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20 ANOS DA ANJ
Patronato patético
Congresso da ANJ atrapalha-se com o futuro,
tropeça no presente e escamoteia o passado
A cobertura nos quatro jornalões foi pífia, burocrática e distorcida (o Jornal do Brasil nem registrou o segundo e último dia do evento na sua edição de quarta, 18/8). Não fosse o programa Observatório da Imprensa (terça, 17/8, TV-E e TV Cultura), o assunto ficaria restrito ao fechadíssimo clube dos altos executivos da mídia impressa diária. E, no entanto, foram mencionadas no convescote algumas coisas que mereciam registro maior.
A comemoração dos 20 anos da ANJ não chegou à sociedade – simbólico. Os leitores serão informados posteriormente. Através de anúncios. Como tem acontecido todas as vezes que os jornais precisam falar de si mesmos.
A contribuição mais importante foi trazida pelos jornalistas americanos Jack Driscoll e William Corbin. O primeiro, embora integre o Media Lab do MIT, tem os pés no chão e compromissos com o seu passado no Globe de Boston [veja íntegra de sua palestra na rubrica Documento, nesta edição]. O segundo, editor de um jornal provincial mas nada provinciano (o Daily Press, da Virgínia), trouxe a visão do empresário-jornalista de uma pequena comunidade e, por isso, mais sensível às suas cobranças.
Mesmo estas intervenções foram registradas de forma sucinta e discreta. A mídia brasileira tem vergonha de se expor, como se esta exposição pudesse enfraquecê-la. Por isso perde autoridade diante dos demais poderes, cada vez mais escancarados pela própria mídia.
E se os jornais brasileiros tropeçam diante das atuais dificuldades (ou "desafios" para usar o eufemismo empresarial), a visão que têm do passado é ainda pior. Nas manifestações sobre as origens da ANJ disseram-se diversas inverdades. A saber:
** A ANJ não foi criada como decorrência ou para apressar o processo de redemocratização. Em 1979, grande parte da mídia ainda estava em regime de autocensura. O presidente Ernesto Geisel falava em distensão que só seria completada ao fim do mandato do seu sucessor. A imprensa estava, portanto, a reboque do processo político-militar.
** Em matéria de modernização, o que foi acordado nos prolegômenos da ANJ entre as principais empresas jornalísticas do eixo Rio-São Paulo nada tem a ver com o produto em si ou os modos de processar as informações. A única "modernização" resumiu-se à sugestão de construir heliportos nas respectivas sedes de modo a permitir um rápido escoamento das edições em casos em que a saída dos parques gráficos estivesse impedida. E quem poderia impedir a saída dos caminhões – os militares ?
** Essa é a verdadeira orígem da ANJ: foi criada logo depois da greve dos jornalistas (abril de 1979) e por causa dela. Greve insensata, irresponsável e provocadora – a própria criação da ANJ o comprova. Os jornais que conseguiram armar suas edições tiveram dificuldades em circular por causa dos piquetes nas ruas.
Compreende-se que numa comemoração de 20 anos seja impossível lembrar publicamente episódios tão incômodos Mas compreende-se também que, por respeito à história, as versões deveriam ser apresentadas com um mínimo de compostura.
Não é a primeira vez que jornalismo e história têm avaliações diferentes do mesmo episódio. Esperemos que seja a última. Mas onde o patronato e o asponato confundem-se e se atrapalham é na futurologia.
Cada seminário que empresários ou altos executivos assistem nos EUA produz novas caraminholas apocalípticas. Como se as duas realidades e os dois mercados fossem semelhantes, essas lideranças assumem posturas inteiramente irrealistas. Antecipam problemas que não existem, abortam evoluções que deveriam ser completadas, adotam soluções prematuras e, sobretudo, criam uma cultura apocalíptica e descuidada que acaba intoxicando o espírito e modo de fazer jornalismo. Do nihilismo à arrogância é um passo.
A Associação Nacional de Jornais deveria acreditar mais em jornais, jornais em carne e osso, jornais humanos e humanizados. Esse é o saldo nada promissor do seu Congresso.
Voltaremos ao assunto.
MEDIA CRITICISM
Exame não está brincando
Falou para a elite econômica do país
A.D.
Para o leitor habitual deste Observatório o texto pode não ter novidades. Ao longo destes três anos ele certamente encontrou aqui, neste site, avaliações iguais e talvez mais contundentes sobre o desempenho de nossa mídia.
