituições públicas e privadas, políticos e anunciantes.
Nós acreditamos que a excelência jornalística é o alicerce mais eficiente para o nosso sucesso e que a integridade editorial do Los Angeles Times é seu recurso mais precioso. Para isso, nós seremos vigilante conosco mesmos e abertos com nossos leitores.
Nós lidaremos com as pessoas de maneira justa e compassivamente.
Nós permaneceremos livres de associações ou atividades que possam comprometer nossa integridade ou causar danos à nossa credibilidade. Evitaremos conflitos de interesse. Revelaremos as associações e atividades com as quais nós nos envolvemos.
Se a missão editorial e os interesses comerciais do The Times entrarem em conflito, a integridade editorial sempre virá primeiro. Esse princípio se aplica a tudo que é publicado ou produzido pelo The Times, inclusive o jornal e seus websites.
Esses princípios devem ser defendidos não só pelo nosso publisher e editor, mas todos os membro de nossa equipe. Quando nós voltarmos ao trabalho, colocaremos os interesses de nossos leitores primeiro."
(*) Copyright Los Angeles Times, 19/12/99
Felicity Barringer
The New York Times
"Após a rebelião da redação do Los Angeles Times, provocada pela descoberta de um acordo de partilha de lucros estabelecido com o estádio esportivo Staples Center, Michael Parks, editor do jornal, outorgou a responsabilidade pelas atividades do jornal no dia-a-dia a um dos críticos do acordo: Leo Wolinsky, um dos quatro editores-administrativos, que foi promovido a editor-executivo. A promoção foi recebida com aplausos ao ser anunciada na sexta-feira, conforme relato de Henry Weinstein, um dos repórteres do Times. O jornal divulgou uma nota informando que Wolinsky terá responsabilidade total pelas operações da redação.
Durante entrevista telefônica, Wolinsky esclareceu que a mudança foi ‘o resultado da reflexão de Michael após o incidente relacionado com o estádio Staples’. E acrescentou: ‘Não foi só pelo Staples. É a estimativa dele a respeito de tudo o que vimos desde aquela época e do que há de errado com o sistema.’ A revelação do acordo incomum de partilhar com o Staples Center os lucros de uma edição especial - dedicada à inauguração do estádio - da revista Sunday, pertencente ao jornal, enfureceu a redação do Times.
A causa da fúria foi resumida por John Morton, analista da indústria. Morton escreveu, recentemente, que o acordo violou duas ‘normas de ouro’ do jornal: 1ª) a de que ‘os leitores sempre deveriam saber o que está à venda e o que não está à venda no jornal’; 2ª) que ‘um jornal jamais deve ter interesse econômico, político, ou qualquer outro interesse em empresas ou instituições que estejam sujeitas à cobertura jornalística’."
"Editor que criticou direção do L.A. Times é promovido", copyright O Estado de S. Paulo, 11/1/00
Max Frankel
The New York Times
"Este Século da Informação começou com uma metáfora digna de nota. O homem que ostensivamente rompeu o muro entre o noticiário e o comércio num dos melhores jornais dos Estados Unidos pode ser visto agora percorrendo os destroços em busca de tijolos com que possa consertar parte do dano por ele causado.
O homem é Mark Willes, chairman do Times Mirror, cujo produto mais valioso é Los Angeles Times. Sua equipe de demolição quase foi esmagada pelo desabamento do muro, motivo pelo qual Willes bateu em retirada, atendendo aos protestos da redação que ele costumava menosprezar.
Mas Mark Willes é apenas um símbolo - e talvez até uma vítima - do misto de medo e ambição que em anos recentes levou muitos administradores de empresas de mídia a pôr os acionistas acima dos leitores ou dos ouvintes. Ao dar prioridade ao valor das ações e às margens de lucro, eles ignoraram suas obrigações com o público. Na verdade, até se mostraram ignorantes ou desdenhosos dos padrões éticos, longa e cuidadosamente criados para proteger a credibilidade do noticiário.
Essa negligência assumiu formas diferentes nos diferentes meios de comunicação. Os noticiários de televisão, por exemplo, agora promovem despudoradamente filmes, esportes e outros produtos de empresas do grupo. Da mesma forma, muitas revistas promovem rotineiramente os produtos de seus anunciantes e de celebridades cujas entrevistas e imagens elas tanto desejam. Essas revistas também admitem livremente anúncios - chamados advertorials - que contêm matéria paga disfarçada de jornalismo, enquanto certas empresas divulgam promoções disfarçadas de revistas.
Muitos jornais já não distinguem a linha divisória entre noticiário e comércio. Aceitam ou criam seções especiais que garantem aos anunciantes um ‘ambiente’ amigável. Sob o manto da boa cidadania, alguns até colaboram para promoções e atividades comunitárias dos mesmos políticos e homens de negócios a quem dão, segundo afirmam, cobertura noticiosa imparcial. E a maioria das empresas de mídia mal começou a enfrentar os dilemas éticos expostos por seus novos sites na Web: como isolar seus serviços de informações do merchandising e propaganda on-line que estão em todos os recantos de qualquer site?
A tendência de empresas de mídia de misturar sua missão editorial com a função comercial já era bem evidente quando Willes foi recrutado no ramo de alimentos empacotados cinco anos atrás para reverter o destino econômico de Los Angeles Times. Mas ele decidiu tornar-se a encarnação da tendência ruidosamente zombando da idéia de que repórteres e editores precisam ficar isolados dos planos e pressões comerciais. Jurou que ‘usaria uma bazuca, se necessário’, para explodir o muro que a maioria dos bons jornais tenta manter entre a redação e o departamento comercial.
