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FOLHA VS. OBSERVATÓRIO
A patologia do coice

Alberto Dines

 

Ficou claro: qualquer empresa jornalística tem o direito de demitir um jornalista. Ou dispensar os seus serviços. Mesmo quando as relações de trabalho são substituídas pelas relações de troca (quando compra os artigos de um profissional que não pertence aos seus quadros). A interrupção deste relacionamento pode dar-se, inclusive, em função do que este jornalista escreve ou deixa de escrever nos veículos desta empresa.

Ficou mais do que claro: por mais que as empresas jornalísticas defendam o seu sagrado direito de manifestar-se esse direito não cabe aos jornalistas.

A demissão deste Observador pela Folha, além de deixar bem clara a ambigüidade em torno da decantada liberdade de expressão em nosso país, acrescenta elementos ainda mais graves:

** O texto que desagradou foi produzido em outro veículo.

** Este veículo é um serviço público, uma ONG virtual, criada há 3 anos (abril de 1996) com a finalidade expressa de acompanhar o desempenho da imprensa.

** Para desqualificar o texto, seu autor e o veículo que os acolheu, a Folha recorreu ao expediente de colocar as respectivas credibilidades sob suspeição, acusando-os de estar a serviço do governo federal.

A manobra merece um exame patológico:

** Quando a Folha contratou o articulista, este OBSERVATÓRIO já existia há mais de um ano. Neste período a Folha jamais se importou – ou demonstrou importar-se – com o que aqui era publicado. Inclusive no caso da grande matéria sobre a parceria com uma empresa estrangeira para explorar o seu parque gráfico [ver remissão abaixo].

** Este OBSERVATÓRIO esforça-se para não entrar no mérito dos assuntos focalizados pela mídia, interessado apenas em discutir a cobertura que a imprensa faz destes mesmos assuntos. Ainda que a crítica da mídia seja, em si, uma clara tomada de posição política e ideológica, pretendemos realizá-la sob a ótica pluripartidária. E tudo indica que o conseguimos.

** Depois de lançada a versão televisiva do OBSERVATÓRIO (primeiro na TVE e, depois, na TV Cultura), a Folha jamais reclamou de sua orientação ou eventual parcialidade. Ao contrário, seus altos quadros sempre aceitaram participar do programa – como aliás os dos demais veículos. O próprio diretor de Redação da Folha concedeu uma grande entrevista, na qual o repórter era exatamente este Observador (a primeira entrevista da série foi com a repórter Elvira Lobato, da sucursal da Folha no Rio de Janeiro).

** Ao justificar a demissão de seu articulista na última edição deste OBSERVATÓRIO, o diretor de Redação da Folha, no intuito de comprometer minha reputação, garantiu que eu prestaria serviços à imprensa governista (leia-se Grupo Globo). Não se trata apenas de uma grosseira mentira. Trata-se da cabal constatação de que o seu veiculador está passando por um perigoso surto paranóico: meia hora depois de ser demitido, o articulista já estava contratado pela AJB, Agência Jornal do Brasil. E se o Grupo JB fosse governista, certamente estaria hoje em posição mais confortável. Convém notar ainda que três ilustres articulistas da Folha vendem seus artigos a O Globo, o que não significa que prestem serviços à imprensa governista. São eles: Elio Gaspari, Roberto Campos e Arnaldo Jabor.

** Não é a primeira vez que a Folha tenta desabonar um de seus contratados por não rezar na cartilha do Pensamento Único. Como bem lembraram alguns Observadores que se manifestaram sobre o caso nas duas últimas edições, a incrível pressão do jornal sobre Paulo Francis em 1990 foi ainda pior, porque ocorreu nas suas próprias páginas. Com base no que me afirmou pouco depois o próprio Francis, o personagem por trás da cruzada contra ele era exatamente o mesmo que agora tenta novamente enxovalhar a figura mais velha que conhece a sua biografia. Só não o fez com Cláudio Abramo porque este morreu antes.

** As polêmicas passam, as pessoas passam. Mas as instituições permanecem. Está evidente que o alvo principal do coice da Folha é este OBSERVATÓRIO. À Folha não interessa a nossa existência. Muito menos a espetacular proliferação do número de Observadores da Imprensa num país onde o cidadão não tem vez. Ao longo da última década e meia, a Folha pretendeu encarnar a consciência crítica nacional e, sobretudo, dar a última palavra em matéria de jornalismo. Perdeu a mão, agora usa os pés.

 

FOLHA VS. OBSERVATÓRIO
Maluf, Folha e, agora, Adhemar

A.D.

 

Chamuscado na fogueira que ele próprio acendeu. o diretor de Redação da Folha resolveu recolher-se. Fez muito bem, está provado que não é do ramo. Designou um jornalista de confiança para funcionar como porta-voz corporativo e responder a uma entrevista que este Observador concedeu ao Correio da Cidadania [ver abaixo].

No capítulo referente ao histórico das relações entre a Folha e o ex-presidente do PPB, o desastrado porta-voz tentou esclarecer a origem da concessão para a exploração de uma estação rodoviária no centro de São Paulo. A autoridade concedente foi Adhemar de Barros, e não Paulo Maluf.

Esplêndida revelação: as relações do jornal com o submundo da política são, portanto, ancestrais.

O jornalista esqueceu de esclarecer que as concessões devem ser periodicamente renovadas. Detalhe.

Mas quem efetivamente escancarou o sutil e engenhoso apoio da Folha a Paulo Maluf foi a ombudsman do jornal, nas próprias páginas do jornal (edição de 11/4/99, p. 1-6, segundo bloco):

...Um dia depois de noticiar com destaque a acusação do suposto avô [da alegada filha ilegítima] e devidamente acompanhada da negativa do assessor do ex-prefeito, o jornal deu praticamente a capa inteira do caderno "São Paulo" para Maluf se defender e atacar adversários...

A ombudsman da Folha confirma em detalhes o que este Observador havia anotado em nossa edição de 5/4/99:

...O fato da a "Folha" ter levado para a primeira página as recentes suspeitas a respeito de procedimentos pessoais do ex-prefeito (23/3/99) só serviu para que, no dia seguinte, a nota oficial de Maluf, cínica e nefasta como sempre, gozasse novamente dos holofotes da primeira página (ao contrário dos outros jornais, que lhe deram o destaque merecido)...

CQD = Como Queríamos Demonstrar. 

