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BANDAS PODRES
Ventilador de Nicéa não
empurra ventoinhas da mídia
Alberto Dines
Exatamente uma semana depois da veiculação das bombásticas denúncias de Nicéa Camargo, ex-primeira dama paulistana, é possível fazer uma avaliação do trabalho investigativo da mídia. Conclusões:
- Não houve trabalho investigativo da mídia. Nem antes, nem durante, nem depois das acusações de Dona Nicéa.
- A TV Globo considerou - como foi dito no programa Observatório da Imprensa na TV de 14/3/00 - que não se tratava de uma nova denúncia mas a continuação das anteriores, iniciadas a partir de dezembro de 1998.
- O resto da mídia simplesmente "repercutiu". Fez barulho. Tomou posições políticas, não investigou.
- Nem discutiu os procedimentos relativos à primeira matéria do Globo Repórter [veja a pergunta e as respostas da Urn@ Eletrônic@].
- Não chamou a atenção dos jornalistas o fato de que a derrubada de Collor foi iniciada pelo irmão e ex-parceiro, que as denúncias contra o ex-presidente do TRT de São Paulo foram vocalizadas pelo ex-genro, e que a sacudidela final no malufismo foi feita pela ex-mulher do sucessor de Maluf. Jornalismo baseado na delação de desafetos pode aumentar as vendas e dar pontos de audiência. Mas não acrescenta credibilidade.
- Nenhum jornal comentou a aberração jornalística e moral que foi a escolha do programa de auditório de Gugu Liberato, no SBT, para veicular a primeira declaração do prefeito Celso Pitta depois de seu retorno - junto com as suas agressões ao jornalista Chico Pinheiro. Convém registrar que o programa do Gugu, que se pretende "jornalístico", é uma produção independente, terceirizada, onde tudo é pago.
- A contribuição do resto da mídia veio por conta da velha "pesquisite" da Folha de S.Paulo. Duas sondagens de opinião pública (a primeira "naquela base", realizada em menos de 12 horas e publicada na edição de terça-feira, 14/3) criando o clima para o impeachment de Pitta. Nenhum pergunta sobre o envolvimento do seu antecessor, Paulo Maluf. A segunda, mais cuidada, sobre o quadro eleitoral pós-Nicéa.
- O resto foi jornalismo opinativo e declaratório - ou como diz The Economist, "declarationitis".
- Como fecho, convém registrar que o episódio Nicéa marca uma virada no comportamento da Rede Globo com relação ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. Pela primeira vez, a direção do jornalismo e o comando da emissora levam ao ar declarações desairosas e altamente comprometedoras sobre o senador baiano sem consultar o diretor-presidente Roberto Marinho. Conseqüência: ACM doravante é um comum mortal - ruim para ele, bom para o Brasil [texto fechado à zero hora de 18/3].
Pitta e a vivissecção jornalística
José Antonio Palhano (*)
Não foram tão gratuitas as recentes reminiscências do prefeito Celso Pitta relativas às suas frustrações vocacionais. Por linhas pra lá de tortas, o destino reservou-lhe a missão de carregar nas entranhas (feito um bacilo tetânico que encuba durante séculos suas virulências) todo o seu potencial artístico. Este, afinal, explodiu obedecendo às exuberâncias próprias do nosso tropicalismo.
Não importa aqui estabelecer critérios de competência para julgar a performance do protagonista, tampouco a qualidade do espetáculo. Afinal de contas, seu criador Paulo Maluf nunca fez questão de esconder que bom gosto é prática a ser exercida somente nas profundezas da rica adega de sua mansão. Por outro lado, não há por que exigir muito de um artista cuja platéia, além de se constituir no maior contigente urbano da América Latina, define suas inclinações exatamente por um exacerbado e fanático culto ao malufismo (coisa petrificada em pelo menos 30% do eleitorado).
Finge-se escandalosamente em São Paulo desde os primórdios da administração Pitta. O prefeito exerce apenas o papel de estrela da trama. À imprensa coube papel dos mais ingratos nesta festa pobre - além do de fingidora contumaz. Funcionou o tempo todo, e funciona até hoje, na conta de gigantesca máquina de propaganda da gestão Pitta. Não de maneira a avalizar as picaretagens, mas por um caminho que, embora inverso, é terrivelmente eficaz. Qual seja: rapinagens públicas, entre nós, há muito se carnavalizaram: são farejadas, digeridas e publicadas como se fossem moderníssimos megashows.
Nosso congênito pendor pelo espetáculo e pela grandiosidade superlativa acabou por produzir uma deformação moral pela qual escândalos políticos devem ser abordados como tradicionalmente são tratadas as cíclicas erupções do material fecal dos esgotos da Lagoa Rodrigo de Freitas: da forma mais superficial e eloqüente possível.
Enredo latino
Na batida de tal doutrina, a mídia de um modo geral reage ao fenômeno Pitta mergulhando em dramáticas e intestinas purgações. Lamenta a falta de espírito público, lamuria a sangria financeira provocada pelos ladrões e se confessa genuinamente engasgada com tudo aquilo. Jornalismo investigativo que é bom, não precisa. Com metas de audiência e de vendagens atingidas, a missão estará cumprida.
Não havia condições mínimas para que Celso Pitta persistisse em seu batente como se nada tivesse acontecido em todo o período pré-Nicéa. São 3 anos e 3 meses de governo. Se não foi possível derrubá-lo por se manter a salvo atrás das insuportáveis barreiras legais de praxe, é imperdoável que não tenha sido importunado diuturnamente pela imprensa.
Aí reside a vesguice da informação, ocasionada pela banalização de uma miséria que, ativamente assimilada, nomeia seus próprios porta-vozes e os atira à canibalização na qual são chupados até a última gota. É uma espécie de Síndrome de Estocolmo adaptada às nossas circunstâncias sociais, onde a vilã é esta mesma miséria e o processo pelo qual com ela nos identificamos afetivamente, tudo traduzido na patológica capacidade de produzir agentes que a "expliquem" e que a tornem assimilável sob o pretexto de um mal inevitável.
