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DOSSIÊ 174, GÁVEA-CENTRAL
Cinema e representação da violência
Alberto Dines
O depoimento de uma das reféns sobreviventes, Luanna Belmont [O Globo, 16/6/00, pg. 17; veja em Aspas, abaixo], é antológico. Não é reportagem, não é para servir de modelo. É para ser estudado. Testemunho de um pesadelo visto por uma estudante de Comunicação (PUC-Rio). Corte transversal no imaginário de uma jovem universitária da elite urbana brasileira onde o terror combina-se aos fiapos de doutrina que aprendeu na sala de aula.
É um filme onde o próprio cinema é protagonista. O bandido que seria assassinado pouco depois, num dos diversos surtos delirantes usa o cinema como metáfora de afirmação pessoal:
"Tá vendo isso? Isso aqui não é um daqueles filmes que passam na televisão, não! Esse aqui é o meu filme, fui eu quem fiz ! Olha só como é que eu estouro a cabeça dela!"
Berrou o policial para acalmar os passageiros presos:
"Isso aqui não é Hollywood, não! Ninguém vai morrer!"
Fala-se em Era da Informação mas na realidade esta é a Era das Imagens Fortes povoando com igual intensidade a mente do vilão, da vítima e da polícia.
Lembram do sextanista de Medicina que metralhou a platéia de um filme violentíssimo em São Paulo?
Pois é.
Chefões em convescote, brilham os subs
A.D.
Aconteceu no Rio, Rua Jardim Botânico, mas foi manchete nos principais do país.
Naquele dia, na mesma hora, o patronato jornalístico brasileiro estava reunido a poucos quilômetros, no 53º Congresso Mundial de Jornais. Também lá estavam os seus diletos executivos – editores-chefes, diretores de Redação ou redatores-chefes, a fina flor do jornalismo diário brasileiro, participando do 7º Fórum Mundial de Editores.
O duplo convescote acontecia no Hotel Intercontinental, em São Conrado, zona sul do Rio. No palco rolava a lenga-lenga sobre o sexo dos anjos, o fim dos impressos, a supremacia da internet etc.etc. E na rua, em frente à mansão que pertenceu à diva melodramática Benzazoni Lage, transcorria uma das tragédias que mais comoveram o país.
Os jornais foram fechados pelos subeditores. Resultado: jornalismo instintivo, em estado natural. Não fosse o sangue, um dos melhores momentos do condenadíssimo jornalismo de jornais. Mesmo com a TV ao vivo, tempo real, cores. No fim de semana sobraram migalhas para os semanários.
O seqüestro do ônibus 174 (on line)
Luís Edgar de Andrade
Nunca se viu, no país, um dia dos namorados como este. Pela primeira vez, desde que há televisão, as pessoas acompanharam ao vivo, de minuto a minuto, o desenrolar de uma tragédia, em suas casas ou no trabalho, sem poder fazer nada. Um homem armado assaltou um ônibus da linha 174, às duas e meia da tarde, na rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. A polícia cercou o ônibus. Durante o tempo todo, de revólver em punho, o bandido ameaçava matar um grupo de mulheres em pânico. Quatro horas e meia depois, uma delas foi morta diante dos telespectadores. Milhões de brasileiros, sem querer, na hora do jantar, testemunharam um crime que nos deixa impotentes diante da violência urbana.
O que fazia o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, no instante exato em que começou a tragédia? Sem saber o que acontecia na capital do seu estado, ele tentou, durante meia hora, convencer 300 editores de jornais, reunidos num fórum internacional, em São Conrado, a poucos quilômetros do ônibus seqüestrado, que a imprensa brasileira tem uma irresistível atração pela violência. O Jornal do Brasil publicou, no dia seguinte, junto com essas palavras, uma fotografia de Garotinho às gargalhadas.
Enquanto o seqüestro se arrastava, sem que a polícia do governador prendesse o assaltante, o Congresso Mundial de Jornais discutiu, em São Conrado, uma nova fase na história da imprensa: a competição entre os jornais impressos e os jornais da internet. Segundo a tese que prevaleceu na discussão, qualquer jornal, para ser forte junto aos internautas, precisa primeiro ser forte no papel. Era um assunto oportuno para a longa tarde em que os webjornais brasileiros passaram pelo difícil teste de cobrir, a cada segundo, em tempo real, um fato que os leitores tinham a possibilidade de ver e ouvir pelo rádio ou pela televisão.
Barulho e desinformação
Quando a tragédia acabou, pouco antes das sete, o Globo-on, a Folha-online, a Agência Estado,o JB-online e o iG soltaram a notícia quase ao mesmo tempo. O Plantão do Globo-on, às 18h50, foi o primeiro a anunciar: "A polícia acaba de tomar o ônibus seqüestrado no momento em que o quinto refém era libertado. O seqüestro durou quatro horas e meia, o bandido foi baleado e está sendo levado para o hospital. Todos os reféns estão vivos". O primeiro plantão do Globo-on tinha sido às 15h16: "Assalto com refém em ônibus no Jardim Botânico". Durante a tarde inteira os boletins tinham aparecido, um atrás do outro: "Assaltante negocia com policiais" (16h21), "Refém escreve mensagem no vidro do ônibus" (16h37), "Garotinho: ‘Seqüestro reflete cerco ao tráfico de drogas’" (16h41), "Duas pessoas são libertadas" (16h42), "Assaltante ameaça atirar na cabeça de refém" (16h44), "Aumenta a tensão no seqüestro de ônibus no Rio" (17h02), "PM diz que há dois assaltantes e quatro reféns no ônibus" (17h11), "Libertada mais uma refém" (17h22), "Refém tem 17 anos e voltava da faculdade" (17h40), "Assaltante pode ter matado uma das reféns" (17h45), "Assaltante apaga luz e liga ônibus" (17h58), "Assaltante estava fugindo da polícia" (18h19), "Um dos libertados pode ser cúmplice do assaltante" (18h37), "Assaltante quer granada e mil reais" (18h43), "Zona Sul pára por causa de seqüestro no Jardim Botânico" (18h45), "Polícia toma ônibus seqüestrado" (18h50).
E os outros webjornais? Um minuto depois do Globo-on, às 18h5l, a Folha-online informava no Em Cima da Hora: "O seqüestro do ônibus no Jardim Botânico terminou quando o assaltante atirou contra a polícia e, em seguida, um PM atirou no rosto do assaltante. (...) Há a hipótese de uma garota ter sido morta, mas não há confirmação oficial". Mais um minuto e às 18h52 lia-se nas Últimas Notícias da Agência Estado: "Depois de mais de quatro horas, terminou há pouco o seqüestro com reféns em um ônibus na zona sul do Rio de Janeiro. A polícia invadiu o ônibus que foi cercado pela multidão que acompanhava o seqüestro. Os policiais conseguiram transferir o assaltante do ônibus para o carro da polícia. Os reféns foram libertados. A refém que havia levado um tiro está viva". Dois minutos depois, às 18h54, saiu no Tempo Real do JB on-line: "Menina coberta pelo lençol e que teria recebido um tiro aparece sem ferimentos. A situação está controlada. O camburão com o bandido já saiu em direção à delegacia". Nesse mesmo instante, às 18h54, a Folha on-line voltava com a notícia: "A estudante Luanna Guimarães, 17, que supostamente teria levado um tiro durante o seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro está viva. (...) O seqüestro durou quase quatro horas e terminou com o assaltante descendo do ônibus usando uma refém como escudo. Aparentemente, nenhum refém foi ferido a bala. Há informações não confirmadas de que o assaltante teria sido baleado pelos policiais durante a invasão". Às 18h56, voltava o Tempo Real do JB on-line: "Ninguém ficou ferido no seqüestro de um ônibus no Jardim Botânico, que durou quase cinco horas. Uma das reféns disse que ofereceu o dinheiro que tinha para não ser morta pelo seqüestrador". Às 19h00, a Folha-online noticiou: "Uma das reféns que foi libertada há pouco no assalto a um ônibus no Rio de Janeiro disse que ninguém foi morto durante o assalto. (...) O assaltante simulou que havia matado uma das reféns. (...) Ele desceu do ônibus usando outra refém como escudo, mas foi cercado pelos policiais e levado para a delegacia." O Último Segundo do iG só deu o fim do seqüestro às 19h03: "O seqüestrador da linha 174 acaba de ser preso pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. O canal a cabo Globonews divulgou entrevista com refém que afirmou haver um ferido no interior do veículo. (...) O canal de notícias afirmou também que o assaltante foi atingido na cabeça pela polícia". O derradeiro a noticiar o fim do seqüestro foi, por acaso, o site que não tem por trás dele um jornalão.
Deu-se, então, no noticiário, um misterioso buraco negro, entre 7 e 8 horas da noite, que os jornalistas em ação tentaram, é claro, romper a todo custo. Em vão. Durante quase uma hora, nenhuma rádio, televisão ou webjornal conseguiu apurar o estado da refém no hospital e muito menos o paradeiro do seqüestrador levado num camburão para local ignorado. O governador Garotinho e seu secretário de Segurança, Josias Quintal, permaneceram calados. Por que o silêncio? Não se sabe, imagina-se. Pouco antes de 19h50 o canal Globonews desfez o mistério ao anunciar, em primeira mão, graças aos apuradores, que a refém morreu no Hospital Miguel Couto e o seqüestrador chegou morto ao Hospital Sousa Aguiar. Nesse espaço de tempo, as rádios transmitiram a Voz do Brasil e os webjornais não deram qualquer boletim significativo.
O Tempo Real do JB-online, às 19h49, foi o primeiro a esclarecer o desfecho: "A refém Geísa Firmo Gonçalves, 20 anos, morreu agora há pouco no hospital Miguel Couto, para onde tinha sido levada após ter sido baleada durante operação policial para pôr fim ao seqüestro do ônibus no Jardim Botânico. O seqüestrador, ainda não identificado, também morreu no hospital Sousa Aguiar, depois de levar um tiro na cabeça". Um minuto mais tarde, às 19h50, o Plantão do Globo-on anunciava: "A refém Geísa Firmo Gonçalves, que desceu do ônibus sob a mira do revólver do assaltante, morreu há pouco no hospital Miguel Couto. O assaltante, que tomou o ônibus da linha 174 no Jardim Botânico, também morreu, no hospital Sousa Aguiar. Ele teria atirado em Geísa antes de ser atingido pela polícia. A refém levou três tiros". Mais um minuto. Às 19h51 o Último Segundo do iG aparecia com a informação: "Morreu por volta das 19h40 – segundo informou o canal de notícias Globonews – uma das reféns que estava no ônibus que ficou por quatro horas nas mãos de um assaltante. O assaltante também morreu no hospital". A Agência Estado deu às 19h56: "Uma das reféns que foram mantidas sob a mira de uma arma por 4h20 num ônibus no Jardim Botânico, na zona sul do Rio, Geísa Firmo Gonçalves, morreu, com três tiros, no hospital Miguel Couto agora há pouco. Geísa Firmo Gonçalves estava com ele no momento em que o bandido deixou o ônibus. O assaltante – cuja identidade não foi revelada – também morreu, no Hospital Souza Aguiar, no centro". A Folha-online só deu às 21h33: "O coronel Luís Soares de Oliveira, comandante do 23º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirmou que irá apurar a ação que culminou no desfecho de um seqüestro de mais de quatro horas a um ônibus na zona sul da cidade. Uma refém e o ladrão foram mortos. (...) Oliveira afirmou não saber se foi o assaltante ou a polícia que deu o primeiro tiro no momento em que o seqüestrador deixava o ônibus. Naquele momento, o assaltante usava a estudante Geísa Firmo Gonçalves, 20, como escudo. (...) A estudante acabou morrendo no hospital Miguel Couto, na Zona Sul. Ela foi baleada no pescoço, tórax e abdome. Ainda não se sabe quem atirou nela".
