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COBERTURA
Olho de cego

Luiz Egypto

A corrupção endêmica que há anos viceja e grassa no governo do município de São Paulo exibe o que há de mais moderno e de mais arcaico em matéria de trambiques. Se de um lado tem-se o achaque puro e simples de um fiscal sobre um feirante, a troco de uma gorjeta para a cerveja ou de um quilo de peixe, de outro o tráfico de influência opera com mecanismos mais sofisticados e globais, como no caso da maracutaia recém-descoberta na instalação de redes de comunicação de fibras ópticas no subsolo da maior cidade brasileira.

A imprensa acompanha o andar da carruagem, como deve ser. E agradece ao FBI, a polícia federal americana, por tê-la municiado de pautas novas a respeito de assuntos que dormitavam nas gavetas ou em diretórios recônditos dos computadores das redações. Explica-se: investigações do FBI redundaram na prisão de dois brasileiros em Miami, Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz, que, acusados de lavar dinheiro de narcotraficantes, acabaram por oferecer aos investigadores alguns nexos importantes sobre a autoria do chamado "Dossiê Caribe" – uma papelada apócrifa que supostamente provaria uma sociedade ilícita entre o presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo Mário Covas, o ministro José Serra e o ex-ministro Sérgio Motta num paraíso fiscal caribenho.

As descobertas do FBI deram pistas novas a intrépidos editores. Uma suíte perfeita para as recentes denúncias de Nicéa Camargo, ex-Pitta, que no papel de vestal da moralidade pública ajudou a deslindar os meandros da copa e da cozinha dos esquemas de corrupção da prefeitura paulistana. A prisão dos dois brasileiros nos Estados Unidos respingou em Paulo Maluf – a quem dona Nicéa agora dedica ódio eterno – por intermédio das ligações de seu filho Flávio Maluf com o "empresário" Oscar de Barros, hoje recolhido a uma prisão da Flórida.

Tudo muito bom, tudo muito bem. Ou quase. Quem leu os dois principais jornais de São Paulo na terça-feira (12/4/00) teve detalhes de sobra sobre as acusações imputadas pelo FBI a Barros e Ferraz. Mas não teve maiores informações sobre quem são, afinal, esses dois personagens suspeitos e nem ficou sabendo com que estado de espírito encararam as acusações que lhe são feitas – pelo menos a julgar pelo relato dos enviados especiais dos dois jornalões paulistas a Miami.

Disse a Folha de S.Paulo (pág. 1-6, 11/4/00): "Algemados um ao outro pelos pés e pelas mãos, vestidos num uniforme cor laranja, Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz compareceram ontem, pela segunda vez desde que foram presos no dia 26 de março passado, ao Tribunal Federal Criminal de Miami (EUA)".

Escreveu O Estado de S.Paulo (pág. A-12, 11/4/00): "A audiência de Barros e Ferraz foi rápida. Os dois entraram vestindo o uniforme caqui da cadeia local, de mangas curtas, sem gola. Estavam algemados um ao outro".

Ainda na Folha (mesma página e data): "Esse [lavagem de dinheiro] é o único processo e única acusação que existe no momento contra José Maria Teixeira Ferraz, 44 anos (...). Já Oscar de Barros, 54 anos, estatura mediana, rosto redondo, que apareceu ontem visivelmente abatido, como barba por fazer e bigode cheio, é hoje epicentro de pelo menos duas investigações (...)".

Ainda no Estadão (idem): "Barros tem cerca de 1m80, usa óculos, tem fartos cabelos grisalhos e bigode de mexicano. Ferraz, também com vasta cabeleira, estava com barba por fazer. Os dois estavam descontraídos e riam entre si, o tempo todo".

Vai entender...

 

CAROS AMIGOS
Um fato jornalístico

Celso Cunha (*)

O Quarto Poder anda tão condescendente com o Primeiro – o Executivo – que chega às raias da cumplicidade. O pior é que se o Primeiro já é subalterno, que dizer do Quarto?

