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QUANTO MAIS MUDA,
MAIS FICA A MESMA COISA
Jornais emagrecem
rumo ao tablóide
Alberto Dines
A partir do dia 6 de julho, a maioria dos jornais brasileiros vai perder 2,54 centímetros de largura. Ficarão mais estreitos, verticais e perderão a proporção harmoniosa dos últimos 100 anos. A mais drástica operação plástica desde a última lipoaspiração, quando mudaram de 8 para 6 colunas.
A mudança está sendo anunciada através de uma campanha publicitária promovida pela ANJ (Associação Nacional dos Jornais). Sem muita convicção, aliás. As vantagens apregoadas são as seguintes:
** Facilidade de manuseio; os jornais em formato standard ficarão mais "portáteis" e "compactos".
** Melhor visibilidade para as informações.
** Padronização dos anúncios.
** Fortalecimento do veículo jornal através desta demonstração de unidade em torno da entidade empresarial.
Um dos slogans da campanha: "Mudamos a largura mas não mudamos a profundidade".
A verdadeira razão do drástico emagrecimento não aparece nos anúncios mas é mencionada tangencialmente numa peça publicitária distribuída aos chamados "multiplicadores de opinião": economia, corte no custo do principal insumo o papel.
Estes 2,54 centímetros a menos em cada folha impressa podem representar uma poupança de cerca de 10% no peso de cada edição. Uma grana preta.
Acontece que a maioria dos jornais brasileiros reajustou o preço de capa imediatamente depois da desvalorização cambial [veja remissão abaixo] e antes mesmo que se esgotassem os estoques comprados em melhores condições. Aquele aumento acrescido dos futuros ganhos com a nova silhueta representará um reforço de caixa ponderável para os nossos combalidos jornais.
Tudo bem, empresa é para dar lucro, nada contra. Mas conviria que numa indústria que coincidentemente também é serviço público essas ocorrências fossem explicitadas e explicadas claramente ao leitor-cidadão. Em benefício da credibilidade da instituição jornalística.
Feios e espremidos
A "portabilidade" é desculpa esfarrapada, assim também como a unificação das medidas para as inserções publicitárias (que poderia fazer-se no formato antigo).
Como reforço da argumentação, bem no estilo dos "macaquitos" colonizados, vem a informação de que 80 jornais de todo o mundo estão adotando as novas medidas. Entre eles o Los Angeles Times (hoje moralmente abalado, conduzido por um fabricante de cereais para breakfast) e, breve, o Washington Post. Nenhuma explicação sobre a recusa em aderir ao novo esquema por parte do melhor e mais lucrativo jornal do mundo, o New York Times. O jornalão americano continuará jornalão com os seus 34 centímetros de largura contra os 31,6 centímetros dos nossos magricelas.
O grave nesta mudança é que no dossiê distribuído pela ANJ aparecem as opiniões de administradores e tecnólogos a favor do alongamento mas nenhuma manifestação de jornalistas. Nem de diretores de arte, designers ou diagramadores.
Os jornais brasileiros vão ficar mais feios, espremidos e, portanto, menos comunicativos. Mas os responsáveis pela qualidade e apresentação das informações bem como pelo nível de satisfação dos consumidores sequer foram consultados.
Também não estão sendo anunciadas as indispensáveis reformas gráficas para compatibilizar as novas dimensões com uma nova concepção editorial. E, apesar da febre das sondagens de opinião, nenhum jornal, muito menos a ANJ, tiveram a humildade de ouvir o distinto público e promover um debate através de suas páginas. Afinal, este encolhimento é o primeiro passo para o jornal do futuro, bem menor.
A verdade é que estas novas medidas aproximam-se do formato denominado "Berliner", o semi-tabloide muito usado na Europa (menor do que o Le Monde, próximo ao El País) concebido para um projeto de jornalismo qualitativo e interpretativo destino final do veículo jornal.
Mas no Brasil a grande imprensa não gosta de discutir a imprensa. E quando o faz manda chamar a Universidade de Navarra e os cubanos de Miami. Este encolhimento foi apenas uma jogada financeira, nada a ver com o futuro e o papel do jornalismo cotidiano.
O que nos leva a imaginar um cenário inevitável: com o sensacionalismo generalizado e o império do marketing, nossos jornalões estão fadados a converter-se em autênticos tabloides.
Ninguém estranhará.
Os clones
Wilson Marini (*)
A Gazeta Mercantil vai manter a largura atual de suas páginas, ou seja, decidiu não aderir ao projeto de "encolhimento" da Associação Nacional dos Jornais.
É o único entre os maiores, pelo que se sabe até o momento, a não entrar na onda. Todos os outros, no eixo Rio-São Paulo, passando também por Brasília, Belo Horizonte e outras praças, vão mesmo mudar o formato.
A mudança já está sendo preparada nos mais de 100 filiados à Associação Nacional dos Jornais (ANJ). A cartilha com instruções já foi digerida pelas diretorias e repassada às redações, para execução.
Mesmo entre os veículos não vinculados à entidade, a informação chegará rápido. A tendência é de adoção do novo padrão, mais cedo ou mais tarde.