Outros 500
Neste balanço da cobertura na Internet, cabe mencionar também o desempenho do no. (publicação virtual cujo título usa as iniciais de notícia e opinião), que na verdade é uma web-revista, ainda que diária. Meia hora depois de anunciadas as duas mortes, o no. estampou um artigo de seu diretor Marcos Sá Corrêa, com o título "A podridão da polícia, ao vivo, na TV", e o especial não assinado "É assim que se mata". O especial começava dizendo:"Ao enfrentar o seqüestro do ônibus no Jardim Botânico, a Polícia Militar do Rio, ao invés de evitar, provocou uma tragédia. Ao tentar atirar contra o bandido, que acabara de descer do ônibus tendo a refém Geísa Firmo como escudo, um soldado do Bope (Batalhão de Operações Especiais) acabou errando alvo e pode ter atingido a refém, que morreu no hospital com três tiros". Quanto à morte do assaltante, o artigo chama a atenção para o seguinte: "Imagens registradas pelo cinegrafista Celso Sabino, da TV Educativa, mostram que o bandido entrou vivo no carro e ainda lutando energicamente com os policiais". Marcos Sá Correia, no seu editorial, escreveu: "O governador Anthony Garotinho classificou como ação enérgica um duplo crime da sua polícia. Ela matou a refém Geísa Firmo Gonçalves. No mínimo provocando seu assassinato com brutal imperícia. Na pior das hipóteses, disparando os tiros que a mataram".
A internet se tornou, em menos de um ano, para os leitores de jornais, uma alternativa de informação em tempo real, quer dizer, no instante em que os fatos acontecem. O seqüestro do ônibus 174, no dia 12 de junho de 2000, serviu on line como o batismo de fogo dos webjornalistas brasileiros. Para este balanço ser completo, só faltam os índices de audiência registrados na hora pelos vários sites de notícias que participaram da cobertura. Só que isto são outros 500.
Carta a uma refém
Otto Francis
Minha cara refém. Acho que seu nome é Luanna. Bonito nome: Lua e Ana. Desculpe-me, portanto, em chamá-la por este adjetivo horroroso que a qualifica como uma pessoa em poder de outra: refém. Como um Adão desprotegido deum Deus colérico, com uma arma na tua boca. Tenho deescrever esta carta, no entanto, para dizer que assisti a todo o assalto ao ônibus (pena não sermos uma Inglaterra para, neste caso, termos nosso Ronald Bigs).
Como milhões de brasileiros, sentei-me no sofá quando eram aproximadamente três horas da tarde, fiz pipoca, peguei um enorme copo de refrigerante e parei para ver seu suplício. Somos um povo cordial, minha cara refém, não nos condene: isso aqui ô ô é um pouquinho de Brasil iá iá.
Esparramei-me no sofá e vi sua amiga, que todos pensávamos a certa hora estar morta, escrever ao contrário que o bandido, marginal ou elemento (o que preferir) tinha um pacto com o diabo e que tinha tatuado no braço um punhal que a assustara. E nós nos assustamos também. Antigamente, veríamos esta mesma refém mostrar suas habilidades de calígrafa às avessas num show de calouros qualquer. Ela ganharia uns trocados e iria para casa contente. E nós dormiríamos uma noite como outra qualquer. E este é só um dos aspectos burlescos de seu pesadelo urbano, minha caríssima.
Minha cara refém, tenho de lhe dizer que me comovi profundamente (meus antidepressivos não fazem mais efeito, doutora Maria Cristina) ouvindo você dizer "paizinho, deixa ele", quando do fim do assalto. Enquanto todos os transeuntes queriam linchá-lo, mostrando nossa barbárie que nem Gilberto Freyre conseguiu descrever. Nosso ranço antropofágico, que uns cabeludos tropicalistas têm por traço cultural nobre e reverenciável, mostra-se nesta hora. Na década de 80, em Umuarama, cidadezinha que recebeu a alcunha de Capital da Amizade, linchou dois estupradores amarrando-os a carros e os arrastando pelo asfalto e depois queimando-os em praça pública. Isso aqui ô ô...
Mas eu dizia que me comovi com seu "paizinho". Mais: comovi-me com seu sorriso enquanto você contava dinheiro com o bandido. Precisei, ali, toda a sua doçura e sua calma. Era dia dos namorados. Indaguei-me se você estava sozinha naquele dia, ou se pegara ele maldito coletivo para encontrar-se com seu feliz namorado. Fiquei estupefato ao ver como você alisava o cabelo da refém que mais tarde acabou morrendo, tendo acalmá-la. Como, ao final do martírio, você calmamente pegou sua bolsa e uma pasta de estudante. Jamais tirou seus óculos do rosto e, com uma arma engatilhada na nuca, ainda tinha tempo para arrumar os cabelos e parecer mais bonita na televisão.
Você é a heroína deste filme de ação que o bandido tentava, em brados, relutar. Sim, porque para nós, espectadores dessa tragédia, tudo não passou de uma alternativa ao insosso Beethoven, que a Globo exibia naquele horário. O cachorro até que é simpático, mas à nossa alma carente de emoção nada melhor do que ver assassinatos ao vivo, com a narração perfeita de Vanessa Riche, da Globonews.
Minha cara refém, vão gritar. E com razão. Tudo não passou, para nossa mídia, de um grande filme de ação, como aquele com Keanu Reaves e Sandra Bulock, Velocidade Máxima. Ou então era uma nova modalidade esportiva mais emocionante que Gustavo Kuerten e Magnus Norman ou que os jogos da seleção com a Argentina. Como alternativa a Galvão Bueno estava nossa Vanessa, narrando cada passo do bandido. Os analistas da imprensa dirão que a cobertura foi pífia e que a tal repórter se comportou como uma histérica. Eu, se fosse a Vanessa (e você, com este ar angelical, há de concordar comigo), mandava às favas a reportagem e todos os imbecis teóricos da comunicação que, numa hora dessas, vêm falar em objetividade. Todas as calamidades são subjetivas, meus caros. E não há manual de redação que tornará o suplício de meia-dúzia de mulheres desprotegidas em lide e sublide made in Folha de S. Paulo.
Você não viu porque estava na mira do assaltante, mas a certa hora o ponto da Globonews, sabe-se lá como, entrou no ar. Dava para escutar o que a diretora do telejornal falava aos pobres apresentadores. Ao telespectador atento, ficou patente o teatro de marionetes que é a televisão.
Esse assalto do qual você foi vítima, mais um dentre inúmeros que acontecem todo dia seja no Rio, São Paulo ou Curitiba, será, acredite, usado como bastião político. Tudo é mercadoria, minha cara refém. O Sebastião Salgado não estava lá para tirar a foto de sua tortura? Que pena. Daria um libelo interessante. Mas é bem possível que revistas masculinas a contactarão, porque você é linda e todos nós agora a conhecemos. Lembrei-me, súbito, do poema do Vinícius, Para uma Menina com uma Flor. Ah, deixa para lá. Eu, da minha confortável posição de telespectador, fiquei fazendo conjecturas de toda sorte enquanto você, ou a outra, ou qualquer uma, tinha um cano de revólver na boca. Lembrei-me de Gilberto Freyre e sua adoçada teoria sociológica. Nosso povo cordialíssimo capaz de matar uma refém grávida (depois descobriu-se que a gravidez da própria era somente um adereço a mais nesta tragédia que comoveu o Brasil). Nosso povo cordialíssimo pedindo o linchamento do marginal. Nosso povo cordialíssimo comendo pipoca ao som da voz de Vanessa Riche. Pensei naquilo que Daniel Piza disse, pouco tempo atrás, no Estadão, que fomos os últimos a abolir a escravidão e seremos os últimos a abolir o analfabetismo. Este bandido, o que é, se não o fruto do nosso desastroso século XIX. E XV e XVI e XVII e XX e possivelmente XXI. Este bandido negro e drogado e você branquinha e sóbria são a síntese mais extrema de nossa história. Como também o é o infeliz soldado que tentou ser herói e acabou vilão.
Descobriu-se mais tarde que o bandido, chamado Sandro, era um dos sobreviventes da chacina da Candelária. Cadê os populistas a afirmarem que pobre tem mesmo de morrer e que tal fato é o que se precisava para se legitimar os esquadrões de extermínio? Cadê, por outro lado, aquela artista plástica com vocação para Madre Teresa a afirmar a bondade intrínseca da miséria absoluta? Cadê Rousseau ou qualquer outro iluminista cheios de boas intenções para dizer que Sandro era uma tábula rasa? Cadê o gaúcho amigo meu vestindo uma camiseta com os dizeres "o sul é meu país" para gritar sua doutrina separatista?
Como diria o Dalton Trevisan: "Suave foi o jugo de Nabucodonosor rei de Babilônia, diante deste Brasil escarmentado sob a pata dos anjos do Senhor como laranja azeda que não se pode comer de azeda que é."
Durante as mais de quatro horas tive muito tempo para pensar em muita coisa: pensei no nosso Presidente, com seu Hegel, Weber, Marx e o diabo-a-quatro na cabeça. Seu discurso acadêmico, cheio de "intrínsecos", "epistemológicos" e demais jargões que ninguém, nem ele, entende. E todos os professores das universidades que, a despeito de suas teses ininteligíveis, ganham mais do que a imensa maioria da população e reclamam, reclamam, reclamam numa dialética nada pragmática (as exceções existem, eu sei e você também, minha cara refém). Lembrei de um idiota de beca.
De outro idiota de beca. E de todos os idiotas de beca e seus títulos de Doutor Honoris Causa. Lembrei-me de Stédile e sua natimorta solução maoísta para nossos problemas. Pensei em Garotinho e no uso político que faria se todos vocês saíssem ilesos. Pensei em Paínho e no seu passo vagaroso e na sua proposta populista de uso das forças armadas no combate à violência. Pensei até em Hitler e nos nossos pobres skinheads e nas propostas de se aniquilar o homem de acordo com sua raça ou credo. Pensei em Pitta, o prefeito negro que assumiu a maior prefeitura do país. Pensei em Lula e suas propostas mirabolantes para todas as nossas mazelas. Pensei em Sílvio Santos e sua rentável teoria do pão-e-circo ad infinitum. Pensei em Ratinho e seu bigode esbravejante clamando por justiça, pena de morte, etc. e tal. Pensei até em Ruy Tapioca e seu livro A República dos Bugres", cheio de ceticismo. Pensei em Eurico Miranda e seu totalitarismo ignorante. Pensei em todos os nossos ídolos populares, desde Carla Perez, Tiazinha e quetais, passando por Paulo Coelho, Gaspareto e coisas afins, Sandy, Zezé di Camargo, Xororó, Falcão e Mamonas e toda a responsabilidade que estes imbecis tem na futilidade que se instaurou na nossa vida com a conivência dessa coisa que insistem em chamar de arte. Pensei em Ronaldinho comprando sua Ferrari. Em Marcelinho Carioca gritando no vestiário para seus companheiros: "sabe quanto é que eu ganho? sabe quando é que eu ganho?". Pensei em toda a classe média que blinda carros e aumenta muros e abismos sociais. Pensei em Sérgio Bianchi e seu cinema rasteiro propondo a implosão da nossa sociedade com discursos vazios. Pensei até em Sérgio Naya recebendo alguma comenda da construção civil. Pensei na final da Copa do Mundo e a fraude que é nossa alegria esportiva. Pensei em Narcisa Qualquercoisa e seu livro Ai, que loucura!. Pensei em Adriane Galisteu Xuxa Glória Maria FátimaBernardes Faustão Jô Regina Casé Thiago Lacerda PauloMaluf Inocêncio de Oliveira Jota Quest Arnaldo Antunes Mister M Chacrinha Pepê e Nenê Gabriel o Pensador (?!) Collor Gates Clinton Stallone Jolie Pacino Stone Spilberg Hanks Ryan Garbo Chaplin (...).