A imprensa, em tal contexto, arrisca-se temerariamente a desqualificar-se a partir do momento no qual opta - bem ao contrário que propor saídas via formação de opinião efetiva e contínua - por encarar os Pittas da hora por métodos que tão-somente aferem suas potencialidades, seus feitos e seus fracassos. Bem típico de enredos latinos, passionais e moralistas por excelência.
Holofotes no "espólio"
Daí decorre uma medular incapacidade inerente a nós, jornalistas, de encerrar surtos e episódios da corrupção nacional definindo personagens, como Pitta, apenas como subprodutos de uma cultura política tão extemporânea quanto atrevida. Preferimos espetá-los à guisa de espantalhos (astros?) moralistas, como "maus exemplos" a serem evitados. Baixarias e escândalos políticos são assim capitalizados pela vivissecção jornalística dos seus atores. Tudo muito efêmero, sôfrego, exaltado e inócuo. Até porque o clímax da exposição (ou da vivissecção) desses atores se dá simultaneamente à aceitação tácita de que a eles é facultado o legítimo direito à defesa. [Bem que o doutor Técio Lins e Silva, no Observatório na TV (15/3/00), tentou emprestar um pouco de decência jurídica ao debate ali produzido. Desesperado, brandia as prerrogativas do supremo direito de defesa, cuidando de evitar excessos. Mas aí fica difícil: por mais que isto soe como malufismo fascistóide, quem se atreve a defender milhões de famílias submetidas à jurisprudência do "estupra-mas-não-mata"?].
Daqui para a frente, principalmente no jornalismo televisivo, as coisas se resumem ao duelo entre advogados e promotores. As expectativas da população frente à eventual absolvição dos diversos réus não se baseia em um mínimo de conhecimento das regras do Direito, mas na crença há muito enraizada segundo a qual os maus e os poderosos haverão sempre de triunfar. Isto produz estragos sociais em proporções industriais, vez que fortalece o malufismo enquanto doutrina legítima e indestrutível, cuja relação custo (roubalheira escancarada) - benefício (obras e pistolagem) afinal é assimilável, já que, à moda das velhas máfias, é a única faceta do poder capaz de penetrar no seio de comunidades tradicionalmente desprezadas pela elite.
A superficialidade com que a imprensa trata de acessos como este de Pitta (ele é rigorosamente o mesmo, a fermentação é que se faz sentir ciclicamente) está patente no noticiário que se seguiu na semana subseqüente à entrevista de madame. Rigorosamente todas as editorias políticas e colunas idem trataram de avaliar o caso à luz de seus desdobramentos políticos-eleitorais. Quem ganha, quem perde, quem absorve o eleitorado malufista. Uma coluna, inclusive, destacava em seu título a palavra "espólio". Ou seja, é hora de passar à frente, a pauta assim o exige, e Pitta já foi até ao programa do Gugu Liberato. Convenhamos: um jornalismo notavelmente eficiente no brasileiríssimo processo de assimilação ativa da miséria.
Pitta é uma variável política de extremo interesse midiático, por influenciar os destinos da sucessão municipal em São Paulo. De todo o resto, cuidam as inserções rápidas na telinha e os advogados contratados a peso de ouro.
(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo de Campo Grande, MS
O povo não é bobo
Fernando Pacheco Jordão (*)
Dois aspectos me parecem importantes destacar no episódio protagonizado nas últimas semanas pela ex-mulher do prefeito de São Paulo. O primeiro é o papel preponderante desempenhado pelos veículos de comunicação de massa. O segundo, a resposta de uma opinião pública que muitos imaginam abúlica e receptora passiva do que a TV em especial lhe oferece.
Escândalos nas esferas públicas praticamente não são novidade no Brasil. O que é novidade, no terremoto iniciado pela sra. Nicéa Pitta, é que pela primeira vez as denúncias de corrupção e a conseqüente crise política começaram e tiveram seus desdobramentos exclusivamente no palco da mídia.
Há uma investigação do Ministério Público, é verdade, como há também tentativas de se criar uma CPI na Câmara Municipal. Mas as duas iniciativas são posteriores às denúncias veiculadas pela mídia de massa - ao contrário do que aconteceu em episódios semelhantes, como o impeachment de Collor, a CPI dos anões do orçamento e a dos precatórios.
Naqueles, as investigações eram conduzidas por parlamentares e amplificadas pelos meios de comunicação. No atual, os meios de comunicação de massa é que se transformaram em fórum de debates - ou, talvez mais adequado, arena de embates - entre acusadores e acusados. E com uma peculiaridade inerente ao modelo brasileiro de rádio e televisão.
A política ganhou contornos de espetáculo, transbordando dos telejornais para os programas populares de auditório, e os protagonistas praticamente transformaram-se em artistas exclusivos deste ou daquele canal, pelo menos nos primeiros capítulos dessa malcheirosa novela. Nicéa só gravava entrevistas para a Rede Globo, Pitta para o SBT. Ela às vezes trocava palavras com os repórteres, da janela de seu apartamento. Pitta, nem isso.
Cada veículo cumpriu seu papel, servindo de trincheira para seu "artista" exclusivo, e, em pouco tempo, a overdose de aparições de ambos - mais os repetidos desmentidos de alguns acusados e os insultos de outros - resultaram numa algaravia da qual se aproveitaram Pitta, Maluf & Cia. para levantar uma cortina de fumaça e tentar confundir a opinião pública, sustentando-se basicamente em dois pontos. Primeiro, como era previsível desde a primeira entrevista de Nicéia ao Globo Repórter, procurou-se desqualificar a autora das denúncias chamando-a de louca. Segundo, atribuiu-se a enxurrada de denúncias a uma sorrateira maquinação do governador Mário Covas.
Tentava-se com isso desviar a atenção do público do foco da questão, que é o esquema de corrupção de proporções industriais implantado pelo malufismo em São Paulo. Nada disso colou.
Entra aí o segundo aspecto, o da reação da opinião pública, mencionado na abertura deste artigo. Pittas e Malufs confiaram na velha e equivocada crença, sustentada por respeitáveis e mal informados teóricos de comunicação de massa, de que o povão, alvejado diariamente pelo bombardeio ideológico e comercial da TV (Globo, em primeiro lugar), seria incapaz de formar sua própria opinião.