Para consternação geral dos jornalistas, Willes mandou que todo o jornal colaborasse para um projeto de estratégias empresariais. Queria envolver no planejamento não só os principais editores e executivos, mas também suas equipes, com pessoal subordinado. Forçou diferentes editorias e seções a desenvolver planos de negócios próprios. Pediu que repórteres e editores apresentassem idéias para aumentar a venda de jornais e anúncios, e esperava que o pessoal do departamento comercial inundasse a redação com lucrativas idéias para cobertura noticiosa.
O tempo todo Willes insistiu em que seus repórteres e editores estariam encarregados de proteger a integridade de seu trabalho e de opor-lhe resistência quando necessário. E, de fato, ninguém até agora julga que a cobertura noticiosa de seu jornal tenha sido seriamente afetada. Mas atalhos foram tomados, alguns negócios altamente duvidosos foram sondados e os trabalhadores do lado comercial se sentiram cada vez mais no direito de espiar o trabalho de seus ‘primos’ jornalistas. A crescente ousadia de uma equipe e a fervilhante ansiedade da outra fatalmente colidiriam; e três meses atrás isso aconteceu, com um estrondo.
De repente se revelou que o Times era sócio secreto do Staples Center, um novo estádio esportivo. Que havia concordado em dividir os lucros de uma edição de sua revista dominical dedicada inteiramente a uma favorável cobertura do projeto. Com efeito, o Staples Center incentivou seus empreiteiros e patronos a anunciar na revista, o que um jornal independente poderia bem ter posto em questão como sendo um esquema de propinas.
Para seu mérito, o pessoal da redação rebelou-se, furioso, e exigiu uma investigação. Para o mérito da direção, subseqüentemente foi publicado relatório de 30 mil palavras sobre o caso, de autoria de David Shaw, o crítico de mídia do jornal. Ele narrou sobre a preocupação produzida pela demolição do muro e a descoberta de planos para outros negócios duvidosos. Acusou Willes e a editora Kathryn Downing, por negligenciar os padrões jornalísticos elementares, e o diretor de redação, Michael Parks, por não defender tais padrões a contento.
O clamor da redação resultou em novas diretrizes vagas, mas não num projeto para criar um muro sólido. Willes praticamente confessou que podia ter seguido o conselho de William F. Thomas, ex-diretor de redação do Times, que dissera: ‘Quando for derrubar um muro é melhor entender antes por que ele está ali.’
Um muro é necessário para isolar a coleta de notícias, que deve ser um desinteressado serviço público, da busca do lucro, o que é necessário para garantir a independência do negócio. Em outras palavras, o jornalismo é um empreendimento caro e paradoxal: só consegue florescer quando dá lucro, mas fica muito suspeito quando busca o lucro a qualquer preço.
Os consumidores de notícias endossam essa proposição sempre que se queixam de que uma notícia foi formatada ‘só para vender mais jornais’, ou ‘elevar os índices’, ou atrair um anunciante. Eles querem que a notícia não seja maculada por motivações comerciais, mesmo sendo influenciados por anúncios que a cercam e subsidiam. E só se pode aproximar desse ideal de pureza se os apuradores de notícias e os exploradores de lucros numa empresa de mídia estiverem amuralhados, em separados domínios.
Como vizinhos prudentes, os chefes dessas equipes bem diferentes têm de entender-se por cima do muro para que os interesses de ambos possam ser equacionados. Seus subordinados, porém, não têm de preocupar-se com lucros quando vão atrás das notícias, tampouco devem manipulá-las pensando em lucros. Mark Willes pode não gostar daquela parede bem no meio de sua sala, mas sua atitude ao demoli-la só serviu para confirmar a perenidade de seu valor."
"Um muro entre a notícia e o comércio", copyright O Estado de S.Paulo, 16/1/00
MUNDIAL INTERCLUBES
Quosque tandem, TV Globo?
Juca Kfouri
Durante os seis anos em que trabalhei na TV Globo (1988 a 1994), uma irritação permanente que se percebia na emissora era até compreensível: "Nós não queremos pautar os jornais e revistas e os jornais e revistas querem nos pautar", dizia-se.
E era quase verdade, mesmo. O quase fica por conta de que o papel do crítico de imprensa ser inevitavelmente o de olhar muito mais para os líderes que para os menores - razão pela qual veículos como a Folha de S.Paulo e a Veja, por exemplo, também vivem sendo "pautados" pela crítica.
Mas a TV Globo sabe melhor do que ninguém quais são seus verdadeiros pecados, aqueles que independem de uma visão editorial diferente desse ou daquele jornalista. Por exemplo, para ficar só em dois episódios famosos: o ocultamento da campanha pelas "Diretas-Já" (1982) e a edição do debate Collor/Lula (1989).
Não há mãos invisíveis e nem jornalistas "com mais poder que os donos", como disse FHC ao cabo da leitura de Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti. Há sim, interesses da empresa. Não interessava à TV Globo jogar água no moinho das "Diretas Já" e o próprio jornalista Roberto Marinho reconheceu, em entrevista dada em Paris, que havia sido responsável pela eleição de Fernando Collor, não deixando dúvida sobre a responsabilidade maior no tom da cobertura daquela campanha, algo que o livro de Conti minimiza de maneira surpreendente.
No Brasil é ainda impensável que ocorra o que acaba de acontecer no Los Angeles Times, também tema de análise desta edição do Observatório [veja remissões abaixo].