 

Solidariedade da ABI

Cícero Sandroni

 

Meu caro Alberto Dines, tenho a honra de informá-lo sobre a decisão da Diretoria da Associação Brasileira de Imprensa, presidida por Barbosa Lima Sobrinho, que na sua última reunião aprovou por unanimidade voto de solidariedade ao prezado consócio, pelo ato de arbitrariedade de que foi vítima, ao ser dispensado do jornal Folha de S.Paulo.

A proposta do voto foi apresentada pelo diretor secretário, que narrou o episódio. Em seguida, todos os diretores manifestaram-se em apoio à iniciativa. Por fim, usou da palavra o Dr. Barbosa Lima Sobrinho, elogiando o trabalho de esclarecimento e crítica que V. vem realizando, e condenando a decisão da Folha de S.Paulo, que se mostrou incapaz de conviver com o diálogo franco e aberto, indispensável ao desenvolvimento da imprensa livre no país.

Sem mais, na expectativa de contar com a sua colaboração, sempre desejada, nos trabalhos da ABI, com o abraço do

(*) diretor secretário da Associação Brasileira de Imprensa

 

GUERRA NOS BÁLCÃS
Por que deixei de ser imparcial

Fabiano Golgo, de Kukes, Albânia (*)

 

Aprendi na faculdade de jornalismo em Nova York a importância de ser imparcial, de manter a distância quanto ao que estiver reportando. Quando decidi me unir à Cruz Vermelha para chegar à Albânia sabia que o fazia por causa de meus princípios, não apenas como "carona" oficial para poder cobrir um aspecto do conflito Otan-Sérvia. Comecei a escrever sobre os Bálcãs em 1996, quando um estudante sérvio, de nome Bajn Pavlic, me convidara, via Internet, a visitar a capital sérvia, Belgrado. Ele mandara e-mails para vários estudantes de Jornalismo no intuito de conseguir trazer o que ele chamou de "sangue novo" para a cobertura das passeatas em protesto contra a política de Slobodan Milosevic. Ele disse que a mídia apenas mostrava "a dose diária de Bálcãs" em seus noticiários, sem profundidade ou contextualização. Ele achava que o mundo pouco sabia sobre os sérvios, tachando-os de assassinos por causa da Bósnia.

Consegui que a New York University e a New School me pagassem a passagem e me fui para o outro lado do mundo ver de perto o que estava acontecendo. Eram noites muito frias de inverno, em pleno dezembro, e milhares de estudantes e simpatizantes saíam às ruas em conflito direto com as tropas policiais de Milosevic.

Minha primeira impressão foi de que esses jovens se achavam angustiados pela política e o comportamento dos mais velhos. Naquela época eu não falava nenhuma língua eslava (hoje, falo tcheco e entendo um pouco de polonês, russo e servo-croata), portanto quase nada entendia, a não ser o que Bajn e seus amigos me diziam, em inglês.

Foi nesse momento que perdi um pouco da imparcialidade mandatória ao exercício jornalístico e deixei minhas emoções trazerem de volta os sentimentos que tive na época do processo de impeachment do Collor, quando tranquei o curso nos EUA para voltar ao Brasil e exercitar meu direito de protesto nas ruas. Também um pouco dos meus dias adolescentes, quando me juntei às multidões gritando Diretas Já, sob os protestos e medos de minha mãe, que tinha visto outras eras, quando a polícia e os militares não deixavam esse tipo de manifestação acontecer sem muito cassetete.

Como baratas

Menos de uma semana depois de chegar a Belgrado, dei-me conta de que estava sendo contaminado por minha memória e tomando partido no que relatava para o Village Voice, de Nova York. Apresentara a rapaziada sérvia como subjugada pela mentalidade dos mais velhos, racistas e nacionalistas.

Só que aos poucos fui descobrindo fatos que me estarreceram e envergonharam. Descobri que Vuk Draskovic, um político que emprestava sua voz aos protestos estudantis, não diferia muito de Milosevic em suas teorias, apenas se apresentava como adversário – hoje é deputy prime minister, algo como vice-primeiro-ministro, em português. Na verdade, Draskovic brigava com Milosevic por achá-lo muito fraco em relação à sua política na Bósnia. Defendia total alienação com relação ao Ocidente e o fim da imprensa livre. E esse era um dos ícones dos protestos.

Também descobri que Bajn não concordava com o Acordo de Dayton, classificando-o de "covardia perante os americanos". A opinião geral de seu grupo de amigos – todos estudantes de Economia ou computação na Universidade de Belgrado – era anti-americana e nacionalista. Eles achavam que os muçulmanos da Bósnia pretendiam matar seus irmãos sérvios, além de serem traidores, pois são descendentes de eslavos que mudaram de religião para terem melhor posição durante o império dos turcos otomanos.

É fato que a maioria dos advogados, médicos, professores universitários e outros integrantes da elite bósnia é muçulmana. Aparentemente isso se dá porque, de fato, quando os turcos tomaram as rédeas da região, séculos atrás, os que viraram muçulmanos tiveram mais vantagens, em conseqüência podendo estudar e subir socialmente, formando as elites de então e de agora.

Mas vale lembrar que a prática da religião muçulmana entre os bósnios é quase uma piada. Não tem nada a ver com o que sabemos sobre iranianos, jordanianos, palestinos ou qualquer outro país do Oriente Médio. Na Bósnia, apenas algumas tradições sobreviveram, como o ritual do casamento, alguns feriados e a ida esporádica à mesquita. Eles são tão muçulmanos quanto muitos de nós são católicos (ou seja, usamos a igreja para nossos casamentos, batizados e algum domingo em que nos sintamos culpados por algum mau ato, mas em geral pouco seguimos o que nos manda o Vaticano – não usar camisinha e fazer sexo apenas para a reprodução, por exemplo...).

Boa parte do conflito se deu por inveja dos montanheses sérvios, geralmente pobres, contra os urbanos muçulmanos. Sarajevo representava a boa convivência entre as diferentes etnias, se bem que não é acurado classificar as diferenças entre eles como sendo étnicas, já que tanto croatas como sérvios e bósnios muçulmanos são eslavos. Fazem parte do mesmo grupo genético que russos, poloneses, tchecos, eslovacos etc. A briga era entre gente de mesma etnia, mas de religião diferente. A língua é a mesma, apenas se notam diferenças de sotaque e algumas expressões locais, como seria a diferença entre um gaúcho e um baiano.