"A prática da democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los...", doutrinava o editorial do Grande Irmão, O Globo, na edição de 14 de dezembro de 1989, dia do debate Collor x Lula. Segue adiante, após narrar as supostas peripécias extraconjugais do metalúrgico – "...E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorra para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se presidente da República, o mais alto posto da nação" –, para concluir do alto de sua autoridade moral: "...Mas a acusação está no ar. Houve distorção? (...) A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência". Magister dixit!

Na comparação do tratamento dispensado pela imprensa aos dois casos, o de Lula e o de FHC, verifica-se gritante disparidade: veiculação frenética, maldosa, prejudicando sim a imagem do candidato Lula e dolosa omissão total, no caso de Fernando Henrique. Dois pesos e duas medidas. In casu, a impresa tomou partido sim, como continua acobertando os sucessivos escândalos da atual gestão desastrosa representada por FH.

Quem confere aos donos de jornais ou a chefes de redação o direito de decidir que fatos devem ou não ser levados ao conhecimento de seus leitores e do povo em geral? A quase totalidade dos entrevistados por Caros Amigos sabia da existência do fato, mas nem uma palavra foi divulgada em seus veículos, baixando um manto de silêncio. Será só pusilanimidade? É claro que os jornalistas querem manter seus empregos e os donos de jornais a verba gorda da propaganda oficial. Isso explica, mas não justifica. Será que democracia não é compatível com capitalismo?

Supostamente suposto

O fato jornalístico foi publicado pela Caros Amigos e, naturalmente, todos os jornalistas a leram, mormente os nela citados; mas, até o momento, nem uma palavra! Que vergonha, como disse o Pelé, uma das vítimas da imprensa – merecidamente, aliás. Se os principais órgãos da imprensa filiaram-se ao PSDB, deveriam ao menos tarjar os exemplares de seus pasquins com um tucano ou uma das muitas fotografias de seu senhor – FH, para que leitores incautos não os leiam.

Depois de FH, a palavra suposto e seus derivados são mais escritas e faladas na mídia: "O suposto envolvimento do presidente com as supostas contas no exterior", ou como diz a pérola da ironia de Caros Amigos: "O interesse no suposto caso que Miriam supostamente teria tido com o presidente, do qual supostamente teria nascido um suposto filho, supostamente presidencial". Melhor seria dizer, sem ironia, que o suposto presidente de uma suposta república é um homem supostamente honrado, como, supostamente, todos o são. Shakespeare o teria dito, sem tantas ressalvas.

(*) Advogado

 

FUTEBOL
Síndrome de Lady Di

Sérgio Riede

O futebol brasileiro contemporâneo já tinha o seu rei (Eurico Miranda), o príncipe (Romário) e o bobo da corte (Edmundo). Agora surge nossa princesa: Ronaldo III. Terceiro, pela quantidade de cirurgias no joelho. Princesa, pela semelhança com Lady Di no tratamento que está recebendo da imprensa e do público.

O dilema do biscoito está de volta: a mídia escancara os holofotes porque o público está comovido ou o público fica exponencialmente mais comovido porque a imprensa escancara os holofotes?

É impressionante! No episódio da morte da princesa Diana apareceram dezenas de potenciais culpados: os papparazzi, o motorista bêbado, os pilares do túnel, o namorado dela, um segundo carro que teria provocado o acidente, o príncipe Charles e até o público ávido por notícias. Com Ronaldinho não podia ser diferente. Em poucos dias, vários vilões já foram apontados: o médico que o operou, o fisioterapeuta Filé, o técnico da Inter, a Nike, os empresários do atleta, a fraqueza dos tendões dele, a pressa e a ganância do próprio jogador, o seu porte avantajado, a sua mania de jogar à base de arrancadas, os exercícios feitos em cama elástica e caixa de areia e por aí vai.

"Tu dolor es mi dolor"

É a velha história: profetas do acontecido proliferam no mundo inteiro. Isso se repete em cada acidente aéreo, em cada deslizamento de morro, em cada incêndio. Basta acontecer a desgraça, e todos dizem que sabiam como evitar.

Sobre a contusão de Ronaldinho, médicos renomados deram diagnóstico prontamente, com base nas imagens da televisão. Uns disseram exatamente quantos meses ele demoraria para voltar a jogar. Outros garantiram que ele não volta a atuar. E houve os que afirmaram que ele retorna, mas nunca mais será o mesmo. É de cair o queixo com tanta precisão!