E foi só pelos interesses da empresa (leia-se, aqui, audiência pura e simplesmente) que o primeiro Campeonato Mundial de Clubes da Fifa acabou escondido na TV Globo, que evitou tratar da competição no começo, dobrou-se de certa forma aqui e ali em pequenas referências à medida que Corinthians e Vasco foram ganhando, mas insistiu em chamar de "Torneio Internacional da Fifa", como se esvaziasse assim a importância de um evento exclusivo da Band na TV aberta.
O mais curioso, e auspicioso, é que todos os outros veículos das Organizações Globo, os jornais e as emissoras de rádio, trataram o campeonato como Mundial mesmo e com o devido destaque - e disso sou testemunha como comentarista da CBN.
Para não falar nas transmissões e na cobertura da Sportv, braço esportivo da Globo na TV por assinatura, que tem o Mundial como exclusividade sua na TV fechada.
Que fica mal para a TV Globo, fica, é óbvio, porque o jornalismo de uma TV não deveria ser tratado como parte do entretenimento mas, aqui, é assim que ainda funciona: "Não vamos encher a bola de um evento da concorrência e ponto final."
Até quando?, eis a questão.
Nota da Redação: No programa Observatório da Imprensa do dia 18/1 foi veiculado um longo depoimento do jornalista Juca Kfouri gravado no dia 3/12/99, no estádio do Pacaembu. Foram citados alguns casos de empresas e jornalistas envolvidos com promoções e negócios esportivos. Obviamente não poderíamos tratar do Campeonato Mundial de Clubes promovido pela FIFA nem do descaso do Grupo Globo em cobri-lo, porque o evento ainda não acontecera. Razão pela qual convidamos Juca Kfouri a escrever a nota acima e completar seu raciocínio à luz dos novos fatos. Um compacto do programa pode ser visto clicando o botão Observatório na TV, na página principal desta edição. A.D.
Os trabalhos de Hércules
Luiz Carlos Pires (*)
O Oráculo de Apollo - e não o Eurico Miranda - foi quem sugeriu a Hércules submeter-se durante dozes anos aos caprichos do rei Eristeus, cumprindo os dozes trabalhos que haveriam de dar-lhe à redenção por ter assassinado numa crise de loucura os filhos de Mégara, filha de Creonte, o rei de Tebas.
Hera, que não era uma erva e sim uma mulher com ciúme de Mégara, foi quem enlouqueceu Hércules para cometer a tragédia.
Reflete o dramaturgo Eurípedes (480 ? - 406 a.C.) que Hércules poderia até alcançar a redenção, mas jamais apagaria de sua mente a cena terrível dos jovens queimados e caídos no chão.
No pensamento da Grecia Antiga, o berço da nossa civilização, onde também haviam vários deuses, semi-deuses, mortais e competições, todo herói tinha de purificar-se no sofrimento até que sua alma fosse libertada de todas as paixões e, em alguns casos, recebesse também a sabedoria.
Guardadas as devidas proporções, o herói vascaíno Edmundo, após uma campanha de mais de doze partidas, era total desalento ao perder o penalti diante do gigante Dida, que costuma lançar seu olhar de Medusa pretrificante segundos antes de receber a lança de uma penalidade máxima.
Na lenda grega, a caminho do décimo segundo trabalho, Hércules, alertado por Mercúrio, não cruza seu olhar com Medusa e consegue no final uma certa paz após cumprir suas doze tarefas, sobrevivendo aos deuses e aos oráculos.
Nos dias de hoje, os mitos apenas se sofisticaram, deuses e semi-deuses são mídia e business e os oráculos são aqueles que elaboram as tramas, os campeonatos e a atmosfera por onde circulam os heróis e a nossa própria maneira de ser.
Em seu último trabalho, Hércules consegue colher os pomos de ouro enganando o gigante Atlas que continua carregando o Mundo nas Costas. Como não vivemos só de mitos, tomara que o herói vascaíno supere os monstros deste mundo e os que possam habitar sua mente e siga em frente sem olhar no olho da Medusa.
Imprensa faz gol contra
Paulo Sérgio Pires (*)
Estou acompanhando o I Campeonato Mundial de Futebol Interclubes pela televisão, e acredito que o evento já é vencedor, mesmo com alguns tradicionais "cronistas esportivos" torcendo contra.
A imprensa esportiva brasileira, carregada de vícios históricos, durante anos insistiu em mencionar apenas um único jogo de campeonato mundial interclubes, o de Tóquio. No exterior, esta partida é conhecida, simplesmente, como Taça Intercontinental, e por lá não tem o mesmo valor e interesse que aqui. A imprensa esportiva canarinha mais uma vez ajudou a edificar um mito, desinformando, distorcendo e supervalorizando um evento, apenas, para que a informação tivesse mais impacto na opinião pública. Ou seja, prevaleceram seus interesses de marketing jornalístico.
A Fifa nunca reconheceu a disputa entre os campeões europeu e sul-americano como "campeonato"; afinal, hoje, há futebol de boa qualidade também na África, no México, no Japão e até nos Estados Unidos, que por sinal são campeões mundiais na categoria feminina. O pior é que alguns clubes embarcaram nesta grande mentira e até estampam orgulhosos um punhado de estrelas douradas alusivas sobre seus históricos distintivos.
E agora, o que fazer? Qual será o verdadeiro campeão mundial? E a Copa Toyota, de Tóquio, deixa de ser campeonato mundial ou nunca foi? Realmente, futebol é uma caixinha de surpresas, mas em time que ganha tem que se mexer também. A verdade é que a mídia esportiva vive fazendo gol contra mas ninguém gosta de narrar.