O desmentido veio com a mais recente pesquisa eleitoral do Datafolha. Paulo Maluf despencou e subiu Luiza Erundina, a liderança mais claramente identificada pelo eleitorado com o anti-malufismo. O que se pode depreender é que, apesar de toda a areia que lhe jogaram nos olhos, o povão soube filtrar aquelas toneladas de informações e opiniões e concentrar-se no essencial. E o fez por uma razão muito nítida, que profissionais que trabalham com pesquisa de opinião não se cansam de apontar quando investigam tendências e expectativas entre a população de baixa renda: esses segmentos sociais (as mulheres, principalmente) estão cada vez mais expostos à informação e a uma diversidade sempre crescente de fontes, e revelam uma capacidade cada vez mais aguda de discernimento, em função de seus interesses mais próximos.
Simplificando: o povo não é bobo.
(*) Jornalista
Fábrica de heróis e de vilões
Adriano Faria (*)
Desde o dia 10, uma sexta-feira, o país tem um novo vilão e uma nova heroína. O vilão nacional: Celso Pitta, prefeito de São Paulo, que vê crescer ainda mais seus já altíssimos índices de impopularidade depois das denúncias de corrupção envolvendo a Prefeitura e a Câmara Municipal. A heroína: Nicéa Pitta, ex-mulher do prefeito, que denuncia o ex-marido e uma legião de políticos que supostamente se beneficiaram de falcatruas na administração da maior cidade do país.
O escândalo veio à tona em grande estilo. O Jornal Nacional, o mais importante da Globo, noticiou em primeira mão as denúncias de Nicéa Pitta. Para completar, na mesma noite, o Globo Repórter deu continuidade às denúncias, com uma série de reportagens complementares.
À primeira vista, ponto para o jornalismo da Globo. O esforço de repórteres, editores e produtores foi recompensado com índices de audiência considerados muito bons para os atuais padrões da emissora. E as denúncias devastadoras feriram, provavelmente de morte, a administração e a carreira política de Celso Pitta. Não esqueçamos nossa heroína. Nicéa Pitta, chamada pela Globo de Nicéa Camargo, é a "mulher corajosa", "exemplo de cidadã" e "inconformada com a injustiça e a corrupção". Não poderia viver com o drama de consciência de saber, e não denunciar, as irregularidades praticadas pelo ex-marido. O resultado é imediato: recebe inúmeras mensagens de solidariedade e tem aparições apoteóticas na mídia e na janela de seu apartamento.
Tratamento questionável
Há, no entanto, dois fatores que não podem ser desconsiderados. Primeiro, Celso Pitta despertou a fúria da Globo em dezembro do ano passado, ao recorrer à Justiça para transferir a decisão do Campeonato Brasileiro das 16h para depois das 21h. A mudança obrigou a Globo a fazer, às pressas, várias alterações na programação. A alegação de Pitta: o jogo tornaria ainda mais confuso o já caótico trânsito de São Paulo. Evidentemente, foi isso que o prefeito alegou, mas há quem afirme que toda essa preocupação do prefeito com o trânsito tinha motivações políticas, visando o ganho de alguns pontinhos nas pesquisas de opinião. De qualquer maneira, foi grande o estrago na sagrada programação global.
Um segundo fator tem a ver com Nicéa Pitta. Serão mesmo tão nobres os motivos que a levaram a denunciar o ex-marido? Lembremos que Nicéa já esteve envolvida em alguns episódios nebulosos, como a venda de frangos à Prefeitura de São Paulo, o famoso "Frangogate". Nicéa também sabia das irregularidades desde a posse de Pitta - há mais de três anos -, sem contar o que aconteceu nos quatro anos anteriores, quando o padrinho de Pitta, Paulo Maluf, era o prefeito. Então, por que agora? Será que a consciência cívica de Nicéa Pitta, ausente no escândalo dos frangos e nos três primeiros anos da caótica administração do ex-marido, despertou do dia para a noite, logo no momento em que ela e Pitta enfrentam uma separação litigiosa nos tribunais?
Não há dúvida de que as denúncias envolvendo Pitta são graves e merecem investigação. A imprensa cumpre sua função quando leva ao conhecimento da população desmandos e irregularidades de um governante - seja ele quem for.
Mas especificamente no caso Pitta a questão é: que tratamento a Globo teria dado às denúncias de Nicéa se o prefeito não tivesse causado tamanho rebuliço na intocável programação da emissora? Teria reservado ao escândalo a maior parte do tempo do Jornal Nacional? Será que a Globo teria interrompido a linha "mundo animal" do Globo Repórter e dedicado um programa inteiro às falcatruas na Prefeitura de São Paulo? E vale a pena sacrificar um dos princípios básicos do bom jornalismo não ouvindo os acusados antes de levar graves denúncias ao ar?
Show versus jornalismo
O que se questiona não é a divulgação das denúncias, e sim a forma como a Rede Globo vem tratando o assunto. Que Celso Pitta não é nenhum santo todos nós sabemos, mas é inegável o gosto de vingança embutido na cobertura. Também soa estranha a tentativa de transformar Nicéa Pitta numa paladina da justiça e numa espécie de "líder das mulheres e ex-mulheres de políticos corruptos".
Jornalisticamente, teria sido muito interessante para o público ser informado pela Globo que a mesma mulher que teve a coragem de denunciar o ex-marido também foi acusada de irregularidades. Mas informar isso tornaria menos consistente as denúncias e, conseqüentemente, os estragos na administração Pitta.
A novela Pitta-Nicéa traz à tona o fato de que a "Fábrica Globo" tem duas linhas de montagem, igualmente eficientes. A divisão de produção de vilões funciona quando alguém, com motivações nobres ou não, ousa contrariar os interesses da emissora. Dependendo do caso é preciso fabricar um herói, com o objetivo de criar um cenário tipicamente maniqueísta. O produto final fica próximo de um grande show, mas muito distante do bom jornalismo.
(*) Jornalista
CARTAS
Todos falharam
Lamentavelmente o Sr. Amauri Soares, porta-voz da Rede Globo neste programa [Observatório da Imprensa na TV, 14/3/00], foi - como a própria emissora da qual é preposto - evasivo na sua análise. Fugiu de dar respostas objetivas às perguntas feitas e deixou de assumir sua responsabilidade jornalística.
