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NO BERRO OU NO GOGÓ
Tijolão na 1ª página favorece especulação
Alberto Dines
Na primeira página da sua edição de domingo (18/5), a Folha de S.Paulo estampou enorme editorial com significativa dose de veemência intitulado "Sem medo de crescer". Publicado dois dias antes da ansiada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que decidirá sobre a taxa de juros, embora não a mencione, faz uma enorme pressão para que a taxa Selic seja baixada e, com isto, inicie-se uma reversão nos rumos da economia.
Não cabe a este Observatório manifestar-se sobre a justeza ou impropriedade da argumentação contida no tijolão, seja nos aspectos políticos como econômicos. Mas cabem algumas avaliações de caráter jornalístico:
** O jornal é editado por uma empresa privada que opera na área financeira.
** Um editorial com teor quase panfletário e tão inusitado destaque fatalmente afeta "os humores" dos mercados.
** Um operador financeiro alertado durante o pregão da sexta-feira sobre o conteúdo do editorial do domingo pode tirar proveito do inevitável nervosismo nas cotações do dia seguinte à publicação.
Pergunta-se então: significa que um jornal não pode manifestar-se em questões que possam produzir movimentos nas bolsas?
Pode e deve, mas é correto adotar uma forma de manifestação que não favoreça jogadas bruscas, quase sempre especulativas. Editoriais firmes e até mais contundentes na página habitual não costumam gerar comoções nem movimentos suspeitos [veja, abaixo, remissões para comentários deste Observatório sobre o comportamento da mídia na crise cambial de 1999].
O que nos leva a outra questão eminentemente técnica: a página de opinião da Folha não está sobrecarregada? Um texto forte na Página 2 da Folha conseguiria produzir algum impacto?
Habitualmente publicam-se nesta página sete textos. É opinião demais (sob o ponto de vista estritamente quantitativo) para espaço de menos. Alguém ou alguma delas sai prejudicada. Em geral, é a do próprio jornal, anônima e solene, naturalmente suplantada pelo estilo mais pessoal e livre de alguns colaboradores.
Prova de que o jornal está com um problema de fonação-entonação é a própria Página 2 do mesmo domingo, dia 18: um dos editoriais foi ampliado e em vez de sete textos saíram apenas seis. E, mesmo assim, o maior não conseguiu mover uma palha.
O que nos leva a outras questões:
** Em processos de longo prazo, como a economia, de que maneira deve um jornal influir? No berro ou no gogó ?
** Se em momentos de grande excitação opta-se por fazer barulho, não existe o perigo de algum espertinho aproveitar para fazer sua fezinha numa virada dos mercados?
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