Mas, mesmo com todos esses argumentos, meus anfitriões sérvios se enfureciam facilmente caso alguém tentasse discordar da Grande Sérvia com a qual pais e filhos sonhavam (sonham). Quando tentei mostrar que Hitler queria a mesma coisa nos anos 30 – uma Grande Alemanha, onde todos os germânicos viveriam sob o comando dos seus pares étnicos – e que em 1938 a coisa toda começara com a invasão da então Tchecoslováquia (sob a desculpa de recuperar o território Sudeten) e da Áustria, quase apanhei. Ouvi intermináveis gritos salivantes destes meus anfitriões de que os sérvios vinham sendo vítimas de poder após poder: otomanos, dinastia dos Habsburgos, nazistas e agora a tentativa americana de ditar a geopolítica local. Perguntei se os comunistas não faziam parte deste grupo que subjugou a nação, mas eles não achavam tão má assim a ditadura de Tito.

A visão generalizada era a de que o Ocidente – por algum motivo não identificado – decidira perseguir os sérvios com mentiras. Kosovo na época não era sequer parte do meu vocabulário, mas aprendi muito sobre o território graças ao contato com esses estudantes. Nessas conversas sobre o que é certo e o que é errado (matar vizinhos de religião diferente, por exemplo, ou estuprar os inimigos) muito ouvi sobre "as baratas" (albaneses) que se reproduziram tanto que viraram maioria no território – berço da nação sérvia.

Eles falavam dos albaneses como os nazistas se referiam aos judeus. Subgente, sem direitos. Proclamavam que o fechamento da universidade em Kosovo era um ato acertado de Milosevic.

Não pude acreditar no que ouvia. Perguntei se não sentiam compaixão por esses kosovares que tiveram que parar seus cursos superiores no meio, e os outros que nunca teriam acesso a eles. A resposta geral era de que se eles quisessem estudar que o fizessem na língua sérvia. Que os seus impostos não iriam sustentar ensino para albaneses. Enfim, para não me alongar muito sobre as três semanas que passei entre jovens sérvios em dezembro de 96, resumo o que percebi dizendo que, no que diz respeito a nacionalismo e falta de respeito pela vida de seres humanos de crenças ou hábitos diferentes dos seus, os jovens sérvios são iguais a seus pais e avós. Pensei que Milosevic representava a classe política – geralmente diferente do povo –, mas não. Os que são contra Milosevic querem algum outro nacionalista em seu lugar. Não há divergência quanto à Bósnia ou a Kosovo.

Barra pesada

É obvio que existem vozes contra isso tudo, mas são uma minoria quase invisível. O país é coeso em seu amor à pátria e à etnia. É por isso que se vê o povo nas ruas de Belgrado com alvos no peito desafiando a Otan a bombardeá-los.

Agora, aqui em Kukes, campo de refugiados na Albânia onde trabalho como voluntário da Cruz Vermelha, perdi a imparcialidade mais uma vez. Cheguei na quinta-feira, 8 de abril. Depois de uma semana, desabei: oito dias trabalhando na tenda da Cruz Vermelha que recolhe os relatos dos refugiados sobre as violências por que passaram me deixaram acabado. Nunca tinha pensado, em meus piores pesadelos, que fosse possível alguém estuprar uma mulher grávida de 7 meses. Nunca pensei que em plena Europa, quase no século 21, homens seriam enfileirados e assassinados à queima-roupa pelo crime de pertencerem à etnia errada. Nunca pensei ver idosos que tiveram que caminhar por dias, semanas, dormir ao léu, sem comida, por causa de uma disputa estúpida por um pedaço de terra. Nunca pensei que fosse ouvir de crianças de 12 anos histórias sobre brutamontes que as curraram, às vezes em grupo, para "mostrar-lhes" o que "mereciam". Nunca pensei que fosse ouvir o desespero de mães que perderam filhos, maridos e pais de forma tão brutal que não seria possível publicar aqui.

E não é um ou outro relato. Um por um dos refugiados que entram em nossa tenda, escolhidos ao acaso, contam coisas que eu não sabia possíveis. Nada do que vemos em filmes de violência chega perto da realidade que essa gente passou e que seus conterrâneos ainda passam do outro lado da fronteira no exato momento em que escrevo estas palavras.

É aí que fica difícil a imparcialidade. A ética manda o jornalista não dar como certo fato que não seja confirmado por fonte independente. Ou seja, a vítima tem que ser questionada, pois pode ter veladas intenções. Em casos de guerra é comum a propaganda.

Mas que me desculpem os manuais de ética: neste caso que agora relato é difícil acreditar que TODOS os refugiados estejam mentindo. Eles não chegaram aqui organizados, com seus amigos ou vizinhos. Não seria possível que tivessem planejado contar o mesmo tipo de atrocidade, aliás muito parecido com o que se ouviu sobre os sérvios na Bósnia. E não dá para achar que eles tenham ouvido as histórias bósnias e estejam apenas fazendo uso delas, pois Kosovo faz parte da Iugoslávia, onde a televisão e o resto da mídia são alvos de forte censura – o povo, portanto, não viu o que nós vimos na TV. Os kosovares sequer viram as cenas desses últimos meses sobre seu próprio povo. É claro que muita gente ouvia sobre os massacres entre um vilarejo e outro. Mas é realmente muito improvável que tanto uma senhora de 80 anos quanto uma criança de 8 contem a mesma coisa: estupros, surras, assassinatos dos homens, fogo nas casas.

No fim, acabei escrevendo para os veículos que me encomendaram artigos sobre o que estou presenciando sem os adendos "não há confirmação independente" – ou "alleged crimes", no caso do jornal canadense para o qual forneço material. Não considero que esses crimes sobre os quais ouço sejam "alegações".

Há um momento em que o repórter tem que perder os vícios do oficialismo, onde só se pode confirmar o que foi provado, documentado; e passar a usar do bom senso. Mesmo que isso implique tomar posição. O respeito à vida humana é maior que o dever de não dar como certo o que não foi comprovado por fontes independentes. Uma criança é, para mim, independente o suficiente.

(*) Jornalista sediado em Praga, voluntário da Cruz Vermelha na Albânia

 

GUERRA NOS BÁLCÃS
É melhor desconfiar

Claudia Antunes (*)

 

Há poucos dias, encontrei-me com um grupo de jovens, todos estudantes universitários, para debater o conflito nos Bálcãs. Em meio a muitas dúvidas sobre as origens da guerra em Kosovo, desde o domínio otamano até o esfacelamento da Iugoslávia e a ascensão dos ultranacionalismos, uma pergunta era recorrente: para que lado a gente torce? A mesma angústia por tomar partido se reflete nas mensagens que recebemos de leitores. Ora o noticiário internacional é acusado de apoiar o bombardeio da Otan, ora é acusado de ser complacente com Milosevic e o massacre dos albaneses da província.