As denúncias de Dona Nicéa não são novas. São velhas. E os aspectos da questão de corrupção, propinas, malversação de verbas, precatórios e todo o resto envolvendo a Prefeitura de São Paulo há muito são conhecidos e de diversas formas interpretados. A Globo não agiu, neste episódio, de maneira como age em situações similares. Portanto, foi parcial, usou de prepotência e está fazendo show num noticiário. E, logicamente, como é do seu feitio, jamais daria a mesma oportunidade de espaço de tempo e condições ao acusado, como foi dado a Dona Nicéa.
Em nenhum momento, o Sr. Chico Pinheiro levantou questões que envolvem - por que não? - a própria Dona Nicéa na questão apresentada. A Globo, tão parcimoniosa no seu noticiário em relação a tantas coisas, não usou de qualquer cautela ou ética no caso das velhas acusações ao prefeito de São Paulo, desta feita reforçadas pela palavra da ex-mulher do prefeito. Não há menor dúvida a respeito.
O atual governo municipal de São Paulo é um escândalo. O envolvimento de parlamentares municipais e a fraqueza demonstrada pelo legislativo municipal nesta questão são um escândalo, um desrespeito ao paulistano, e a atuação da imprensa não fica muito longe disso. É com pesar, como jornalista, que escrevo isso.
Eticamente, e isto está demonstrado na breve sondagem feita no site do Observatório da Imprensa, a maioria acha que a imprensa deve dar direito de resposta, antes de lançar qualquer tipo de acusação a qualquer pessoa. Mas isso não foi o que aconteceu e o que normalmente acontece. Atualmente está terrivelmente fácil o papel da imprensa e a atuação de boa parte dos jornalistas, em se limitar a contar que a pessoa acusada de alguma coisa foi procurada mas não foi encontrada. Virou prática usual, na imprensa brasileira, este expediente pobre e simplista. A Globo e outros veículos vêm usando excessivamente tal expediente e da forma como lhes convém.
O episódio continua mal contado. Seguramente há conversas, tramas e interesses sorrateiros que até agora não foram - e talvez nunca sejam - convenientemente revelados ao público. As razões do procedimento da Globo, como sempre ocorre, não são abertamente mostradas. Todos os procedimentos jornalísticos e de programação da Globo deixaram e deixam transparecer intenções pouco confiáveis - ou éticas - neste episódio. O programa de TV do Observatório da Imprensa falhou e foi fraco na medida em que questões que foram colocadas pelos participantes e por telespectadores deixaram de ser respondidas pelos interlocutores. A condução jornalística do programa não soube estar atenta às perguntas que ficaram sem respostas.
Trata-se de erro brutal e fundamental em qualquer programa jornalístico. Impotente, lamento não ter podido ouvir respostas que deveriam ter sido dadas. O Sr. Amauri Soares foi fraco e inconseqüente nas respostas, e deixou de responder perguntas vitais. Até porque nem chegou a ser cobrado pela condução do programa. Lamentável.
Nós, jornalistas, ainda temos longo caminho ético, de honestidade, de verdade e de coragem para percorrer. A Rede Globo esconde seus próprios dilemas e usa sua força e impunidade da maneira que lhe convém. Não em respeito ao público, mas para tirar proveito próprio, de todas as formas políticas e econômicas. Portanto, os jornalistas da Globo também não podem passar impunes nesta questão. Não foram totalmente corretos no aspecto ético. Todos assumiram muito mais o papel da empresa do que o do compromisso social da profissão. Ninguém está de santo nesta jogada. Por incrível que pareça, nem mesmo o nosso Observatório da Imprensa. Todos estão tirando partido. Ninguém mostra isenção ou imparcialidade. E isto está claro entre os profissionais da imprensa. Pobre leitor, pobre telespectador, pobre ouvinte, pobre público da imprensa brasileira.
Ainda bem que, pelo menos desta vez, existem outros veículos para rechear o noticiário por outros ângulos e versões. Cada um a seu modo, logicamente, e cada um menos santo que o outro. Infelizmente as lições éticas, deixadas na história do jornalismo pelos nossos colegas americanos no caso Watergate, continuam não sendo bem-entendidas e praticadas por nós jornalistas brasileiros.
Carlos Fernando Karnas, jornalista, São José dos Campos
Explicações mal explicadas
1) Apesar da insistência do porta-voz da Globo, Amauri Soares, ao afirmar que sua equipe jornalística havia procurado todos os denunciados por Nicéa, a pergunta a ser votada no site na Internet [www2.uol.com.br] ainda estava sendo veiculada. Não seria o caso de modificá-la, visto que toda a discussão e todas as opiniões - inclusive a do próprio Dines - batiam de frente com o que a sugestiva pergunta tentava discutir?
2) O espaço no site é mil vezes mais interessante e bem feito do que o programa televisionado. A que se deve tamanha diferença de qualidade? Falta de verbas? Tenho a impressão de um ambiente apertado, escuro e mal organizado... A proposta do Observatório é boa demais para um programa daqueles!
3) Deixem o Dines falar! Seu papel no programa parece indefinido! Não é o mediador, não debate e não controla a discussão. Um profissional de gabarito como Dines deveria ter mais voz de comando ao vivo, não somente nos bastidores...
Hanako Tsujimoto
Prova concreta
É indiscutível, a imprensa deve informar; entretanto, no que diz respeito ao seu papel de veículo de acusação, como no Caso Pitta, além de evidente a necessidade da tal instituição garantir o direito de ampla defesa aos envolvidos, penso que, em seu processo de publicização, a fonte denunciadora precisaria estar acompanhada de uma mínima prova concreta que a recomendasse, ainda mais quando se trata de ex-mulher em processo de separação litigiosa. Em hipóteses como esta, a imprensa não pode exercer função que não é sua e se maquiar de órgão jurisdicional, sob pena de, eventualmente, se prestar a interesses políticos menores em detrimento da sua função social maior, que é a de informar.
