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FORMATO DOS JORNAIS
Ninguém ousa discutir
o papelão do cartel
Alberto Dines
Nem Cade nem Procon. Não está em causa o mérito da questão (a tendência inevitável de compactação e adensamento do jornal de amanhã). Como sempre, o que importa discutir é a maneira como esta "reforma" visual nos jornalões foi feita e levada ao público.
Duas semanas depois de sua implantação e um mês depois do debate iniciado pelo Observatório da Imprensa confirmam-se todas as preocupações iniciais:
- As redações com os respectivos departamento de arte foram as últimas a saber. Deveriam ter sido as primeiras – para evitar um mero encolhimento e para dar à alteração um sentido conceitual de avanço.
- Quando se trata de estabelecer um diálogo com a sociedade, a mídia prefere reduzi-lo à esfera mídia-mercado utilizando um veículo autoritário, de mão única, que faz do cidadão um consumidor passivo: o anúncio.
- Como no caso do novo sistema de discagem nas ligações telefônicas de longa distância, as empresas jornalísticas comportaram-se com a mesma afoiteza das operadoras que tanto criticaram: estabeleceram um prazo e não o cumpriram: alguns dos jornalões ainda não conseguiram adotar o novo formato plenamente. Apenas fingem um encolhimento na mancha impressa, mas a dimensão continua a mesma. Resultado: o leitor recebe uma montanha de notícias mitigadas por uma horrorosa moldura branca e desproporcional que não convida à leitura. Ao contrário, desestimula.
- Aberração maior são as pseudo "edições nacionais" dos jornalões do Rio e São Paulo. Nelas, as empresas estão empregando o estoque de papel em formato grande com os danosos efeitos descritos acima. Isso configura um desprezo ostensivo da empresa por um público que paga um preço até maior para receber um produto pior. Não bastasse o fato de que essas edições fecham hora-e-meia ou duas horas antes das edições locais (com evidentes prejuízos para a qualidade informativa), agora temos a desqualificação visual do produto. Esta atitude comprova mais uma vez que não temos uma imprensa diária efetivamente nacional, apenas jornais com uma presença simbólica nas principais praças do país.
- Está explicada a resistência da Gazeta Mercantil à decisão da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Quando se trata de reproduzir anúncios também publicados na imprensa generalista, nosso único jornalão fica evidentemente prejudicado com uma moldura lateral que retira da mensagem parte do seu impacto. A Gazeta Mercantil está evidentemente prejudicada. Mesmo que não se anime a levar a questão ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), está configurada uma situação de cartel – que evidentemente só pode ser anunciada em veículos como este Observatório.
A imprensa como defensora dos interesses da cidadania saiu-se muito mal da lipoaspiração. É a mesma velha senhora pelancuda e ranzinza.
Tablóide quer respeito
Argemiro Ferreira, de Nova York
O que a austera revista Foreign Affairs, onde costumam escrever respeitados especialistas em política internacional dos EUA e outros países, tem em comum com o semanário National Enquirer, o mais conspícuo e bem-sucedido dos tablóides de escândalos, dedicado em especial a crimes e mexericos de celebridades da política, TV e cinema?
Foreign Affairs, publicação mensal do Council on Foreign Relations, de poucos milhares de exemplares, dirige-se à elite intelectual e acadêmica, acolhendo regularmente textos de estadistas e autoridades estrangeiras. E o Enquirer, semanário de maior circulação nos EUA (quase 3 milhões de cópias), dirige-se à massa, aos leitores intelectualmente menos dotados.
O paradoxo é precisamente o fato de ter sido confiada ao designer Roger Black, artista rigoroso que criou o atual desenho de Foreign Affairs, a tarefa de fazer o mesmo para o Enquirer, que se orgulha do título de "rei dos tablóides". Já em setembro poderá ser revelada a cara nova com que vai aparecer ao lado dos caixas de supermercado espalhados pelos EUA.
Derrotar os novos rivais
Roger Black é também autor dos atuais projetos gráficos de New Republic, semanário de cultura e informação, e Reader's Digest, ainda capaz de vender milhões de exemplares em várias línguas e países. Como elas nada têm a ver com o Enquirer, especula-se de novo que a imprensa respeitável se "tabloidiza", enquanto os tablóides sonham com a respeitabilidade.