É um vício que pegamos na Guerra Fria, quando a maioria dos conflitos estava relacionada à disputa Leste-Oeste, nosso apoio a um ou outro lado era subordinado à nossa ideologia e as vítimas civis eram uma fatalidade.

Ocorre que hoje o mundo é bem mais complexo, e a obrigação dos profissionais que precisam reportar a guerra no dia-a-dia é justamente fugir da falsa e simplista dicotomia Otan x Milosevic. No máximo, disse aos jovens com quem debatia, torçam para que todos recuperem a racionalidade e o conflito termine o mais rápido possível.

Talvez pedir este distanciamento seja demais para os jornalistas que estão, por exemplo, em contato com os milhares de refugiados da guerra na Albânia, em Montenegro e na Macedônia. Relatos de execução a sangue frio, famílias separadas, crianças órfãs e traumatizadas mexem até com os repórteres mais experimentados. Pensamos nas pessoas de que gostamos, em nossos filhos. É impossível não se emocionar e ficar com ódio de quem cometeu tais horrores.

Mas é necessário não perder, mesmo nessas horas, a perspectiva da história. Massacres de civis, sejam ou não chamados de "limpeza étnica", são o preço mais alto de qualquer guerra. Especialmente das guerras civis não-declaradas, e particularmente dos conflitos em que parte de uma população pega em armas contra um poder autoritário e às vezes imposto. Só para ficar em exemplos mais ou menos recentes, mas nem sempre lembrados, calcula-se em 250 mil o número de pessoas mortas em Timor Leste depois da ocupação indonésia, em 1975. Na guerra civil da Guatemala, que durou 36 anos, pelo menos 200 mil pessoas foram mortas, a maioria indígenas maias, segundo o relatório da Comissão de Esclarecimento Histórico coordenada por especialistas da ONU, divulgado em fevereiro.

Na guerra entre a Turquia e os separatistas curdos, milhares de aldeias foram arrasadas, milhares de pessoas expulsas de suas casas. E não falamos ainda dos conflitos na África, na Ásia e no Oriente Médio: os palestinos sem direito a seu Estado, o genocídio em Ruanda, as guerras sem fim em Angola, Sudão, Afeganistão. Uma amiga que trabalha na organização Médicos sem Fronteiras voltou traumatizada de Serra Leoa: pessoas amputadas, cortadas, mulheres grávidas com a barriga aberta, crianças-soldados. Cada guerra que vemos de perto nos parece a mais sangrenta.

A Otan, ao lançar o bombardeio à Iugoslávia, alegou um "imperativo moral": pôr fim ao sofrimento dos albaneses de Kosovo. Em nome desse "objetivo justo", agora mais longe de ser alcançado, atropelou o direito internacional, que teria exigido a autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o ataque. Acontece que os direitos humanos são, por definição, um valor universal. E não parece, pelo menos no horizonte próximo, que exista o consenso, a vontade ou sequer a possibilidade de se intervir sempre que esses direitos estejam sendo violados. E as violações são muitas fora dos Bálcãs, sem que nenhum poder estrangeiro empunhe as armas. Tudo permanece, como sempre foi, uma questão de poder.

Aliás, pense rápido: você acha que o bombardeio de Pequim resolveria o problema do Tibete? Ou que o bombardeio de Jacarta resolveria o problema de Timor?

Toda essa complexidade de idéias se reflete no noticiário internacional, que no Brasil está muito longe de esgotar os diferentes enfoques da questão. Nossa maior frustração vem da impossibilidade de transmitir ao leitor todas as informações a que temos acesso, todas as diferentes versões, todos os lados do debate. A imprensa brasileira tem, em relação às notícias internacionais, limitações de espaço e de verbas. Na imprensa européia, fisicamente mais próxima do conflito, jornais como Le Monde e El País publicam artigos com os mais diferentes pontos de vista sobre a campanha da Otan, seus efeitos e suas conseqüências.

Nós acompanhamos a polêmica diariamente, reforçando nossa intenção de escapar da escolha cruel e impossível que é optar entre os bombardeios e Milosevic. Ao apontar os fracassos do ataque e questionar a motivação da Otan, não estamos do lado do ditador em Belgrado. Ao relatar a tragédia dos refugiados, não justificamos o prolongamento da guerra. Nas matérias que publicamos, evitamos os adjetivos, procuramos citar as fontes, apontar as contradições.

Desconfiamos de todas as partes envolvidas. Esperamos que o leitor também não queira respostas simples.

(*) Editora de Internacional do Jornal do Brasil

 

GUERRA NOS BÁLCÃS
Boa noite, até amanhã

Luiz Egypto

 

O Jornal Nacional de quinta-feira, 8/4/99, estava tão bom que o tradicional "boa noite" final foi substituído por um seco "até amanhã".

Explica-se: quando a pauta permite que se encerre o jornal com uma matéria "pra cima" (que pode ser o nascimento de um hipopótamo em cativeiro, uma história edificante ou um bom exemplo de cidadania, dependendo do cardápio), os apresentadores mal disfarçam um sorriso certamente franco ao dizerem um quase solene "boa noite". Mas, quando a notícia final é de matar de raiva o contribuinte honesto, de passar um atestado de tolo a um cidadão escrupuloso ou quando denota alguma intranqüilidade futura, o "boa noite" é substituído pelo "até amanhã". É fácil reparar.

Em 8 de abril, a pauta do JN estava, como se dizia, palpitante. Trabalho infantil nas ilhas de Abaetetuba, perto de Belém (PA). Resultados de uma pesquisa indicando queda da popularidade de FHC e da confiança da população no governo. Cobertura da prisão do ex-deputado Talvane Albuquerque, indiciado como mandante de uma chacina em Alagoas. Nessa noite, curiosamente, o presidente da República não apareceu no Jornal Nacional.