Mas o que está dito na edição 694 de Exame é um documento extraordinário. Que ultrapassa o que temos dito. Não apenas pelo que diz e como diz, mas pelo fato de ter sido veiculado na mais importante revista de negócios do país, sem identificação de autor e, por isso, assumido institucionalmente como opinião da publicação.
(título) Má notícia é boa notícia
(subtítulo) Na busca sôfrega de crises reais e imaginárias a mídia retrata um Brasil distorcido.
Este Observador está na liça da crítica da mídia desde 1975, há 24 anos, desde os tempo do Jornais dos Jornais (nada a ver com a revista de igual nome). E pode afiançar que jamais viu radiografia da imprensa brasileira exposta com tanta crueza em veículo de igual importância.
Leve-se em consideração que o exame da Exame, embora sem citar, foi obviamente crítico com relação ao carro-chefe da Abril, o semanário Veja. E também com a Folha de S.Paulo. Isso também é inédito e contribui decisivamente para a sua credibilidade, porque a crítica da mídia na grande imprensa brasileira faz-se de forma enviesada, preservando afinidades e amizades. Aqui foi na carótida, sem meias tintas ou salamaleques.
Acrescente-se que o Grupo Exame – uma das unidades de negócio mais importantes da Abril, com ramificações internacionais – é dirigido pelo jornalista José Roberto Guzzo, diretor de Veja durante quase duas décadas. O diretor de redação, Paulo Nogueira, embora mais jovem, está no primeiro time da casa. Portanto não se trata de ato extemporâneo, impulso irrefletido de jovens quixotes no bafafá do fechamento. É tomada de posição.
E por que dirigir o olho crítico do empresariado nacional para a degradação da mídia? Porque os homens de negócio, em última análise, são os seus financiadores. E, se o quadro não sofrer drásticas alterações, dentro em breve, serão os responsáveis por um país sem elites, nivelado por baixo, desqualificado e desestruturado, presa fácil de manias imbecis e perigosas idiotices. Inclusive no terreno da política.
Exame jogou na direção certa. A requalificação da mídia brasileira passa obrigatoriamente pela conscientização da elite econômica e, em seguida, pela pressão desta sobre os anunciantes e agências de publicidade. As grandes corporações brasileiras são as únicas capazes de mostrar ao empresariado da mídia que as pequenas infrações cotidianas que estão deixando ocorrer podem ser fatais.
Hugo Chavez tomou a mídia venezuelana de assalto e com ela está tomando conta do país. Isto porque a mídia venezuelana apostou em paradigmas que tornam possíveis as aberrações que propõe.
Nome aos bois
Douglas Duarte
A matéria "Má notícia é boa notícia", da Exame ( nº 694, 11/8/99), é uma pérola do cinismo. Para começar, a matéria é a única não assinada na revista: medo de represálias dos coleguinhas, ou a opinião da revista mesmo? Pior ainda, o que parece de início a atitude corajosa de um jornalista em criticar a filosofia da grande mídia vira depois um libelo atacando adversários do departamento comercial. Fala-se da Folha, da expressão de pânico de Lillian Witte Fibe no Jornal da Globo, mas quando chega a hora de olhar o próprio rabo o macaco desvia, passa pela tangente, dá um rodopio, pula para outro galho e finge que não é com ele. Criticando vários episódios do "desastrismo" vigente na imprensa, o jornalista caiu no caso Marka e, com meio parágrafo pronto, se lembrou de quem começou a confusão: a Veja, apoiada em fontes anônimas que "ouviram falar da história". Só que a revista é do mesmo grupo Abril da Exame.
Voilà! E remexe, e dá um jeito, e torce aqui e ali e o nome da revista não aparece, vira "a imprensa", esse mostro a que não damos nome porque traz azar. A matéria parecia querer criticar a "invenção" de crises no Brasil, com base numa "estética da desgraça", o que venderia jornal. Infelizmente, quando chega a hora de nomear os bois, mesmo não assinando, o jornalista sente a boa e velha paúra.
Paúra que o jornalista afirma que muita gente tem quando lê jornal, citando um presidente de seguradora. Segundo uma das declarações, teria parado de ler jornal por recomendação do psicanalista, pois lhe dava ansiedade. Bom, estejam avisados: realidade nunca foi terapêutico.