Aí, de tanto pensar, engasguei-me com um grão de pipoca. Minha cara refém, amanhã ninguém mais se lembra de nada. Deixe passar a comoção popular, as flores baratas colocadas no poste em homenagem à nossa vítima. Deixe que os políticos falem, que os médicos legais anunciem seus laudos contraditórios, que se processe e condene a uma pena impagável o policial azarado e afobado que quis dar um fim ao seqüestro e acabou causando a morte da professorinha de arte que já esperava em seu ventre mais um brasileirinho a cantar que esse país ô ô é um pouquinho de Brasil iá iá desse Brasil que canta e é feliz feliz feliz é também um pouco de uma raça que não tem medo de fumaça ia que não se entrega não.
Vá para casa, tome um banho e vá para cama. Sonhe com um príncipe encantado e com aquela blusa que custa só R$ 30,00 no shopping. Antes de o sono vir, sinta vontade de comer um Bic Mac. E a bezerra, morta lá no pasto?
Relembre a matéria da prova, das contas no banco, no trocado para o ônibus que você, invariavelmente, terá de pegar amanhã depois (e não adianta comprar um carro que te quebram vidro e apontam caco de garrafa de 51 no pescoço passa logo para cá teu relógio). Faça planos para o seu final-de-semana, com ou sem namorado. Planeje ler um livro este ano. Afinal, ninguém que não você, minha cara refém, merece essa vidinha miserável de todos os dias, essa felicidade pequena de beijos furtivos e pequenas promoções na empresa.
Encerro aqui esta pequena carta. Lembro, por ora, de um poeminha do Bandeira que é muito longo. Um verso, porém, pede para ser escrito. Você pode achar piegas, minha cara refém, mas é que o assalto, você e seus belos óculos e sorriso, toda a celeuma em todo do caso, me lembraram que o que mais vale na vida mesmo é escutar um tango de Gardel.
Informação contra a histeria (*)
Alberto Dines
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Você é testemunha, você viu tudo, você pode julgar. A sociedade brasileira está estarrecida e aterrorizada mas a sociedade está informada, ela sabe o que aconteceu porque a imprensa, a mídia, estava lá. Difícilmentir, enganar, manipular. Muitas mães ficaram chocadas com a transmissão ao vivo durante quatro horas do seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro. Era o início da noite, as crianças estavam em casa e choravam nervosas. A culpa não foi da imprensa, foi de quem deixou crianças assistir ao que não deviam assistir. Você também é testemunha de como este programa tem sido crítico com relação ao desempenho da imprensa. Mas desta vez a imprensa fez o que lhe competia fazer. E foi porque a imprensa cumpriu com o seu papel é que escancarou-se a omissão de algumas autoridades que ficaram caladas algumas horas até que se soubesse o que havia acontecido com o bandido e com a refém. O governador Anthony Garotinho não tem razão quando acusa a imprensa de se deixar fascinar pela violência porque foi ele que se manteve calado sem informar o capítulo final da tragédia. Foi porque a mídia cobriu o caso como devia é que o pai da estudante mato-grossense descobriu que a sua filha não havia sido baleada. Agora cabe à imprensa acalmar a população, não exacerbar os ânimos, evitar linchamentos físicos e morais. Hoje pela manhã [terça, 13/6/00] um sargento da PM foi morto no Rio de Janeiro ao reagir a um assaltante num ônibus. Significa que não se pode generalizar as críticas ao comportamento da polícia. Em momentos assim não se deve generalizar coisa alguma. A informação é o melhor antídoto para combater a histeria e o pânico, que são maus juízes.
(*) Editorial do programa Observatório da Imprensa na TV, nº 106, exibido em 13/06/00
ASPAS
Luanna Belmont
"‘Eu me pergunto: por que não atirou em mim?’", copyright O Globo, 16/6/00
"Alguém já disse um dia que a realidade é a parte mais visível da ficção. Poético, mas discutível. De qualquer maneira, tentei cumprir bem o papel que me coube. Um mau desempenho talvez significasse a morte. ‘Tá vendo isso? Isso aqui não é um daqueles filmes que passam na televisão, não! Esse aqui é o meu filme, fui eu quem fiz! Olha só como é que eu estouro a cabeça dela!’. Sarcasticamente real. Quando perguntado sobre a situação, responde um policial: ‘Isso aqui não é Hollywood, não! Ninguém vai morrer!’
De fato, não era Hollywood. Era Zona Sul do Rio de Janeiro, Rua Jardim Botânico, esquina com a Doutor Neves da Rocha, em frente ao Parque Lage. Eu acabara de sair da faculdade e comia um sanduíche a caminho do estágio. Quero dizer que a minha história não nasceu história. Aliás, qual nasce? Presunção é pensar que uma história se conta. Uma história se monta. Isto é, se sobrevivemos a ela. Só então pode virar narrativa, organizada em palavras. E eu sobrevivi. Montar, porém, não significa mentir. Dizer o vivido é tentar compreendê-lo e ajudar a compreender.
Racional... É possível ser racional diante do medo? As perguntas surgem agora, depois do acontecido. O que senti quando tinha um revólver apontado para minha cabeça? Medo. A maior angústia, porém, seria ver alguém morrer na minha frente. Tinha que diluir aquela crença de que iríamos todas morrer. E repetia com firmeza: ‘Ele não vai te matar. Você não vai morrer. Calma, a gente vai sair daqui.’ Eu acreditava nisso. E acreditar é quase saber. Quase. ‘Estou com muito medo. Estou tremendo muito, não consigo ficar de pé...’ Perguntei o nome dela: ‘Geisa’. ‘O meu é Luanna.’ ‘Ele vai me matar, ele vai me matar!’ ‘Ele não vai te matar’. Prometi a Geisa que ela não iria morrer. Espero que ela tenha acreditado nisso.
Não sei. À verdade absoluta não tive acesso. De onde veio a bala que matou Geisa? Posso parecer hipócrita ao duvidar, afinal ele era um ‘louco armado, violento, drogado’. Estávamos em suas mãos. Era ele, de fato, quem tinha o controle da situação, mas talvez não tivesse o controle sobre si mesmo. Nossas vidas estavam, portanto, governadas pelo acaso. Não havia um ponto de consenso. Não havia uma reivindicação específica. Não havia um porquê.
Nós estávamos apavorados, e ele também. Neste momento, eu me pergunto: por que ele não atirou em mim? ‘Uni-duni-tê, salamê mingüê, a es-co-lhi-da foi você!’ Fui eu. A escolhida fui eu. Franzi o rosto, mas fiquei olhando dentro dos olhos dele. Em outro momento, quando segurava o meu rosto, como quem segura um alvo perfeito, chorei alto: ‘Não, por favor, não...’ E pus minhas duas mãos sobre a dele. Baixei a cabeça e, como quem pede consolo, busquei o colo dele. Como se a pessoa que me ameaçava não fosse a mesma que me consolava. A pedido do policial, ele passou a mão sobre a minha cabeça. Mais um instante viva, uma vitória.
Ele nos conduzia pelos cabelos. ‘Vem pra cá. Senta aqui. Levanta.’ Eu fui a quarta refém, depois de Geisa. Ela e Janaína foram as que mais sofreram com sua agressividade. Puxava-lhes os cabelos, apertava-as contra a janela, cabeça para fora, revólver na boca. Obrigava-nos a gritar e chorar alto, para provocar comoção e rendição da polícia. A hora do pacto: depois de fechar todas as janelas, o ambiente cada vez mais abafado, propôs simular a morte de Janaína. Disse que a faria ajoelhar no chão do ônibus e daria um tiro em direção ao chão. Requinte de ficção. Não sabíamos quando encenava ou falava a verdade. Pedimos que ele realmente não a matasse. Ele assegurou que não a mataria.
Nossa parte era parecer ainda mais desesperadas, chorar, gritar e implorar por uma solução rápida, pressionando os policiais. Enrolou Janaína em um lençol azul e a pôs de joelhos. Ela era a única que não sabia para onde o revólver estava apontado. Atirou. No chão. Cumpriu o que prometeu. E nós também. Não era nada difícil. Estávamos mesmo desesperadas. Peguei no ombro de Janaína. Talvez isso a ajudasse a perceber que estava viva.
De volta ao presente, percebo que narrar dá-nos a sensação de concretude de que muitas vezes nos servimos para camuflar uma certa falta de sentido que parece pairar sobre as coisas quando as olhamos de perto. Nada justifica ou acondiciona melhor as próprias controvérsias, convencendo-nos da gigantesca inutilidade de qualquer filosofia, que a convulsão repetida da existência. Não há nada que melhor se auto-legitime que o real, visto ali, na inevitabilidade de todos os dias, como reafirmação de si mesmo. A linguagem é, então, o último recurso para que, algumas vezes, não deixemos de acreditar nele. Apelo à palavra como método de digestão do que vivi. Escrevo, portanto, para que o real me pareça real, e para assegurar-me de que sobrevivi a ele.
Alex, Alessandro, Sandro... Para mim, e para todos que estavam dentro daquele ônibus, ele será sempre ‘Sérgio’. Conversei com ele. ‘Posso te fazer uma pergunta?’ ‘Pode.’ ‘Qual era o nome da sua mãe?’ Ele me respondeu, mas não lembro agora. ‘Como era a sua irmã?’ ‘Ela era linda. Tinha cabelo comprido...’ ‘Ela devia gostar muito de você...’ ‘Ah, ela me adorava...’ ‘Você sabe que dia é hoje?’ ‘É, hoje é o Dia dos Namorados, por isso eu vou matar uma namorada.’ ‘Ah, então você não vai me matar, por que eu não tenho namorado.’
Delegava tarefas. Pediu que contasse e arrumasse, nota a nota, todo o dinheiro que havia pego dos passageiros. Contei. Geisa me ajudou. R$ 231. ‘Bota aí dentro.’ Mostrou uma bolsa preta. ‘Posso pôr aqui?’ ‘Pode.’ Percebi que acatava algumas de minhas sugestões e pedidos. ‘Posso dar água às pessoas’. ‘Pode, vai lá.’ Tinha trânsito livre no ônibus. Caminhava pelo corredor, falava com as outras reféns. Disfarçadamente, perguntei a Janaína se queria água. Ela estava escondida entre os bancos, na continuação de seu papel de morta. Fez sinal que sim. Dei a garrafa a ela. Bebeu. Continuei caminhando.