Mas havia o que comemorar naquela edição do nosso mais importante telejornal: a ida ao ar da primeira matéria da enviada especial à guerra na Iugoslávia. A Globo finalmente colocava alguém no miolo do conflito, até porque já estava pegando mal ficar cobrindo a guerra dos Bálcãs com imagens de agências de notícias e repórteres em... Londres. Nessa noite, não. A repórter surgiu no vídeo, com imagens in loco, para mostrar o que restou de um acampamento para 30 mil refugiados do Kosovo – cenas de desolação e abandono, estragos e sofrimento, tudo o que de absurdo e real pode haver numa guerra. Não faltaram as imagens das ruínas provocadas pelos bombardeios da Otan, distribuídas pela televisão sérvia.

Guerra é movimento. A repórter toma a rota seguida por um grupo de dez mil dos refugiados que abandonaram o acampamento. Pegou a estrada na direção sul, e um breve take de câmera encarrega-se de mostrar o perfil da repórter contra a janela do carro. A equipe atravessa a fronteira da Macedônia e chega à cidade albanesa de Korca. Ali estavam os dez mil fugitivos, alojados num ginásio esportivo.

Entra uma entrevista com um homem que usava boas roupas para aquelas circunstâncias, que tinha rádio de pilhas e falava inglês. Procurava a mulher e os filhos. As imagens são do interior do ginásio, closes nos rostos amedrontados e exaustos, uma matéria forte. O diabo é que conduzida pela mesma entonação, a mesma viradinha de corpo que tem o objetivo de "mostrar" ao distinto público o que todo mundo está vendo no vídeo, a mesma assepsia de cortes e padrões. Da forma como foi apresentada, a matéria de estréia deixou a impressão de que o fato que a motivou poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar, menos uma guerra. Uma agência bancária de Brasília ou no lobby de um hotel de luxo, tanto fazia, a emoção seria a mesma. Apotegmas do padrão Globo.

A experiência deve ter sido mesmo mal-sucedida. Já na quinta-feira seguinte, 15/4/99, para noticiar o bombardeio aéreo de um comboio pelas forças "aliadas", que resultou em 64 civis mortos, segundo Belgrado, a enviada reportava o ocorrido desde sua base operacional, em swinging London.

O noticiário impresso não ficou atrás. Observe-se o maior jornal do país, a Folha de S.Paulo, que chegou a ter dois repórteres na área conflagrada mas abusa dos materiais de agências internacionais de notícias e dos direitos de republicação de matérias estrangeiras. Ainda assim, foi capaz de pescar pérolas. Na sexta, 16/4/99, o jornal trouxe trechos do depoimento do piloto do caça-bombardeio F-16 que despejou bombas sobre o comboio civil, no dia anterior. É impressionante o depoimento do militar, distribuído pela Reuters, com origem em Bruxelas. Ao falar a superiores no QG da Otan, o piloto não identificado traça uma descrição profissionalíssima do teatro de operações e exibe um testemunho raro de se ler nas coberturas de guerra. É um dos protagonistas de uma guerra tecnológica descrevendo o ato de matar, a bordo de uma máquina voadora de algumas dezenas milhões de dólares.

A novidade foi mal aproveitada, porém. A começar pelo título da matéria, "Piloto disse ter visto ‘quadro de destruição'" – o que é errado. Ele não viu quadro algum, mas tão-somente "montou" um quadro de destruição. Está lá no texto: "Foi nesse momento – cerca de 25 minutos depois de começar a montar o quadro da destruição que se desloca do norte para o sul, em direção a Djakovica – que tomei a decisão de..." [soltar os mísseis].

No mesmo jornal, a matéria do enviado especial com os sobreviventes do bombardeio é desprovida de qualquer emoção. O repórter vai para uma guerra e ainda é capaz de escrever "a Folha esteve com um grupo de jornalistas estrangeiros...". Sim, é a Folha que está lá. Mas esse cacoete pernóstico, de tão comum, tornou-se um dogma burocrático.

Conceda-se, todavia, que pode muito bem não ter sido o repórter a escrever isso, nesse tom formal e burocrático. É sempre bom lembrar, nesses casos, que existem dois tipos de matéria jornalística: uma é a que chega ao jornal e a outra a que chega ao leitor (telespectador ou ouvinte). Depois dos processos de edição, mais ou menos inspirados, o que chegou "da rua" é em geral muito diferente daquilo que o leitor vai ler e ver. Ou terá sido no calor da refrega que o jornalista escreveu "(...) ao lado, sobre a grama, ainda estava a cabeça de um homem, ao lado de uma dezena de corpos, visivelmente mutilados"? Grifos meus, claro.

Registre-se, a esse respeito, o gol de placa marcado pelo programa Vitrine, conduzido por Marcelo Tas, na TV Cultura, que na edição de quarta-feira, 14/4/99, manteve no ar um diálogo, via internet, com um morador de Belgrado enquanto bombas caiam sobre sua cidade.

Tanto a Folha de 16/4/99 quanto o Jornal Nacional da noite anterior dão voz a um mesmo sobrevivente do bombardeio sofrido pelo comboio de civis, recolhido ferido ao hospital da cidade de Prizren. Era um senhor de 80 anos, Dibran Asmani, que apareceu na Globo e no despacho do enviado especial da Folha. "Corri para o mato como um rato", disse na tradução da Globo. "Eu corri pelo campo como um rato. Tenho vergonha, mas estou muito velho para mentir", afirmou no texto da Folha.

Guerra é guerra. Fora do pool não há salvação.

 

GUERRA NOS BÁLCÃS
Você apóia o
Kosôvo ou o Kôsovo?

Pablo Ribeiro Uchôa (*)

 

Sei que a pronúncia no português brasileiro é algo complicadíssimo. Mas, lendo artigo de Alberto Dines sobre os cacoetes da cobertura brasileira em Kosovo (ou sobre Kosovo, já que até há pouco tempo não havia um só brasileiro na Iugoslávia), não pude me furtar de comentar isso.

Principalmente na TV, todos insistem em falar Kôsovo, com "english accent", em vez de Kosooovo, o que seria mais natural para nós, lusófonos. Pristiiiiiina vira Prístina. Slobodaaaan Miloseviiic vira Slobódan (ou Slóbodan) Milósevic.

Está certo que, no Brasil, dependendo da região em que se está, os Bálcãs podem virar Balcããããs (particularmente, é como aprendi a pronunciá-lo). Até aí tudo bem.

