Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

O diretor da Folha não leu (*)

"[...] Nos regimes abertos – como o atual – não existe a repressão escancarada do governo, mas vigora a ordem interna dos grupos que sustentam os jornais. Em nível de empresa, não se pode furar os interesses que cada jornal defende, sejam eles econômicos, morais, políticos, religiosos, esportivos, artísticos – no mais das vezes são todos esses interesses juntos e ampliados pelas circunstâncias do mercado.

Em nível de redação, cada editoria se exprime por meio de uma hierarquia que repete a ordem da empresa. O profissional é obrigado a se submeter aos critérios dos editores que entre si se organizam para decupar e executar a ordem de cima. A partir de cada feudo, os editores impõem a própria ordem para as bases. Espremido entre as pilastras de comando, o profissional sente na carne que a sua liberdade é uma imagem poética. A única liberdade que se apresenta é a submissão ou a demissão.[...]"

(*) "Mito e realidade da liberdade de imprensa", por Carlos Heitor Cony, copyright Folha de S. Paulo, 7/8/98

Folha demitiu Dines pelo que ele escreveu

Blue Bus (*)

 

"Proclamada campeã da luta dos anos 60 e 70 contra a ditadura e a censura no jornalismo, a Folha de S. Paulo demitiu na tarde de ontem seu colunista Alberto Dines, comunicado por telefonema do editor do suplemento, que avisou, constrangido, seu desligamento. Ligava a pedido de Otavio Frias [Filho], e explicou a decisão como relacionada ao conteúdo do artigo ‘Mídia treinada pela inflação não sabe como combatê-la’, publicado no site Observatório da Imprensa – leia em www2.uol.com.br/artigos/iq050399a.htm. No texto, Dines refere-se à venda do parque gráfico a ‘americanos’ e à fusão dos títulos populares da casa em novo veículo.

Falando por telefone ainda há pouco com Blue Bus, Alberto Dines comentou a decisão do jornal: ‘Eles não me puniram pelo que eu escrevi na Folha. Eles me puniram pelo que eu escrevi em outro veiculo’ – espanta-se. Reabre a questão, no entanto, dizendo acreditar que o texto publicado no Observatório teria sido somente um pretexto, e que sua demissão se deveria, na verdade, ao artigo ‘A cidade e os seus homens’ [ver remissão abaixo], em que aborda o escândalo da máfia dos fiscais e o envolvimento de políticos malufistas.

Por outro lado, lembra que o assunto do parque gráfico foi publicado pela própria Folha, na primeira página, e comentado em três outras ocasiões no Observatório. Acrescenta que a notícia de seu desligamento do quadro de colunistas do jornal, junto com Arnaldo Jabor, anunciada há algumas semanas, não se concretizou naquele momento mas pode ter sido vazada pela direção do jornal com a intenção de alertá-lo.

Em setembro, faz 26 anos que Dines, editor no Jornal do Brasil, proibido pela censura de colocar em manchete a morte de Salvador Allende, abriu a notícia em corpo 24, sem título, ocupando toda a primeira página do jornal. Terá sido o ponto mais alto da luta criativa travada naqueles anos, no país, pela liberdade de informar. Talvez todo aquele esforço tenha sido em vão."

Blue Bus, 12/3/99, 14:24, http://www.bluebus.com.br/index2.frm

xxx

Fórum de inteligência ou circo romano?

Sérgio Rego Monteiro

"A saída do Dines da Folha é lamentável por vários aspectos. Primeiro porque o profissional é um dos poucos ícones do jornalismo brasileiro, e carrega uma inteligência e cultura invulgares. Segundo, porque traz à luz dois aspectos no jornalismo que estão sendo tocados de modo cada vez mais dominante e com uma freqüência de assustar – falo da liberdade de escrever e do ciúme do empresário de comunicação. Verdade que no tempo do velho Chatô aconteceu com ele e o David Nasser uma cena de pugilato, fruto da insistência de David em fazer um jornalismo independente. Recebeu como resposta que ‘se quiser fazer jornalismo independente, abra seu próprio jornal’. Claro, incisivo e típico, vindo do fundador dos Associados. Mas hoje, jornais que são tidos como tribunas da liberdade cerceiam a opinião de articulistas que deveriam ter total autonomia para opinar, uma vez que não se mistura mais sua posição com a posição do jornal. Um ‘fórum de inteligência’ – dizem. Na verdade, está virando circo romano – e com todos os polegares para baixo.

Blue Bus, 12/3/99, 19:35 www.bluebus.com.br/index2.frm

Entenda a mixórdia

José Antonio Palhano

Certos gestos pressupõem a surpresa como elemento essencial às suas supostas legitimações. Por sua natureza intrinsecamente covarde, porém, aquilo que se arvora como tal – surpresa – reduz-se à triste condição de traição vulgar e barata, de sacanagem rasteira eivada de ressentimentos, tão encontrada nas tristemente proverbiais patotas de gentinha de baixa extração, inculta, cafona e medularmente invejosa.