A contratação de Black foi o primeiro passo rumo a fases novas – não necessariamente respeitáveis – tanto para o Enquirer como para o Star, seu tablóide irmão. Incluirá ainda uma agência de propaganda, campanha de 25 milhões de dólares por ano e novo projeto gráfico para o Star, a cargo de Peter Asnell, outro astro do design, autor das marcas novas de Vanity Fair e Elle.
A agência contratada é do primeiro time da Madison Avenue de Nova York – a Della Femina/Jeary & Partners. O célebre publicitário (e dono de restaurante) Jerry Della Femina e seu sócio Michael Jeary preparam os anúncios e comerciais de TV e levam em conta que a alegada "tabloidização da mídia" é a prova mais visível da influência do Enquirer no mercado.
Mudando, mas só um pouco
Para Della Femina e Jeary, algumas das mais bem sucedidas revistas da TV, como Dateline, da NBC, e 20/20, da ABC, buscam deliberadamente tirar partido do êxito dos tablóides impressos. Nas campanhas publicitárias, disseram, o Enquirer pretende mostrar ao público que é o tablóide que continua a reinar no mercado, não os tablóides da TV.
Mas uma das idéias da campanha – explicada por Della Femina há dias ao New York Times – é fazer do Enquirer algo que não deixe seus leitores embaraçados. Os gossips (mexericos), mesmo assim, continuarão como prato forte. "Que diabo, todo mundo adora mexerico. Eu e minha mulher, por exemplo, começamos o dia lendo as colunas de fofocas", disse.
O Enquirer é vendido também em bancas, mas o segredo dele e de outros da família de tablóides semanais – como o Star, da mesma editora, a American Media Inc. – pode ser a oferta estratégica nos supermercados. E aos 28 anos de idade, o Enquirer continua imbatível a ponto de ver até jornais austeros, como o New York Times, reconhecerem sua importância e influência.
Capa bomba H
Sem deixar de lado o sensacionalismo ou o hábito de pagar por entrevistas, o Enquirer conseguiu ser citado em 1995 como fonte de uma informação em reportagem do NYT sobre o caso O. J. Simpson. Ao ser criticado pela ousadia, o diário novaiorquino defendeu-se: tratava-se de uma informação correta, há tablóides e tablóides, o Enquirer é um que não pode ser ignorado.
Depois disso, o dono da revista política George – John F. Kennedy Jr, filho do presidente assassinado em 1963 – fez ampla entrevista com o editor-gerente do Enquirer, na qual confessou seu fascínio pessoal por aquele estilo de jornalismo, apesar de vítima dele. E como ignorá-lo se o nome desse tablóide já tinha virado adjetivo – e está na história política dos EUA?
Pois em 1987 a capa do Enquirer com a modelo Donna Rice no colo do senador democrata Gary Hart mudou o rumo de uma eleição presidencial. Foi o bastante para fazer naufragar a candidatura presidencial de Hart, então favorito à indicação do Partido Democrata e já na liderança de todas as sondagens de opinião pública sobre o pleito de 1988.
Ergonomia da leitura
Vera Silva (*)
Descobri por que, quando pequena, eu morria de inveja de como meu pai e os outros homens liam confortavelmente seus jornais em qualquer lugar, sem aparentar o menor desconforto. Até de pé na rua, no trem, no bonde, no ônibus!!
Eu, pequena, e, até hoje, grande, nunca consegui ler o jornal confortavelmente. No avião, ele sobrava para os lados, batia na cara do passageiro do lado; sentada à mesa, ou ele insistia em roçar nas minhas roupas limpas e sujá-las ou, então, ficava tão longe que era preciso puxá-lo para debaixo da mesa como se fosse uma toalha grande; quando criança, o melhor jeito para lê-lo era de cócoras com ele estendido no chão; se eu me sentasse na poltrona, ele ficava muito longe dos olhos; enfim, um desconforto só.
Eis que, de repente, eu descubro que era tudo uma questão de anatomia: meus braços de criança e de adulta baixinha eram muito curtos para abraçar um jornal. Espanto-me por adorar lê-los; devo ter copiado o exemplo do meu pai.
Que prazer, que conforto, agora! Ambos, meus braços e o jornal, quando abertos, estão em perfeita harmonia. No tamanho exato, na distância exata de leitura e, pasmem, quase não suja mais as mãos! Ler jornal passou a ser também confortável para os meus olhos, para a minha coluna. Vai me fazer até mesmo economizar sabão...
Lembrei-me daquele ditado: atirou no que viu e acertou no que não viu.