(*) Jornalista em São Paulo
CAMPEONATO BRASILEIRO
A vingança da Vênus Platinada
Andreas Adriano (*)
No dia 21 de dezembro um juiz de São Paulo, José Roberto Peiretti de Godoy, deu uma rasteira no poderio da maior rede de TV do país, proibindo que a final do Campeonato Brasileiro, entre Corinthians e Atlético Mineiro, fosse realizada no esdrúxulo (para dizer o mínimo) horário de 16h da quarta-feira, dia 22 de dezembro, atendendo a uma ação da Prefeitura. Foi, talvez, um dos gestos mais sensatos do prefeito Celso Pitta em sua gestão.
Para uma cidade que sobrevive num equilíbrio instável e muito delicado, um cone de ponta para baixo que cai ao menor sopro, um jogo de futebol no meio da tarde seria o equivalente ao estouro de uma boiada. O simples fato de ser antevéspera da véspera de Natal e, para muitos, início de feriado, já foi o suficiente para deixar o trânsito da cidade caótico (como, de resto, acontece todos os anos). Um jogo de futebol à tarde só tornaria a confusão ainda mais inadministrável (e a forte possibilidade de uma vitória do time paulista, que de fato aconteceu, seria apenas um agravante). Quem mora em São Paulo sabe.
Acontece que a Rede Globo já havia negociado a transmissão da partida para diversos países europeus e, como era de se esperar, colocou seus interesses comerciais muito acima do bem-estar da população paulistana e da comodidade dos brasileiros em geral. Além de contra-atacar no campo jurídico, apelou para um golpe baixo jornalístico: colocou no ar, no telejornal local da mesma quarta-feira do dia da decisão, uma matéria completamente tendenciosa, tentando defender no horário jornalístico seus caprichos comerciais. Isso enquanto seu recurso estava sendo julgado no tribunal.
Prefeitura ignorada
O advogado da CBF (Confederação Brasileira de Futebol)
deu seu testemunho defendendo a posição da entidade
- e por tabela, da emissora -, bem como o presidente do chamado
Clube dos 13, que reúne os maiores times de futebol, além
de Eurico Miranda, vice-presidente do Vasco da Gama, do Rio, cuja
presença naquele contexto foi no mínimo estapafúrdia
(outro tempero na história: o Corinthians e o Flamengo, os
dois times de maior torcida do país, e o Cruzeiro ainda não
negociaram os direitos de transmissão de seus jogos com a
Globo. Querem uma negociação separada do Clube dos
13. Para a Globo é, evidentemente, uma tremenda desvantagem).
A maioria da população trabalha de dia, e não
de noite, e por isso os poucos torcedores que perderiam o jogo à
tarde são uma raquítica minoria perto daqueles que,
à tarde, ou não poderiam assistir à partida
(ao vivo ou pela TV) ou tentariam cabular o trabalho para fazê-lo.
Mas, tendenciosamente, a minoria ganhou espaço, com direito
a imagens e entrevistas.
Escárnio com o país
E, se para os corintianos campeões tudo aparentemente estava bem, se alguém tivesse perguntado ao resto dos paulistanos a resposta seria certamente outra. Todo morador da cidade sabe que qualquer jogo de futebol traz grandes transtornos. Que dirá uma final de campeonato em que o time da cidade poderia sagrar-se campeão. Bastava ver as matérias sobre o day after da decisão no ano anterior.
Mas a gritaria da emissora foi em vão. A liminar da Prefeitura foi mantida, e o horário do jogo aconteceu mesmo após 21h. A matéria foi um escárnio, e resultou um tiro no pé para quem, como a Globo, quer consolidar sua imagem entre o público de São Paulo (onde, é bom lembrar, são feitas as medições do Ibope). Os últimos lançamentos da emissora mostram a disposição de conquistar o público da maior cidade do país: tanto a novela das 19h quanto a das 20h30 tem a capital como cenário, e temas com forte apelo entre os paulistanos. Sem falar na minissérie A muralha, lançada no dia 4/1, que trata dos bandeirantes que fundaram São Paulo, e cujo investimento foi tão grande que teve direito a making ofs diários no telejornal local durante as últimas semanas do ano.
Tratar produtos dramatúrgicos como notícia não deixa de ser uma interferência do departamento comercial no jornalismo. Mas é uma ingerência inócua, que acontece desde sempre, e que deve ser praticada em qualquer emissora do mundo.
Agora, bem diferente é manipular fatos em benefício próprio, e colocar mentiras no telejornal. A Globo já manipula a seu bel-prazer o calendário do futebol brasileiro. Tanto que, em 1998, a final do Brasileiro foi deslocada para a tarde para não atrapalhar um show de fim de ano da emissora, da apresentadora Xuxa. O que não deixa de ser também um escárnio com o país todo. Em 1999, sequer havia uma atração "especial" programada. Embora seja difícil imaginar uma atração mais "especial" do que a final do campeonato mais importante do esporte mais popular do país.
Xuxa versus futebol
Para a Globo, no entanto, nada disso é importante. Só os seus interesses é que contam, e a emissora mostrou ser capaz de pôr todos os recursos a serviço de suas conveniências, inclusive aquele que deveria ser o mais isento, e que nos últimos anos estava, com efeito, conseguindo distanciar-se dos interesses políticos e comerciais da empresa - o departamento de jornalismo.
Felizmente, um juiz de São Paulo mostrou que não é bem assim. A rusga Pitta x Globo teve outros desdobramentos, com a Prefeitura tentando proibir outras atrações da emissora, como shows de fim de ano e missas do padre-popstar Marcelo Rossi. A Globo acabou levando a cabo as atrações programadas, e pôs no ar na segunda-feira, dia 3, sempre no telejornal local, um editorial disfarçado de matéria desancando o prefeito.