Não fosse por contingência de logística industrial (maior disponibilidade de bobinas com o novo formato) ou comercial (capacidade de assimilar anúncios programados na mídia nacional), a adesão ocorreria naturalmente pelo processo de imitação dos grandes que se acentua na imprensa regional brasileira. Alberto Dines, citando o filósofo Spinoza, identificou esse fenômeno como o gato que mimetiza o leão, inutilmente. Foi assim com o lançamento desenfreado e sem critérios de cadernos específicos, copiando os projetos editoriais dos grandes jornais e assimilando conceitos de design e linguagem.
Geléia geral
O benefício dessa padronização foi uma relativa elevação da qualidade jornalística de uma parte desses jornais regionais espalhados pelo país, permitindo queimar algumas etapas na evolução e lançar edições mais organizadas, embora não necessariamente mais inteligentes ou inteligíveis.
O ponto negativo foi tornar os jornais muito parecidos, clones de uma matriz desconhecida. Ricardo Kotscho disse há alguns anos, em palestra aos jornalistas do Correio Popular (Campinas), que notou a uniformização quando passou a viajar pelo país com maior freqüência. Em cada vôo que tomava, em diferentes regiões, os jornais aparentavam ser sempre os mesmos, devido ao estilo comum, embora com logotipos diversos. Até os colunistas são os mesmos, de norte a sul.
Com tanta disposição para a clonagem, na era do desvendamento dos segredos do DNA, é natural imaginar que esses jornais todos não perderiam a chance de se tornarem ainda mais parecidos uns com os outros, camuflando ainda mais a identidade. Como também é notável que um deles pelo menos não embarque na onda da clonagem, e esse jornal é justamente a Gazeta Mercantil, um dos mais respeitáveis do mundo e que já agora, antes da reforma, se diferencia e se distancia dos demais em qualidade editorial.
Em artigo que escreveu na própria Gazeta ("Sobre o circuito da informação", 11/6/99, pág. 3) o diretor executivo Claudio Lachini diz que "neste momento, reduzir o tamanho dos jornais significará tornar a linguagem ainda mais telegráfica ou diminuir a quantidade de informações disponibilizadas para o leitor".
E segue o jornalista: "A economia de papel certamente contribuirá para agir sobre os custos e pagar a conta dos anabolizantes de marketing introduzidos nos últimos anos".
A Gazeta Mercantil é o único jornal do país que optou nos últimos anos por se manter fiel à gênese do jornalismo. Não porque preserva o rosto em branco e preto e não usa fotos. Mas porque glorifica a vitória do conteúdo sobre a forma ponto em que vacilam todas as nossas demais publicações diárias.
(*) Jornalista, diretor da empresa de consultoria Marini Jornalismo Regional S/C Ltda.
FATO RELEVANTE
O direito autoral
no Observatório
Marcus Vinicius Mannarino (*)
O Observatório da Imprensa cede direitos de publicação/reprodução de textos de terceiros?
Sempre ouvi relatos sobre a falta de respeito dos jornais com os direitos autorais dos jornalistas, principalmente dos incautos, que sempre há. Desta vez, senti na pele. O jornal Correio Braziliense publicou um trabalho meu, sem minha autorização, ao que tudo indica a partir da publicação do texto pelo Observatório da Imprensa. A editora de Opinião do Correio Braziliense alega que o jornal mantém um acordo com o Observatório pelo qual eles são autorizados a reproduzir os textos. O editor Alberto Dines corrige: "Não há nenhum acordo escrito. Está dito no Observatório que autorizamos a republicação desde que citada a autoria e fonte".
E eu, que quero exercer meu direito a obter remuneração por direito autoral de texto publicado por empresa jornalística, estou correndo atrás para não passar por incauto.
Em setembro do ano passado concluí um mestrado em Ciência da Informação e consegui despertar o interesse do Observatório da Imprensa para minha dissertação sobre as edições web de grandes jornais diários , que foi publicado na edição nΊ 61, de 5 a 20 de fevereiro deste ano [veja remissão abaixo].
Os outros dois veículos aos quais enviei cópias do texto foram o Jornal ANJ, da Associação Nacional de Jornais e, numa versão traduzida para o inglês, a área Research Centre do site da World Association of Newspapers.
Considerando o conteúdo do trabalho, achei que a divulgação seria mais adequada na esfera de órgãos representativos da atividade, por isso não tentei divulgar a dissertação em jornais propriamente. Eis que fui surpreendido em minha caixa postal eletrônica com uma mensagem de uma leitora interessada em detalhes de minha dissertação. Mas ela não havia lido o texto original publicado pelo Observatório, nem a matéria produzida pelo Jornal ANJ, muito menos o texto em inglês. Ela havia lido meu texto no Correio Braziliense.
Descobri que o texto havia sido publicado no dia 28 de março, na página 29 de uma edição dominical, com grande destaque. Havia a referência a minha autoria, meu e-mail (conforme o O.I. o publicou) e um (misterioso) "especial para o Correio". Eram as únicas informações referenciais. A satisfação e orgulho de ver meu trabalho assim exposto jornalista com 30 anos de idade, mais vocação que "ralação" acumulados em minha história profissional quase se desfez após o contato que tive com a editora de Opinião do Correio, em 13 de maio.