A matéria afirma ainda que os jornalistas têm a contribuição dos economistas para "vaticínios funéreos". E me pergunto se Exame nunca publicou somente um desses vaticínios, ou baseou uma matéria num deles. Resposta que a própria revista pode dar. Finalmente, o texto encaixa o pior: o que a mídia mostra da realidade econômica e social do Brasil se limita ao desemprego, às invasões do MST e à existência de miseráveis.
Engano. Ela mostra o fiasco que foram as frentes de trabalho de São Paulo, as chacinas comandadas por fazendeiros com ajuda dos governos estaduais e municipais (e, ainda vão descobrir, o governo federal), e a situação objetiva de "apenas" um terço da população do país. Sim, ninguém nega que é um noticiário parcial, mas noticiar as boas novas (será que enchem meio jornal?) para desopilar o fígado dos presidentes de companhias seria justo? O que se noticia – muita bobagem, muito vazamento de parte interessada, muita coisa mal apurada – se concentra na realidade emergencial. Vamos aplaudir as dentaduras, os frangos e os iogurtes de Fernando Henrique novamente? Já não fizemos e continuamos fazendo isso? Resumindo: se a situação brasileira, para esse brilhante e incógnito jornalista, é pior nos jornais do que na realidade, sugiro uma urgente viagem ao Primeiro Mundo, onde noticiário e realidade são parecidos. E olha que os jornais lá também carregam nas desgraças.
Jornalismo faz oposição ao que é errado. E há muita coisa errada, meus caros. Inclusive no jornalismo e no Grupo Abril. Dê os nomes. Senão não é jornalismo. É picuinha.
Resposta de Paulo Nogueira (*)
Caro Douglas: Acabo de ler sua resposta. Entendo seu ponto. Mas gostaria de reiterar que o importante, para nós, foi abrir o debate. Se o nome da Folha foi citado, foi porque o episódio dos grampos serviu de exemplo para nós, até pela reação violenta dos leitores. (E também porque a Folha é o símbolo supremo do jornalismo de denúncias.)
No caso do "escândalo" do BC, houve diluição de digitais, por assim dizer. Os jornais, mais as semanais, chacinaram em massa o caráter do Chico Lopes. Francamente não sei se seria o caso de citar toda a turma. Talvez sim, talvez não. Mas repito: nosso principal propósito era semear uma discussão, não listar nomes.
Sobre a assinatura: não é o artigo de um indivíduo. É uma manifestação da revista. Um editorial, digamos assim.
Por fim: lembro que você também falava, na mensagem original, que a realidade não é terapêutica. Concordo. Mas por que só o lado sombrio da realidade é publicado? Aí voltamos ao título: boa notícia é má notícia. Os editores pensam que boa notícia não vende. Esse o ponto.
Grato pelas cartas, parabéns pela clareza e agudeza das observações (presumo que você seja ou tenha sido jornalista) e um abraço. Paulo Nogueira
(*) Paulo Nogueira é diretor de redação de Exame
Tréplica de D.D.
Caro Paulo: Agradeço a consideração e as repetidas respostas da Exame. O debate sem dúvida é necessário e urgente. A imprensa tem muitos outros temas a serem escavados e expostos à criticas, e sem dúvida para o público de Exame a questão de má notícia e (com ou sem acento agudo) boa notícia é grave na hora de decisões. O afastamento do jornais é uma realidade também, não paira dúvida.
É só uma questão de estar atento para não iniciar uma polêmica com pés de barro. Vamos discutir! Grande abraço. Douglas Duarte
ENQUETE
Números de Veja
Desde meados de julho, o website da revista Veja <http://www2.uol.com.br/veja> convidou seus visitantes a responder uma enquete sobre a credibilidade da imprensa. A "pesquisa" sobre a imprensa, que sai do ar em 23/8, não tem base metodológica mas serve como uma amostragem. O próprio site avisa: "O resultado das pesquisas não tem valor científico e se refere apenas ao grupo de freqüentadores do site de Veja." Ainda assim, as porcentagens mantiveram-se estáveis durante uma semana de observação e os números merecem atenção. Confira abaixo. (Isabela Morais)
Total de votos até 17/08/99: 10957
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Opção |
Nº de Votos |
% |
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Distorce os fatos para adaptá-los à sua opinião. |
5806 |
53.0 |
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Não investiga o suficiente e acaba publicando informações erradas. |
3460 |
31.6 |
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Investiga e publica sempre tudo o que sabe. |
1691 |
15.4 |
FONTE: Veja OnLine < http://www2.uol.com.br/veja/pesquisa/index.html>
INTERNACIONAL
Ave meus brancos, amém
Marcos Santarrita
Digamos, só como hipótese, que Timor Leste, no arquipélago indonésio, fosse uma ilha de colonização britânica, espanhola ou portuguesa, mas mantida em regime de protetorado pelos Estados Unidos, como Porto Rico. De repente, a corrupta ditadura de Suharto decide anexá-lo na marra, sem respeitar, ou mesmo respeitando, os direitos dos seus habitantes.