Mas isso são questiúnculas. A vitória do dia 22 de dezembro é que importa. pois ganharam aqueles que prezam o bem-estar de uma cidade tão sofrida e conturbada quanto São Paulo. A "Vênus Platinada" teve que engolir essa.
(*) Jornalista em São Paulo
JORNALISMO REGIONAL
Omissão no Espírito Santo
Victor Gentilli
É de chamar a atenção a discrição - ou seria omissão? - com que a imprensa capixaba trata a crise no Ministério da Defesa e os trabalhos da CPI do Narcotráfico no Espírito Santo.
Um episódio: há várias versões - todas conflitantes - sobre o telefonema dado pelo advogado Dório Antunes ao procurador Ronaldo Albo informando que o delegado Vicente Badenes estaria jurado de morte. IstoÉ deu com destaque e outros jornais de forma mais discreta. Cada um optou por sua versão. Os leitores capixabas - com a honrosa exceção dos ouvintes da CBN - desconhecem todas.
Os leitores dos jornais do Espírito Santo deveriam ir ao Procon pegar seu dinheiro de volta. Compram informação, mas não recebem nada.
Enquanto o noticiário some, a publicidade aparece. Os jornais e TVs locais aceitam sem pestanejar os anúncios do Super Bingão Real que, segundo se apura, tem fortes vinculações com o crime organizado. Mas isso, infelizmente, não é novidade. Quando todos já cantavam a bola do que estava por vir, a mídia capixaba aceitava de bom grado os anúncios da Encol pagos com carros, telefones, qualquer coisa...
O Conar não cuida disso. Os jornais deviam levar mais a sério a co-responsabilidade que assumem ao veicular certos anúncios.
CARTAS
Narração parcial
Deixo aqui minha crítica à transmissão pelos canais Globo e Bandeirantes nos últimos três jogos do Campeonato Brasileiro. Exibindo um péssimo trabalho, tanto Galvão Bueno quanto Luciano do Vale descaradamente narravam o jogo como se existisse apenas o time paulista em campo. Todas as análises eram feitas tendo-se em vista a melhoria do Corinthians, o bloqueio que não estava sendo feito ao ataque atleticano, a liberdade excessiva que a zaga do time de São Paulo dava ao time mineiro.
A narração de um jogo deste porte deveria ser imparcial. Como os amigos acham que um torcedor mineiro se sente assistindo a tal transmissão? O mesmo ocorreu ano passado, com Corinthians e Cruzeiro.
Sorte existir o Sportv, no qual pude assistir aos minutos finais com uma lição de imparcialidade do narrador e do comentarista, dos quais não me recordo o nome. Como narradores, Galvão e Luciano são péssimos jornalistas.
Em tempo: Não sou atleticano, muito menos cruzeirense. Apenas mineiro.
Eduardo Alvim
Horários manipulados
Meu nome é Caroline, sou leitora do Observatório da Imprensa, e nesta semana de finalizações no futebol (tanto no Campeonato Brasileiro quanto na seletiva da Libertadores), observei um fato.
A Globo manipulou o horário dos jogos para que não alterasse a sua grade de programação, submetendo os jogadores ao sol escaldante do verão, prejudicando-os fisicamente. Se a Globo consegue manipular organizadores de futebol, o que se dirá do povo, que custa para se unir em ações de protesto e está se acostumando a aceitar tudo "mastigado".
O prefeito Pitta conseguiu na Justiça transferir a partida para a noite, alegando que um jogo à tarde prejudicaria o trânsito, já tumultuado por causa das compras de Natal. Parece que alguém "acordou".
Caroline D. C. Pereira, 16 anos
NÚMERO-NOTÍCIA
Anástrofes, elipses,
parábases e anfóteros
Antonio Fernando Beraldo
Anda tudo muito estranho desde a virada do ano. Veja bem, caro leitor: forçaram a barra numa mudança de século e de milênio que não era (o que será que vão dizer no fim de 2000?); teve besouro do milênio que não teve; não teve show do Roberto Carlos na TV; nas bancas de jornais teve o poster do Fluminense F.C., vencedor da Série C do Campeonato Nacional; dois ex-parlamentares viram o novo ano nascer quadrado; morrem, em seqüência, Blota Jr. e J. Silvestre; por uma dobra do tempo um outro parlamentar pediu o fuzilamento de FHC; dois repórteres foram vítimas da truculência dos gorilas no réivellon do Rio; a tenda do presidente quase cai na sua (dele) imperial cabeça; um ex-presidente sempre general de cavalaria jogou farofa póstuma e sincera na fauna ainda viva et coetera e tal.
Suponhamos que o estimado leitor preze três coisas na vida: cerveja, mulher e seu futebol de fim-de-semana (não necessariamente nesta ordem). E que esteja interessado em saber se as coisas, afinal, estão piorando ou melhorando, para o seu lado.
Ao cair da noite do dia 31 de dezembro de 1999, antes do espoucar do champanhe e dos rojões, retira-se para o seu cantinho, lápis, papel e calculadora na mão, memória e mentalidade contábil a postos, e dedica-se ao cálculo deste seu, digamos, Índice Pessoal de Realização Anual (IPRA). Anota: em 1998, foram consumidas 96 cervejas/mês, foram 4 "namoradas" (ponhamos assim), e 28 gols marcados nas peladas dos sábados. Em 1999, calculamos 108 cervejas/mês, 6 namoradas e 18 gols (maldito joelho!). Bom começo. Falta agora atribuir a importância relativa que você dá a estas três variáveis. Para não complicar, vamos supor que as três "coisas" tenham a mesma "importância", isto é 1/3 (um terço cada "coisa"). Para calcular seu IPRA, você fará a seguinte conta:

Este valor, 1,078, indica que o caro colega melhorou sua "produção" em 7,8%. Parabéns.
