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TV RBS
Almoço do espanto

Gilmar Antonio Crestani (*)

O curso de Direito me forneceu ferramentas de trabalho, alguns amigos e boas leituras. Algumas leituras foram mais marcantes que outras. Cito A defesa tem a palavra, de Evandro Lins e Silva, que me caiu às mãos sem qualquer indicação, mas foi nela que encontrei os indicativos que mostram por que Evandro é o profissional reconhecido dentro e fora do meio jurídico.

Faleceram-me os códigos Civil, Penal, Comercial etc., pois são letra morta, que só os membros do MST devem cumprir, ou morrer, embora sirvam também para que as editoras ganhem rios de dinheiro a cada ano, em função da enxurrada anual de leis que alteram as alterações anteriores. Sem contar as famigeradas medidas provisórias, que mudam todos os meses. Mas nada me foi mais ilustrativo a respeito do Direito do que uma entrevista publicada pelo Pasquim, nº 409, de maio de 1977, com o jurista anticomunista Sobral Pinto. Nesta, Sobral pinta e dá as cores de como buscou melhores condições de instalação para seu cliente, o comunista Berger, que estava preso:

"A situação em que se encontra é precisamente a do Artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais. Este artigo diz que nenhum animal pode ser posto numa situação que não esteja de acordo com sua natureza. Um cavalo não pode ficar dentro de uma baia a vida inteira. Tem que sair, galopar, isso é da sua natureza. O homem também não pode ficar numa situação dessas, contrária a tudo que há em sua natureza e à sua psicologia. Então pedia a aplicação da Lei de Proteção aos Animais."

Outra lição inesquecível é a de que o culpado sempre procura os melhores advogados. A contratação de certos advogados indicariam o grau de culpabilidade do cliente. Quem contrata um Saulo Ramos, um Ives Gandra Martins não busca necessariamente o conhecimento desses profissionais, mas o seu jamegão e suas relações. A riqueza dos cursos de Direito está exatamente em fornecer um variado cardápio de profissionais: delegados, advogados de defesa, promotores, procuradores e também juízes.

Mas há também bacharéis que se acham oniscientes, por obra e graça de sua única vontade, ou, quem sabe, por inspiração divina. Estes, embora já tenham sido catalogados por Cesare Lombroso (1836-1909), encontram-se no jornalismo: investigam, julgam, condenam e executam.

Os programas de TV, como fontes de informação, não me atraem, excetuando documentários. Prefiro a palavra escrita dos jornais e revistas aos leitores de teleprompter. Por isso ando meio desligado, como na música dos Mutantes, no que diz respeito à programação da TV local e seus comentaristas policiais. Além disso, como assino a DirecTV, na minha casa não se vêem Rede Globo e suas filhas. Meu conhecimento do que rola nas tevês "abertas" - tão abertas que não podem passar na DirecTV! - vem da leitura de jornais ou pela internet.

Presunção de culpa

A exemplo do nacional Carlos "Ratinho" Massa, os gaúchos também já dispõem de um "ratinho" gaudério: Lasier Martins. O campeão dos comentários trash. Faz Erasmo Dias e Afanázio Jazadzi parecerem seminaristas em festa de São Francisco de Assis.

Má hora em que, nestas minhas férias, dia 12/3, fui forçado a almoçar assistindo ao Jornal do Almoço, programa da RBS-TV, de Porto Alegre. Fiquei deveras chocado. Em pleno almoço o âncora entrou em êxtase, espumando de raiva como se tivesse incorporado nele o coisa ruim. Pior me senti depois, ao constatar que, de fato, existe público para tanta baixaria. Talvez aí também se explique o sucesso das igrejas evangélicas e suas sessões para expulsar o demônio.

Realmente, há gostos e gostos, como provam os livros de medicina legal. O cinema criou um estilo de filme batizado de terrir. É o terror que faz rir, quando o paroxismo das cenas vira caricatura, sem verossimilhança com a realidade. Para mim, os comentários de Lasier Martins fizeram não minha Hora do espanto, mas meu Almoço do espanto.

Para que o leitor possa ter uma idéia, o Ratinho da RBS tecia alguns comentários a respeito de um fato policial sucedido em Porto Alegre. Um assalto a ônibus resultou na morte de uma policial. Em represália, um grupo de policiais teria "apagado" dois dos presumíveis assassinos. Esse era o mote. A fúria do clarividente e onipotente comentarista desembestou de tal forma que parecia uma daquelas sessões do filme O exorcista. Que motivações levam uma pessoa a perder o controle sobre si mesmo diante da mesa de almoço de seus telespectadores?

Explique-se. Era o dia da primeira audiência de tentativa de identificação dos policiais pretensamente envolvidos na morte dos presumíveis assassinos. Digo presumíveis, pois não houve inquérito, julgamento e, muito menos, condenação. Ainda.

O vociferante jurista e dublê de jornalista aproveitou o gancho para louvar a atitude da PM paulista, que massacrou todos os passageiros daquele ônibus que estaria levando integrantes do PCC a um assalto. (Igualmente uso o verbo no condicional pois não houve inquérito, acusação, julgamento, essas coisas banais do Estado de Direito, a que se dá o nome de segurança jurídica na democracia). Não se trata de defender bandido, que leis há para serem aplicadas e cumpridas, mas cuida-se da saúde mental de quem detém poder de repercussão.