Aqueles senhores enormes, fazedores de dinheiro, com braços compridos, descobriram que se diminuíssem o tamanho dos jornais poderiam economizar dinheiro à beça. Menos papel, menos tinta, menos peso para transportar, maior rapidez de impressão, mais dinheiro no caixa, mais lucro...
Os críticos estavam certos: eles não estavam pensando no leitor. Por isso, talvez, gastaram tanta tinta com um monte de justificativas tortas e que soavam estranhas. Afinal, nunca se preocuparam em justificar nada...
Eles não estavam mesmo pensando nas crianças que lêem jornais, nos braços reumáticos dos idosos que não renunciaram à informação, nos braços pequenos dos leitores baixinhos que teriam mais conforto para ler o seu jornal diário. Sorte a nossa, se tivessem pensado, talvez mudassem para pior.
Agora, que vão precisar aumentar o número de páginas para acomodar as mesmas notícias de antes, vão. Sobre isto, uma amiga comentou: "Quem sabe agora vão tirar aquelas notícias que eles põem só para cobrir espaço vazio"
Vai ver que vamos acabar ganhando por tabela.
A Gazeta Mercantil que me perdoe, mas perdeu a oportunidade de ganhar leitores de braços pequenos. Quanta gente, sem exemplo para seguir, deve ter associado o desconforto do tamanho do jornal à sua leitura, e concluído que ler jornal é ruim: um clássico exemplo de condicionamento.
(*) Psicóloga
NÚMERO-NOTÍCIA
O canto das pesquisas
Antonio Beraldo
Parece praga de sogra. Desde que conseguiu mais quatro anos, o governo FHC se vê imobilizado por crise após crise, CPIs, desentendimentos e incompetências várias, além do desgaste acumulado dos anos anteriores. Afora não conseguir recomeçar, vem sendo golpeado sem interrupção por índices decrescentes de avaliação – dizem os articulistas políticos, por culpa do próprio FHC e da corte que o cerca ("cercar", aí, também no sentido bélico).
Os jornais deitam e rolam quando sai uma pesquisa recheada de números deprimentes, se esmeram em fazer com que estas cifras sejam ainda mais vergonhosas. Comparam a evolução das estatísticas em gráficos (no mais das vezes distorcidos) e borram as cores nos textos "explicativos", temperados com adjetivos e advérbios propositadamente apelativos. No começo de maio, já circulavam números oficiosos, encomendados pelo próprio governo, que davam 51% de "ruim" e "péssimo" para FHC e sua turma. O governo não liberou estes dados, que ficaram restritos aos mais bem informados. Em junho, dia 20, logo num domingo nacionalmente frio e chuvoso, o inverno e a semana do presidente começaram mal: a Folha de S.Paulo dá em manchete o resultado de mais uma grande pesquisa de opinião pública e de intenção de voto: "44% reprovam o governo de FHC". Dentro do jornal, lia-se que foi computado um percentual de 44% na categoria "ruim/péssimo" e desanimadores 16% de "ótimo/bom" (sim, ainda tem gente que acha isso). A se considerar a margem de erro declarada, de 2%, FHC podia estar beirando os 46% de desaprovação, na pior das situações para ele. E se continuasse nessa andadura, caindo 7% a cada pesquisa, em pouco mais dois meses empataria com o resultado de outra, feita no final do governo Sarney: 60% de desprovação.
(Aliás, esta é a maneira correta de se analisar uma pesquisa: colocam-se em ordem cronológica os diversos "retratos" de cada momento, e estuda-se a tendência explicitada pelas curvas. O gráfico publicado pela Folha estava um primor de tendenciosidade, no mau sentido, mas isto fica para outro artigo.)
Não era passado um mês, e lá vem outra pesquisa, desta vez da Vox Populi – os que acham "bom" ou "ótimo" são 12%. É o fim, ou perto disso.
Bem-querer, malquerer
As pesquisas de popularidade são, para variar, uma invenção dos americanos de bem antes da Segunda Guerra, trazida para o Brasil pelos ventos da redemocratização, em meados da década de 40 (o Ibope é de 1942), com algumas adaptações que foram (e continuam sendo) testadas. A primeira pesquisa de intenção de voto foi publicada em maio de 1945, quando saíamos do Estado-Novo pelas eleições gerais. Deu no Diário da Noite que Eduardo Gomes era preferido em São Paulo (O Brigadeiro tinha, por exemplo, 43% de preferência entre pessoas de "grau de cultura superior"). Acabou perdendo as eleições para o Dutra.