Claro, a hipótese é absurda. Suharto e sua quadrilha eram mantidos no poder, sem perguntas incômodas, por Washington, em nome da Guerra Fria (leia-se interesses financeiros). Mesmo que o títere se atrevesse a uma tal loucura, a esta hora talvez já não houvesse Indonésia; o processo teria sido o contrário: com uma intervenção humanitária da Otan, Timor Leste teria ocupado – seria – todo o arquipélago. E tudo estaria na santa paz não exatamente do Senhor: a Pax Americana.
Mas suponhamos, apenas suponhamos, que assim não fosse, que a ilha houvesse sido simplesmente invadida por Suharto e os Estados Unidos a princípio apenas bronqueassem, ameaçassem, preparando sem pressa a ação. Os jornais, rádios e televisões do Brasil estariam dando manchetes: cada timorense independentista que levasse um tombo na frente da casa de um adversário seria apresentado como uma vítima da inaceitável violência indonésia etc. etc.
Infelizmente para eles, porém, os timorenses não fazem parte do império americano. Como é apenas uma ex-colônia portuguesa – e portanto não interessa a nós, "ocidentais" –, Timor Leste merece, quando merece, notinhas discretas nos jornais brasileiros, e quase nem isso na televisão.
Lembrem-se do Iraque. Sadam Hussein não é, claro, flor que se cheire; mas tampouco o é qualquer governante árabe amigo do "Ocidente" (antes conhecido como raça branca) – pelo contrário: são todos tão ou mais brutais que ele. Ainda recentemente, um dos maiores facínoras contemporâneos, o "rei" Hassam II, do Marrocos – perto de quem Pinochet era assim como um membro da Anistia Internacional –, morreu e seu funeral foi um pomposo desfile de chefes de grandes Estados ocidentais. Pouco antes, morrera o reizinho de opereta Hussein, da Jordânia, e o espetáculo foi talvez ainda mais grandioso. Os dois acontecimentos, claro, tiveram todo destaque na imprensa brasileira, o que não aconteceu, por exemplo, com as mortes de Joshua Nkomo, um dos construtores da moderna África negra, patriarca da independência do Zimbábue, e Francisco Julião, que mereceram simples obituários.
A serviço do império
Pois bem. Quando o Hussein do Iraque retomou parte do território iraquiano separado do país, durante a ocupação européia, por interesses petrolíferos ocidentais, a televisão e os jornais do Brasil levantaram um clamor maior que o dos próprios meios de comunicação americanos; era impressionante ver a indignação dos correspondentes da "nossa" televisão contra o "sanguinário ditador". Ninguém se lembrou (ou sabia) que o Brasil era um dos maiores parceiros comerciais do Iraque, e tinha grandes interesses investidos lá. Manuel Francisco Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, correspondente em Washington, foi um dos pouquíssimos, talvez o único, a de vez em quando dar uma nota de sobriedade na grita anti-Hussein.
É isso aí, aqui tudo funciona assim. Não temos noção do conjunto dos interesses nacionais; não somos uma nação; é cada um por si, por seu interesse grupal imediato. Ninguém tem uma visão política do país a longo prazo no cenário internacional – nem acredita nisso. Ao contrário de Goa e Macau, Timor Leste, por decisão de seus habitantes (supõe-se que a maioria, embora isso talvez não possa ser determinado), quer continuar integrando a comunidade dos países de língua portuguesa, da qual somos a maior parte. Seria mais um membro de uma futura Comunidade Econômica Lusa, e portanto nos interessaria muito dar-lhe todo apoio.