Fui direto ao ponto e esclareci que minha intenção era, na condição de jornalista, ser remunerado pelo meu texto que eles haviam publicado, afinal o Correio Braziliense é uma empresa jornalística e, sendo assim, está configurada a relação entre veículo e mão-de-obra. Além disso, perguntei como eles obtiveram o referido texto, uma vez que eu não o enviei ao Correio. Ela não soube me responder como conseguiram o material mas, ao saber que o Observatório. o havia publicado, prontamente alegou um "acordo" que o Correio mantém com o O.I. pelo qual eles têm o direito de reproduzir quaisquer textos publicados na sua edição on line. Argumentei que, no caso, o autor do texto não é da equipe do Observatório. E ela, finalizando o papo, informou que a editoria de Opinião, "infelizmente", não costuma remunerar os autores de textos publicados. Eles só publicam textos sob a forma de colaboração. A editora ainda me sugeriu: "Se você preferir, posso anotar seu nome para que nós não publiquemos mais nada seu".
Por escrito
Não me intimidei. Apenas me decepcionei. Uma profissional desmerecendo a inteligência de um outro profissional. O expediente da colaboração só pode funcionar se o editor tiver, mais que elegância, a correção de consultar o autor antes da publicação de qualquer material. E sendo esse o caso, a indicação não seria "especial para o Correio" e, sim, algo parecido com "colaborador". Além disso, eles nem ao menos respeitaram as condições nas quais se baseiam para fugir do compromisso de cumprir com a obrigação de uma empresa jornalística remunerar o direito autoral.
O Observatório deixa claro, tanto nas suas edições on line como na versão impressa: "É permitida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia dos editores. Deve ser mencionada a fonte Observatório da Imprensa (com seu endereço eletrônico, ) e, quando for o caso, a fonte mencionada pelo O.I.)". No caso, o Correio Braziliense simplesmente não mencionou a fonte ao publicar meu artigo.
Uma assessoria jurídica me esclareceu que a autorização explícita que o Observatório mantém no site exime o Correio da responsabilidade pela remuneração que, em último caso, deveria ser honrada pelo próprio O.I., já que eu não determinei por escrito, na forma de uma cláusula, que cederia os direitos de publicação exclusivamente ao O.I. na ocasião em que enviei o material. Deixo aqui a questão aberta à equipe do O.I.. Acho que o espírito louvável e a atividade séria e comprometida no melhor dos sentidos desta entidade não podem ser aproveitados pela irresponsabilidade empresarial de um jornal. Em outras palavras, acho importante a iniciativa de estimular ao máximo a reprodução dos textos encontrados no O.I.. Mas, já que há profissionais e empresas se aproveitando dessa postura para desrespeitar direitos autorais, é necessário que haja uma nova solução para que se continue estimulando a divulgação dos textos publicados de forma a garantir o direito do autor.
(*) E-mail marcusvr@uol.com.br
Nota do fechador
TT Catalão
Marcus, aqui é TT Catalão, jornalista do Correio Braziliense, e o único culpado pela publicação do teu excelente texto na página para a qual contribuo.
Ao ver o desdobramento doloso assumido pelo fato, rogo-lhe considerar apenas dois aspectos:
** Jamais passou por minha estúpida ingenuidade que estaria violando seus direitos, e assim assumo minha total e imperdoável ignorância individual, portanto nada empresarial, pois lamentavelmente sinto agora não estar preparado para lidar romanticamente com questões que desconhecia;
** Assim, jamais houve má-fé ou um aproveitamento lucrativo sobre um trabalho tão respeitoso como o seu que, repito, me empolgou tanto ao lê-lo que tive esse impulso estúpido de divulgá-lo numa página mantida com muito esforço como crítica de mídia dentro da própria grande mídia, e não em um órgão de tão relevante função cidadã como o Observatório.
Não sei como reparar este constrangedor mal-estar. Lamento profundamente o que fiz e já comuniquei à editora Dad Squarisi meu afastamento do fechamento da página dominical de imprensa, por assumir minha incompetência em lidar com trâmites que não domino (talvez um lamentável ranço de minha longa militância na busca de ampliar a divulgação de informações em inúmeros órgãos da chamada imprensa alternativa dos anos 60).
Creio que perdi a ótica de que não estava em uma empresa mas que até, delirantemente, achei interessante estar ali para levar a mais pessoas idéias tão brilhantes quanto as suas e a de seu artigo.
Perdoe-me tanta estupidez de minha parte.