Dez anos depois, outra enquete (era assim que se chamava) pedia aos entrevistados que interpretassem a afirmação do JK de quer faria o país progredir "50 anos em 5". As respostas possíveis eram "é leviana", "é séria", "é força de expressão", "não sei" e "não opino". Foi feita em São Paulo e no Rio, e dividia os opinantes em homens e mulheres, as classes em "rica", "média" e "pobre". O mundo era mais simples naquela época. Esta pesquisa foi publicada numa revista chamada Boletim das Classes Dirigentes (!). Os resultados já mostravam as desigualdades: em São Paulo, a maior parte achava que era "força de expressão" (36%), no Rio quase 40% acharam que "era leviana". O máximo de credibilidade que JK conseguia, segundo a pesquisa, eram uns 25%, na categoria "classe pobre de São Paulo". Como se sabe, o "presidente bossa-nova" fez bem mais do que 50 anos em cinco.
Algum tempo se passou, e, em março de 1961, segundo o Ibope, em São Paulo e Rio, o "povo" achava o começo do governo do Jânio "bom" ou "ótimo" (66%) e concordava que "deveria preparar-se para os sacrifícios necessários para resolver os problemas econômicos do Brasil" (72%). Isso é que é popularidade, não? Jânio tinha sido eleito com 48% dos votos. Ao fim de sete meses, mil bilhetinhos depois, e junto à proibição da briga de galo, do biquíni e do lança perfume, o "povo" assistiu, boquiaberto, nosso presidente moralista fugir de Brasília.
O Brasil começa a ficar complicado de entender: uma pesquisa do Ibope de 1963 mostrava que o "povo" (novamente) era a favor da reforma agrária (61%) e que esta devia ser feita "urgentemente" (72%). Não foi.
No começo de 1968, o "povo" achava o presidente Costa e Silva uma "pessoa simpática e compreensiva" (76%), encarava o ano que se iniciava com otimismo (63%), mas já achava que as eleições, em todos os níveis, deveriam ser diretas (87%). Não foram.
Assim se passaram dez anos: em 1978 o "povo" achava que o sucessor do presidente Geisel devia ser militar (57%), mas 33% já se inclinavam por um civil. Ao final de 1980, novamente consultado, "povo" achava o presidente Figueiredo "ótimo" e "bom" (32%), "regular" (38%), ou "ruim" ou "péssimo" (27%). O "povo" estava claramente dividido, mas 52% achavam Figueiredo um "democrata sincero". E queria ardentemente as diretas-já (84%). Não foram, ainda desta vez.
Nas alturas
Morre Tancredo, assume Sarney, que vai ao paraíso com o Plano Cruzado (88% de confiança do povo), já que 91% estavam dispostos a ser "fiscais do Sarney" (!!). Isso foi em 1986. O nirvana pouco durou: em 1989, 70% do "povo" não confiavam no presidente, 69% não confiavam nos empresários e 70% não confiavam nos senadores e deputados. Mas 62% confiavam nos sindicatos de trabalhadores.
Em agosto de 1988, 28% dos brasileiros queriam Sílvio Santos para presidente, com Brizola (10%) em segundo lugar (Collor já estava em terceiro, com modestos 8%). Depois de Lula e Brizola oscilarem nos 15%, cada, Collor dispara nas pesquisas – em dois meses, de março a maio de 89, pula dos 9% para quase 45% e assusta todo mundo. Cai depois para 28%, na "dança dos números", vai para o segundo turno e vence com 53% dos votos válidos.
Depois das denúncias do irmão, Collor vai para a TV, culpa a mídia pelos escândalos e obtém o apoio, segundo as pesquisas, de 67% da população. Questão de semanas, mais denúncias, e a situação se inverte: quase 60% acham que ele deve renunciar, e o vice assumir. Cerca de 70% da população não confiam nele. Seu governo é considerado "ruim" ou "péssimo" por 60%, e "bom" ou "ótimo" por 12% (coincidência curiosa com as cifras do atual inferno astral de FHC). Saiu debaixo de vaia, legou-nos Itamar, que terminou o governo, quem diria, com aprovação da maioria. Vem o Real, chega a 64% de aprovação, joga o desemprego nas alturas, elege FHC duas vezes, e era para durar para sempre. Não foi. Ufa!