Mas quem liga para isso, ou sabe disso? Afinal, somos ou não somos "ocidentais" (brancos)? Que temos a ver com Áfricas e Ásias? O "nosso" governo – outro interesse grupal, a serviço do império – não se mexe; limita-se, quando o faz, a tímidos protestos. Graças à ignorância e/ou indiferença da "nossa" imprensa, os brasileiros nem sabem o que está acontecendo; e, não sabendo, não ligam. Nas ruas do Brasil, vêem-se carros com adesivos em defesa do – vejam vocês! – Tibete. Que temos nós com o Tibete? Ah, sim, temos, sim. Quem não se emocionou com o melodrama hollywoodiano Sete anos no Tibete, sobre aqueles tibetanos tão bonzinhos? Além do mais, é um resquício da Guerra Fria, e os Estados Unidos ainda brigam com a China. E, como definiu o general entreguista brasileiro (?) Juracy Magalhães, o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. A imprensa brasileira, de joelhos e mãos postas, como convém a escravos que, por ignorância, se identificam com a causa do amo que os oprime, diz amém.
NÚMERO-NOTÍCIA
A ciência triste
Antonio Fernando Beraldo
O ideal, mesmo, seria que o mundo nos deixasse em paz, aqui no nosso cantinho, brincando com nossos brinquedinhos e tocando a nossa vidinha sossegada. Mas sempre aparece um enjoado para perturbar o sossego – a começar pela mamãe. Depois vêm papai, os professores, os padres, o líder dos escoteiros, as namoradas, os colegas, vestibulares, chefes em geral, no serviço, na rua, na vida, casamento, sogra, filhos, enfim, o mundo se transforma numa espécie de big brother, com seus mil olhos todos voltados para você.
Deve ser por isto que Sartre falou que "o inferno são os outros". Conspiram contra sua auto-estima, avaliam seu carro, o lugar onde você mora, se você se veste bem ou mal, vigiam o que você come e bebe, o que você faz e que deixa de fazer e, suprema chateação, quanto dinheiro você ganha.
Isso nos coloca sempre na defensiva: a reação natural do "atingido" é contestar quem avaliou, ou a forma pela qual foi avaliado. Vem desde o tempo de criança, e, infelizmente, algumas crianças não crescem. Outras, ao contrário, adquirem maturidade suficiente para analisar a própria conduta, seus sucessos e fracassos, e enfrentar a incompreensão e a chatura alheia. Alguns chegam ao supremo estágio filosófico de admitir o erro. Destes, uns poucos raiam o dom divino de se corrigir.
Já os políticos, então, é caso perdido. Mal-acostumados ao aplauso delirante e ao puxa-saquismo desvairado, pelas próprias características de sua "profissão", acabam deixando que esta falsa "avaliação", aliada à vaidade hipertrofiada, predomine sobre tudo e todas as situações. São os maiorais, seja um vereador de início de "carreira" num buraco perdido lá no fim do mundo, seja o supremo mandatário da Nação, que nunca erra e raramente se engana. Oscilando entre o folclórico ridículo e uma perigosa irresponsabilidade, lá se vão nossos figurões da política nessa ciranda – e viva o Poder!
Esses caras estão por fora
Outro dia, apareceu de novo por aqui uma turminha de chatos, que atende pela sigla PNUD, ou Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. É uma espécie de Comissão Julgadora, feito aquela dos desfiles das escolas de samba no Carnaval, que se dedica a avaliar os países do mundo, dando notas chamadas IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. O Brasil, dizem, não fez um bom desfile, entre 1995 e 1997, e o florão da América, iluminado ao sol do novo mundo, saiu-se muito mal. Fomos injustiçados! Pior do que isso, fomos rebaixados para o segundo grupo! Estes juízes, pasmem!, nos enfiaram numa categoria de país "médio", no septuagésimo nono lugar! Tudo isso por causa de uma tal de "mudança de metodologia"... Logo nós, que éramos da primeira divisão, da turma dos países mais altos no ranking, bons tempos atrás. Maior ainda foi o desplante de nos colocar bem atrás do Chile (34o), Uruguai (40o), Venezuela (48o) e Cuba (58o) (Cuba, logo Cuba???). Chegaram mesmo à afronta de colocar a Argentina bem longe na nossa frente, no 39o lugar! A Argentina, como se sabe, é um país habitado por italianos, que falam espanhol e pensam que são ingleses. Perdem metodicamente para nossa seleção de futebol e sua única vantagem é que têm a lindíssima Buenos Aires, a capital do Brasil. Ficamos um passo à frente do Peru (80o), e bem distantes da Bolívia (112o). Isso não é consolo, uma vez que o Peru é um país estranhamente governado por um japonês, com eternos problemas de guerrilha. Já a Bolívia... bem, melhor deixar a Bolívia prá lá, tal como fez a rainha Vitória.