Envio esta com cópia a Alberto Dines, a quem estendo meu pedido de desculpas. Julgo que não mais incorrerei nesse erro, pelo meu afastamento da Página de Imprensa, ficando apenas como colaborador. Respeitosamente, TT Catalão
FONTES
Efeito retardado
Luiz Egypto
Na edição nΊ 61 deste Observatório (5/2/99), Alberto Dines anotava uma matéria da Folha de S.Paulo, publicada na principal página de opinião do jornal, assinada pelo melhor repórter da casa que também é editorialista e pau para toda obra nos grandes assuntos internacionais. Escreveu o Observador:
A matéria do enviado especial ao Fórum Econômico Mundial em Davos (sábado, 30/1) é paradigma de um gênero de jornalismo pretensamente informativo, na realidade, altamente opinativo e manipulador. Titulo da chamada de 1ͺ página: "Americano vê falta de liderança no Brasil". Manchete no caderno de economia (pág. 2-10): "EUA vêem Brasil sem liderança e coerência".
Pergunta-se: quem é este alto funcionário que o repórter não identifica e fala em nome do governo dos EUA? Imagine-se que este Observatório publicasse a seguinte manchete a propósito da saída de Roberto Mangabeira Unger (tido como autor do editorial do domingo anterior e formulador das posições do jornal em matéria econômica): "Analista vê Folha desorientada e sem comando". Evidentemente o leitor vai querer saber quem é este analista, qual a sua importância ou poder no mercado jornalístico e publicitário.
A Folha é o único jornal brasileiro que acompanha sistematicamente o Fórum de Davos, sempre com o destaque merecido, sempre com o mesmo repórter. Mas o despacho do enviado especial publicado naquele sábado de janeiro escondia uma fonte e uma bomba. Naqueles dias de crise aguda, com a política monetária em franco descontrole, disparar uma petardo daqueles sem revelar a fonte era botar lenha, muita lenha, na fogueira do rumor. Por mais que o off conseguido na aprazível (dizem) cidade suíça de Davos tenha sido fenomenal, a informação que gerou provocava o entendimento de que o circo ia mesmo pegar fogo. Com a moeda brasileira em xeque, a mudança abrupta dos fundamentos econômicos e a maxidesvalorização do real desenhavam nos céus o pior dos mundos para a economia do país.
Agora, visto à distância, o texto terá sido apenas mais um engenho explosivo entre tantos Tomahawk que naqueles dias a imprensa lançava a esmo. No caso, uma explosão resguardada pelo off. A mais precisa identificação da tal fonte que via o Brasil "sem liderança e coerência" indicava tão-somente que se tratava de um "alto funcionário" do governo americano. Talvez por isso mesmo merecesse ser identificado, visto que altos funcionários de governos em geral emitem opiniões de importância dentro desses mesmos governos. Ainda mais em se tratando de Clinton e dos EUA.
Mas isso não vem ao caso, meses depois. Ou vem?
Cento e três dias depois de lançada a bomba, em 13/5/99, um outro jornalista da Folha, correspondente do jornal em Washington, assina matéria alentada sobre a renúncia de Robert Rubin ao posto de secretário do Tesouro americano. Rubin deixaria o cargo e, como convém a um anúncio oficial, seu substituto já estava escolhido e seu nome anunciado Lawrence Summers, 44 anos, então secretário-adjunto.
No pé do box intitulado "Summers tem o estilo trator", o correspondente escreveu:
Em janeiro, o Brasil não só desvalorizou o real, contrariando suas próprias promessas, como também deixou de informar previamente a medida aos EUA, que se sentiram traídos. Na ocasião, Rubin manteve a calma. Summers, que participava da Conferência de Davos, na Suíça, disse para investidores que a equipe econômica brasileira, chefiada por Malan e por Francisco Lopes, "não era séria" nem "profissional".
A fonte que desancou o governo brasileiro em janeiro, em off, na Folha, estava identificada por outras vias, mas estava: tratava-se do agora secretário do Tesouro da nação-matriz dos modelos bem-sucedidos de economia e mercado.
Na quinta-feira (10/6/99), quatro meses e dez dias depois do obus noticioso que disparou em janeiro, o repórter que também tem espaço na página de opinião da Folha sentiu-se à vontade para finalmente revelar fonte daquela da matéria, com perdão da redundância, bombástica. Em "Chega de bom-mocismo" (Folha, pág. 2), o também articulista alertava:
Este segundo semestre promete ser fundamental para definir a chamada inserção internacional do Brasil. Ou, jargão à parte, o que o Brasil pretende ser quando (e se) crescer, em relação ao resto do mundo.
A nota informa sobre a importância, para o Brasil, de três eventos próximos: a cúpula União Européia/América Latina e Caribe, a Rodada do Milênio (versão atual do antigo GATT, recauchutado na Rodada Uruguai e na Organização Mundial do Comércio) e a reunião ministerial da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), marcada para Toronto, no Canadá.
O opinionista defendia uma postura mais incisiva do governo brasileiro, alfinentando a proverbial brandura com que o governo tucano enfrenta os problemas mais cabeludos do país e da nação. Pregava o jornalista: "Já que ser bom-moço não está dando lá muito certo, nem interna nem externamente, que tal chutar um pouco que seja o pau da barraca nas próximas negociações internacionais?" Em outras palavras, dizia que essa posição ("chutar o pau da barraca") era tanto mais necessária em função de os Clinton, Blair, Chirac e Schroeder da vida não estarem nem aí para o que acha ou deixa de achar o governo brasileiro, uma espécie de gandula no jogo global do mercado e do poder. E relata o repórter duas experiências pessoais sobre o estado de espírito de importantes players internacionais:
Dois exemplos de que fui testemunha direta. Em fevereiro, em Davos, o então subsecretário norte-americano do Tesouro, Larry Summers, hoje secretário, disse que faltava liderança ao Brasil. Dois meses depois, na assembléia-geral do BID em Paris, Charles Dallara, o principal executivo do instituto que congrega os grandes bancos planetários, me disse que faltavam "guts" (determinação, em tradução livre) ao presidente brasileiro para fazer o que deveria ser feito.