A imprensa e o público brasileiros (e não só os brasileiros) capricharam na espetacularização da tragédia: dezenas de fotos do incidente foram disponibilizadas na internet; o arqui-rival Milan abriu sua homepage com uma homenagem à Ronaldo; houve telegrama do presidente Fernando Henrique e de Maradona (parecia título de filme de Almodóvar: "Tua dor é minha dor"), telefonemas de dezenas de jogadores famosos, visitas pessoais de Michel Platini e Wanderley Luxemburgo, solidariedade da ex-noiva Suzana Werner, "serenata" de estudantes franceses no hospital, flores enviadas por populares à mãe do atleta, torcedores exibindo faixas de apoio ao craque nos estádios brasileiros.

Chutômetro desenfreado

Enfim, é claro que a imprensa não poderia ignorar. Nem é isso que se está pedindo. Mas que há uma clara insuflação dos ânimos, não há a menor dúvida. Que se criam fatos paralelos para gerar cobertura, está na cara. Até parece que não há assunto suficiente no Brasil: as briguinhas de Edmundo e Romário; a convocação para a seleção brasileira; as contusões de outros atletas famosos; os casos Pitta e Maluf; a crise no governo Garotinho; a festa dos 500 anos; o bate-boca ACM x Jader.

O drama puro e simples de Ronaldo, ex-número 1 do mundo, que teve contusão mais séria ainda no mesmo joelho operado quatro meses atrás, justo no dia de sua volta aos gramados, já não é suficiente para sensibilizar o público? Não há nos próprios fatos material suficiente para uma cobertura digna e eficiente? Já não existe carga dramática bastante no novo processo de reabilitação pelo qual o jogador terá que passar?

Por que então esse açodamento, esse chutômetro desenfreado e ridículo que está sendo criado? Qual é a utilidade jornalística, científica ou de qualquer outra ordem que podem ter as pesquisas disparadas por vários órgãos de imprensa perguntando ao público se Ronaldo voltará a jogar ou não?

Fantasma sem rumo

Veículos como o Canal ESPN Brasil, a revista Época, o jornal Lance, o jornal O Globo, o portal Terra e muitos outros caíram na tentação de estimular seus públicos a adivinhar o futuro de Ronaldo. Meu Deus do céu! Aonde querem chegar? Que o atleta, de posse dos dados "científicos" extraídos das pesquisas realizadas com o maior rigor estatístico, nem caia no ridículo de tentar se recuperar? O que se ganha tentando antecipar o futuro?

O que preocupa não é apenas o ser humano Ronaldo – o que, aliás, já seria razão suficiente para se ter o máximo de respeito e cuidado. O que dá contorno de perplexidade é o futuro que a imprensa delineia a si mesma, caminhando por esta via da interatividade mórbida, da pesquisite inconseqüente, da fascinação pela desgraça alheia.

Será que já é muito seis anos sem o cadáver de um grande esportista brasileiro, como foi Ayrton Senna? Ou será que Ronaldinho é mais útil ainda porque "morreu" como melhor do mundo, mas ainda vai render boas matérias como um fantasma sem rumo, que ainda não percebeu o novo espaço que a história lhe reserva?

 

Sem a menor graça

Renato Albuquerque
(*)

A enfadonha cobertura dos campeonatos de futebol são uma prova de que o país necessita de criatividade nessa área. É insuportável a quantidade de chavões utilizados em reportagens. "O jogo vai ser bom porque a equipe está unida" e coisas do gênero deixam de ser jornalismo para ser piada de mau gosto.

Ou de bom tamanho para cassetas e planetas da vida. A mesmice é avassaladora. O jornalista Juca Kfouri, por exemplo, por quem tenho admiração, é responsável por algumas notas esportivas na rádio CBN. Sempre que ouço seus comentários procuro aumentar o volume do rádio. Mas, não raro, ele me causa surpresa, ao simplesmente divulgar os resultados das rodadas de fim de semana e quarta-feira. Acredito que um jornalista de sua envergadura poderia ser muito melhor aproveitado pela emissora que o contratou.