Voltando ao IDH, é claro que esta ofensa não ficou sem troco, não. A Nação foi galhardamente defendida por um dos nossos, o sr. Roberto Martins, presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que, presente na cerimônia de divulgação do relatório, no início de julho, não deixou por menos: manifestou o receio de que "as mudanças feitas na metodologia não sejam um aperfeiçoamento". Cheio de malícia, insinuou que o juiz estava roubando, isto é, que o sr. Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, tinha alterado as regras do jogo para beneficiar seu país de origem, a Índia (132o lugar, ali logo atrás de Myanma, Papua, Zimbábue e Guiné Equatorial).
Para completar o vexame, o presidente da República, que não perde uma chance de falar bobagem, afirmou que a nova metodologia "falseia os resultados" e que, aplicando a metodologia antiga, o Brasil teria melhorado duas posições. Ou seja, se fosse um jogo sério, o Brasil teria "saltado" do 62o para o 60o lugar, e não estaria nesse medíocre 79o. Aí, sim, eles iam ver.
A briosa mídia nacional cumpriu também seu papel. No dia da divulgação do relatório do PNUD, e nos dias seguintes, não se viu absolutamente nada que não fosse a transcrição dos números "comentados", das versões (e rompantes) oficiais. Que me perdoem se algo me escapou, mas não li, em nenhum dos grandes jornais, qualquer contribuição ao entendimento daquilo que se estava discutindo. Apenas Elio Gaspari, no domingo seguinte (Folha de S.Paulo e O Globo, 18/7/99), deu metade de sua página ao assunto. Daí por diante, foi só uma enxurrada de estatísticas desconexas, e variações em torno do IDH, que serviu até para tentar "justificar" a instalação da Ford na Bahia.
Inducação e Çaúde
Como se viu, nós fomos "garfados" a partir desse tal de IDH, invenção feita pelos gringos só para humilhar a gente. É uma estatística chamada número-índice, do mesmo tipo do índice de inflação, índice de desemprego, custo de vida, construção civil, etc. Cada número-índice tem uma fórmula de cálculo, que segue uma série de critérios no que se chama de metodologia. São fórmulas um tanto complicadas, que parecem coisas do demo, mas na verdade são relativamente fáceis de aplicar – se você tiver os dados. Assim como uma escola de samba é avaliada por uma série de quesitos (bateria, mestre-sala e porta-bandeira, harmonia etc.), o IDH leva em consideração três aspectos de um país: Educação (analfabetismo e matrículas no ensino fundamental e médio), Saúde (expectativa de vida) e Renda média (PIB per capita, corrigido). Por aí você já pode imaginar porque fomos parar lá onde paramos.
Considerando a variável Educação: o país tem, de analfabetos, 16% da população adulta (melhoramos muito: em 95, eram 16,7% de analfabetos, em 97 foram só 16% – o que dá em torno de 19 milhões de analfabetos, a partir dos 10 anos); o número de matrículas combinadas é de 80%, em 97, contra 72% da população na idade escolar em 95. Apesar desta vergonha, esses dados na Educação ajudaram muito na nossa classificação, já que tem muita gente pior do que nós – o Burundi, por exemplo. Considerando só a variável Educação, saímos do 89o lugar e fomos para o 83o lugar. Parabéns!
Na variável Saúde, não saímos do lugar, entre 95 e 97. A expectativa de vida foi de 66,6 anos para 66,8 anos. Esperamos viver mais cerca de dois meses (com sorte, dá para alcançar o Carnaval). Mas, em relação aos outros, caímos do 107o para o 109o lugar. Na Argentina – que, ressalte-se, não tem Carnaval – espera-se viver 73 anos; no Uruguai, 74 anos. Se você tivesse nascido no Japão ou no Canadá, esperaria viver 80 anos. Segundo os especialistas, nossa causa mortis reúne o pior de dois mundos: morre-se tanto de doenças do tempo do Império quanto de doenças deste final de século. Vamos da dengue hemorrágica à AIDS, passando pela tuberculose (estamos em 4o lugar no mundo, em incidência). Isto para os sobreviventes. A mortalidade infantil diminuiu muito, mas ainda não chegamos a uma taxa decente. Estamos aí pelos 40/1.000, ou 4% de mortalidade infantil, no geral. Sabe quanto é lá na Polônia? Nem queira saber.