Cento e trinta e um dias depois, eis a bomba, eis a fonte!
Furo acima de
qualquer suspeita
Jocélio Leal (*)
Caderno especial de O Povo (Fortaleza, CE), publicado no sábado, 12/6/99, revelou documentos que comprovavam as acusações de tortura, até então cingidas ao plano verbal, do ex-padre e professor universitário José Antonio de Magalhães contra o então nomeado diretor-geral da Polícia Federal, João Batista Campelo, efetivado no cargo na terça-feira, 15/6/99. O que José Antonio vinha denunciando em entrevistas, sob réplica enfurecida do acusado e de setores do governo federal, saiu do campo das palavras para se consubstanciar em provas concretas a partir daquele edição de sábado do jornal cearense.
Naquele dia, O Povo publicou três documentos definitivos sobre o caso. Documentos que não só ratificavam o que vinha denunciando o ex-padre, mas que também intimavam o presidente da República a tomar uma posição firme, visto que, até aquele sábado, Dia dos Namorados, a timidez era a marca oficial em relação ao caso.
Os leitores tiveram acesso ao laudo do exame de corpo de delito assinado por três médicos da Secretaria da Segurança Pública do Maranhão. O laudo relata conseqüências de torturas a que foi submetido o então padre José Antonio de Magalhães. Detido no quartel da Polícia Militar maranhense, o padre disse que foi amarrado pelos pés e mãos e suspenso do solo. Além de esbofeteado, teria sido agredido por "instrumento contudente", sofrendo escoriações nos dois braços. Pela descrição, algo similar à crueza de um pau-de-arara.
Foi publicada uma cópia do inquérito que apurava o envolvimento de José Antonio e do atual bispo de Viana (MA), o francês dom Xavier Gilles de Maupeou dAbleiges, em atividades "subversivas". Lá estava a assinatura de Campelo, que na mesma edição confirmou em entrevista exclusiva pelo telefone que, de fato, presidiu aquele inquérito. Para completar, O Povo publlicou a sentença assinada por cinco juízes absolvendo os padres acusados e comprovando que o inquérito utilizou o expediente da coação e, em outros termos, da tortura palavra substituída na sentença por um eufemismo, conforme diria na quarta-feira, dia 16, um dos juízes responsáveis, em entrevista exclusiva ao jornal.
Situação similar
Três documentos, três provas concretas que reforçaram a denúncia de José Antonio de Magalhães contra Campelo. O trabalho de reportagem de O Povo valeu uma edição especial naquele sábado, 12 de junho. A primeira página foi dedicada quase exclusivamente ao assunto, merecendo diagramação ousada, e um caderno extra de quatro páginas standard com entrevistas e reprodução dos documentos reveladores. A principal fonte: o advogado Pádua Barroso, que defendia os padres em 1970. Pádua guardou por 29 anos todo o material e não suportou assistir seus ex-clientes serem chamados de mentirosos por Campelo. Nem José Antonio nem Xavier Gilles sabiam da existência de tais provas.
Naquele sábado dos Namorados, os grandes jornais do país abordaram o tema com destaque, porém nem de longe com a riqueza de dados de O Povo. O Jornal do Brasil, por exemplo, alertou para ameaça de cancelamento da posse de Campelo. Já a Folha de S.Paulo mencionou a existência de laudos que comprovavam a tortura em José Antonio. Nada mais que isso. Somente a partir de domingo, a Folha e os demais jornais passaram a veicular os documentos decisivos já publicados no sábado anterior pelo O Povo.
Na terça-feira, o articulista Janio de Freitas, da Folha, atribuiu em sua coluna o "mérito" pela obtenção dos documentos ao correspondente do jornal em Fortaleza e, por extensão, ao próprio veículo. A propósito, na sexta-feira à noite um repórter da Folha veio à redação de O Povo pedir os documentos. Não foi atendido no dia, mas o foi na manhã de sábado, quando já havíamos publicado o material. Nada mais justo.
Não é intenção nossa entrar na polêmica de varejo sobre o caso da publicação dos documentos. O episódio, no entanto, nos remete a uma discussão que não é nova, mas que nem por isso é superada. Na última edição da revista quinzenal CartaCapital, o diretor de redação, Mino Carta, aborda com pertinência situação similar [veja Entre Aspas, nesta edição]. Lamenta ele que importantes reportagens de sua revista tenham sido solenemente ignoradas pelos demais veículos. Ele cita o caso de matéria publicada em maio de 1998 sobre espumoso esquema de lavagem de muitos bilhões no país. Lembra Mino Carta que somente este mês um ano depois a imprensa verde-amarela "descobriu" a pauta. Destaca ainda o caso do grampo e demissão do então diretor-geral da PF (de novo os federais!), Vicente Chelotti, após reportagem de várias páginas na revista. A demissão do "Edgar Hoover" tupiniquim mereceria somente seis linhas de coluna em Veja, bem como a absoluta indiferença ao trabalho jornalístico que deu origem à queda de Chelotti.