‘Cuesta abajo’
Já disseram que FHC é "movido a pesquisas". Se isso for verdade, deve estar em crise de depressão agônica, vertendo litros de conhaque e cantando Cuesta Abajo entre lágrimas que lhe escorrem, furtivas. Mas não deve ser assim. Políticos sabem que essa coisa chamada "opinião pública" é altamente mutável e bastante diferenciada regionalmente. Um exemplo: metade dos paulistas desaprova o Congresso, enquanto, na Bahia, este índice cai para 29% – afinal, ACM é o presidente do Senado.
Desigualdades têm que existir num país de 8,5 milhões de km2, e seus 160 milhões de habitantes. Políticos "mudernos" crêem que a opinião pública pode ser modificada e conduzida por meio de campanhas de marketing, que lhe constroem a "imagem", pela TV. Nossos mandatários imaginam a opinião pública como uma espécie de heroína de opereta, movida a presentinhos e removida pela tuberculose. Esta prima-dona é capaz de se descabelar e quebrar os móveis em fúria, num acesso de ciúmes, mas dar gritinhos de alegria ao receber rosas acompanhadas de um anel de brilhantes, com um afago do amante. Cual piuma al vento, seu humor muda de acordo com as benesses recebidas. Alguém disse (Maquiavel?) que se deve fazer o bem aos poucos, o mal de uma só vez.
Os imperadores romanos mantinham o pessoal sossegado à base de panis et circensis. FHC acha vergonhoso distribuir cestas básicas, que isso é coisa de terceiro mundo, assistencialismo etc.
De volta às notícias ruins, nota-se que a análise das pesquisas, por parte da mídia, está mudando. Se tempos atrás se perdia na lista das respostas "fechadas", que desciam de "ótimo" para "péssimo", graduadas em "bom", "regular" e "ruim", agora estão simplesmente agrupadas em "aprovação" ("bom" + "ótimo") e desaprovação ("ruim" + "péssimo"). A categoria "regular" foi confinada a uma espécie de limbo, já que ninguém sabe ao certo o que quer dizer. "Regular" pode ser "nem bom nem ruim", "quase razoável", "faz o que pode", "já vi piores", etc. O que importa foi que eliminou-se as sutis diferenças entre "ruim" e "péssimo", e entre "bom" e "ótimo". O humorista José Simão, da Folha, foi certeiro: sugeriu a inclusão de novas categorias: "horroroso", "ruim pra cacete" e "pega ele". Em contrapartida, alguém deve sugerir as categorias "divino", "sublime" e "excelso".
Quando se estuda Estatística, aprende-se que devemos objetivar ao máximo as variáveis; isto é, deve-se evitar as subjetividades carregadas pelos adjetivos e advérbios. Uma boa tentativa é atribuir notas, numa escala, por exemplo, de zero a 10. Coletam-se os dados, tira-se a média e pronto: esta aí o veredicto. O DataFolha faz isso, e mais uma vez o ex-professor FHC leva pau, com seus 4,2 de média.
De toda essa enxurrada de números, que acabam nos deixando tontos, o que se tem a fazer é passar por cima da precisão das cifras e usar o bom senso da velha e boa matemática elementar: se, entre 8 pessoas, 4 consideram o governo atualmente uma porcaria, e apenas uma ainda acha FHC coisa que valha, já está passando da hora de o presidente fazer alguma coisa, antes que um aventureiro lance mão. Contra fatos e números deste tamanho, não cabem argumentos. Vox populi.
Nota: Grande parte das estatísticas de opinião pública desde artigo foram publicadas no excelente "A Voz do Povo - O Ibope do Brasil", de Silviana Gontijo, Ed. Objetiva, São Paulo,1996.
REPORTAGEM NA TV
O ‘jornalismo’ do SBT Repórter
Márcio Mancini
Lamentável o SBT Repórter sobre naturismo. Uma aula de antijornalismo. Se a proposta era entrar no mundo naturista e dissecar o que leva pessoas a abandonar a vida nas cidades para viver nuas numa comunidade desse tipo, o SBT Repórter fracassou. No entanto, parece que não foi essa a proposta. O SBT Repórter contradisse totalmente a filosofia naturista, a cada frase que a bela Maria Cândida lia ou a cada entrevista dos moradores da Colina do Sol e, evidentemente, após a famigerada edição das imagens. O repórter, que não me dei ao trabalho de lembrar do nome, parece que não apreendeu nada dessa prática durante o convívio com os naturistas, ainda que mostrasse o seu traseiro no vídeo, para dar a impressão de que "mergulhou fundo na matéria". Mostrou à toa. O resultado jornalístico foi pobre e com ar de dèja-vu.