País de gente rica
Na variável PIB/habitantes (Distribuição de Renda) nosso PIB vinha aumentando, mas é destroçado pela péssima distribuição de renda, uma das piores, senão a pior do mundo. Nosso PIB per capita, em 97, estava em torno dos 6 mil dólares. Os 20% mais ricos têm uma renda per capita 32 vezes (eu disse trinta e duas vezes) maior do que os 20% mais pobres. Em nosso torrão, temos os 20% mais pobres contribuindo com 2,5% (é isso mesmo, dois e meio por cento), enquanto os 20% mais ricos contribuem com 63,4% Aí, não dá para competir. Só para comparar com um dos "piores países ricos": nos EUA, os mais ricos ganham 9 vezes mais que os mais pobres. A nossa distribuição (?) de renda foi chamada de "perversa" por muita gente boa, mas continua piorando.
Não é questão de metodologia ou deste ou daquele índice: qualquer que seja o termômetro, nossa febre é alta, altíssima. E nunca a palavra Belíndia foi tão adequada para nosso apelido. A parte mais rica do país (Sudeste e Sul) tem um IDH de 0,86 (estariam em 28o lugar no mundo! Ao lado de ... Portugal). Já o outro lado, como é o caso do Nordeste, com um IDH de 0,61, empata com Botsuana e Gabão (124o lugar).
Triste ciência
A Estatística é muitas vezes chamada de "a ciência triste". E essas estatísticas são tristes, mas refletem nossa realidade, em números politicamente incorretos, desagradáveis. Porém, pior do que isto é querer quebrar o termômetro, virar as costas às tabelas ou mandar substituir todo o pessoal do IBGE ou do IPEA por gente "mais confiável". Ou xingar a ONU. Pode-se (e deve-se) questionar as metodologias – sem essa crítica a ciência não avança. Mas antes de dizer que fulano ou beltrano estão "falseando números", e dar "explicações técnicas" falaciosas ( a tal marquetagem a que se refere Elio Gaspari), não seria melhor parar com a grossura e com a infantilidade e dizer que, sim, temos problemas gravíssimos, que não conseguimos resolver, mas mesmo assim o país melhorou? Muito pouco (1,5% em dois anos), mas melhorou.
Na mídia, temos excelentes cronistas esportivos, comentaristas econômicos de todas as escolas e tendências, analistas políticos a dar com pau (alguns, literalmente). Temos bons cronistas do cotidiano, críticos de filmes, de livros, de música, de TV, do que há de fútil e do que há de sério nessa vida. Mas será que não há ninguém, nenhum poeta, que consiga sensibilizar outra vez nossa consciência embrutecida da realidade? A mídia assiste, imatura e despreparada, a uma catadupa de números que brotam todo santo dia dos ministérios, das ONG’s, os órgãos multilateriais, das universidades... engole aquilo tudo e simplesmente repassa aquelas tabelas difíceis de entender para seus leitores. Deve ser a tal de "rapidez na informação". Quase todas as vezes, os números são representados por infográficos (existe algum gráfico que não contenha informação?), que as editorias de arte capricham na inventividade – um horror. Daqui a pouco vem à luz o relatório do Bird, sobre a pobreza. Vai ser outra festa.
Depois desse porre de números, vem a ressaca, que é a perda de um sentido chamado ordem de grandeza. Perde-se o referencial de comparação, já que não se sabe mais o que é um milhão ou um bilhão. Em termos de dinheiro, vá lá. Depois de uma série de planos econômicos, mudanças de moeda e de décadas de inflação, essa perda do referencial até que se explica. Mas, para outras coisas e grandezas, a capacidade de nossa apreensão da realidade é quase nula. Os números, de tão grandes, perderam o peso e a força de expressão, tornaram-se cifras pelas quais passamos os olhos, indiferentes. A mídia é, em grande parte, responsável por essa banalização. Além da inexistência de explicações do porquê dos números, que é mais importante do que o número em si, a mídia se acomodou. Fica apenas na transcrição da matemática oficial, refém das declarações dos ministros e dos executivos, daqui e de lá de fora. Do jeito com que trata os números (e as imagens destes), só faz ajudar na anestesia geral dos leitores. Os jornais não escrevem mais 1.000.000, escrevem 1 mi. Um mi? Ora ...
(*) Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora
PRECONCEITO
Por que Diadema?