Não podia abusar da tolerância de ‘Sérgio’. Na volta, recolhi a garrafa que ela pôs sobre o banco. Ele me pediu para colocar nele o meu cordão. ‘É de ouro?’ ‘É. E essa pedra é uma ametista’. ‘Põe em mim.’ ‘Abaixa aqui, deixa eu abotoar.’ ‘Ih, arrebentou’, disse a ele. ‘Deixa eu ver se consigo fechar mesmo assim.’ ‘Ah, dá um nó’, respondeu. ‘Tá bom, mas vira pra cá.’ Outra refém, acho que o nome dela é Glória, pediu que eu pusesse no pescoço dele um cordão com uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima. ‘Você acredita em Nossa Senhora de Fátima?’, perguntei a ele. ‘Não. Eu acredito em Deus.’ Passava o tempo todo dizendo que fez um pacto com o diabo. Sérgio cantava rap e dizia que a alma dele seria um presente para o diabo.
Agia com ele como se aquilo tudo não fosse um grande absurdo. Como se estivesse ajudando a alguém numa tarefa qualquer. ‘Estou apertada para fazer xixi.’ ‘Pode ir. Faz lá na porta.’ ‘E como é que você vai saber que eu não vou fugir?’ ‘Eu sei que você não vai fugir.’ ‘Sérgio’ pediu um isqueiro. Ameaçou tocar fogo no ônibus. Acho que ele também queria que tudo acabasse logo. De uma maneira ou de outra.
‘Não tenho nada a perder mesmo. Minha mãe morreu de facada, meu pai de tiro e minha irmã de sete anos foi degolada hoje. Eu sei que vou morrer também.’ Perguntei a ele se sabia qual era a maior vítima daquele ônibus. ‘Não’. ‘Você.’ Ficou em silêncio. Disse aos policiais que já tinha ‘nove na conta’ e não queria ‘ter mais uma’. Por que não nos matou de uma vez?
‘Agora vamos dar um passeio lá fora’, disse a Geisa. Prevendo a proximidade do fim, voluntariamente abri a porta do ônibus. Ele havia me ensinado a fazer isso quando pedi para acompanhar o senhor de muletas que ele decidiu libertar. Pensei que as negociações iriam continuar. Pensei que iria, por fim, libertar Geisa. Do banco do motorista, só consegui ouvir os tiros, mais de três, com certeza.
Dezenas de policiais sobre os dois. Tentavam afastar Geisa, já desacordada. Ouvi a voz dele enquanto era levado ao camburão. Vi levarem a menina para a ambulância. Estava suja de sangue. A multidão rompeu o cordão de isolamento e invadiu o local. Soube depois que alguém teria esperado desde o início do seqüestro para pisotear a cabeça de ‘Sérgio’. Vi pela televisão: crianças sozinhas, uniformizadas, corriam em direção à confusão. Perguntei à delegada, Marta Rocha, se Geisa estava bem. Disseram que o sangue era de ‘Sérgio’...
De dentro do ônibus, vi um rapaz com um cartaz que criticava a ação da polícia. Fomos levados para a delegacia. Um policial dirigia o ônibus. Na Gávea, as pessoas aplaudiram nossa chegada. Mais tarde, quando falava aos repórteres, uma delas disse: ‘Você sabe que ela morreu, não é? Ela e ele.’ ‘Não, eu não sabia.’
Perguntaram-me sobre o que achava da morte de ‘Sérgio’. Disse que sua morte significava o fim daquilo tudo. Um alívio. Mas, na verdade, não a desejava. O que queria era que ele nunca tivesse existido.
Queria ter ido ao velório de Geisa. Não consegui chorar até hoje. Acho que ela merecia minhas lágrimas. Estou bem, apesar da febre e da dor de garganta, que tentam insistentemente atribuir à tensão que vivi naquele dia. Quero voltar ao meu cotidiano. Agradeço a solidariedade de todos e compreendo sua indignação. Desejo a paz. Paradoxalmente, estou feliz. [Luanna Belmont foi refém no seqüestro do 174]"
Quando me deram água ele falou que se eu dormisse ele me matava. Ele achava que a polícia ia colocar sonífero na água. Ele era esperto. Ele só colocava água na boca e cuspia, não engolia."
Luciana Cabral
"Tive medo de violência sexual", copyright Jornal do Brasil, 17/6/00
"Sobreviver não é apenas continuar viva para Janaína Lopes Neves, refém do ônibus 174 na segunda-feira passada, no Jardim Botânico. ‘Tenho que enfrentar o medo e usar o que sofri para ficar mais forte’, acredita a estudante de Administração de Empresas da PUC-Rio, aos 23 anos. Por mais de uma hora, Janaína ficou sob a mira do revólver de Sandro do Nascimento. ‘Não sinto raiva porque ele não teve um pai e uma mãe para dar R$ 1 para levar para escola, como tive.’
Nascida em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, há três meses a estudante resolveu estudar no Rio. Não imaginava que fosse ser vítima de tanta violência, como ter os cabelos puxados, uma arma enfiada na orelha ou até mesmo temer uma violência sexual. ‘Estamos perdendo o direito de ir e vir’, reclama. Ela que lutar com toda a sociedade e estará presente na passeata amanhã em Ipanema. É a resposta dela para o Brasil inteiro.
Sandro simulou a morte de Janaína. Era a menina com expressão tranqüila que alimentou e escreveu mensagens do assaltante analfabeto ao contrário, no vidro do ônibus. No chão do ônibus, ela pensava na mãe, morta em um acidente em que só Janaína sobreviveu.
Quando tudo chegou ao fim, sofreu com o que considerou um erro policial e resultou na morte da refém Geisa Firmo Gonçalves e do bandido. ‘Senti alívio por não ter sido eu’, confessou. E chorou de novo, com pena e por se sentir egoísta.
O ASSALTO
Estava lendo um livro, terminei, guardei na minha bolsa e fiquei olhando a paisagem do Jardim Botânico, como faço sempre. Sempre ando de ônibus, meu carro ficou em campo Grande. Estava tranqüila, normal, eram duas horas da tarde. Não vi ele entrando, só vi que alguém passou e sentou lá na frente. Costumava sempre andar de ônibus. No começo só andava com o material da faculdade, depois com uma mochila que pudesse ser roubada. Eu tenho um amigo que falava assim ‘use tudo que não tenha muito valor para você’. Foi muito rápido. Vi o motorista parando o ônibus e o policial gritando com o cara. Eu me joguei no chão. Pensei: ‘eu não acredito que estou aqui, mas vai acabar logo, daqui a pouco vamos descer’. Não achava que fosse demorar tanto. Não tenho medo de morrer, porque já passei por uma situação difícil há 10 anos. Escrevi ao contrário porque na hora que levantei tinha muita gente lá fora. Escrevi assim para quem está lá fora entender.
A VINDA PARA O RIO
Conheci o Rio ano passado e gostei, fui duas vezes. Tentei fazer faculdade no Rio e em São Paulo. Mas saiu o resultado do Rio primeiro, meu pai achou melhor. Nunca morei fora de Campo Grande, mas já morava sozinha. Queria abrir meus horizontes. Meu pai tem empresa, mas apesar de trabalhar com pai ser gostoso, tem uma hora que a gente não cresce.
SANDRO
Acho que ele (Sandro) tinha um trauma. Hoje entendo tudo o que ele passou na vida e não tenho raiva. No começo eu achava que ele não queria matar, pensava ele é só um assaltante. Ele sentou no chão e a menina sentou na frente dele e disse: ‘Eu não vou matar ninguém, mas vou fazer alguma coisa para chamar atenção’. Ele me parecia mais uma pessoa transtornada. Teve uma hora que ele ligou para alguém e falou ‘o caso aqui ficou feio, tem um monte de gente’. Ele viu que deu uma proporção muito grande o que ele tinha feito, até então ele não tinha noção, nem eu sabia que ia ter tanta coisa. Puxa, até o presidente da República falou depois. Como a Luanna disse, ele é vítima da sociedade. Ele não teve o que nós tivemos. Ele foi violento, me puxou, me empurrou, não sei se a vida que ele teve justifica essa crueldade, mas certamente induz.
NEGOCIAÇÃO E MORTE
Em relação à morte eu digo que não tenho medo porque eu pensei assim, se for para morrer, eu vou morrer agora, se não for a minha hora, eu não vou morrer, não vai acontecer nada. Mesmo assim pensei que, se fosse a minha hora, não tinha o que fazer. Teve uma hora que comecei a chorar, e um policial que tava negociando pediu para eu ficar calma, parar de chorar. Os policiais que estavam ali foram de fundamental importância porque pediam calma. Quando a gente tá lá dentro parece uma eternidade, mas agora, olhando de fora, me parece que eles estavam no caminho certo, estavam cansando ele. Por muitas vezes eu fechei os olhos e pensei: agora ele atira em mim. E pensei assim em vários momentos até quando ele atirou em mim para parecer que eu estava morta e, olhando as imagens, eu vejo que ele não olhou pra mim para atirar. T anto é que pegou bem perto do meu pé.
TELEVISÃO
Quando eu vejo as imagens, parece que não sou eu. Quando vi na internet as fotos falei: olha só a minha cara. A tranqüilidade, a calma, meu olhar parecia meio vago. Naquela hora eu só pedia para não acontecer nada, para ele não atirar e, principalmente, para os policiais que estavam lá não atirarem. Quando ele colocava a arma no meu ouvido, eu entrava em pânico. Pensava no meu pai, que ia se sentir culpado por ter me deixado ir morar no Rio.
DESFECHO
Acho que os policiais não deviam ter atirado daquele jeito. Não senti raiva, não desejei que ele morresse, queria que aquilo acabasse e ele fosse preso. Tenho uma tia que não consegue dormir de tanto que pediu pela morte dele. Eu pedia muito para ele ouvir e ele pedia para fechar as janelas e ele não queria mais conversar. ‘escuta aí, escuta os policiais’, eu dizia e falava para os policiais: ‘dá um motorista para nós’. No meu ouvido ele falava o tempo inteiro que ia me matar.
FARSA
Só fui saber que ele não ia atirar em mim, na hora em que ele me abaixou. Era perto das seis horas. Ele falou para elas ‘não vou matar ela. Quando atirar, todo mundo começa a gritar’. Eu só deitei e ele não disse nada para mim. Quando todo mundo chorava achando que eu tinha morrido, eu chorei de alegria. Quando ele atirou eu comecei a gritar para ajudar a fazer de conta que ele tinha me atingido mesmo. Eu agradeço a todo mundo que sofreu ali na hora, que se sensibilizou com a minha suposta morte. Eu acredito que as pessoas se colocaram no meu lugar.
SETE VIDAS
Todo mundo agora fala que eu tenho sete vidas, eu não sei, só penso que não chegou minha hora. Aprendi com meu pai, depois da morte da minha mãe, a viver intensamente. Geizam, ela estava desesperada. Deram o rádio para ela falar e ela não conseguia. Falava pelo amor de Deus, chorava muito. Uma hora ela pediu para levantar para falar com a polícia, abriu a janela e gritou para acabar logo. Ela falou que ia processar o estado porque a Damiana estava passando mal.