Roberto Soares de Vasconcellos, Belo Horizonte
Os Pitta e o motoboy
Sou jornalista recém-formada, e participei do XVI Curso Abril de Jornalismo em Revistas, em 1999. Durante o curso participamos de diversas palestras, entre as quais a da então editora-executiva da Veja, Laura Capriglione. Laura nos falou sobre a entrevista exclusiva com o Maníaco do Parque. Fez questão de ressaltar que aprovou a veiculação da entrevista com o psicopata, na qual ele confessava os crimes bárbaros, sem ter a certeza de que ele falava a verdade. Disse, ainda, que temia pelo futuro de sua carreira caso a informação fosse mentira. Por sorte, não era, e tudo acabou "bem".
Hoje, ligo a televisão e, confusa, ouço o diretor de Jornalismo da Globo afirmar que divulgou a entrevista de Nicéia ex-Pitta baseado em critérios da emissora, e que não ouviu os acusados por se tratar de uma "longuíssima suíte".
Laura disse que publicar a confissão do motoboy era de importância suprema para a sociedade. Fica a dúvida: em que diabos de critérios o jornalismo anda se metendo para ignorar um de seus princípios básicos, considerar os dois lados da questão, seja ela qual for?
Natalia Pedras
Falta esclarecer
O caso de Pitta é uma típica revanche. Na política nacional, todos são padrinhos de todos. Não digo que o prefeito tenha a minha simpatia, mas a Globo já mostrou em outros casos que não é movida a bondade. Por que a Globo não comentou os cortes feitos na entrevista da ex-primeira dama? E também no segundo debate de Lula e Color?
Luis Antônio Valadares
Dedo-duro
Dizem que a nossa polícia não investiga: não preserva intacto o lugar do crime, não analisa provas e indícios, não faz hipóteses...
Ela só funciona na base do alcagüete. Sem dedo-duro, a polícia é incapaz de descobrir a verdade simplesmente indo atrás.
Não é só a polícia...
Spacca
ACM não é mais aquele
Olá para todos! O que eu realmente não entendo nisso tudo é a denúncia contra ACM numa reportagem da Rede Globo. O que há de errado? Valeu!
Gustavo
Liberdade, liberdade
Não posso deixar de registrar aqui a falta de profissionalismo da imprensa mostrando mais uma vez que de livre só tem é conversa, pois continua manipulando a realidade. Saiu das mãos dos militares para as dos empresários. Quanto tempo ainda precisaremos viver para assistir à verdadeira liberdade de imprensa, na qual quem sonega ou manipula informação será condenado por crime de má informação?
Em pleno século 21, que se diz ser da informação, não existe uma forma de se condenar esses manipuladores. Que o Observatório da Imprensa seja o fórum não só de recepção de opiniões, mas também de luta pela verdadeira liberdade.
WVieira
ASPAS
Alberto Dines
"De Nicéas e bandas podres", copyright Jornal do Brasil, 18/3/00
"Os personagens são diferentes, diversos os lugares e as circunstâncias. Mas o ingrediente é um só: corrupção. Em doses jamais vistas - encorpada, estendida,entranhada.
O novo mar de lama envolvendo os diferentes tentáculos do malufismo, as estarrecedoras denúncias feitas pelo coordenador de Segurança Pública do Rio sobre a devassidão na alto clero da polícia, a incrível votação na Câmara consagrando o nepotismo como lícito e o nosso aviltante 46° lugar no ranking mundial da imoralidade aconteceram simultaneamente.
Não são indecências isoladas. Não se trata de casualidade mas de causalidade. Nossa sociedade foi-se enredando num entorpecimento generalizado que chegou ao seu ponto máximo - supurou. E escorre nojentamente pelas gretas do noticiário. O fenômeno não é localizado, é federal. Vai da alta sociedade às emergentes e aos porões. Põe na cadeia o banqueiro-ministro Calmon de Sá, banha o ensino superior privado e chega a um ‘imortal’ da Academia. Amplo e irrestrito. O sonho de um eixo Rio-São Paulo finalmente materializou-se: as duas mais ricas metrópoles do país igualaram-se em matéria de crimes e bandalheiras.
O assassinato em São Paulo do líder dos camelôs que denunciou a máfia dos fiscais e iniciou as revelações sobre a imundície envolvendo a Câmara dos Vereadores, deputados estaduais, prefeito e ex-prefeito revela que a questão não se restringe ao âmbito da improbidade. A inopinada aparição do elemento gangsterista, no melhor estilo de Chicago, comprova que o despudor na gestão da coisa pública começa no ‘rouba mas faz’ - caricatura de eficiência - e acaba em banhos de sangue.
A participação de policiais de alto coturno em extorsões, propinas e homicídios denunciada por Luís Eduardo Soares, coordenador de Segurança Pública do Rio, revela que estamos além do âmbito do colarinho branco. A bandidagem campeia entre aqueles que deveriam combater a bandidagem. Não se trata de demitir ou afastar. Trata-se de mandar prender. Depois de afastar seu bravo subordinado, o governador Garotinho já não precisa dizer coisa alguma ou inventar outro malabarismo marqueteiro - ou põe a banda podre no xilindró ou está condenado a regressar aos microfones das suas rádios.
Os personagens que agora aparecem aberta ou tangencialmente nos escândalos de São Paulo são figuras nacionais e têm freqüentado com surpreendente assiduidade escândalos anteriores. O sinistro percurso do ex-senador Gilberto Miranda, que nunca participou de uma eleição e por quem o presidente do Senado tem tanto apreço, é apenas uma amostra da extensão e profundidade abissal desse mar de lama.
O antídoto capaz de deter a combinação de licenciosidade com violência não pode ser torto e enviesado. Dona Nicéa Camargo deve ser estimulada a contar tudo o que sabe, porque ela sabe muita coisa. Conhece todos os meandros desse grande esgoto: viu tudo, aceitou tudo, compartilhou de tudo e profitou de tudo. Até o momento em que botou a boca no trombone. Tem o que contar. E como testemunha privilegiada precisa ser protegida pela sociedade.
Mas dona Nicéa não pode ser endeusada. O teor das suas denúncias - quaisquer que sejam as motivações, louras ou morenas - não pode conceder-lhe um status que não tem ou merece. Nem pode um caso de tamanha gravidade ser empurrado para o poço sem fundo da picardia mundana.