No programa, o que se viu foi um pretexto para mostrar mulheres nuas e, por conseguinte, ganhar mais uns pontinhos no ibope. Senão, como explicar o fato de se encobrir apenas o sexo dos homens com aquelas ridículas bolinhas transparentes? Até lembrou o filme Laranja mecânica , quando foi liberado no Brasil pela censura, mas com bolinhas pretas sobre as partes pudicas dos personagens, lembram? Isso é falso moralismo. Ora, aquele tipo de nudez, naquele contexto, não é imoral. (Se é que se pode dizer que nudez seja imoral...) Num rincão naturista, a nudez é natural! Entretanto, o SBT Repórter não considerou assim.
As mulheres, belíssimas, por sinal, apareciam lindas e nuas, em todos os ângulos e closes. Canalhamente, tenho que parabenizar a rapaziada da ilha de edição do SBT, pelo bom gosto. Só que a equipe do SBT Repórter tentou dar uma conotação erótica, num contexto em que não havia o menor erotismo. As oscilantes bolinhas masculinas que o digam! Realmente ridículo. Ou se colocavam tarjas em ambos os sexos ou não mimetizassem o sexo de ninguém! Isso sim, seria critério jornalístico.
Viu-se bem que o SBT não estava preocupado com a apregoada "moral da família". Afinal, homens e mulheres nus na TV dá no mesmo, isto é, são seres humanos sem-roupa. E, conforme expresso no Código de Ética da Abert – se é que alguém no SBT já se deu o trabalho de ler esse anacrônico e ignorado manual ético das emissoras – há horários e gradações de exposição para se mostrar tornozelos, cotovelos, peitos ou pintos na TV. Mas isso vale para programas de variedades, e não para programas jornalísticos!!! Ora, a quem os coleguinhas do SBT Repórter querem enganar? Se o SBT Repórter fosse o Ratinho Livre, tudo bem. O programa dele é, permitam-me os puristas, mero entretenimento. Mas no SBT Repórter as bolinhas denunciaram a proposta pouco jornalística do programa, já que o Código não recomenda autocensura se as imagens são apresentadas em programas jornalísticos. Mas o machismo da equipe do SBT Ratinho, ou melhor, SBT Repórter, falou mais alto. O SBT esqueceu-se do jornalismo.
Recentemente, no terceiro-mundista programa do Ratinho, viu-se uma pompoarista asiática em cenas pornográficas, desvirtuando totalmente o sentido dessa arte milenar. O camundongo bronco, Carlos Massa, queria ibope, mais uma vez. O SBT Repórter, camuflado de programa jornalístico, fez algo semelhante, apresentando um programa com um festival de mulheres nuas, e não uma reportagem sobre Naturismo, a que, supostamente, teria se proposto. Preferiu explorar a nudez feminina para ter audiência e, quem sabe, superar o traço nos dados do instituto de pesquisa do Sr. Montenegro.
As chamadas durante a programação na semana avisavam "Impróprio para menores". Quem conhece um mínimo da linha de conduta da emissora da Via Anhangüera já poderia imaginar que vinha coisa por aí: não deu outra, o SBT Repórter, utilizando o jornalismo como um álibi, se propôs a outra coisa, que não jornalismo. O bloco final da segunda parte do programa – em que a Cândida apresentadora asseverava: "A seguir, você vai ver um desfile das mulheres mais bonitas da Colina do Sol" – é sintomático. O negócio era botar mulher pelada no vídeo. Erotizar os seus corpos naquele contexto, coisa, aliás, que todos os naturistas repudiam. Espero que algum adepto desse estilo de vida tenha reclamado desse desvirtuamento. Certamente já o fizeram os sérios.
Resta a mim fazer uso do meu controle remoto e evitar esse tipo de sensacionalismo. Até já fui outrora telespectador mais assíduo do SBT, mas hoje está difícil, confesso. Só assisto ao Jô Onze e Meia. Sorte minha que ele mudará de emissora, pois assim não terei mais motivos para sintonizar no canal 12.
O slogan da emissora é "SBT é Brasil". Hei de concordar que o SBT é realmente a cara do Brasil. Pelo menos daquele Brasil dos 500 anos que devemos esquecer. Afinal, uma emissora que pulveriza os seus departamentos de jornalismo e de esportes e veicula coisas – acintosas para quem tem um mínimo de auto-estima – como Domingo Legal, Ratinho, Fantasia e novelas mexicanas, só para citar os mais votados, sintetiza a desesperança de crianças, jovens, adultos e aposentados neste país de FHCs, ACMs e outras fórmulas bem difíceis de engolir. É desestimulante.