Primazia da notícia
A força da imprensa regional vai além da circulação. Não é por acaso que na história do prêmio Pulitzer a maioria dos vencedores não sai do New York Times, The Washington Post ou Wall Street Journal. Os premiados são títulos como The Albuquerque Tribune, The Dallas Morning News, The Boston Phoenix, The Milwaukee Journal e The Providence Journal-Bulletin, entre muitos outros. Basta percorrer a lista dos vencedores do prêmio desde sua criação, em 1917.
Não se trata aqui de O Povo reivindicar para si o direito sobre as informações referentes às sérias acusações de participação em tortura do policial que ocupou, mesmo que por poucos dias, o mais importante cargo da mais importante polícia do País. Muito pelo contrário. Somos ávidos pela primazia da notícia, mas também somos cônscios de nossas limitações de jornal regional, de circulação limitada ao Estado do Ceará.
Essa consciência é que nos leva ao expediente usual de avisarmos a companheiros de veículos de circulação nacional e de maior repercussão na Corte sobre fatos colhidos no estado. Para nós, o interesse da opinião pública e o da nação ficam muito acima das picuinhas de redação. Esta foi e continuará sendo a postura de O Povo, que não tem demonstrado nos últimos 71 anos nenhum sintoma de megalomania.
(*) Jornalista de O Povo
TV PAGA
BBC deu banho,
CNN amarelou,
GloboNews dormiu
Marinilda Carvalho
Muita gente estranha o modelo sóbrio da BBC que ainda usa vinhetas com panos de cetim tremulando à brisa de ventiladores em comparação ao estilo modernoso da CNN. Mas na noite de sexta, dia 11/6, e madrugada de sábado, dia 12, o espetáculo era todo da vetusta British Broadcasting. Os londrinos deram um banho nos caipiras de Atlanta, mostrando tudo, tudo e mais alguma coisa, da estranhíssima entrada triunfal dos russos em Pristina, duas da manhã de lá, e do primeiro minuto do avanço aliado rumo a Kosovo, ao amanhecer (também de lá).
A CNN custou a se recuperar do choque. Como puderam os russos avançar tão facilmente? Quem autorizou essa "invasão" inesperada? A BBC pôs logo seu especialista em milicos russos no ar, que deu a pista óbvia, embora não tivesse informação concreta: a ordem só podia ter saído do Kremlin (Yeltsin promoveu depois o general que liderou a correria, Sérvia adentro, até a capital kosovar).
A CNN enveredou pelos meandros do terror que povoa há décadas o imaginário americano: a Rússia está sem comando, e com aquelas bombas nucleares todas, meu Deus! Com isso, perdeu o início "do maior deslocamento militar da história desde a Segunda Guerra Mundial", como tanto se orgulha de apregoar a Otan.
A BBC saiu-se muito bem, ótimas imagens, ótimos repórteres, ótimos analistas. Mas nenhuma conseguiu acompanhar os russos quando o comboio deixou o centro de Pristina. Podemos falar mal da nossa imprensa aliás, de nós mesmos, e temos merecido! , mas se esse acontecimento fosse no Brasil, os cinegrafistas da TV brasileira não perderiam jamais a pista dos russos: sairiam atrás deles em desabalada carreira, como puderam aprender em nossos tristemente famosos "plantões de seqüestro".
A menos que a TV fosse a GloboNews. Neste episódio, a jovem e quase sempre ágil TV a cabo de notícias 24 horas, naquela noite, foi um fiasco. Uma apresentadora quase dormindo, a pior dos últimos tempos, tratou tudo como um acontecimento desimportante. A 70 paus por mês, após um aumento recente, para o assinante foi um acinte.
CONCORRÊNCIA
O furo não é meu?
Dane-se o leitor!
M.C.
O guru Mino Carta põe os pingos nos is de uma antiga reclamação do guru Alberto Dines sobre o segundo maior mal na minha opinião, claro da imprensa brasileira: não desenvolver os furos da concorrência. O editorial "Os donos dos fatos", no número 99 de Carta Capital [ver remissão abaixo], é preciso: "...um estranho vezo, hábito arraigado, pendor irresistível, perpassa as redações, habitadas em larga maioria por profissionais envolvidos até os olhos nas brigas da concorrência e devotados mais às causas e aos negócios dos patrões do que aos interesses dos leitores. Da opinião pública. Da sociedade em geral. Da Nação".
Mino se refere a todos os furos de reportagem de sua revista, e eles foram muitos, ignorados pelo restante da imprensa. Tirando o caso Collor, se um veículo dá uma notícia em primeira mão, o outro não vai atrás.
"Imagine, passar recibo?!" é o que se ouve, nas redações, de gente que não teve guru e se perdeu no jornalismo.