Pelo que li no rosto do apresentador, não ando só desligado, mas desatualizado, a menos que tenha sido revogada a garantia constitucional da presunção de inocência. Deve ter voltado a moda dos tempos da ditadura, da presunção da culpa. A presunção de inocência somente vale para quem tem R$ 1,32 milhão no cofre da empresa para uma campanha eleitoral que sequer começou. Já para quem é pobre e anda em ônibus suspeito, a presunção é de culpa.

Talião revisitado

Não se fala em identificação dos culpados, nem em apresentá-los à Justiça. Bandido bom, para Lasier Martins, assim como para muita gente que se acha ilustrada em pleno século 21, é bandido morto. Em outras palavras, incentivou a justiça pelas próprias (dos policiais) mãos. Apresentou, inclusive, a ação dos policiais paulistas como padrão a ser seguido pelos policiais gaúchos, já que aqui os direitos humanos só protegem os bandidos. Minha avó italiana, analfabeta, também dizia que tem gente que só matando. Mas era uma metáfora para dizer que certas pessoas não têm conserto.

Seguindo as regras sui generis do animador de almoço, os sete magníficos meninos (não é filme de cowboy), conhecidos como Gangue da Praça Matriz, filhos da fina flor da sociedade porto-alegrense, que assassinaram o menino Alex Thomas, deveriam ter sido sumariamente fuzilados. Um dos acusados de envolvimento no crime hoje é ator na Globo. Seguindo a mesma pena de talião revigorada pelo vociferante e clarividente Lasier Martins, naquele estertor sádico amedrontador, os assassinos que incendiaram o índio Galdino Pataxó, numa parada de ônibus em Brasília, também deveriam ser decapitados em praça pública. Se fôssemos seguir a mesma trilha rancorosa, o filho de Odacyr Klein, ex-ministro dos Transportes, que atropelou e fugiu deixando um morto estendido na beira da estrada, deveria ter sido linchado em praça pública. Mas nessas horas Lasier deve falar nas fatalidades, dos insondáveis caminhos a que o homem está sujeito, neste vale de lágrimas.

Coincidentemente, Lasier é aquele mesmo que sentiu um prazer sádico ao constatar, na lista dos 40 maiores devedores do estado, a presença da Imcobrasa, de Renato Ribeiro, também dono do Correio do Povo, empresa que o havia defenestrado. Declarou, sem constrangimento, que usava espaço na RBS para se vingar do ex-patrão. É esse o equilíbrio emocional e o critério de isenção jornalística perseguido por Lasier Martins? Alguém consegue imaginar esse senhor envolvido em um acidente de trânsito e com uma arma na mão?

A chave de ouro, tão surrada como uma de pedra lascada, foi que os direitos humanos praticados aqui no RS só servem para proteger bandidos. Estou curioso para saber a definição de "bandido" e de "humano" do senhor Lasier Martins.

Teste psicotécnico

Infelizmente, Lasier está estribado em conceito expresso por um sociólogo de renome, que, por acidente, ocupa o comando desta nação. Quando a polícia paranaense matou o agricultor Antônio Tavares Pereira, 38 anos, cinco filhos, líder local do Movimento dos Sem-Terra, o professor Cardoso soltou uma de suas tantas pérolas: "Fatos como esse devem servir de alerta para aqueles que optarem pela provocação e pelo desrespeito à democracia e à cidadania." Aí está a legitimação da justiça pelas próprias mãos. Daí à execução da justiça pelos policiais é só uma oportunidade. Jorge Murad, lembrando das sobras de campanha do correligionário de sua esposa Roseana, o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi, deve ter pensado: se não há financiamento público das campanhas, então tudo é permitido. Subjacente, há sempre uma lógica.

"Polícia não tem que perguntar", cuspiu, naquele meu almoço, para justificar a atitude da PM paulista. Não por acaso, a morte de um tenista, em São Leopoldo-RS, pelas costas, se encaixa perfeitamente na "raciocinada" do Lasier Martins. Se analisada in vitro, a língua viperina do comentarista policial da RBS não passaria de mais um caso patológico a ser resolvido no âmbito da medicina legal. Contudo, a virulência do ataque tem pessoas e endereços certos. Estes, além de não servirem à RBS como o BNDES o faz com relação à mãe dela (a Globo), também já cobraram na Justiça muita grana desta filha daquela.

Assim como o filho de Pluto, deus grego do dinheiro, também chamado de BNDES, que virou a cabeça da Globo a respeito de Roseana, também a RBS tem lá suas razões que só os cofres públicos conhecem. Qual dos coronelismos é pior: o do clã Sarney ou o de certa mídia a que estamos submetidos?

A mídia já apóia abertamente a justiça pelas próprias mãos. Então, para que implantar a pena de morte, se diariamente centenas morrem de morte matada nos arrabaldes das cidades? A diferença é que ninguém insufla a polícia a fazer justiça com as próprias mãos quando se trata de Jorge Murad, Jader Barbalho, ACM, Luis Estêvão, Eliseu Padilha, Nicolau Lalau, Sarneys. Nesses casos, até algema causa celeuma. Também Hildebrando Paschoal, do PFL do Acre, que mandava serrar seus desafetos com motosserra, escapa da sanha magarefe de Lasier Martins.

Antes de exigirem diploma, os sindicatos de jornalistas deveriam exigir teste psicotécnico para os profissionais que pilotam programas jornalísticos, mormente no horário de almoço.

(*) Funcionário público federal

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