MUNDO CÃO
Só sensacionalismo?
Luiz Fernando Benezere Belatto (*)
Um dos programas mais interessantes da mídia brasileira para análise jornalística é Cadeia, apresentado por Luiz Carlos Alborguetti e veiculado no canal de televisão CNT. Não pelo quesito audiência, visto que é batido por outras emissoras no horário (19h às 20h), mas pelos conteúdos que apresenta e que são sua razão de ser: o chamado submundo do crime, as chacinas na periferia dos grandes centros, assassinatos de policiais, drogas e mais uma vereda de temas esquecidos ou tratados de forma simplista pela mídia.
Cadeia penetra num mundo que somente é abordado pela mídia quando não se pode esconder a tragédia (vide casos como a chacina da Candelária ou os PMs da Favela Naval); o programa da CNT mergulha direta e exclusivamente no universo da tragédia e do crime. Cadeia tem matérias, entre outras, sobre tráfico de drogas ou sobre o pai que, bêbado, mata os filhos.
Programação desse tipo é tradição da CNT. Em 1993, o próprio Alborguetti comandava um programa parecido, sendo substituído mais tarde por Luiz Carlos Massa, o popular Ratinho, que começou lá, e lá ganhou nome e fama, tornando-se objeto de desejo das outras emissoras. Com sua saída em 1997, tentou-se uma experiência com Wagner Montes, que acabou frustrada.
Seria este programa jornalístico? O contexto social mostrado deve ser veiculado como informação? Ou é apenas sensacionalismo, destinado a mexer com a emoção do grande público e atrair audiência com a tragédia alheia?
Programas como Cadeia têm seu lado jornalístico, isto não pode ser negado. Afinal, ser jornalista é mostrar a notícia onde ela estiver, bem como veicular os fatos de importância. Ora, a violência é um tema atual, motivo de diversas campanhas públicas, presente na vida de todos. Por que conhecer somente a violência que cerca as classes média e alta das nossas cidades, que as grandes mídias veiculam? Nossa visão dessa realidade é restrita, e Alborguetti foge disso.
As reportagens de seu programa são feitas principalmente na periferia dos grandes centros, dando voz às pessoas mais pobres, aos policiais, aos bandidos, mostrando a dura realidade em que estes personagens se inserem.
Isso é jornalismo. É abordar o lado obscuro dos fatos, o desconhecido. Um dos méritos do programa é mostrar a notícia esquecida pelos grandes veículos jornalísticos, levando a realidade das classes menos favorecidas da população à mídia. Cadeia é um exemplo do jornalismo profissional que se aprende na faculdade: cobrir todos os lados dos fatos, procurar a verdade. Aliás, o lema do programa é "Aqui se vê somente a verdade." Nas palavras de Alborguetti, "faculdade de repórter é plantão de delegacia".
Reportagens sobre a tragédia pessoal, a dor e o sofrimento atraem a população, gerando altos índices de audiência. A TV Globo obteve muitos pontos no Ibope com a cobertura da prisão do "maníaco do parque", em agosto do ano passado, bem como na entrevista exclusiva com ele no Fantástico.
Cadeia também é sensacionalista, pelo estilo do apresentador. Com um porrete na mão e uma toalha na nuca, falando "em linguagem cabocla, pois falo para o povo", Alborguetti foge do padrão formal e bem-arrumado da maioria dos apresentadores brasileiros. Grita e gesticula com a produção, quebra sua mesa batendo nela com o porrete, comenta as reportagens, revoltado com a situação calamitosa do país, xinga os políticos e a "elite dominante", responsável, em sua opinião, "pela violência social e a destruição da família brasileira". Defende abertamente a pena de morte para os criminosos e punição para políticos corruptos.
O programa tem importância. Representa uma oposição ao jornalismo das grandes redes, ao mostrar uma realidade diferente.
(*) Estudante de Jornalismo da PUC-SP
CARTAS
Bundas & Hebe
O texto "Bundas na Hebe", de Paulo Polzonoff Jr., publicado no Observatório da Imprensa nº 70, de 5 de junho de 1999, é um espanto de tão equivocado. Então ele censura o Ziraldo por ter ido ao programa da Hebe. Que pretensão! Quem é ele para julgar quem quer que seja desse modo? A Hebe é alguma leprosa? Em quais programas o Sr. Paulo admitiria a ida do Ziraldo (e de qualquer outra pessoa, é evidente)? Em qual canal?