MORTE DE GEISA
Eu ouvi ele falando que ia dar uma voltinha. Quando abriu a porta eu comecei a levantar. Ouvi os tiros eu achei que ele tinha sido atingido. Vi a Geiza sendo carregada e a delegada Marta Rocha falou que estava tudo bem e que ela só tinha sido atingida de raspão. Só soube que a Geiza tinha morrido quando cheguei em casa. Senti muita pena, é um pouco de egoísmo, mas até agradeci por não ter sido eu. Se o policial tivesse matado o Sandro, e não a refém, ele seria considerado um herói. Infelizmente, o mundo é assim. Acho que ele se precipitou. A ordem não era matar, era negociar. Acho que ele errou e, depois, foi erro sobre erro.
RIO
A gente está perdendo o direito de ir e vir. E não é só no Rio, Campo Grande também é muito perigoso. A gente reza de manhã para sair de casa e voltar. Antes eu não me preocupava nem um pouco. Eu continuo achando o Rio uma cidade linda e maravilhosa, apesar de tudo, ainda mais essa semana que pipocaram violências. Eu fiz terapia e acho que tenho que enfrentar. Porque se não ficar resolvido vira um pânico e eu não saio mais de casa mais. O acidente, por exemplo. Se fosse por isso, eu nunca mais dirigiria.
ACIDENTE
Tinha 13 anos, a mãe estava dirigindo. Eu não consigo mais dormir no carro. Estávamos voltando de Ponta Porã, eu dormia, e o carro capotou. Quebrei a clavícula e a coluna e fiquei 50 dias toda engessada. Hoje já está superado, mas foi muito difícil a adolescência sem minha mãe. Não posso dizer que o acidente ficou como um trauma. Ficou uma dor porque perdi minha família.
SUPERAÇÃO
Esses fatos me fazem ficar mais forte para enfrentar a vida, porque o mundo hoje é tão complicado e eu tenho de viver nele. E não tem como a gente viver em uma redoma de vidro. Não consigo nem pensar em morar no meio do mato . Mas para viver, sair, ter acesso a cultura, a vida urbana. Vou voltar para o Rio e ouvir o que o meu coração diz. Temos o dever de ter uma participação e pedir para fazerem mais pela segurança. Eu vejo policiais na rua, mas é preciso investimentos, salários melhores, treinamento. Por outro lado, dar educação para as crianças, atender melhor os meninos sem família ou que cometem crimes. Ainda tem solução para essas crianças. Voltar, no começo, vai ser difícil. Eu sei que vou sentir muito medo quando for pegar um ônibus de novo e acho que isso acabou atingindo todo mundo.
VIOLÊNCIA SEXUAL
Ele era forte e bem mais alto do que eu. Ele tinha cheiro de suado. Eu tinha medo até de uma violência sexual. Teve uma hora que ele sentou e me mandou sentar do lado dele e me mandou deitar no colo. Ele falou assim ‘deita a cabeça direito, garota’. Eu só coloquei a cabeça de lado, aí ele mandou e eu inclinei a cabeça. Mas logo depois ele ficou nervoso, e levantou. Mas nessa hora eu pensei que ele fosse me pedir para fazer alguma coisa. Mas ele se esfregava bastante, me segurando pelo braço.
ÁGUA
Quando me deram água ele falou que se eu dormisse ele me matava. Ele achava que a polícia ia colocar sonífero na água. Ele era esperto. Ele só colocava água na boca e cuspia, não engolia."
Luiz Garcia
"Notícias sem marola", copyright O Globo, 14/6/00
"O último fim de semana foi especialmente violento na cidade. Seis pessoas morreram e 53 foram feridas. Um dos episódios que mais mobilizaram a opinião pública foi a agressão sexual contra quatro moças – duas delas turistas européias – por uma gangue de 15 homens.
Os jornais e TVs, indiferentes ao impacto negativo sobre o fluxo de turistas, deram farta cobertura aos acontecimentos, o que abasteceu de matéria-prima correspondentes estrangeiros e agências internacionais. Graças a isso, o carioca que leu O Globo ontem [terça, 13/6] pôde sentir pena dos infelizes moradores de Nova York, onde tudo aconteceu. E aconteceu sem que o prefeito Giuliani (que deixou de ser candidato ao Senado, em parte por doença e em parte devido ao intenso noticiário sobre episódios de violência policial) tivesse o topete de insinuar que o comportamento dos meios de comunicação estaria espalhando o medo entre os nova-iorquinos.
Em palestra para jornalistas de todo o mundo, reunidos em congresso no Rio, o Governador Anthony Garotinho teve o topete. Não foi infeliz apenas porque o desenlace do seqüestro no Jardim Botânico logo mostraria que a sensação de insegurança no Rio parece estar mais associada à forma pela qual a violência é combatida do que à maneira pela qual ela é noticiada. Garotinho deu azar também porque embarcou na velha canoa furada de confundir causa com conseqüência.
A imprensa produz uma imagem da realidade. É tudo que faz. Freqüentemente, por falha sua, a imagem é embaçada, incompleta. Às vezes, parte da imprensa produz, por incompetência ou intenção, um retrato deformado da realidade. Outras, a deformação é produto de ingenuidade, quando jornalistas não percebem que estão sendo manipulados por quem lhes fornece falsas notícias fantasiadas de revelações factuais. Mas esses são possíveis defeitos com que a sociedade é forçada a conviver: a alternativa do controle dos meios de comunicação pelo Estado é insuportável para todos os interessados.
Já desfocar o retrato da violência significaria negar à sociedade a possibilidade de se mobilizar contra um perigo crescente. A grande imprensa estrangeira não costuma cometer essa desídia. No Brasil, há o exemplo de alguns jornais de São Paulo, que – talvez por bairrismo – tiveram durante anos o mau costume de quase ignorar a violência local e exagerar a violência fluminense. Em anos recentes, a classe média paulistana aos poucos descobriu, com grande surpresa, que a periferia estava batendo na sua porta. Certamente não agradeceu à parte da imprensa que alimentara uma falsa sensação de conforto.
É possível que no Rio os meios de comunicação tenham cometido o erro oposto, como diz Garotinho? Mesmo que nenhum veículo esteja livre de ceder ocasionalmente à tentação do sensacionalismo, não parece. O governador não acusa jornais, TVs e rádios de inventar más notícias, nem de sonegar boas, como as periódicas estatísticas sobre queda nos índices de crimes. (Note-se que é preciso alguma generosidade para aceitar em confiança estatísticas oficiais, de qualquer procedência). A reclamação se limita ao destaque.
Deixada em paz, a imprensa avalia os fatos que vai noticiar sopesando dois dados: o interesse público e os interesses do público. Atender ao primeiro garante-lhe respeito e credibilidade; servir ao segundo assegura boa circulação. Mesmo um leigo entenderá que, na ausência de fórmula matemática, o certo é sempre levar em conta os dois aspectos, com o bom senso determinando, a cada passo, aquele que deve predominar. Na receita de Garotinho, acrescenta-se terceiro critério. Boa notícia, na receita do Guanabara, parece ser, acima de tudo, a que não faz marola.
É a opinião de quem, com todo o respeito, não entende bem do assunto de que está tratando. Ou seja, de imprensa; não, como poderia parecer, de segurança pública."
Renata Lo Prete
"Depois do ônibus", copyright Folha de S.Paulo, 18/6/00
‘Ele ainda saiu vivo do local.’ Era Sandro do Nascimento, o bandido que manteve reféns sob mira de revólver e repetidas ameaças na segunda-feira passada, em um ônibus, na zona sul do Rio.
A frase destacada acima surgiu no último parágrafo do texto que abriu a cobertura da Folha no dia seguinte.
Não estava errada, mas de certo modo perdia o ponto da história. O ‘ainda’ transmitia a idéia de que Sandro teria começado a morrer na rua, atingido pelos tiros que marcaram o fim do sequestro. As fotos, no entanto, mostravam-no bem vivo, 100% vivo, quando foi levado pelos policiais.
Outros jornais pontuaram seus relatos com algumas pistas. Um observou que Sandro foi visto andando. Outro colocou em dúvida que ele tivesse sido baleado.
Não se trata de julgar, a partir de uma única frase, o desempenho da Folha no caso da semana. Ele não foi especialmente bom, mas também não foi ruim.
A frase é detalhe que ajuda a iluminar um problema. Sua formulação, assim como a ausência de informações que a complementassem, sugere que o jornal teve dificuldades para identificar, no calor do momento, a segunda notícia desse episódio.
A primeira estava no ônibus: as quatro horas de terror que terminaram com a morte da refém Geísa Firmo Gonçalves. Impossível não enxergar a primeira notícia. O país inteiro a acompanhou pela televisão.
A segunda notícia estava dentro do camburão. Ali não houve TV.
Uma leitora me procurou para criticar referência feita a Anthony Garotinho na capa da Folha de terça-feira. Depois de resumir o acontecido e registrar a manifestação do presidente da República, o texto dizia que o desfecho do sequestro, embora não tivesse agradado ao governador do Rio, foi considerado por ele ‘o melhor possível’.
‘Fiquei indignada quando li a declaração’, contou a leitora. ‘E mais indignada fiquei ao descobrir, na reportagem interna, que o governador fizera a afirmação antes de saber da morte da refém, o que, convenhamos, é bastante diferente.’
Ela fez questão de esclarecer que não é eleitora de Garotinho. Ainda assim, considera ‘absurdo’ omitir o contexto em que a frase foi pronunciada. Muitas vezes, pondera ela, quem tem pressa se fia exclusivamente na primeira página para tirar suas conclusões.
A leitora está certa. Como de hábito em episódios que monopolizam a atenção do público, não faltaram declarações infelizes e/ou oportunistas de autoridades, Garotinho incluído. Isso não autoriza o jornal a contar da história apenas a parte que lhe parece mais chamativa.
Quem faz sondagens de opinião pergunta o que quer, mas deve estar preparado para ouvir as respostas. Se o jornal gosta de pesquisas, tem de ser transparente na hora de apresentar os resultados.
Na quinta-feira, a capa da Folha fez o certo ao registrar, ao lado da informação de que 54% dos paulistanos reprovaram a conduta dos policiais que mataram o sequestrador no camburão, o contraponto de que parcela expressiva dos entrevistados (41%) aprovaram a ação.
Já a capa do caderno Cotidiano errou ao destacar o primeiro percentual acima de sua manchete e nem ao menos incluir o segundo na reportagem. Ele ficou perdido no meio dos gráficos.
Ainda que a reprovação tenha conseguido maioria, é possível argumentar que a aprovação tão elevada seja até mais notícia. Na mesma linha, o texto enumerou vários dados menos significativos antes de relatar, no último parágrafo, o apoio majoritário (67%) à polêmica proposta de usar o Exército no combate à violência urbana.
Ao fazê-lo, o jornal cuidou de assinalar que o apoio se dá ‘em especial entre os que concluíram apenas o 1º grau e entre os que ganham até dez salários mínimos’.
Dependendo das convicções de cada um, pode-se lamentar ou festejar esses resultados, mas não é caso de escondê-los."
Carlos Heitor Cony
"O crime e a mídia", copyright Folha de S.Paulo, 17/6/00
"A pergunta mais frequente que recebo sempre que enfrento um grupo de estudantes ou de curiosos é sobre o destino da imprensa diante da informática. A sobrevivência do jornal impresso, asfixiado pela instantaneidade, pelo baixo custo e pela eficiência da mídia eletrônica.