No quesito "aproveitamento de espaço", o caderno Esporte da Folha de S.Paulo é imbatível. Normalmente, sai com oito páginas, sendo que, nas de números 6 e 7, apresenta um tabelão, no estilo da revista Placar, tomando quase que completamente o espaço. Ali é possível conferir resultados e classificações de campeonatos importantes como o amazonense, o acreano ou o piauiense; ou notas bem interessantes sobre clubes como Vila Nova, de Goiás. Em 14 de abril, por exemplo, a coluna Placar da Folha publicou: "O técnico Paulo César, do Vila Nova, está confiante para a partida de hoje contra o Goiás. Um dos motivos que fazem o técnico crer na vitória é a juventude da equipe…", e por aí foi. Parecia calhau, press release, qualquer coisa, menos matéria do "maior jornal do país".

Ao esporte amador, o ostracismo

Não podemos desmerecer a importante descoberta dos "gatos do Maranhão", evidenciada em cobertura jornalística da Folha. No entanto, ainda é muito pouco. As reportagens investigativas nos bastidores de clubes, federações, e não apenas do futebol, mas de outras modalidades, poderiam "temperar" esses cadernos, além de contribuir para melhorar o esporte nacional.

Há também uma tendência de "cobertura de mexericos" no cotidiano dos clubes, coisa que não é feita com o esporte amador. Normalmente, tratam-no com reserva e distância. Por que não saber o que um atleta da natação pensa a respeito de outros temas, que não o próprio esporte?

A imprensa tentou fazer mea-culpa com o caso Ronaldinho. Na última Copa do Mundo ficou a sensação de que algo foi escondido e de que a mídia não foi suficientemente competente para descobrir o que aconteceu. Desta feita, todo mundo (rádio, TV, jornais) publicou a "morte antecipada" do craque. Foram páginas e mais páginas, espaço exagerado em rádio e TV, em decorrência de seu problema no joelho, ocorrido no jogo entre Inter e Lazio. Como se o ovo de Colombo tivesse sido redescoberto. As matérias, no entanto, poderiam ter esclarecido alguns pontos: quanto tempo ele deverá ficar realmente parado, quais as condições para um tratamento eficiente, o que tem ocorrido nos últimos tempos com o estado físico de Ronaldo?

Só uma revolução

Preferiram tratar o caso como novela ou "aposentadoria precoce". A Folha chegou a relembrar toda a sua trajetória profissional. Fez lembrar Ayrton Senna. Para quem tem 23 anos, se ele ficar parado dois anos – o que ninguém quer que aconteça –, ainda assim terá 25 e, mais experiente, poderá desfrutar de muito sucesso ainda em sua carreira.

Antes de diagnósticos aprofundados, a mídia tentou sair na frente e enterrar de vez não só os sonhos de Ronaldinho, mas da juventude que se espelha nele. Ficou parecendo "Crise em Paris – O Retorno". Por outro lado, os médicos diziam ser possível sua volta. Será? Talvez esta seja a reportagem. Sem ficções ou achismos.

Culpam Ronaldo por estar sempre voltado para a mídia. Mas será que não é a mídia que está procurando neste atleta o caminho inovador (ou simplesmente ampliar vendagem) que não encontra em suas coberturas esportivas? Caminho inovador, para dizer o mínimo. As coberturas esportivas deveriam passar por uma verdadeira revolução.

(*) Jornalista

 

PÉROLAS
Las playas de Bolívia

Guilherme Leite

Quando esteve no Brasil, o ex-presidente americano Ronald Reagan foi muito criticado pela mídia ao cometer uma gafe inesquecível, afirmando que "estava feliz por se achar na Bolívia", lembram-se? Passados tantos anos, a Folha de S. Paulo mostrou que o velho cowboy tinha lá seus motivos para trocar as bolas. Na edição do dia 6 de abril, no caderno de Esportes, estava lá o seguinte parágrafo:

"Para o jogo de hoje, a comissão técnica do Palmeiras adotou a mesma estratégia utilizada no Equador. A delegação brasileira embarcou ontem à tarde para Santa Cruz de la Sierra, cidade litorânea da Bolívia."

Será que aposentaram o badalado Atlas da Folha na redação?



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