Note que não entramos em consideração sobre se a cerveja estava quente, fria ou gelada, e se as moças namoradas valeram a pena ou se foi tudo ilusão. Não consideramos também se alguns gols foram em visível impedimento, ou se outros mereciam uma foto no jornal. Nesta etapa, importa apenas a quantidade, não a qualidade. Outro detalhe: admitimos "pesos" iguais, ou seja, para você, cerveja, mulher e futebol tem o mesmo peso (33%).
É mais ou menos assim essa história de índices. Se você acha que não se deve levar em consideração sua performance desastrosa no esporte bretão, tudo bem - vamos desconsiderá-la, por "atípica". Em economês, você está fazendo um expurgo. Não se envergonhe, isto é prática comum, que já vitimou o chuchu, a mandioca, a melancia e os aluguéis, entre outros. E se você acha que deve ser ressaltada sua competência junto ao sexo oposto, seja feita a sua vontade: passamos a ponderação de namorada para 0,75, e seu IPRA passa para 41%. Feliz?
Nos índices econômicos, a ponderação dos diversos produtos que compõem a "cesta" é determinada por um levantamento chamado POF (Pesquisa de Orçamento Familiar). Alguém vai lá na sua casa e pergunta quantos por cento do seu dinheiro vai todo mês em alimentação, combustível, gás de cozinha, educação, vasos de alabastro, ração para os cisnes etc. Juntando os seus dados com mais um monte de gente de sua mesma faixa de orçamento, os institutos têm uma idéia muito boa do percentual que se gasta, e no que se gasta. Daí é só coletar os preços dos produtos, todos os meses, e montar a série histórica dos índices. Dá um trabalhão, é claro, e a coisa piora quando alguém cisma que as ponderações estão ultrapassadas, que houve uma transferência de gastos de um item para outro, que, enfim, aconteceu uma reacomodação dos pesos devido ao fato de, por exemplo, ninguém mais comer anchovas do Báltico. Então, repete-se todo o processo todo.
Índices e números
Como já é tradição de muitos janeiros, perpassa a mídia a inquietante questão: "Afinal, qual foi a inflação no ano passado?" Se você me perguntar, assumo logo uma pose solene de professor e, com a voz cava, dou a não-resposta mais irritante do mundo: "Depende..." Você pode escolher um índice qualquer - são mais de cem. Temos desde o ICC (Índice da Construção Civil), o dólar (esse não vale), o dólar-poder-de-compra (este não vale, menos ainda), e tem até gente propondo, a sério, como medida básica o preço do Big Mac do McDonald’s. Os mais usados são:
INPC - Índice Nacional de Preços ao Consumidor, do IBGE: mede a evolução do custo de vida em 11 regiões metropolitanas do país, para famílias com renda de 1 a 8 salários mínimos.
IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do IBGE, igual ao INPC, só que para as famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos.
IPC - Índice de Preços ao Consumidor, da Fipe: vale só para São Paulo (o município, não o estado). Custo de vida para famílias de 1 a 20 salários mínimos. O IPC da FGV vale para o Rio e São Paulo.
ICV - Índice de Custo de Vida, do Dieese, parecido com o anterior, famílias com renda média em torno de 20 salários mínimos.
IGP-DI - Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna, da FGV: este é mais complicado, envolve o IPA (Índice de Preços no Atacado), o IPC do Rio e São Paulo, e o ICC, também ponderados.
A diferença entre eles está basicamente na cesta de bens e serviços, na ponderação desta cesta, no universo pesquisado (faixas de renda familiar e local da pesquisa) e, em alguns casos, a data da pesquisa. Daí que você pode se deparar com os valores mais discrepantes, como em julho do ano passado, quando o INPC foi de 0,74% e o IGP-DI foi de mais do que o dobro, 1,58%. Quando chega no final do ano, então, como os índices são acumulados (uma espécie juros sobre juros), a festa é completa. Olha só: em 1999, a inflação foi de 8,94% (IPC-Fipe), 19,98% (IGP-DI-FGV), 28,90% (IPA), e 9,12% (IPC-FGV). Que tal?
E a mídia?
Você já deve ter notado que não dá para comparar um índice com o outro. E que não se pode "adotar" um índice para uma situação para a qual ele não foi idealizado. O IPC da Fipe, por exemplo, se aplica somente a São Paulo. É um dos mais baixos, acredite, embora já chegue aos 80% desde o começo do Plano Real. Como se sabe, no Brasil não existe mais inflação ou, pelo menos, ela não é mais considerada. Neste mesmo período, o aluguel subiu mais de 500%, a gasolina mais de 110%, a conta telefônica subiu 300%. Por que, então, a inflação (que não existe, lembre-se), foi tão inferior? Porque, segundo a Fipe, o pessoal do município de São Paulo só gasta 9% com aluguel, 8,7% com combustível e 3,7% com comunicação. Espera-se que estes índices flutuem este ano, já que a Fipe vai incluir, na cesta de produtos, itens como motel, camisinha, Internet, manutenção de jazigos, e vão diminuir os pesos de alfaiate, tintureiro, cigarros. Espera-se que o bacalhau, também (alta de 61,1%, no Plano Real).