Se formos nos pautar pela coerência educativa dos programas ou dos canais, Ziraldo e qualquer um de nós só poderíamos ir à TVE, que mesmo assim tem uns programas estranhos. Por exemplo, lá não passa anúncio, mas tem um programa onde são exibidos anúncios como se fossem peças culturais e educativas de grande interesse para a sociedade... E tem um programa de clipes para a juventude tão imbecilizante quantos os similares da MTV, com um apresentador igualmente idiotizante que em três minutos falou "galera" mais de 10 vezes, que eu contei. Como a juventude pode ter uma auto-imagem mais positiva se os apresentadores de TV insistem em chamar os jovens dessa forma coletiva e depreciativa de "galera"?
O Jô Soares trabalha no canal do Sílvio Santos, do Gugu e talvez, não sei, da Hebe. E logo irá para a Globo, das novelas, do Faustão, da Xuxa e da Angélica. Em tal canal, nem Ziraldo nem nenhum adversário de nosso status quo deveria pôr os pés.
O programa da Hebe é assistido por alguns milhões de pessoas, e foi para se comunicar com essas pessoas que o Ziraldo foi lá. Ou essas pessoas não merecem conhecer as idéias do Ziraldo só porque elas gostam de assistir ao programa da Hebe? Aliás, seria interessante saber que outros programas passavam nos outros canais. Em muitos casos, assistir ao Ziraldo na Hebe pode muito bem ter sido a melhor opção... E se a Hebe me chamasse para falar o que penso dos alimentos transgênicos e da ração com carne que hoje se dá a frangos e vacas? Está claro que eu iria, e acharia realmente incrível que um Sr. Paulo Polzonoff Jr. se julgasse no direito de patrulhar minha atitude. Ziraldo é um comunicador muito bem sucedido, Sr. Paulo, e sabe bem melhor do que o senhor o que deve fazer para divulgar seu trabalho e suas idéias.
A revista Bundas tem muitos pontos positivos, é claro, mas tem muitos aspectos a serem criticados, muito mais importantes que a ida do Ziraldo a um programa típico de nossa TV. O mais importante deles é o uso da pornografia e da chulice para atrair leitores. Parece que o Ziraldo, o Jaguar e sua turma esqueceram que foi essa estratégia que acabou de afundar com o Pasquim. Além disso, explorar o erotismo é apenas dar ao povo "mais do mesmo" que ele já tem, e que já vem prejudicando seu desenvolvimento cultural e social há algumas décadas. Os inimigos da turma do Pasquim, que são também os meus, é que usam o sexo e a violência para distrair a população de seus problemas. Bundas, ao fazer o mesmo, confunde seus público e o reduz brutalmente, pois para muitíssimos leitores e leitoras muitas daquelas fotos e desenhos são considerados de mau gosto e deseducativos. No nº 2, por exemplo, há um homem de quatro com um chicote enfiado no ânus, e uma entrevista com um grupo "Grelo Falante" totalmente imbecilizada. Haveria muito a perguntar àquelas meninas, sobre seu mundo, sua cultura, mas os entrevistadores se ativeram a piadinhas tipo "é verdade que o Grelo chupou o Caceta?"
Se Bundas continuar apostando nessa linha, resumirá seu público a quem está acostumado a essa cultura da esculhambação e do palavrão, e deixará de atingir os milhões de brasileiros que buscam orientação cultural mas não querem – com toda razão – a glamourização da vulgaridade nem a banalização da pornografia, que a cultura comercial, Bundas incluída, promove, eu sei muito bem com que fito.
Joaquim Moura
xxx
Resposta de P.P. Jr.: A dúvida a respeito do lançamento de Bundas na Hebe está centrada no conceito de coerência. Critiquei a atitude do diretor da revista por considerá-la incoerente. Uma revista que se preza a criticar a mediocridade da elite que vive em vôos para Miami e se esquece do país de que usufrui não poderia ser lançada no programa de TV que mais exalta este tipo de atitude. Ziraldo, no entanto, deu-me subsídios para entender sua estranha atitude no último número da revista República. Perguntado se considera a coerência uma virtude ou um defeito, o virtuoso das Minas Gerais responde: "É uma característica. Conheço pessoas maravilhosas que são inteiramente incoerentes."
Então tá.
Paulo Polzonoff Jr.

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