Assim, acidentes de percurso que tanto freqüentam – e definem – relações trabalhistas são de tal ordem rotineiros e previsíveis que simplesmente se encerram em seus próprios limites burocráticos. Demissões, por exemplo. Descontado seu altíssimo grau de aflição social quando, como agora, engordam números que se transformam em desemprego, são quase sempre redundantes a ponto de exigir precedência, coisa que atende pelo nome de aviso prévio. Quanto mais intelectualmente evoluídas as partes (se isto soa muito elitista, quanto mais educadas) mais civilizadamente ocorrerá o processo de ruptura.

É constrangedoramente complicado, pois, quando uma empresa do porte da Folha de S. Paulo mete-se a cacarejar a demissão de um seu colunista cujo prestígio dispensa que se perca tempo desfiando sua (sem trocadilhos) folha corrida. E, diga-se, esforçando-se ao máximo para que o cacarejo evolua sem deixar qualquer dúvida a respeito da sua impiedosa (e única) missão de humilhar. Alberto Dines recebeu a notícia da sua demissão às vésperas da data de publicação da sua coluna. Por meio de um telefonema.

Urge que se desmascare, antes de tudo, a armação safada, pretensiosamente maquiavélica, embutida no gesto gratuitamente grosseiro. Ao assim proceder, a direção do jornal especulou com o amor-próprio de Dines: caso este deixasse barato, saindo em silêncio, estaria suficientemente humilhado, plenamente conhecedor do seu lugar. Se, ao contrário, tornasse público o acontecido – o que efetivamente ocorreu – o ônus do barulho, ou da vergonha, ficaria com ele. Por que tanta biliose? Para nada. A não ser para que se referende a conclusão ruim de que a Folha tentou, mesquinha e pateticamente, garrular em silêncio, terceirizando o ruído (ou a garrulice) para o seu desafeto. Feio, horrivelmente feio.

Ou, visto de outro modo, preocupantemente doentio, vez que o jornal engravidou a si próprio da demissão. No episódio não tão distante da censura a um artigo do mesmo Dines, ficou patente não apenas uma suposta animosidade com seu colunista, ou, sem grilos maiores, a presença de altos teores de incompatibilidade editorial. Algo bem mais grave ocorreu: vários outros jornais se viram repentinamente sem o mesmo artigo. Poderá algum órgão de comunicação em regime plenamente democrático confundir seu imenso poderio empresarial e financeiro com uma intolerável e neoboba instrumentalização da censura? Dines não soma, não presta, está dando trabalho demais? Por que não chamá-lo com um mínimo de antecedência, suficiente ao menos para que ele não escreva um artigo que a direção da empresa, diferentemente dele próprio, antecipadamente já sabe que não vai sair?

Talvez seja a hora de discernir crescimento de gigantismo, aquilo que é inerente aos tumores. Por que, como já escreveu até o ombudsman, a Folha olha tanto para o próprio umbigo? Por que se sentir ofendida com o raciocínio segundo o qual as empresas ganharam – e se acostumaram – com a inflação? Onde diabos anda a definição de imposto inflacionário? Ou a inflação já não é mais definida como uma praga social que só afeta os (milhões) que não têm poupança, conta-corrente ou outros instrumentos tão bem adaptados à intolerável financização do país, obra-prima bolada no reinado de um luminar da ditadura, hoje debochado e paparicado articulista da mesma Folha? Cadê a pensata tão difundida e aceita segundo a qual a inflação entre nós se transformou em vigoroso e resistente traço cultural? Ou a enorme repercussão – e os nauseantes espasmos de hipocrisia – das referências de Gustavo Franco à pirâmide da Avenida Paulista não tem absolutamente nada a ver com isso?

Tudo bem. Alberto Dines certamente não morrerá de fome. Vida que segue para ele e para nós, leitores da Folha. Assimilemos sem mais engulhos outros espécimes de colunistas. Tem gente boa que não acaba mais. Duro é agüentar certos tipos. Como aquele que, decorrida menos de uma semana da posse do novo presidente do Banco Central, teve a cara de pau de escrever, à guisa de título de um (?) artigo: "É cedo para canonizar Armínio Fraga". Azar o nosso. Ou o homem está avisando que chegará a hora em que alguém estará no ponto para ser canonizado (ah!, que falta faz um herói...) ou isto é derrotismo brabo. De um modo ou de outro, lastimável manifestação de paternalismo. Tem também a trepidante articulista que outro dia obrou uma pérola inesquecível. Lá pelas tantas, sapecou um "Nós, os chatos da Folha...". Pena que não fosse exatamente a chatura, um saudável sintoma de autocrítica. O adjetivo aí era bem mais arrogante e pretensioso. Induzia à idéia de que só a Folha tem gente suficientemente capaz para fazer um jornalismo competente, independente e ético. E que tal se faz através de chatices. E aí, não vale nem um puxão de orelhas?



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