E a mídia, no meio disso tudo? O de sempre, com fritas. Passa ao largo de temas como aplicabilidade dos índices, da discussão dos critérios de ponderação, de expurgos de produtos, que são assuntos sempre discutidos nos ambientes acadêmicos, quando costuma sair faísca. E fica atordoada quando o governo resolve trocar um índice por outro "mais adequado". E queda-se pasma quando é divulgada uma cifra que foi, até para quem não tem conhecimento, obviamente manipulada. Descobre-se estupefata diante do repetitivo "é assim porque é, e pronto!" oficial.
No começo de um ano, são divulgadas previsões (?) de um monte de consultores, economistas e analistas de mercado que têm pelo menos duas coisas em comum: a) fingem que não erraram grosseiramente as previsões do ano anterior, e b) um "analista" nunca concorda com outro em números, sendo que as diferenças vão desde 0,01% a 34%. Outro fator que não deve ser esquecido, conforme bem alertou Janio de Freitas, é que estes "especialistas são, quase todos, ligados a bancos, corretoras e fundos que operam no sistema especulativo de títulos, ações e preços futuros de minérios e certos produtos agroindustriais" (Folha de S.Paulo, 11/01/00). Há muito interesse econômico aí, claro.
Outra coisa: uma previsão econômica de números-índices é sempre coeteribus paribus (perdão, senhoras), ou seja, "se tudo continuar desse jeito, vai dar nesse número". Se houver uma catástrofe ou uma anástrofe, e o valor final estiver errado, não tenho nada com isso. A realidade costuma ser anfótera, e se você é ousado o suficiente para prever qual será o IGP-DI e o dólar em 2010 sem ficar vermelho, pelo menos corra o risco de ter que se explicar, ao invés de ficar culpando São Pedro, os gols do Romário ou a safra de babaçu.
O governo, que não é bobo, tem lá seus próprios índices, que deixa entrever nos acordos firmados com o FMI e outros órgãos. Nas entrelinhas, as elipses se atropelam - como foi, em 1999, um pouco da discussão entre "desenvolvimentistas" e "monetaristas". A mídia, regularmente, fica na sua, assistindo. E quando contesta o faz apenas no plano político - nunca no plano técnico, que, afinal, não parece ter importância alguma. É sonhar muito alto, que um destes a(u)tores da política econômica se dispusesse a uma parábase, mas penso que a parte séria da mídia poderia muito bem fazer cair certas máscaras e argumentar tecnicamente com os doutores do templo.
Glossário necessário
Anástrofe é uma reversão de expectativas, costuma ser empregada em oposição a "catástrofe". Por exemplo, o país não foi para o buraco com a desvalorização real, como quase todo mundo previa.
Elipse é uma figura de gramática em que se omite palavras que são, ou deveriam ser, subentendidas. Por exemplo, qualquer discurso do FHC.
Uma parábase ocorre numa peça de teatro, quando um ator "sai" do personagem que representa, para explicar algo do enredo da peça. Por exemplo, nenhum discurso do FHC.
Já anfótero, como exumou o distinto governador de Minas Gerais, é a qualidade de uma substância possuir qualidades opostas, reagindo ora como ácido, ora como base. Por exemplo, as atitudes do ACM, ora Ternura, ora Malvadeza.
Em tempo: as previsões do Banco Central para 2010 são: dólar a R$ 2,03, IGP-DI de 2%, PIB variando positivamente de 4%.
Pois é.
FELIZ ANO NOVO
Perguntas à procura de respostas
Cláudio Buongermino
Nada como umas boas perguntinhas para esquentar este tedioso começo de ano 2000. Quem puder responder, que o faça:
- O pacto Folha/Globo, que resultará num novo jornal, seria uma explicação razoável para o fato de Arnaldo Jabor não ter sido dispensado da Folha mesmo depois de a ombudsman do jornal ter provado duas vezes que ele plagiou?
- Afinal, os jornalistas que comandavam as redações que mais perseguiram os donos da Escola Base vão mesmo ficar impunes? E os donos dos jornais?
- Por que ninguém negou a tal reunião de donos de jornais, TVs e rádios com FHC, supostamente feita durante a campanha de 1998, que Lula mencionou em recente Roda Viva?
- Por que parte da mídia brasileira tentou retratar Hugo Chávez, presidente da Venezuela, como um ditador ridículo, palhaço e débil mental, enquanto aqui no Brasil FHC governa por meio de medidas provisórias e (quase) ninguém fala ou publica nada sobre essa arbitrariedade?
- Por que a mídia ainda não conseguiu somar a+b e perceber que caciques de partidos como PPB e PFL, cujos parlamentares estão envolvidos em 99% dos escândalos políticos do Brasil (e a coisa vai de máfia da propina a homicídio requintado) também devem ser chamados a responder por seus comandados?
- A revista Época é produzida por jornalistas que, durante o expediente, circulam num ambiente delimitado à esquerda pelo Rio Pinheiros, à frente por postos de gasolina (São Paulo é a capital mundial dos postos de gasolina), à direita por um galpão abandonado e às costas por uma das maiores favelas de São Paulo; a Veja amarga o mesmo Rio Pinheiros fedendo a seu lado; a Folha fica pertinho da Cracolândia, e as ruas próximas parecem albergues noturnos, de tanta gente que dorme por ali; a turma do Estado e do JT, que labuta às margens do Tietê, contempla periodicamente o erguimento de montanhas de entulho retiradas do leito do rio - isso, sem falar nas enchentes na Marginal. Então, fica a pergunta: até quando vão fazer de conta que não é com eles?
- Por que o reajuste dos jornalistas ficou abaixo da inflação?