Tudo não passaria de uma simples questão de opção fonética se por trás desse fato não estivesse a constatação de que optamos não pelo som que soa mais confortável ao ouvido brasileiro, mas pelo som que escutamos na CNN. Como sabemos que Belgraaaado se pronuncia assim, e não Bélgrado, seguimos em frente. Já "Kosovo", essa região distante, desconhecida e desprovida de interesse para nós que vivemos no país das maravilhas, aprendemos a pronunciar da forma como nos ensinam nossos mestres, os americanos.

Se não fossem eles, nem escutaríamos falar desse lugar...

(*) Estudante do 4Ί ano de Jornalismo da USP, 21 anos

 

O JB começou
com panelas e que tais

Xico Vargas

 

Permitam-me um breve comentário sobre os, digamos, penduricalhos que modernamente se atrelam aos jornais como incentivo à venda e que têm tomado na mídia a designação de "marketing agressivo".

Esse mau passo foi dado inicialmente pelo JB, 17 semanas antes da Copa de 78. Sortearam-se, então, 17 Chevettes (carro medíocre que fazia sucesso à época), aos quais o leitor poderia concorrer se tivesse a pachorra de juntar sete cupons e os trocasse por um bilhete numerado. "Chevette da Copa" era o nome da promoção.

Lembro-me que a circulação do jornal quase dobrou, mas ao final do evento voltou praticamente ao que era antes da brincadeira.

Anos depois, o jornal O Dia associou grande investimento em aprimoramento técnico (não editorial) a sorteios de apartamentos, carros, eletrodomésticos e um sem número de quinquilharias para seus leitores. Experimentou também expressivo aumento de circulação mas, como o JB, viu os números despencarem quando a oferta de presentes diminuiu e quando o Extra, munido de pesquisas que indicavam os objetos de desejo mais próximos de sua faixa de público, passou a ofertar panelas novinhas em folha para dar status às cozinhas das leitoras.

Como os brindes que as antecederam no mercado, as panelas também não deverão agregar leitores quando saírem da pauta.

Não sem motivo, entidades que medem o alcance da mídia impressa nos EUA buscam fórmulas de descontar das tiragens os números agregados por esse tipo de maluquice.

 

Bancas em pé de guerra

Isabela Nogueira (*)

 

O uso de anabolizantes para aumentar a circulação de jornais e revistas entupiu as bancas de jornal de CDs, fitas de vídeo, fascículos, panelas e badulaques vários. Os jornaleiros paulistanos não gostaram. Parte deles está em pé de guerra e, desde 27 de março, suspendeu a venda desse tipo de "valor agregado ao produto". A gota d’água foi uma notificação do Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas de São Paulo, distribuída nesse dia, informando que a comissão sobre as vendas dos produtos promocionais – isto é, a parte do jornaleiro – seria definida "caso a caso". Até então, o percentual de comissão de venda da publicação ou do produto promocional era de 30%. A justificativa apresentada pelo sindicato patronal baseava-se no "quadro econômico geral e nos custos crescentes, fortemente indexados ao dólar".

No mesmo dia 27, a Folha de S.Paulo reduziu a comissão para 20%. Foi, em conseqüência, o primeiro jornal a ter seus produtos promocionais devolvidos pelos jornaleiros. "Se não resistirmos agora, eles vão nos tirar um terço da comissão de tudo que vendemos", diz o jornaleiro Marcelo Mathias, com banca na região da Rua Augusta, em São Paulo.

Francisco Ranieri Netto, presidente do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas de São Paulo, diz que 80% das bancas de jornais aderiram ao boicote. "Realizamos três reuniões com a categoria e estamos aguardando um pedido de negociação por parte das empresas. Oficialmente, ninguém se pronunciou."

Se não houve pronunciamento oficial, houve ações práticas. O primeiro CD da coleção "Bíblia Infantil da Angélica" – brinde do jornal Agora São Paulo, do Grupo Folha – começou a ser distribuído em 28 de março para logo em seguida ser retirado de circulação. Os jornaleiros devolveram os CDs. "Eles simplesmente não conseguiram vender", diz Ranieri. Um comunicado divulgado pelo Agora São Paulo informou aos leitores que "por questões técnicas e operacionais, estamos suspendendo temporariamente a promoção de CDs".

O Estado de S.Paulo, concorrente direto da Folha, também está na mira dos jornaleiros. No lançamento da promoção "Lição de Casa", uma coleção de 20 fascículos para alunos da 1ͺ à 8ͺ série, a empresa pensava reduzir a comissão da banca de jornal para os mesmos 20%. "A decisão das empresas de jornais foi unilateral e imposta. Se o Estadão não voltar atrás também vou devolver o produto", diz o jornaleiro Silvio Forcella, com banca na região central de São Paulo.

Os donos de banca terão mais sarna para se coçar. Logo após terem sido avisados da redução nas comissões, os jornaleiros receberam outro comunicado da entidade patronal: a partir de maio será estabelecido um número mínimo de venda de jornais por banca. Trocando em miúdos: o jornaleiro que vender abaixo do número estabelecido vai se responsabilizar pelo que não vendeu, isto é, vai ter que comprar o encalhe.

Até agora, o sistema vinha funcionando mais ou menos assim: o jornal não vendido era devolvido à empresa editora, em todo ou em parte. Bancas mais distantes podiam enviar apenas os recortes do cabeçalho, nos quais constassem a data do jornal encalhado. De acordo com Ranieri, do sindicato, as empresas que pretendem alterar as regras de devolução do encalhe são os grupos Folha (Folha de S.Paulo, Agora São Paulo e Notícias Populares), Estado (O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde) e o jornal Diário Popular.

São os maiores jornais de São Paulo. Mas seus leitores não tomaram conhecimento e tiveram sonegada a informação sobre esse qüiproquó envolvendo as empresas jornalísticas e a sagrada instituição da banca de jornal. À exceção do Meio&Mensagem, um semanário para o mercado publicitário ("Resistência nas bancas – jornais reduzem comissão dos jornaleiros", 5/4/99), a mídia impressa paulistana não tocou na questão da nova regra do encalhe, tampouco na redução das comissões dos jornaleiros. Para o sindicalista Ranieri, a mídia brasileira se autoprotege, "um encobre o outro, são todos mancomunados".

Armin Jung, vice-presidente do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas, disse que a categoria está disposta a negociar, mas se a nova regra não for alterada o sindicato entrará na Justiça. "Devolver as publicações que não foram vendidas é um dos poucos direitos que o jornaleiro tem. Não vamos abrir mão disso."

(*) com L.E.