Fui criticado por especialistas dos dois sexos – e até do terceiro – por ter dito, recentemente, que se Zola tivesse escrito o ‘J’accuse’ na Internet, o capitão Dreyfus até hoje estaria cumprindo pena na Ilha do Diabo.
Deixando de lado o exemplo antigo, prefiro comentar o caso que traumatizou a semana. A TV e a Internet, separadamente, deram a cobertura que delas se esperava. Acompanhamos, minuto a minuto, a tragédia da rua Jardim Botânico.
Mal acabou o sequestro, tivemos no ar o presidente da República dando o seu recado. Como cobertura de um fato, perfeito, completo. O que sobraria para os jornais impressos do dia seguinte?
A verdade é que sobrou muita coisa. E, na realidade, o mais relevante (causas, erros, providências a tomar) ficou mesmo para o jornalismo impresso.
Diga-se, a bem da verdade, que os jornais, pelo menos os da chamada grande imprensa, encontraram o caminho certo do noticiário. Não choveram no molhado, repetindo mecanicamente o que já era sabido e condenado.
Cada qual a seu modo, dentro do estilo de cada editoria, completou e complementou o que todos vimos nos telões e telinhas. As primeiras páginas foram reformuladas, bem apresentadas, sem emocionalismo, com objetividade.
É triste aproveitar uma tragédia para louvar o aspecto técnico de um segmento da sociedade. Ao qual, indevidamente, pertence o cronista.
Mas acho necessário mostrar que o jornal ainda terá hora e vez, desde que feito com inteligência e criatividade."
Selma Schmidt
"Garotinho: imprensa tem atração por violência", copyright O Globo, 13/6/00
"No momento em que um ônibus era seqüestrado no Jardim Botânico, o que ainda não tinha chegado ao seu conhecimento, o governador Anthony Garotinho criticou a imprensa do Rio por ter, segundo ele, atração pela violência. Em palestra no 7º Fórum Mundial de Editores, no Hotel Intercontinental, ontem à tarde, Garotinho disse que a imprensa dá abordagem emocional aos crimes. Segundo ele, os índices de violência teriam diminuído no estado, mas a imprensa continuaria dando destaque aos crimes, o que geraria uma sensação de insegurança na população.
– Washington é uma das cidades mais violentas do mundo, com índices de criminalidade superiores a Rio e São Paulo. Mas, lá, notícias de violência não ganham destaque nos jornais, enquanto, aqui, dão manchetes de primeira página - disse Garotinho.
Garotinho fez palestra sobre ‘Uma visão oficial da violência urbana’, na sessão que tratou de violência e imprensa e teve como moderador o jornalista Pedro Bial, da TV Globo. Citou números para mostrar queda dos índices de violência e disse que investirá R$ 80 milhões este ano em segurança.
Garotinho citou uma pesquisa feita no fim do ano passado. Foram feitas duas perguntas para saber se a violência tinha aumentado no Rio e no bairro em que os entrevistados moravam:
– Os mesmos que disseram que houve aumento da violência na cidade afirmaram que a violência tinha diminuído no seu bairro. Isso significa que o cidadão não viu recrudescimento da violência. Houve uma sensação maior do que a violência real. E os jornais são os primeiros suspeitos dessas visões diferentes de opinião pública - afirmou.
Outro exemplo citado foi o da Operação Rio, de ocupação dos morros pelo Exército em 1994. Ele disse que, na ocasião, a população teve sensação de segurança, embora os índices de criminalidade tenham aumentado.
– Essa conseqüência subjetiva foi motivada pela cobertura simpática da imprensa à Operação Rio - disse ele.
Logo após a palestra de Garotinho, o jornalista Khulu Bronsby Sibiya, editor-chefe do jornal sul-africano ‘City Press’, questionou as posições do governador, que chamou de apenas oficiais enquanto o seminário deveria provocar discussões e trazer informações aos participantes sobre o tema da violência.
Em seguida, o editor-chefe do GLOBO, Ali Kamel, comentou que o Rio não pode ser comparado a Washington, devido à sua geografia urbana. Ali lembrou que, no Rio, as favelas, dominadas pelo tráfico, estão ao lado das áreas mais favorecidas da cidade. Logo, disse, um conflito entre traficantes tem repercussão em toda a cidade e deve ser noticiado.
Ali afirmou ainda que os jornais não podem ignorar casos como o da estudante Ana Carolina da Costa Lino, de 18 anos, morta em abril de 1998 nas proximidades do Palácio Guanabara, por tiros de AR-15.
– Toda vez que uma jovem for morta a poucos metros do Palácio Guanabara, isso estará na primeira página do GLOBO e de qualquer jornal do mundo. Toda vez que 50 homens armados invadirem uma favela, isso estará na primeira página do GLOBO e de qualquer jornal do mundo - disse.
Ali foi além:
– Se o ‘Washington Post’ não noticia crimes dessa magnitude é problema da editoria de cidade deles e não das nossas.
O editor-chefe do GLOBO disse que a crítica de Garotinho é comum aos governadores do Rio. Garantiu que a imprensa não tem obsessão por violência, mas a obrigação de informar para alertar a população.
Ao responder a uma pergunta de Pedro Bial, o governador negou que haja tratamento diferenciado da polícia nas zonas Sul, Norte e Oeste, mas ressaltou que há maior atenção do Governo com a área turística. Ele anunciou para a primeira semana de agosto o início da campanha ‘Todos pela paz’, integrando a PM e as comunidades. A campanha prevê que os comandantes de batalhões tomem café da manhã com os presidentes das associações de moradores, no quartel, uma vez por mês. Além disso, quadras e serviços médicos e odontológicos dos batalhões passarão a ser compartilhados com as comunidades.
Outro anúncio feito por Garotinho foi o de que lançará em novembro seu segundo livro sobre violência. O governador informou que o livro mostrará sua experiência em 14 meses de Governo e os resultados das teorias que constam do primeiro volume, lançado na campanha eleitoral."
Folha de S. Paulo
"Governador se queixa de cobertura", copyright Folha de S. Paulo, 13/6/00
"O governador do Rio, Anthony Garotinho, criticou ontem o que chamou de ‘cobertura mais emocional do que factual’ que, em sua opinião, vem sendo feita pelos jornais sobre a questão da violência urbana.
Garotinho, que participou à tarde de um debate sobre o tema ‘A Violência e a Imprensa’ durante o 7º Fórum Mundial de Editores, citou dois exemplos para justificar seu ponto de vista.
Primeiro, uma pesquisa feita logo no início de seu governo, segundo a qual ao mesmo tempo em que moradores do Estado afirmavam ter a sensação de que a violência havia aumentado, diziam que em seu bairro ela havia diminuído.
Depois, a Operação Rio -ação ocorrida no Rio no final de 1994 quando o Exército ocupou favelas numa tentativa de diminuir a criminalidade na cidade. De acordo com o governador, durante a ocupação não houve redução nos índices. Em dezembro de 1994, de acordo com o governador, houve um recorde de homicídios no Estado: 826 casos. Mas os jornais estampavam manchetes como ‘Violência diminui no Rio’ e pesquisas mostravam que a população tinha a sensação de estar mais segura.
‘Havia uma diferença entre a sensação e a violência real’, disse Garotinho, afirmando que os jornais ‘podem superestimar ou subestimar um problema’.
O governador fez uma autocrítica: disse que em novembro lançará um novo livro sobre a questão da violência urbana. Nele, afirmou, mostrará que muito da teoria exposta em seu primeiro livro, ‘Violência e Criminalidade no Estado do Rio de Janeiro’, não se aplica na prática. ‘O resultado foi diferente e precisa ser revisto’, disse. O livro foi editado durante a campanha eleitoral, em 98.
Além do governador do Rio, participaram do debate Paula Fray, editora do jornal ‘Saturday Star’, de Johanesburg (África do Sul), e Miguel Badillo, repórter do jornal ‘El Universal’, do México.
Fray disse que a grande questão entre os jornalistas de seu país é como fazer a transição da cobertura de assuntos políticos -como era feito na época do apartheid- para a da violência urbana. ‘Nosso leitor quer a cobertura dos crimes do dia-a-dia, mas temos a preocupação de não falar apenas dos crimes, mas explicar seu contexto’, disse.
Carlos Lleras de La Fuente, diretor-presidente do jornal colombiano ‘El Espectador’, que assistia o debate, disse que em seu jornal não há lugar para o que chamou de crimes comuns.
‘Temos guerrilha, narcotráfico, corrupção. Um simples assassinato em um bar à meia-noite, na Colômbia, não tem nenhuma relação com a vida real’, disse."
Alberto Dines
"Geisa, Luanna e a politização da tragédia", copyright Jornal do Brasil, 17/6/00
"O PFL é rápido no gatilho. E como não é sério, atira a esmo e erra o alvo. A proposta do deputado Inocêncio de Oliveira de se criar um ministério dedicado ao combate àviolência é tão estapafúrdia quanto a proposta do chefão, senador ACM, de colocar asForças Armadas na rua para acabar com o crime.
O filme a que começamos a assistir não é um campeão de audiência mas tem todos os elementos para converter-se em palhaçada mórbida protagonizada por políticos oportunistas. Essa gente é impaciente, não espera missa de sétimo dia. O Rio começa a sair do estado de choque e o país ainda não se recuperou diante do trágico desfecho na curta biografia da professora de artesanato Geisa Gonçalves. Mas os ‘operadores’ da politicagem já se puseram em ação. Lágrimas ainda não secas, sangue ainda nãocoagulado, já querem verbas, cargos, poder.
O relato da refém sobrevivente, a estudante de comunicação Luanna Belmont é arrepiante (O Globo, 16/6/00, página 17). Muito mais do que reportagem, é o testemunhoem forma de solilóquio de uma viagem ao inferno.
‘Tá vendo isso? Isso aqui não é um daqueles filmes que passam na televisão, não! Esse aqui é o meu filme, fui eu quem fiz! Olha só como é que eu estouro a cabeça dela!’
Nelson Rodrigues? José Rubem Fonseca? Puro Sandro do Nascimento, aliás Alex Junior da Silva, aliás Sérgio de Tal no seu momento maior, pouco antes de morrer, quando apontava o tresoitão, cano longo, na cabeça de outra refém.
Esse mesmo 38 cano longo vai ser liberado para a venda. Foi a brecha encontrada por parlamentares tão inocentes quanto o Inocêncio para aprovação da lei que proíbe o comercio de armas no país. Um deles é o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros(PMDB-AL). O lobby dos armeiros (que inclui deputados-policiais) vai repetir a façanha de todos os lobbies – dos remédios, dos planos de saúde e das madeireiras: furar avontade da sociedade com um insignificante casuísmo por onde escoarão a malícia, a malandragem e a má-fé de fiscais e fiscalizados.
Uma pistola calibre 45 tem cano curto ou longo? Uma escopeta, teoricamente, tem o cano cortado mas se o fabricante acrescentar dois centímetros deixa de ser escopeta e vira carabina, portanto está OK. Cabe na mochila. Liberada para matar outras Geisas e traumatizar outras Luannas.
Foram as câmeras de TV que enlouqueceram o facínora, como explicou o prefeito Luiz Paulo Conde? Ou foi a desídia de comunicadores como Anthony Garotinho, ocupados ao longo de seis semanas com o documentarista João Moreira Salles, que fizeram esquecer que a polícia é um caso de polícia?