Errou o senador Jefferson Peres (PDT-AM) quando apelou às mulheres e ex-mulheres de homens públicos brasileiros para que abram seus corações como a ex-primeira-dama paulistana, falando o que sabem pelo bem do país. As rusgas conjugais, familiares ou empresariais com ex-mulheres, ex-genros, ex-sócios ou irmãos não podem assumir-se como o principal vetor do processo de moralização nacional.
Nem podemos esperar que as manifestações de animados caras-pintadas seja o repúdio capaz de reverter um processo tão arraigado e espraiado. O que o país espera da sua juventude, reserva demográfica, é que seja também uma reserva moral. Ao invés dessa tola exibição conviria que os jovens se abstivessem da ‘cola’ nos exames, da propina ao bedel para apagar faltas, do expediente para dirigir sem carta de motorista, da ‘inocente’ maconha escondida e de todos os ‘pequenos crimes’ que acabarão criando, quando forem adultos, aquela crosta de insensibilidade moral em cima da qual banqueteiam-se os devassos e locupleta-se a canalha.
O crime institucionalizou-se e o combate ao crime precisa ser institucionalizado. Amplificado, multiplicado, convertido em experiência cotidiana. A luta contra a corrupção precisa ser despartidarizada, não é propriedade de nenhuma agremiação política ou poder público. É cruzada nacional, independente da filiação ou voto que se deposita na urna. Como sentenciou sabiamente o dirigente comunista Giocondo Dias (nas memórias que outro dirigente comunista, Marco Antônio Tavares Coelho, publicará brevemente): ‘O fato de alguém ser comunista não significa que tenha bom caráter’. Comunista, esquerdista, socialista ou progressista deveria ser um diferencial, fator de decência. Não tem sido: alguns ‘rachas’ o comprovam.
Nem devem os eleitores do PFL, PPB ou de setores do PMDB ser obrigados a conviver com a indecência. ‘Pactos de sangue’ com caciques e coronéis pressupõem endosso de todas as suas ações. Cumplicidade. A opção conservadora deveria ser ainda mais intransigente em matéria moral e, paradoxalmente, tem sido a mais vulnerável.
Deixar a polícia, o Ministério Público e ocasionais desafetos encarregados de zelar pelo bem comum equivale a admitir o desastre. A ética não é para ser classificada como matéria espiritual e distante. Nem pode ficar restrita aos seminários acadêmicos. Ou converte-se em comportamento, hábito, costume, instinto capaz de diferenciar a banda certa da banda podre, ou continuará nos escaninhos, tripudiada na hora das decisões. Os velhacos querem isso."
Mônica Bergamo
"ACM responde com palavrão", copyright Folha de S.Paulo, 11/3/00
"O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) afirmou que Nicéa Pitta é ‘prostituta’ e ‘louca’. Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida ontem [sexta, 10/3], por telefone, de sua casa em Salvador.
Folha - O sr. está assistindo ao Globo Repórter?
Antonio Carlos Magalhães - Estou.
Folha - O que está achando?
ACM - Essa mulher é a mais louca que eu já vi.
Folha - O sr. pediu a Pitta que fizesse pagamentos para a OAS?
ACM - Nem para ela, nem para o marido dela, nem para ninguém.
Folha - O sr. nunca pediu pela OAS?
ACM - Nunca pedi. (Grita) Me respeite. Nem a ele, nem à mulher dele, nem a filho da puta nenhum.
Folha - E por que o sr. acha que ela está fazendo isso?
ACM - É louca e quer se projetar. Falar de mim dá projeção, como vocês jornalistas bem sabem.
Folha - Mas o sr. nunca falou...
ACM - Nunca falei. Estou lhe dizendo. Não tenho o telefone desse canalha, nem dela.
Folha - E o que o sr. vai fazer? Vai processá-la?
ACM - Vou processar, embora processar uma prostituta destas seja perda de tempo.
Folha - O que o sr. achou de a Globo levar a denúncia ao ar?
ACM - Acho uma ignomínia a TV Globo colocar isso no ar sem ouvir os outros.
Folha - Não o procuraram?
ACM - Quem me procurou foi um repórter do jornal O Globo. A mim a Globo não procurou (ao fim do programa a TV reproduziu frases que atribuiu a ACM, negando envolvimento com Pitta).
Folha - Por que o sr. acha que não o ouviram?
ACM - (Grita de novo) Pergunte a eles, porra. Não é a mim que você tem que perguntar.
Folha - O sr. processará a TV?
ACM - Não vou fazer o que vocês querem. Eu sou amigo do Roberto Marinho. Você não vai conseguir me intrigar com ele.
Folha - Por que o sr. acha que a denúncia foi ao ar?
ACM - Estamos bem entendidos, tá bom. Não me chateia. Você não me chateia mais. Nunca mais vou lhe dar a confiança de vir à minha casa.
Folha - OK, tudo bem.
(O senador recebeu a colunista em casa uma única vez, no domingo de Carnaval)."
Luís Nassif
"Nicéa e a CPI dos Precatórios", copyright Folha de S.Paulo, 14/3/00
"A ex-primeira-dama paulista Nicéa Pitta apenas confirma a grande pizza que foi a CPI dos Precatórios - misto de esperteza de senadores dispostos a fazer muito barulho (e a nada apurar) e do despreparo gritante de parte da mídia que cobriu o episódio.
Depois de estudar o tema, com base em evidências apresentei a hipótese de investigação mais plausível: a de que o escândalo era parte de um grande acordo político entre senadores, a Prefeitura de São Paulo e empreiteiras -setor com maior know-how em legislação ligada ao setor público e em lobby com políticos.
A tecnologia desenvolvida -dívidas superavaliadas-serviu para a Prefeitura de São Paulo conseguir a aprovação do Senado para uma emissão bilionária de títulos para pagamento de precatórios. Depois, o processo foi vendido para outros lugares por testas-de-ferro -Wagner Ramos e o banco Vetor. Salientei todo o período em que o Vetor -apresentado como o autor do golpe- era mero intermediário e que a chave da questão residia nas ligações entre a Prefeitura de São Paulo, de Paulo Maluf, os senadores (especialmente Gilberto Miranda) e empreiteiras.