 

Sexo na TV; o que
não ajuda, atrapalha

Vera Silva (*)

 

Estava malhando e vendo TV (aliás, a TV virou instrumento de ginástica; em todas as academias há uma TV ligada), quando entrou o programa da Silvia Poppovic (para início de conversa, acho-a uma simpatia!). Em discussão, o interesse de moças adolescentes pelos pais das amigas.

Todo mundo ficou ligado no programa. O tema é muito interessante, não é mesmo? Havia uma linda mocinha de 19 anos, um psicoterapeuta bonitão, por volta dos 50 anos, o auditório e a Sílvia.

A mocinha (que à época tinha 18 anos) relata que começou a perceber o interesse do pai da amiga, um bonitão de 38 anos; pensou que era casual, percebeu que não era, então... rolou, e foi rolando a relação, às escondidas, porque ele (surpresa!) era casado ainda; entrou sexo, ele disse que a amava e que pensava em se separar da esposa para ficar com ela etc. Mas a mocinha tinha mãe, contou para a mãe e, seguindo os conselhos da mãe e os de sua própria cabeça, considerou ser melhor se separar dele e encontrar uma pessoa para "namorar direito". Conseguiu fazer isto, e hoje tem uma namorado tão jovem quanto ela.

Em princípio, nada surpreendente na história, o problema foi a apresentadora e o psicoterapeuta (será que ele é psicólogo, meu Deus!?) colocarem a discussão em torno da idade dos dois (como se amor dependesse da idade dos amantes) e das fantasias de romance das jovens adolescentes (o que possibilitaria este tipo de relação entre mocinhas de 18 anos e homens maduros, casados ou não).

Digo problema porque um programa de TV não pode ignorar que aquilo que não ajuda em geral atrapalha. Discutir a atração sexual e o amor das mocinhas pelos "coroas" como fixações neuróticas, porque a jovem gostava e admirava muito o pai e este seria o fator que possibilitaria o romance com um homem mais velho, é o cúmulo do absurdo. Como é possível um psicoterapeuta se atrever a generalizar desta forma um caso de amor? Como é possível uma apresentadora de TV aceitar esta generalização, que expõe como neurótico o amor filial? Como é possível uma emissora, detentora de concessão pública, fazer uma discussão assim, ao vivo, em que não se aponta a imaturidade do homem adulto, que não resolveu sua dificuldade afetiva no casamento antes de entrar numa relação extraconjugal? Como é possível a sociedade aceitar um programa que sequer discutiu a importância do diálogo havido entre a mãe e a filha para que esta jovem pudesse sair de uma relação com um homem aparentemente imaturo ?

Estamos continuamente diante deste tipo de programas na TV; as novelas reproduzem essas relações todo o tempo; numa novela do SBT, por exemplo, um homem ficou noivo de uma mulher como vingança por haver sido enganado pela ex-noiva!! Contudo, não se discute a necessidade do autoconhecimento para a felicidade, não se discute o direito de as pessoas serem felizes, não se discutem os objetivos pelos quais as pessoas se casam, os motivos pelos quais têm filhos. Não se discute a paixão, não se fala de autocontrole. É como se tudo fosse problema, como se a neurose fosse um padrão humano inato, e que a modelação sóciofamiliar não tivesse nada a ver com isto.

Penso que está na hora de se usar o raciocínio. É preciso discutir os problemas das pessoas na TV com honestidade humana sem usar a pseudo-análise científica para explicá-los. Problemas são para serem resolvidos. Não há sentido em se discutir uma questão sem que os parâmetros e o contexto do comportamento sejam percebidos, e uma orientação genérica para a prevenção do problema seja apresentada.

No exemplo citado, como nada disto foi feito, fica-se com a impressão que: se uma jovem gosta muito do pai, ela vai tender a namorar o pai de alguma amiga e que tudo o mais é parte do desenvolvimento das pessoas. Não há nenhum problema com o homem que se envolveu com esta jovem: a jovem seria vítima de seus hormônios e fantasias e o homem da irresistível atração exercida por um corpinho jovem, durinho e bonitinho (como deu a entender a Sílvia Poppovic durante a apresentação do tema).

Exige-se mais responsabilidade social dos programadores e apresentadores de TV. A TV é diversão, sim, mas quando resolve sair desta área tem obrigação de fazê-lo com competência.

(*) Psicóloga em Brasília

 

Trabalho, idade e
a lógica torta do JN

Douglas Duarte

 

As coisas andam confusas na cabeça do Sr. Evandro (ou do Sr. Bonner, não se sabe ao certo). No Jornal Nacional de 5/4/99 vimos o apresentador alternar entre revolta e ternura. A primeira notícia tratava do "absurdo" trabalho infantil de crianças no sertão nordestino. A segunda notícia dava conta dos aposentados de Minas Gerais, que já estavam "conseguindo vagas para trabalhar".

A primeira história abre o jornal: ficamos sabendo que crianças estão trabalhando para ajudar a sustentar a família tecendo algodão e bordando redes, as mesmas que se compram nas férias em cidades do Nordeste. Aparecem cenas de uma "criança" de 17 anos, cheia de vigor físico, quando comparado com os desnutridos que infelizmente são legião no semi-árido. Um off choroso nos explica que eles movimentam os teares com a própria força, para confeccionar os tecidos que virarão redes depois. Nada que o rapazote pareça ter muito problema para fazer. Em seguida, a matéria dá sua única bola dentro: critica as vestimentas, que não são adequadas, e a ausência da necessária máscara, que impede que os microscópicos filamentos de algodão entrem pelo pulmão, provocando uma série de distúrbios. Esse dado passa rapidinho. Depois, mais farsa: mostram o absurdo de uma criança de 6 anos trabalhando na "indústria da rede". Alguns pontos que só as imagens mostram, mas que o texto parece não ter atentado: as crianças trabalham na frente da própria casa, ao lado dos irmãos e dos pais, comunalmente, bordando as franjas das redes.

É bom lembrar: isso é uma alternativa ao desemprego nas frentes de trabalho do governo, que paga a remuneração – ilegal – de 80 reais mensais. É o único caminho para comer depois de uma estiagem de mais de dois anos. Aí está o drama. Trabalho familiar sempre existiu e sempre vai existir – graças a Deus! Em vez disso, o que se vê é um dramalhão que mostra lindas crianças sendo exploradas – mas não se diz por quem, e só as ouvimos reclamar quando a repórter pergunta: o que você preferiria fazer enquanto está aqui? Brincar, claro. Quem não quer?