Politizar a violência é um escárnio às vítimas da violência. Explorar o pânico e a insegurança com jogadas eleitoreiras é covardia. Pior: cumplicidade com a bandidagem.
Um país comovido e consternado com o que aconteceu diante do luxuriante Parque Lage quer unir-se. Agregar-se. As soluções partidárias são divisionistas, converterão este banho de sangue no qual todos estamos envolvidos numa guerra civil, de secessão. Fatal.
O PFL – de novo – apresentou como candidato a prefeito de São Paulo um ex-xerife, formado nos tempos da ditadura. A segurança não é questão municipal. É federal. E internacional, porque vinculada ao narcotráfico. Mais ainda: é social e cultural porque a classe média consome confortavelmente as drogas que os marginais distribuem nos desvãos das cidades. O problema da violência entranhou-se com o da corrupção, com a exclusão social, com a desumanização do nosso modo de viver.
Este não é um problema que se resolve em comícios, com a retórica leviana dos marqueteiros, em outdoors ou comerciais de TV.
Este não é um problema que se resolve com novas siglas, novos programas, CPIs ou pequenos truques orçamentários. Estamos diante de uma emergência institucional. Está em jogo a defesa do Estado, da sociedade, das cláusulas pétreas da nossa Constituição.
Este é um desafio à nossa capacidade de irmanar: Geisa morreu e Luanna quer viver."
MST NA MÍDIA
A (des)construção de uma imagem
Maria Luisa Mendonça (*)
A partir de meados dos anos 90, o MST passou a ganhar maior espaço nos meios de comunicação e, com isso, a questão agrária conquistou maior visibilidade em áreas urbanas. Isso se deve, entre outros motivos, à decisão do MST de intensificar seu trabalho para sensibilizar a população das cidades, mostrando que a democratização da terra é fundamental para resolver problemas sociais tanto no campo quanto na cidade. Foi nessa época que o MST adotou a palavra de ordem "Reforma Agrária, uma luta de todos". Além disso, os massacres de Corumbiara, em 1995, e Eldorado dos Carajás, em 1996, forçaram os meios de comunicação a discutir a questão agrária. Mas a maior cobertura aconteceu durante a Marcha a Brasília, em abril de 1997, quando o MST ocupou a primeira página dos jornais e das revistas de maior circulação no país. Naquele mesmo ano, pesquisa do Instituto Interscience indicava que 83% da população apoiava a reforma agrária. Outra pesquisa, do Ibope, revelou que 85% dos entrevistados apoiavam as ocupações de terra, desde que pacíficas.
Em resposta à preocupação das elites com a alta popularidade do MST após o período da marcha, a maioria dos artigos sobre a reforma agrária passou a se concentrar em situações de conflito envolvendo o movimento. As matérias se tornaram mais negativas a partir de 1998, quando o MST decidiu reivindicar mudanças na política econômica do governo FHC como forma de resolver a crise no campo, como explica João Pedro Stedile: "Enquanto éramos considerados pobres coitados que queriam terra não representávamos grande ameaça. Mas quando introduzimos um discurso mais ideológico contra o neoliberalismo os ataques se intensificaram".
Analisando um total de 300 artigos que citam o MST, nos quatro maiores jornais do país –Folha de S. Paulo (FSP), O Globo (OG), O Estado de S. Paulo (OESP) e Jornal do Brasil (JB) – de 20 de abril a 20 de agosto de 1999, pude perceber que há certas "fórmulas" que determinam como essas matérias têm sido elaboradas. Grande parte desses artigos caracteriza os sem-terra como agressores, guerrilheiros em potencial, obcecados com a tomada do poder ou violentos. Por outro lado, os policiais são representados como defensores da ordem, embora as estatísticas sobre violência no campo mostrem o contrário. O governo, por sua vez, é visto como o agente negociador, que apóia e investe grandes recursos na reforma agrária. As manchetes abaixo ilustram esses exemplos:
1. Nos casos de violência contra trabalhadores rurais, os crimes geralmente são atribuídos a "conflito", a "tiroteio", a "desocupação", "vingança" ou "ordem superior", como nas seguintes manchetes:
* JB 20/4/99: "Tiroteio fere 7 em fazenda"
* OESP 21/5/99: "Sindicalista é assassinado a tiros no Pará"
* FSP 22/5/99: "Desocupação no PR deixa três feridos"
* OESP 25/5/99: "Morte de sindicalista foi vingança, diz polícia"
* OESP 28/5/99: "Trabalhador é ferido durante ação de despejo"
* FSP 8/7/99: "Conflito mata sem-terra na Paraíba"
* FSP 17/8/99: "PMs se contradizem sobre massacre: Comandantes divergem em depoimento, mas atribuem morte de sem-terra a ordem superior"
* FSP 20/8/99: "Sem-terra são baleados em conflito no PR"
* OESP 20/8/99: "Sete ficam feridos em tiroteio no Paraná"
O único artigo pesquisado que cita os agentes da violência em sua manchete foi publicado em 7/6/99 em OESP: "Pistoleiros ferem sem-terra em engenho de PE". As demais manchetes passam a impressão de que trabalhadores sem-terra são assassinados ou feridos por "conflitos". Na verdade, esse tipo de matéria reflete a situação de impunidade no meio rural. Somente em 1998, a Comissão Pastoral da Terra registrou 47 casos de assassinatos, 46 tentativas de homicídio, 88 ameaças de morte e 35 casos de tortura contra trabalhadores rurais. Nos últimos 12 anos, 1.167 trabalhadores rurais foram assassinados, sendo que apenas 86 desses casos foram julgados. Entre os mandantes dos crimes, apenas 14 foram julgados e 7 condenados.
2. Quando se trata de alguma ação do MST, a estrutura das matérias costuma ser bem diferente. Normalmente, o vocabulário e a formulação das manchetes representam o movimento como violento:
* FSP 29/4/99: "Sem-terra paralisam Incra em Marabá"
* OESP 21/5/99: "Sem-terra bloqueiam 3 prefeituras no Pontal"
* OESP 31/5/99: "Policial é feito refém por sem-terra em SP"
* JB 8/6/99: "MST faz ameaça em gravação"
* OESP 10/6/99: "MST pressiona e ameaça governo com ações"
* OG 15/6/99: "Sem-terra invadem sede do Incra em Pernambuco"
* OESP 15/7/99: "Sem-terra saqueiam e queimam fazenda histórica em São Paulo"
* OESP 15/7/99: "Militantes do MST queimam casas de fazenda"
* OG 15/7/99: "Sem-terra incendeiam casas em fazenda"
* OESP 29/07/99: "Prefeitura de cidade de MS é depredada: Acampados em uma fazenda da cidade de Angélica quebraram móveis e janelas do prédio"
* FSP 30/7/99: "MST ameaça iniciar onda de invasões"
* OESP 30/7/99: Sem-terra tomam cidade de San Alberto
* FSP 10/8/99: "Sem-terra invadem oito áreas em PE"
* OESP 12/8/99: "UDR e MST atacam juntos o Tesouro"
3. Outro tema bastante explorado recentemente tem sido a suposta intenção do MST de "tomar o poder". Dessa forma, a imprensa tenta dar uma conotação política às ações do movimento e, por outro lado, deixa de cobrir questões referentes à própria reforma agrária, como o problema da distribuição de terra, da falta de incentivo aos pequenos agricultores, entre outros. As manchetes abaixo ilustram essa tendência:
* OESP 20/6/99: "MST mostra que a meta é a tomada do poder"
* OESP 20/6/99: "MST prepara estratégia para tomar o poder"
* OESP 21/6/99: "MST quer lutar pela terra por questões políticas"
* OESP 22/6/99: "MST propõe ‘vaguarda compartilhada’: Última reportagem da série mostra que movimento quer o comando das esquerdas"
* FSP 8/7/99: "Alvo é socialismo, diz cartilha do MST"
Na verdade, todo esse estardalhaço começou quando um vereador ligado aos ruralistas em Mato Grosso do Sul entregou uma cartilha à imprensa, utilizada em curso promovido pelo MST e pelo Cloc (Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo), na região de Sidrolândia. Ao divulgar o "documento", o vereador procurou criar clima de denúncia contra o MST, e a imprensa mordeu a isca: "Os documentos obtidos com exclusividade pelo Estado foram confirmados por representantes do Cloc e do MST", diz a matéria de 20/6. O mesmo artigo destaca: "Militantes são instruídos em chácara de frades capuchinhos, no interior de Mato Grosso do Sul, para estimular a luta de classes e treinar grupos para desestabilizar o governo".
Apesar do tom sensacionalista, a maior parte da matéria apenas cita trechos da cartilha, como: "Nesses 15 anos de lutas conquistamos terras para mais de 200 mil famílias de trabalhadores rurais em área equivalente a 7 milhões de hectares, depois de mais de 2 mil ocupações maciças de latifúndios". Outro trecho diz: "Nas áreas reformadas tentamos desenvolver um novo método de educação, garantindo que todos tenham acesso à escola e sejam aplicados conhecimentos voltados para as necessidades dos trabalhadores". No final do artigo, outra citação contradiz o teor da manchete: "A igualdade entre homens e mulheres se baseia na solidariedade de classes para a reforma agrária, a socialização dos bancos, dos meios de comunicação e do Estado".
Esse tipo de cobertura tem-se repetido em relação ao trabalho de formação do MST, como aconteceu com um curso para jovens realizado na Universidade Estadual de Campinas em setembro de 1999. Uma série de matérias procurou criar um clima polêmico sobre o apoio da universidade ao movimento. Em 6/7/99, a Folha publicou artigo que começava assim: "A Unicamp dividiu com o MST os custos para a realização do primeiro curso de formação para novos líderes de assentamentos e de ações como invasões de terra". O debate continuou por várias semanas. Em artigo publicado na seção Tendências e Debates (FSP 4/8/99), o professor Luís Carlos Guedes argumenta que "a universidade não pode se isolar de nenhum grupo que faça parte da sociedade". No dia seguinte, em artigo no mesmo espaço, o escritor Olavo de Carvalho diz que o professor Guedes "desconhece quaisquer outras finalidades do ofício universitário", e que os jovens do MST "saíram imbuídos daquela fé ardente e imbecil que não concebe alternativa senão com as feições do proibido e do demoníaco".