Essa hipótese -quase óbvia- foi sepultada no mar de bobagens produzido pela cobertura na época, induzida por políticos interessados em atingir adversários políticos e em não desvendar o esquema completo. Se fosse até o fim, iriam bater no âmago dos financiamentos de campanhas, dos esquemas de doleiros e dos golpes com títulos públicos.
O senador Roberto Requião redigiu um relatório que ignorava até a informação do banqueiro Fábio Nahoum, do Vetor -testemunhada por mim, pela jornalista Mônica Bergamo e pelos senadores José Serra e o próprio Requião-, de que, no caso dos precatórios, Ramos tratava direto com Maluf, passando por cima de seu superior, o então secretário das Finanças, Celso Pitta.
Aliás, pouco antes do final do governo Fleury, Miranda entrou em contato com autoridades fazendárias paulistas oferecendo a operação. Questionado sobre o sistema de cálculos da dívida (que superestimava os valores), alegou ter condições de aprovar todas as operações no Banco Central.
Com a mudança de governo, técnicos da Secretaria da Fazenda paulista foram convidados pelo então secretário Pitta para conhecer o sistema de cálculos desenvolvido por Wagner Ramos. Quando alegaram que o sistema era ilegal, Ramos lembrou que havia tantos Estados fazendo daquela maneira que tornaria o cálculo irreversível. Caso contrário, disse ela, o país explodiria.
O município de São Paulo e os Estados de Pernambuco e Santa Catarina explodiram antes."
Valéria Propato
"Ringue na tevê", copyright Isto É, 12/3/00
"As novas denúncias contra Celso Pitta são mais um round da briga entre o prefeito e a Rede Globo. Durante o Campeonato Brasileiro de Futebol, em dezembro de 1999, a prefeitura paulistana entrou com ação cautelar na Justiça e conseguiu alterar o horário da final Corinthians x Atlético-MG. Pitta queria evitar os congestionamentos na cidade e o horário do jogo foi transferido das 16h para as 21h. A Globo, que juntamente com a Rede Bandeirantes detinha os direitos de transmissão, teve de engolir a derrota jurídica. No mês passado, Pitta voltou a cutucar a onça. Mandou interditar o Sambódromo do Anhembi, onde o padre Marcelo Rossi iria comandar uma festa de réveillon com transmissão da Globo. O prefeito alegou que não haveria segurança para o público, mas, dessa vez, uma liminar liberou a festa.
Uma semana depois, a Globo reagiu com um editorial de três minutos lido no telejornal SPTV. E o diretor de jornalismo da Globo em São Paulo, Amaury Soares, acusou o prefeito de tentar prejudicar a emissora. Em função da série de reportagens exibida no Jornal Nacional contra a prefeitura paulistana, Pitta sofreu um processo de impeachment, que acabou sendo derrubado pela Câmara Municipal. Mas não se livrou do embate com a Globo. Agora a emissora dá o troco colocando o desabafo da ex-mulher de Pitta diante das câmeras. Horas antes de a entrevista com Nicéa ir ao ar, o prefeito, de Cannes, na França, tentou insistentemente falar com a direção da emissora, mas não foi ouvido."
Anna Lee
"Nicéa teria procurado a Globo duas vezes", copyright Folha de S.Paulo, 16/3/00
"Aos poucos vão sendo revelados os bastidores da negociação entre Nicéa Pitta e a Globo que deu origem à entrevista exibida na última sexta-feira pelo ‘Globo Repórter’ - na qual a ex-primeira-dama de São Paulo denunciou ao repórter Chico Pinheiro esquema de corrupção da prefeitura, envolvendo seu ex-marido, Celso Pitta.
O primeiro contato que Nicéa fez com a Globo foi há cerca de três meses, quando procurou o apresentador Carlos Nascimento, que foi ao seu encontro. Na época, a ex-primeira-dama fez uma espécie de desabafo sobre a possibilidade de sua separação, mas a Globo não considerou o assunto de ‘relevância jornalística’.
Na sexta-feira, véspera de Carnaval, Nicéa voltou a procurar a Globo, desta vez o repórter Chico Pinheiro. A entrevista foi gravada na terça-feira de Carnaval na sede da emissora em São Paulo.
Pinheiro, que tem evitado dar declarações sobre a entrevista por não se considerar ‘personagem dessa história’, afirmou que ‘todas as especulações feitas sobre interesses políticos que tenham levado a Globo a colocar no ar a entrevista não são verdadeiras’."
Nelson de Sá
"Interesses, contradições", copyright Folha de S.Paulo, 17/3/00
"Primeiro Record, depois SBT, agora Band. A campanha em defesa de Pitta, Maluf e demais atingidos não tem a audiência da Globo, mas mantém a mesma batida.
Na madrugada seguinte ao Globo Repórter, a Record já lançava o mote dos interesses que estariam movendo as denúncias. A ele se somam, agora, os ataques à Globo e ao caráter de Nicéa Pitta.
Na Band, o jogo começou com uma manchete do telejornal noturno, destacando Pitta e o cartaz que dizia ‘São Paulo não é quintal da Globo’.
E seguiu ontem com intermináveis entrevistas com o prefeito. Um tema central, o mesmo do programa Fala que eu te Escuto, da Record, foram as ‘contradições’ de Nicéa.
O entrevistador da Band foi Paulo Lopes, radialista que chegou a ser condenado na campanha de 94 pelos seguidos ‘elogios à administração Maluf e ao candidato Pitta’.
O programa destacou uma antiga declaração de Nicéa, chamando Pitta de ‘sério’ e ‘honesto’. Paulo Lopes:
- Eu gostaria que o senhor, prefeito, comentasse.
E Celso Pitta:
- Veja você a diferença entre o que foi dito pouco tempo atrás e o que é dito hoje.
Outras duas perguntas de Paulo Lopes:
- Estão se aproveitando do momento que ela está vivendo, de desequilíbrio, de fraqueza, para tirar dela coisas que ela muitas vezes fantasiou?
- O senhor é considerado um homem muito educado. O senhor perdoa a sua ex-mulher pelas agressões?
***
O SBT só não se alinha inteiramente à campanha por conta de Ratinho, que quer porque quer a queda do prefeito.