Até aí é compreensível. O cuidado excessivo nessas questões de trabalho infantil é sempre bem-vindo.

O problema é a matéria que eles engatam em seguida sobre os aposentados mineiros.

Pessoas que deveriam estar descansando, aproveitando o fruto de vários anos de trabalho, estão conseguindo, finalmente, se cansar de novo! Os patrões mineiros já estão aceitando pessoas que antes eram "velhas demais" em seus quadros. Por qual salário não se falou, mas acho que os leitores têm um palpite...

Essa notícia, dita com um misto de felicidade e expressão de fé no futuro, me deixou confuso: quando trabalho fora da época é aceitável? Quando a falta de assistência do governo deve ser compensada com trabalho?

Ou seja: o governo não dá assistência aos velhos e aos novos, que buscam alternativas – ambos de forma decente – para seus problemas, nos dois casos fruto do desmando desse mesmo governo. Um (que me parece mais aceitável) é taxado de "absurdo". O outro, esse que me parece mais absurdo, de positivo. Perdi o tino?

O velho e a criança... só falta o burro.

Somos nós.

 

Notícia que dá medo

Andreas Adriano (*)

 

O suplemento Telejornal, do Estado de S.Paulo, traz na capa a manchete "A hora da notícia". O olho informa que "emissoras (...) apostam na informação como arma para ganhar audiência". Além de uma entrevista com o novo diretor de Jornalismo da Bandeirantes, Fernando Mitre, a matéria destaca que Globo e Record querem criar novos programas jornalísticos, e o SBT pensa, inclusive, em ressuscitar seu Departamento de Jornalismo.

Tive duas reações ao ler a matéria: a primeira foi "isso significa novos postos de trabalho para colegas de televisão". Um pensamento de jornalista, um tanto corporativista, admito. A segunda reação, de telespectador, foi de certo medo. Especialmente pela linha fina do box: "Globo, Cultura, SBT e Record incrementam seus noticiários na busca por audiência". Bem, exceção de praxe à Cultura, nós telespectadores sabemos muito bem qual é a formula líquida e certa para catapultar audiências: show, sensacionalismo, apelação. Esses ingredientes já estão presentes em qualquer noticiário, de qualquer canal (exceção de praxe, novamente, à Cultura). O fato de as três principais redes quererem incrementar seus programas jornalísticos só significa uma coisa: haverá mais show, sensacionalismo, apelação, notícias irrelevantes como a da mulher pendurada na roda-gigante, citada no Observatório de 5/4/55.

Como telespectador, só posso pensar que o festival de inutilidades, besteiras e curiosidades que constitui a maior parte do nosso jornalismo televisivo vai aumentar. Como de praxe, foi preciso alguém da Cultura para pegar na veia, pisar com salto-agulha no calo inflamado: "Há episódios curiosos, como o assassinato de um brasileiro em Nova York, que não contribuem com a sociedade", disse Marco Antônio Coelho, diretor de Jornalismo (a Cultura é a melhor rede e, apesar da pobreza de meios, faz um jornalismo muito melhor que o da Globo). [ver remissão abaixo para carta sobre a Cultura]

A maior parte do conteúdo de nossos telejornais recorre a esse tipo de irrelevância. Um brasileiro foi morto em NY. Que importância tem isso? Só porque foi no Waldorf Astoria? Se esse é o motivo para tanto barulho em cima de coisa tão irrelevante, nossa mídia televisiva, Globo à frente, deu um show de provincianismo. Não é a primeira vez, nem será a última, que um gay é assaltado e morto.

Outras irrelevâncias que tomaram horas e horas das nossas TVs recentemente: o seqüestro do irmão da dupla caipira, com a agravante "dramatizadora" de que cortaram a orelha do moço. Um americano qualquer que descobriu ter tias velhas no Brasil. O irmão de um obscuro pagodeiro que, digamos assim, esqueceu o caminho de casa por algumas horas e foi dado como seqüestrado. A mãe do mesmo pagodeiro, que já tinha sido seqüestrada. A mulher presa na roda-gigante. As insistentes e insuportáveis matérias que o Jornal Nacional leva ao ar todo dia, sobre animaizinhos idiotas. Culminando com o urso que chupava sorvete para aliviar o calor. Certo está o irreverente José Simão, da Folha de S.Paulo, que já batizou o programa de "Jornal Animal"...

Utilizando as palavras de Marco Antônio Coelho, como tais episódios contribuem para a sociedade? Qual o interesse público da orelha do irmão do outro, da tia do gringo, do irmão do pagodeiro? Do koala calorento chupando picolé? (Será que ele toma chocolate quente com conhaque no inverno?) O pior é que a televisão, por sua influência, arrasta todos os outros veículos para o mesmo festival de irrelevâncias. A foto do desorelhado goiano estava em todos os jornais no dia seguinte à sua libertação. Sem falar nos serviços via Internet e nas revistas. Idem para o sujeito esfaqueado em NY. Gente morre esfaqueada todos os dias na periferia do Rio e de São Paulo. Por que este, especialmente, mereceu tanto destaque? Por que não empregam esforço de reportagem semelhante para apurar o que aconteceu com o negro que apareceu morto na valeta, num morro do Rio? Aliás, por que é que criminosos só são presos depois de dar entrevista ao Roberto Cabrini?

Afinal, os jornais não buscam se diferenciar do imediatismo da televisão e das agências on line? Então, por que não começam por deixar todas essas baboseiras de lado? Ou, ao menos, dar a elas destaque condizente com sua pouquíssima relevância, o que equivaleria a destiná-las aos pés-de-página ou, no máximo, à manchete secundária da página policial?

Por tudo isso, e apesar de corporativamente feliz com a oferta de novos postos de trabalho que deve acontecer, meu lado telespectador só pode ficar em pânico com a notícia de que as redes querem investir em jornalismo para aumentar a audiência. Porque, é quase certo, a receita para o aumento da audiência provavelmente será a mesma provada e aprovada no Faustão ou no Gugu.

Aliás, não é de admirar que o diretor de um desses programas tenha sido recentemente contratado para chefiar o Departamento de Jornalismo de uma grande rede. Ou seja, meu lado telespectador preferiria que o SBT continuasse sem Departamento de Jornalismo, pois é difícil imaginar que um telejornal feito no mesmo canal que gestou o Aqui Agora – e transformou o Ratinho em estrela – possa produzir algo além de orelhas cortadas.

(*) Repórter da revista América Economia

 

 

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