- Dizem que um certo jornal carioca atrasa os salários e não deposita o FGTS dos funcionários (é só um exemplo, deve haver muitos outros). Os jornalistas de sua redação certamente têm acesso a despachos de agências como a Agence France Presse, que volta e meia noticia paralisações em serviços jornalísticos na Europa (a mais recente foi na Itália), ou anuncia que ela mesma, AFP, vai parar por causa de uma greve. A pergunta que não quer calar: lá fora dá certo, aqui não?
- E last, but not least, em quem votou Mario Sergio Conti na eleição presidencial de 1989? Collor ou Lula?
REDE BRASIL SUL
Sinais de desespero
Lalo Marshall (*)
O desespero bateu à porta da RBS no Rio Grande do Sul. A todo-poderosa rede de comunicação que domina o mercado de mídia no RS e em Santa Catarina - e está com um pé no Paraná - descobriu enfim que sua credibilidade bateu no fundo do poço. Por meio de campanhas de marketing, veiculadas no final de 1999 e neste início de 2000, a rede tenta mostrar aos gaúchos que é uma empresa pluralista, democrática e humana (sic), buscando assim inverter os índices de rejeição da população ao monopólio, constatado pelo ibope interno. A primeira campanha apresentava depoimentos de personalidades do mundo acadêmico, estudantil, sindical, político etc, falando bem e/ou mal da RBS.
A estratégia era, ao veicular opiniões dissonantes com a visão empresarial da rede, mostrar que esta é acima de tudo uma empresa democrática, que respeita opiniões diferentes. Bastante arrojada, a campanha não durou muito no ar. As estocadas de Christha Berger, professora de comunicação da UFRGS, e da deputada Maria do Rosário, do PT, entre outras, provavelmente não surtiram o efeito esperado. Quem tem uma longa história de aliança com a plutocracia não é de uma hora para outra que vai emplacar um disfarce.
De carne e osso
A segunda campanha, ainda no ar, trilha uma outra estratégia. Um vídeo institucional, narrado por um daqueles locutores com voz enternecedora de Papai Noel, procura apresentar a rede como um local onde trabalham, suam, sofrem, choram, riem etc, pessoas humanas, iguais aos humanos telespectadores. Sem dúvida, uma tática genial. A de tentar quebrar a visão já cristalizada de que, por trás das câmeras, microfones, máquinas fotográficas e laptops trabalham os marionetes do poder econômico e político do estado. Apresentar os profissionais da RBS como pessoas de carne e osso, que estão apenas a serviço da informação e do interesse público.
Não há como não cumprimentar os marqueeteiros da RBS. A segunda campanha é primorosa e pode vir realmente a suavizar um pouco a elitizada imagem que a RBS desfruta no RS. Uma imagem construída em suaves prestações nas últimas décadas mas acelerada durante o governo e na campanha da reeleição de Antônio Britto ao governo gaúcho, quando a RBS fez e aconteceu para eleger seu funcionário.
Só resta mesmo à RBS buscar com os magos do marketing o conserto dos estragos junto à população gaúcha, considerada uma das mais politizadas do país. Como será a terceira campanha?
(*) Professor de Teoria da Comunicação da Universidade de Passo Fundo/RS
JORNAL DO BRASIL
Como um título pode
corromper a informação
José Afonso R.Queiroz
"Governo do PT quase virou sócio da Ford" (JB, 10/1/00).
O título acima menciona declaração do Sr. Marcelo Lucca, funcionário da Secretaria Estadual de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul, e se refere à opção daquele estado por participar da instalação de uma fábrica da Ford sem fornecer recursos a fundo perdido, como o fez o governo de Minas Gerais com a Fiat e o do Paraná com a Renault e a Audi; aliás, tudo muito bem explicado no lead e no corpo da matéria publicada no JB.
O erro está em tentar confundir o governo do estado do Rio Grande do Sul com a instituição Partido dos Trabalhadores, como deixa entrever o título, confirmado de maneira atroz, pelo menos na versão online do JB, com o seguinte título na matéria completa: "PT quase virou sócio da Ford" (bem pior e sintomático, não é?).
Mencionar que o governo do RS está com o PT é obrigatório para a qualidade da notícia, mas transformar o PT em sócio da montadora é uma piada de péssimo gosto - principalmente para a Ford!
Pequenas indagações sobre o mesmo assunto:
- Vocês já pensaram o que um título desses faz na cabeça de quem não lê jornal, mas apenas observa as manchetes nas bancas?
- A retificação, se acontecer, também será manchete?
- Quem fez o título? O repórter José Mitchell ou algum superior (ou inferior, sei lá)?
- Será que o título correto não seria "Governo do RG quase virou sócio da Ford?
Nota do O.I.: O repórter José Mitchell é correspondente em Porto Alegre. Quem faz título é a redação, no Rio.
Pérolas
Amigos, atentem para um novo adverbio, na quinta linha da matéria abaixo
Egberto Luiz
Estadão online, 8/jan/2000 - 17h55
"Camisetas da Nike não são tóxicas, diz médico
Barcelona - A utilização das camisetas da empresa Nike não representa nenhum risco para a saúde dos torcedores que a utilizarem. Isto foi o que indicaram os resultados preliminares das análises feitas em laboratórios independentes por determinação da Nike. A empresa resolveu dar o esclarecimento diante de uma série de informações segundo as quais camisetas do Borussia Dortmund, da Alemanha, comercializadas pela multinacional norte-americana, estavam confeccionadas com Tributtylzinn (TBT), uma substância presuntamente tóxica em altas quantidades."

O ‘fast publisher’ do Los Angeles Times
A última do rei dos sucrilhos
Rebelião na redação é lição para a mídia
Faturamento e credibilidade
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