Já levou uma vidente para dizer que, sem renúncia, ainda haverá mortes no caso. Dele, olhando para a câmera:
- Prefeito Pitta, pega o seu banquinho, rapaz, e ó. Vai ficar aí fazendo o quê? Está aí fazendo o quê? Que credibilidade tem um homem desses?"
Silvio Diogo Lourenço dos Santos
"Show de notícia", copyright Folha de S.Paulo, Painel do Leitor, 16/3/00
"As acusações de Nicéa Pitta sobre a corrupção na Prefeitura de São Paulo, a exemplo das bombásticas declarações proferidas por Pedro Collor há oito anos, são a prova de que a imprensa em geral, e a televisão em particular, possui um grande e influente poder para interferir na sociedade. Depois que a Rede Globo lançou a entrevista ‘bomba’ na semana passada, os olhos da opinião pública voltaram-se extasiados para o caso, e o impeachment do prefeito passou a ser emocionalmente exigido. No entanto, já se sabia, há algum tempo, de muitos dos esquemas e tramas que a Câmara abrigava. A entrevista valeu muito mais pelo que tinha de espetáculo e de show do que propriamente pelo que tinha de verdade ou comprovação."
NOTAS SOBRE NOTÍCIAS
Notícias de um plano alto
J. D. Borges
Dentro do largo conceito de "clássico", podemos facilmente encaixar aquela categoria de livros pouco lidos e, paradoxalmente, muito comentados. A partir de uma frase tomada ao acaso, a partir de um ponto de vista pinçado maliciosamente ou, mesmo, a partir de um mal-entendido erigido com certo grau de inocência, fragmentos de uma determinada obra tomam o lugar da obra mesma, reduzindo um livro, obrigatoriamente denso e multifacetado, a uma meia de dúzia de opiniões de ocasião a respeito dele. (Opiniões que, não raro, convêm àqueles que detêm a palavra e o poder naquela particular configuração de espaço e tempo.)
Clássicos marcam época. E clássicos caem de moda as well. Apesar das homenagens e dos puristas (e sempre os há), autores, obras-primas e seus respectivos rótulos (sobretudo os rótulos) são varridos para debaixo do tapete da história incessantemente. Aposta-se sempre, é claro, em redenção, num futuro mais justo e esclarecido (no sentido iluminista do termo), em que todos os homens serão bons, em que não haverá mais guerras e em que a paz celestial triunfalmente reinará.
Afinal, você acredita em clássicos?
Mario Sergio Conti acredita e, coincidentemente, acaba de publicar um. O clássico em questão atende por Notícias do Planalto: um alentado volume que trata, dentre outras coisas, do controvertido universo da política - misturada à imprensa, misturada às tradições oligárquicas do Brasil, misturadas às famílias e aos nomes que fazem e desfazem o dia-a-dia e, portanto, a história deste país.
A inveja é uma tradição
Pois uma nação que não produz livros e que não produz estudiosos de relativa monta está condenada a requentar velhos diários, está condenada a se pautar por bolorentas reportagens, está condenada a buscar sua identidade em videotapes e em parcos registros de áudio. Pior: está condenada a se formar, como consciência e como vontade, a partir da análise imediatista e atabalhoada dos nossos comentaristas de última hora.
Conti, apesar de egresso do urgente (urgentíssimo) meio jornalístico tupiniquim, sustenta preocupações que transcendem a semana, a quinzena, o mês, ou a retrospectiva anual. Propõe uma varredura minuciosa e estilisticamente isenta da ascensão e queda do mui recente fenômeno Collor. De forma nada menos que modelar, elenca as contribuições de cada veículo da grande imprensa (escrita e falada), dando nome aos bois, trazendo revelações dos bastidores e, informalmente, contando a história dos órgãos e dos grandes nomes que traçaram o perfil do Brasil na mídia dos últimos anos.
Invejar-lhe-ão, no entanto, o trabalho tão aprumado e sólido. Brasileiros têm dessas. Aferroados a filosofias de conversa de bar, preferem menosprezar a realização alheia, evocando obsoletos e duvidosos critérios éticos e ideológicos, a enfrentar inconsistências e imperfeições do próprio pensamento - seja diante de uma folha de papel em branco, seja, mais grave ainda, diante da perspectiva de um livro que lance algo de original e de coerente no ar.
Legitimidade reforçada
Nossos intelectuais de blablablá preferem se refugiar no cordão dos vitimados a lançar-se na imensidão do conhecimento e da dúvida afim de responder a esta interrogação perene que é o Brasil. Acorrentados às suas cartilhas e aos seus gurus (que não fazem senão ecoar os gurus lá de fora), não têm autonomia alguma para reconhecer o mérito alheio, quanto mais para juntar meia dúzia de idéias que valham a pena e que parem em pé. Quando atingidos em seus brios e orgulhos de quem não fez nada além de regurgitar croniquetas, costumam revidar desqualificando o adversário com ataques personalíssimos - em vez de criticar-lhe a iniciativa com argumentos de gente grande.
Ninguém tem razão. E todos a têm ao mesmo tempo, escreveu-se. Impossível, de antemão, respeitar e conciliar todos os juízos e todas as visões de um mesmo período num único livro. Ainda mais quando a maior parte das personagens passeia vivíssima pelas ruas da época contemporânea. É natural que se rebelem contra uma ou outra omissão, contra um ou outro enfoque, contra uma ou outra ênfase - é aquela história de gregos e troianos. O que não se admite, porém, são os julgamentos e as condenações, ambos peremptórios, à empresa de Mario Sergio Conti. Iniciativas assim, num país de illettrés como o nosso, têm de ser exemplarmente aplaudidas, não importando quem são os donos da verdade ou da veracidade dos fatos.
Por outro lado, refutações e polêmicas de toda ordem só fazem confirmar a legitimidade e reforçar o caráter do referido clássico. Quem quiser negá-lo à altura tem toda a liberdade de responder-lhe com uma obra de igual ou de maior porte.
Clássicos infelizmente são assim. Quem quiser que escreva outro.

Editorial do Observatório da Imprensa na TV (14/3/00)
ACM-IstoÉ: o começo do fim do pacto de sangue - A.D.
Trocado, preso ou executado? - Fabiano Golgo
Babitski vivo no Daguestão - F. G.
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