Ah, o primeiro maior mal da imprensa brasileira claro, na minha opinião é não fazer oposição, como ensina o guru Millôr.
CASO MARKA
Veja ficou devendo
um mea culpa
Alexandre Dines
Numa atitude que pode ser classificada entre as maiores ousadias do jornalismo investigativo ou de pura irresponsabilidade da maior das revistas semanais brasileiras, Veja publicou reportagem em que denunciava a existência de suborno na alta cúpula do BC, "incriminando" os bancos Marka, FonteCindam e outros. Pelo andar da carruagem, tudo leva a crer que a matéria vai dar no aroma acebolado e picante das tão faladas pizzas calabresas. A coisa ardeu e pegou fogo, e o senhor Salvatore Cacciola continua por aí, livre, leve e solto, apesar de ter lesado mais de mil clientes, que tiveram perdas de até 95% em seus investimentos.
O que ficou faltando falar nesta questão é que Veja, indiretamente, ajudou e persuadiu muitos desses infelizes a aplicar no Marka e no FonteCindam. O "crime" de Veja foi cometido em sua página de Investimentos, onde, por mais de dois anos, os fundos Marka Derivativos Plus e FonteCindam Jaguar constaram como os mais rentáveis de sua categoria.
Algo precisa ser explicado: Veja não errou ao publicar as rentabilidades dos fundos. Pelo critério do mercado financeiro, quanto maior o patrimônio de um fundo, maior é sua confiabilidade. Pois bem: o fundo do Marka, esse que perdeu R$ 95 milhões da noite para o dia, era realmente o maior de sua categoria FIF Derivativos Agressivo pelo critério da Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento). O fundo chegou a ter US$ 100 milhões nos seu momentos de glória, pré-desvalorização do real. Acabou com menos de R$ 5 milhões. Hoje, não chega a um mísero milhão.
O que deve ser discutido é que Veja, por mérito próprio, é uma revista formadora de opinião. Com seus quase cinco milhões de leitores semanais, ela não apenas tem um incrível poder de marketing, mas forma a opinião dos próprios formadores de opinião. Quando um investidor leigo vê publicado numa revista do porte de Veja que os Fundos Marka sãos os mais rentáveis, acredita; e até chega ao ponto de confiar suas poupanças a administradores do suposto "mais alto gabarito".
Mudança de critérios
Resta a pergunta: quantos, dos quase três mil clientes do Marka e do FonteCindam, tiveram pensamentos do tipo: "Se está na Veja é porque é bom"? Veja já derrubou presidente, já elegeu milhares de mitos e já colocou outros tantos no mais absurdo ostracismo. Mas a revista não se deu ao trabalho de publicar uma nota de desculpas, ou de esclarecimento, para os 3 mil "otários" que acreditaram no ranking de Veja.
E no ranking da Gazeta Mercantil, que, bem mais segmentada, também tem culpa no cartório: um de seus maiores anunciantes, em todas as páginas do caderno Finanças e Mercados, era ninguém menos que banco e corretora FonteCindam. Vale lembrar que um dos primeiros jornais a publicar a via-crúcis dos clientes lesados foi o Jornal do Brasil. A Gazeta Mercantil só começou a dar a história quando ela já estava explodindo em todos os jornais do país.
Veja ganhou dinheiro com propaganda do Marka: quando o Marka Asset Management se associou à corretora japonesa Nikko Securities, publicou em Veja dois anúncios exaltando a excelência dos gestores e o baixo nível de risco da empresa. Quanto a revista faturou? Essa bem guardada informação só sabem os responsáveis pela mídia, nas agências de propaganda, com suas valiosas tabelas de centenas de milhares de reais. Enquanto isso, os 3 mil "patos", sem falar nos outros milhares que perderam 50% do patrimônio no Boavista, choram e amargam um intenso sofrimento. E Veja se limitou a trocar os critérios de sua página de investimento, na mesma edição em que partiu para as denúncias que não conseguiu provar.
BIBLIOGRAFIA
O livro de Michel Temer
Fábio Leon Moreira (*)
O jornal O Globo, em sua edição de 15/6/99 (O País, pág. 3), noticiou fartamente a troca de declarações ofensivas entre o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e o presidente da Câmara, Michel Temer, sobre pontos polêmicos que compõem o relatório das reformas (tardias) do sistema judiciário. Até aí tudo bem, já que como usufruímos de uma democracia, até as instituições políticas merecem exprimir opiniões divergentes sobre determinadas pautas governamentais e administrativas.
Mas o que me chamou a atenção foi o fato de O Globo ter se posicionado de uma forma um tanto neutra e parcial em relação aos ataques de ACM a Temer. Numa tentativa de desmoralizar a bagagem intelectual de Temer, ACM pôs em dúvida sua qualificação como catedrático de Direito Constitucional, que seria insuficiente para garantir um tratamento adequado ao relatório. ACM teria dito que consultou constitucionalistas, e nenhum deles se lembrou de alguma obra ou feito importante de Temer.
A declaração ficou por isso mesmo. Os jornalistas do Globo sequer procuraram investigar se Temer realmente está aquém de suas tarefas.
