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A peste, Camus, e a franqueza de Franco

Alberto Dines

 

N


unca esteve na moda, crista da onda, revivals. Jamais mereceu um culto. No meio acadêmico é apreciado em surdina, a patrulha dominante não gosta deste tipo de inconformismo que põe em dúvida abalizadas certezas. No esquema simplificado da mídia, porque foi combatido por Sartre, raramente aparece.

Albert Camus, no entanto, é uma das figuras maiores da literatura e da cultura mundial nesta segunda metade do século. A brilhante biografia de Olivier Todd (jornalista e escritor francês, colaborador regular da New York Review of Books) aqui publicada no fim do ano passado (Editora Record, 877 gs.) é um monumento a este jornalista profissional nascido na Argélia que aos 44 anos ganhou o Nobel da Literatura e três anos depois teve uma "morte imbecil", como ele próprio classificava os acidentes automobilísticos.

Enquanto lia Camus pela mão de Todd (que não ousa designar sua obra como biografia) recebi o e-mail de uma leitora, Monica Eustáquio Fonseca, relembrando um trecho de "A Peste":

"...o bacilo da peste não morre, nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis, na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada... viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz..."

Bacilos da peste, assim como os ratos infectados, gostam dos silêncios, não propriamente da ausência de som, produto do sossego, mas daquele falso silêncio encoberto pela algazarra. Nossa peste é outra, uma assuada incontinente, intermitente e inconseqüente que dura apenas algumas horas -- uma edição no máximo – e camufla outro silêncio, este espesso e permanente, sobre questões cruciais. Nossa peste é uma arrogância demente que vai muito além da psiquê, portanto, orgânica -- não admite avaliações, questionamentos, reparos. A nossa "cidade feliz", pronta para ser atacada por ratos e bacilos, quer apenas meias verdades. Ou meias mentiras.

A peça oratória de hora e meia pronunciada por Gustavo Franco ao passar o cargo de presidente do BC para Armínio Fraga é uma preciosidade. Tanto pelo que disse como pela repercussão que teve. Pronunciado na tarde da última segunda-feira a reverberação durou apenas até quarta pela manhã. O lapso seria ainda menor se a colunista de política do JB, Dora Kramer, contrariando a implacável lei da concorrência novidadeira, não se debruçasse dois dias depois sobre os aspectos conceituais e "culturais" do pronunciamento.

O efeito Gustavo Franco evaporou-se. Claro, Gustavo Franco hoje não é poder e a mídia vive e viceja em torno do poder. A mídia é o poder por outros meios. E não porque este assim o quer mas porque nestas bandas ela só sabe operar dentro dos estreitos limites do jogo político. Mesmo quando coloca-se eventualmente contra um dos parceiros.

O mais importante jornal de economia e negócios, praticamente ignorou o discurso do ex-presidente do BC, talvez em solidariedade aos anunciantes, o empresariado paulista, alvo preferencial da pontaria de Franco. Os jornais que reproduziram a integra do documento, fizeram-no por obrigação, em corpo microscópico. Tornaram-no irrelevante. Desperdício de papel, quem precisa da íntegra pode buscá-la na Internet, como acabo de fazer. O que se desejaria de um jornal responsável e moderno, efetivamente interessado em ir fundo no esclarecimento não é o registro, puro e simples, mas os desdobramentos de uma discussão inédita sobre os lobbies, a irresponsabilidade das elites, o oportunismo político e as implicações disso na presente conjuntura.

A rápida discussão foi superficial e desviante. A mídia estava apenas interessada na réplica dos atingidos pelas certeiras rajadas de franqueza de Franco. Queria esquentar uma briga de rua. Fazer barulho. Inclusive fingir que está profundamente apta a discutir a ciência econômica. Não está e nunca esteve. Salvo as raras e honrosas exceções.

A mídia não entendeu direito aquela coleção de ironias expostas com elegância e tranqüilidade mas entreviu a possibilidade de ali existir um ataque ao governo. Na realidade, Gustavo Franco acabara de prestar um enorme serviço ao governo fazendo o minucioso retrospecto histórico da trajetória do Real (a partir da URV que o tornou factível) e, sobretudo, expondo com clareza os vícios estruturais da nossa vida política, inclusive na esfera oficial, que ameaçaram e ainda ameaçam a estabilidade monetária.

Na presidência do BC, Gustavo Franco prestou relevantes serviços à causa da valorização de valores, a começar pela moeda. Ao deixar o cargo, prestou outro tentando deslanchar um debate até agora entalado.

Não deu certo: a peste, porque é uma peste, abomina o arejamento. Prefere o sufoco. Ninguém errou, ninguém pecou, todos são ótimos. Voltamos à quietude que tanto anima bacilos e ratos.

Camus, vida e obra, precisam ser retomados. Sua desilusão é criativa e estimulante.

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NOTA: Este texto já estava sendo encaminhado à Folha de S.Paulo quando fui informado pelo telefone que estava demitido. Razão alegada: análise de minha autoria publicada na edição corrente do "Observatório da Imprensa", edição on-line (www2.uol.com.br) sobre a crise da imprensa brasileira. Razão mais convincente: meu último artigo, "Os homens e suas cidades" (6/3/93) onde trato do escândalo conhecido como "Máfia dos Fiscais" e relembro a habilidade de Paulo Maluf em manter-se distante de tudo o que apronta. Este mesmo Maluf foi a figura central do meu artigo censurado pela direção da "Folha" na véspera do segundo turno das últimas eleições. Naquela ocasião, não contente de censurar o seu colaborador, a "Folha" censurou também os seis jornais que republicavam o artigo deixando de distribuí-lo. Inclusive este JORNAL DO BRASIL Agora pune um colaborador por artigo que escreveu em outra publicação. A peste é uma realidade: a crise em certos arraiais da imprensa é ainda maior do que se supunha. Muito mais do que econômica.

© Copyright Jornal do Brasil, 13/3/99



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