4. A representação do MST como perigoso se baseia também em boatos sobre a infiltração de guerrilhas no movimento. O fato é que essas denúncias nunca foram confirmadas, e o MST continua a descartar qualquer possibilidade de aderir à luta armada. Mas esse tipo de cobertura pode ser utilizada como justificativa para a intensificação da repressão no meio rural. Mesmo assim, a imprensa tem insistido nesse tema:
* OESP 18/5/99: "Polícia investiga Liga Operária Camponesa"
* OG 13/6/99: "MST ensina táticas de guerrilha aos sem-terra"
* OESP 24/6/99: "Denunciada ação armada de sem-terra em MG"
* OESP 26/6/99: "PF investiga ação do Sendero entre sem-terra"
* OG 27/6/99: "MST nega qualquer relação com grupos que defendem guerrilha e ataca governo"
* OG 29/6/99: "PF investiga infiltração da guerrilha peruana no Brasil"
* OESP 1/7/99: "Infiltração do Sendero no Norte preocupa, diz militar"
* OG 9/7/99: "FH se reúne com o MST e alerta sobre Sendero"
5. Por outro lado, as matérias sobre a ação da polícia geralmente passam a idéia de que sua função tem sido "pacificar" o meio rural ou evitar a violência:
* OESP 30/4/99: "Polícia Federal teme onda de invasões no Pará"
* OESP 6/5/99: "Polícia Federal vai agir no Pará contra invasores do Incra"
* OESP 30/6/99: "PM convoca reunião com sem-terra"
* FSP 24/7/99: "Megaoperação desocupa 3 fazendas pacificamente no Pará"
Quem lê essa última manchete deve achar que a polícia desocupou pacificamente as fazendas. Na verdade, a decisão de deixar as áreas antes da chegada da polícia foi das famílias sem-terra, como explica o próprio artigo: "Nas três fazendas, apenas alguns representantes esperavam a polícia". Outro trecho cita um representante da Comissão Pastoral da Terra: "Não vamos provocar uma tragédia". A possibilidade de ocorrer uma tragédia era real, como mostra o artigo: "A PM tem usado um contingente de 300 a 500 homens em cada operação. Os policiais entram nas fazendas armados com bombas de efeito moral, balas de borracha e comuns, cassetetes e escudos".
Outras manchetes criam a impressão de que a polícia não age com a "eficiência" necessária: "Grupo do MST ocupa fazenda diante da polícia" (OESP 23/7/99). Ou: "MST ilude polícia e ocupa área" (JB 25/6/99).
6. Outro tipo comum de reportagem enfatiza supostos conflitos entre o MST e outros movimentos sociais:
* JB 24/4/99: "Contag e MST preocupam governo: Casa Militar teme violência na disputa entre entidades pela reforma agrária"
* OESP 10/5/99: "Moradores de ilha no PA criticam sem-terra"
* OESP 1/6/99: "Índios e sem-terra podem entrar em conflito na Bahia"
* FSP 24/7/99: "Cidade invadida em SP teme saques"
* OESP 30/7/99: "Em colapso, Anhembi pede a saída de sem-terra"
* OESP 4/8/99: "Prefeita decreta estado de emergência em Angélica: Dirigente alega que cidade está insegura em razão de movimentação de sem-terra"
* OESP 5/8/99: "Lavradores e sem-terra entram em confronto no PR"
É importante esclarecer que em nenhum dos casos acima a situação de conflito chegou a acontecer. Esse é o tipo de matéria que mais uma vez tenta criar uma imagem violenta do MST. A cobertura da chegada de 1.200 famílias sem-terra a Anhembi, por exemplo, criou a impressão de que a cidade entraria em "colapso", como descreveu o Estado em 30/7: "Aulas foram suspensas, faltam remédios e não há médicos para atender militantes e população." Outras matérias destacavam o "medo" dos moradores: "Ocupação da cidade assusta moradores" (OESP, 27/7); "Comércio local teme ocorrência de saques" (OESP, 1/8). Ao final da ocupação, não foi registrado um só caso de violência ou saque por parte das famílias sem-terra.
7. As matérias sobre a posição do governo em relação à reforma agrária, por sua vez, passam a impressão de que existe uma forte tendência à negociação e a investimentos na área:
* OESP 3/5/99: "Jungmann vai ao Pontal falar com MST"
* OESP 7/5/99: "Incra já admite aumentar orçamento no Pará"
* OG 8/5/99: "Jungmann afirma que pretende assentar 85 mil famílias esse ano"
* OESP 16/5/99: "Foco de nova política deve ser pequeno produtor"
* OESP 1/6/99: "Jungmann terá reunião no Pontal"
* JB 9/6/99: "Governo dará 50 mil títulos"
* OESP 10/6/99: "Paraná pretende assentar 5 mil sem-terra"
* OESP 11/6/99: "FHC anuncia que receberá lideranças dos movimentos"
* OESP 12/6/99: "Ministro promete recursos"
* OESP 8/7/99: "Incra tem novo projeto para assentamentos"
* OESP 8/7/99: "FHC vai receber lideranças de movimentos"
* FSP 9/7/99: "FHC recebe sem-terra e libera verba"
* OESP 10/7/99: "MST obtém garantia de mais R$ 100 milhões"
* OG 10/7/99: "Incra libera R$ 100 milhões para sem-terra"
* JB 10/7/99: "Governo quer ampliar o diálogo"
* JB 10/7/99: "Incra libera recursos para sem-terra"
* OESP 15/7/99: "Programa vai distribuir título de terra a assentado"
* JB 15/7/99: "Governo lança novo programa agrário"
* JB 27/7/99: "Governador visita sem-terra"
* OESP 18/8/99: "Crédito agrícola terá R$ 1,75 bilhão"
* OESP 19/8/99: "Auxílios para assentados terão aumento"
* OESP 20/8/99: "Novo sistema vai cadastrar imóveis rurais via satélite"
Entre as matérias pesquisadas, apenas três contradizem as anteriores:
* JB 24/4/99: "Presidente não recebe sem-terra"
* OESP 30/4/99: "Pauta do MST não será atendida"
* OESP 29/5/99: "Ritmo da reforma agrária diminui em 99"
Esse último artigo cita dados do Ministério de Política Fundiária, mostrando que "o número de famílias assentadas esse ano caiu 86% em relação ao mesmo período de 98".
Dados da Assessoria Agrária da Câmara dos Deputados mostram que em 1995 os recursos para a reforma agrária eram de R$ 1,522 milhão. Em 1999 passaram a R$ 1,391 milhão, e para 2000 a previsão orçamentária é de R$ 1,357 milhão. Portanto, a redução dos investimentos entre 1995 e 2000 chega a 28%.
Em 4/7/99 a Folha publicou matéria sobre o não-cumprimento de metas para a reforma agrária, mas a manchete atribuía o problema ao MST, afirmando: "MST não tem conquistas reais, diz Stedile." Na verdade, João Pedro Stedile se referia a cortes de verbas para a reforma agrária por parte do governo e ao fato de existirem 100 mil famílias sem-terra em cerca de 500 acampamentos, em todo o país.
8. Entre as 300 matérias pesquisadas, encontrei também algumas que passam imagem positiva do MST: oito nos quatro meses da pesquisa – sem contar alguns artigos nas seções de opinião e de cartas dos leitores. É um número muito pequeno, em comparação com as demais matérias, e tratam de temas diversos:
* OESP 17/4/99: "CNBB apóia sem-terra e critica política fundiária"
* JB 23/4/99: "MST faz pedido de audiência com presidente"
* OG 23/4/99: "Líder do MST solicita audiência com FH"
* OESP 23/5/99: "Líder do MST diz que tem direito à terra quem produz"
* JB 18/6/99: "MST cria escola em prédio invadido"
* OESP 26/6/99: "CNBB pede que população seja solidária aos sem-terra"
* JB 7/7/99: "Disco mostra 18 canções do MST"
* OESP 9/7/99: "Jovens líderes do MST têm aula para embelezar acampamento"
Quem conhece o MST sabe que há muitos outros aspectos positivos em relação ao trabalho do movimento, que os meios de comunicação tendem a omitir. Essa omissão não acontece por acaso. Existem vários fatores e teorias que podem explicá-la. Uma delas, baseada nas observações do professor Noam Chomsky em seu livro Manufacturing Consent, mostra que a principal função da mídia comercial não é transmitir informação à sociedade em geral. Seu público-alvo são os anunciantes, ou seja, grandes empresas que "compram" o produto oferecido pela mídia: a população com maior poder aquisitivo. Portanto, a principal limitação do jornalismo comercial se deve ao fato de estar subordinado aos interesses das elites, além de um motivo ainda mais óbvio: o próprio monopólio dos meios de comunicação. Portanto, é claro que a representação dos sem-terra – assim como de todos aqueles que não participam da sociedade de consumo – será tendenciosa.
Minha intenção é mostrar que as imagens construídas pela mídia podem ser facilmente identificadas e, por sua vez, desconstruídas.
(*) Jornalista e diretora do Centro de Justiça Global
O social fora da pauta
Suzy Lagazzi-Rodrigues (*)
"Sem terra e sem lei." Este é o título que abre a reportagem sobre o MST publicada por Veja em 10 de maio. Em chamada na capa lemos: "A tática da baderna", com o subtítulo "O MST usa o pretexto da reforma agrária para pregar a revolução socialista".
Essas formulações nos mostram o MST em notícia. O MST ganhou novamente as manchetes a partir das "ocupações de prédios públicos em 14 capitais por cerca de 5 mil sem-terra" e das "invasões e passeatas pelo interior realizadas por outros 2.500". Fatos pontuais que fizeram retornar discussões sempre presentes e abriram espaço na mídia para matérias como essa da revista Veja.
A notícia faz repercutir e põe em movimento! Mas faz repercutir o quê? Põe o que em movimento? Ao buscarmos essas respostas temos que considerar as determinações que fazem de um fato uma notícia possível. O que pode virar notícia e como isso é feito?
"Baderna", "falta de lei"
No caso específico do MST, ocupações/invasões são sempre boas razões para que o movimento entre novamente em pauta. Uma questão inesgotável. Fatos que se repetem no novo da notícia.
Na carta ao leitor desse mesmo número o editor ressalta a capacidade premonitória da revista ao mostrar que já em 98 havia chamado "a atenção para o fato de que os objetivos do MST iam muito além de conseguir terra para quem não tinha onde plantar", acrescentando que "Veja tinha razão de sobra ao descrever o MST como uma organização pouco interessada na reforma fundiária". "Veja tinha razão de sobra"; "Veja foi premonitória". Essas duas afirmações explicitam o orgulho de um jornalismo que se considera atento, eficiente, crítico, a serviço do povo, do bem comum, do cidadão, da sociedade.
Justamente essa relação entre jornalismo e sociedade merece discussão.
Como o social é posto em pauta pela notícia?
Na reportagem em questão, especificamente como "baderna", "falta de lei", "revolução socialista". Mais que sentidos possíveis, sentidos naturalizados, tornados incontestáveis no interior da nossa denominada sociedade democrática de direito. Direito à propriedade. O fundamento primeiro de nossas práticas cotidianas. As ações praticadas pelos sem-terra feriram a ordem pública sustentada no direito à propriedade. Uma ordem pública específica, mas não nos esqueçamos, naturalizada. Algo que não se discute. As notícias envolvendo o MST fizeram repercutir e novamente colocaram em movimento o discurso da propriedade, da ordem pública, dos direitos dos cidadãos. A reportagem de Veja é uma repercussão não só do esperado, mas do socialmente exigido porque incontestado por todos nós. Ou quase todos nós.
No final da reportagem lemos que "as lideranças do movimento têm na luta pela terra apenas um instrumento político". Chamo a atenção para o apenas. As lideranças do movimento têm na luta pela terra um instrumento político, sim! Não apenas. Mas é justamente o político, entendido aqui como possibilidade real de relações entre as pessoas, que é banido do social, posto para fora da pauta pela notícia que registra, por exemplo, ocupações, invasões, passeatas. A transgressão à lei e a baderna acabam ocupando todo o cenário e roubando a cena daquilo que fica por ser discutido.
O social não é noticiável. O que irrompe como notícia são manifestações, acusadas como indevidamente políticas, de um social acuado e que a mídia localiza em fatos.
(*) Professora do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp
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