Mas na minha faculdade, onde curso Jornalismo (UniverCidade), o livro "Elementos do Direito Constutitucional", que compõe a bibliografia básica do curso de Princípios Gerais da Cidadania do meu período (5Ί), foi escrito por Michel Temer, e está ao lado de juristas clássicos como Afonso Arinos e Jean Bodin.
Não estou querendo defender ninguém. Até porque nenhum desses senhores me inspira total confiança. Mas houve uma injustiça, que precisa ser reparada, já que o Globo deixou Temer em desvantagem.
CASO PUC
Sensacionalismo
invade o JB
R.T.
A matéria do Jornal do Brasil intitulada "Tráfico invade o campus da PUC" é, para dizer o mínimo, tendenciosa e desleixada, contrariando todos os princípios que estudantes de Jornalismo como eu aprendemos na universidade.
É de conhecimento comum que existe consumo de drogas nas universidades qualquer que seja ela. O que ocorre nas instituições de ensino é mero reflexo do que acontece fora de seus muros. Por que a UERJ, a UFRJ e a PUC seriam diferentes de qualquer outro lugar? Porque são faculdades? Isso é uma grande hipocrisia.
É absurdo dizer que o tráfico de drogas invadiu o campus da PUC, dando a entender claramente que a ação dos "traficantes" ocorre à luz do dia, na frente de todos e sob as vistas daqueles que deveriam zelar pelo bem-estar dos estudantes.
A matéria do JB já começou errada, pelo título. Afinal, pelo que disse o juiz e professor Alcides da Fonseca, a abordagem do traficante teria ocorrido no estacionamento (parece que a primeira versão do seu depoimento seria de que o episódio teria ocorrido todo ele fora dos muros da universidade).
É de se estranhar que o professor não tenha achado nenhum segurança na entrada da universidade, já que eles sempre estão por ali. É de se estranhar também que não tenha havido nenhuma outra testemunha do ocorrido. Mas saber quais os interesses do professor em divulgar o fato não passou pela cabeça dos repórteres do JB.
Ainda que o jornal diga que procurou as autoridades da PUC, a apuração foi totalmente malfeita. Praticou-se o jornalismo declaratório, tão condenado por este Observatório. A partir de um depoimento, o do juiz Alcides da Fonseca, o repórter incumbiu-se de tirar conclusões precipitadas, de exagerar o fato, de explorar o ocorrido de forma sensacionalista e acabou parabéns a ele conseguindo a primeira página do caderno Cidade. Não se apurou entre os alunos se o professor realmente sempre andou sem terno e gravata, se a abordagem ocorreu de fato, se existem outros traficantes na PUC e onde estão eles.
A foto da matéria, então, parece uma piada de mau gosto. Uma fotografia dos pilotis, com os alunos desfocados, digna de uma página policial. Quem são os traficantes? Todos os que estão ali? Ou aqueles são os usuários? Ou seriam os alunos que o repórter não ouviu?
A legenda é uma pérola. Afinal, o que tem o professor Alcides, que não dá aula de terno e gravata, a ver com uma foto do campus? Por que não uma foto do próprio professor? Se ele não tem medo, como afirmou na própria matéria, por que não aparece?
Fico cada vez mais decepcionado com o Jornal do Brasil. As dificuldades financeiras são grandes, mas a dignidade deve estar acima de tudo. E não foi isso que se viu nessa matéria.
REVISTA IMPRENSA
Descaso com o leitor
Fabiano Golgo , de Praga
A edição de abril da revista Imprensa é de dar vergonha. Uma publicação destinada a profissionais do ramo e estudantes em formação não pode levar esse nome se não presta atenção à matéria-prima da profissão: a palavra. É óbvio que deslizes ocorrem principalmente em jornais, que são diários e fechados às pressas. É menos tolerável, no entanto, que uma publicação semanal deixe passar erros de português, pois há tempo suficiente para checar os textos. Uma publicação mensal tem mais tempo ainda para ler, reler e ler novamente o que vai mandar às impressoras. Mas a revista que leva o nome Imprensa, com periodicidade mensal, deixa imprimir o nome de uma cantora que é um patrimônio histórico, Elis Regina, com dois "eles"! Na entrevista com a jornalista-novelista Regina Echeverria (aliás sem introdução alguma), o nome de Elis aparece 19 vezes (!!) grafado com dois "ll". Ou seja, não é deslize, é pura ignorância de quem fez o copidesque e/ou escreveu o texto. A edição online de Imprensa carrega o mesmo erro.
Isso para não citar o "ali" com acento agudo no "i", "enigma" também com acento no "i", vírgulas completamente deslocadas e textos desleixados, repetitivos, como o que tenta esclarecer o que é a Internet 2. A "matéria" repete tanto a palavra Internet, e se perde em tantos detalhes confusos, que parece não ter sido relida uma vez sequer: provavelmente o rascunho da pesquisa feita pelo jornalista-autor terá sido a versão final.

Quem vigia os aumentos da mídia?
Jornal diário impresso descobre a Internet
Os donos dos fatos
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