Paulo Lotufo (*)
A Folha de S.Paulo (15/8/99) estampou a manchete "Diadema é a cidade mais violenta do país." Nas páginas internas, descrevia-se estudo do Ministério da Saúde divulgado pela Internet. Este estudo mostrava que entre as regiões metropolitanas, Vitória, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro apresentam as maiores taxas de mortalidade, porém quando somente municípios foram analisados, Diadema teve a maior taxa de homicídios. Um reparo à matéria é que o dado apresentado refere-se ao local de residência, ou seja os habitantes de Diadema são as vítimas mais atingidas, mas não necessariamente há mais homicídios na cidade de Diadema. Se por um lado não se pode exigir do jornalismo a precisão e a qualidade que se exige da epidemiologia, por outro deve-se criticar o jornal que destacou a cidade em manchete.
Este é o tipo de manchete que propaga uma informação que será repetida e multiplicada, na televisão e no rádio, criando enorme carga de preconceito contra a cidade. Sim, preconceito contra localidades, que é tão lesivo quanto a indivíduos, raças e credos. Será fácil entender que médicos, professores e policiais, caso possam, optem por não trabalhar naquela cidade, em hipotético concurso público, ou que não atendam o chamamento da prefeitura para abertura de vagas. Também empresários que poderiam investir na cidade, por exemplo, tenderiam a mudar seu empreendimento para outro local.
Nos Estados Unidos, a atitude discriminatória contra algumas cidades foi marcante: Gary (Indiana), Flint (Michigan), Cleveland (Ohio), além do bairro do Bronx, em Nova York. O exemplo de Gary é muito semelhante ao de Diadema. Situada na região metropolitana de Chicago, mas no estado vizinho de Indiana, sofreu com desinsdustrialização, mas não se beneficiou com a reconstrução de Chicago. E o estado de Indiana nunca se importou com uma cidade que quase pertence ao estado de Illinois.
Semelhante foi o exemplo de Flint. Berço da General Motors, foi esvaziada nos anos 80 com o fechamento de quase todas as fábricas da cidade. A taxa de homicídios aumentou muito, porém a saída dos habitantes foi tamanha que sobraram poucos para serem assaltados. Diadema tem paralelo com Flint. Afinal, a desintrustrialização da Grande São Paulo (Zona Sul e ABC) encontrou em Diadema seu lado mais fraco. Interessante como a imprensa criminaliza facilmente o tráfico de drogas, mas faz corpo mole com a indústria automobilística, sempre saudada como exemplo de progresso – vide o recente episódio Ford-Bahia –, mas raramente condenada pelo caos social que provoca, como ocorreu na Ford-Ipiranga (cujo fechamento se refletirá em Diadema).
A quase destruição das cidades americanas (Detroit, Baltimore, Boston, Cleveland, Buffalo) só não foi adiante porque as comunidades locais se empenharam na recuperação. Para tanto se necessita que a imprensa aja sempre pensando na recuperação urbana, e não no denuncismo inconseqüente e preconceituoso como o apresentado nesta manchete.
(*) Médico e professor da USP, vive atualmente em Boston (EUA). Nasceu e cresceu no bairro paulistano do Ipiranga mas nunca trabalhou, morou ou tem qualquer contato ou interesse em Diadema
IMPRENSA CAPIXABA
Jornalismo da violência
Victor Gentilli
A cobertura da violência na região metropolitana de Vitória – o maior índice de violência do Brasil (manchete da Folha de S.Paulo no domingo, 15/08/99) ainda está na idade da pedra.
- Tem o status de editoria própria, enquanto saúde, educação, meio-ambiente, transportes e outros problemas urbanos dividem uma mesma editoria.
- Com raríssimas exceções, limita-se a transcrever os boletins de ocorrência. Quer dizer, oferece ao leitor apenas uma versão, a da polícia, que sabemos envolvida nos casos.
- Não publica o que sabe e não pratica jornalismo investigativo. Sequer o jornalismo de antecipação.
- O jornalista jamais noticia o que apura, se não há uma fonte que o diga com todas as letras.
Se o jornalismo policial capixaba perder o medo (patronal, é bom que se diga) e correr atrás da informação e publicá-la, dará uma enorme contribuição para diminuir a violência.
Há cerca de três anos, o maior jornal do Espírito Santo envolveu-se judicialmente ao insinuar que o Tribunal de Justiça e a Assembléia Legislativa tinham conexões com o crime organizado. Eis o momento em que a coragem se esvaiu.
O FIM DO MUNDO
A Band extrapolou
Alberto Asfora (*)
Após a saída de Paulo Henrique Amorim, a Bandeirantes começou a deslizar feio na escolha de reportagens apresentadas como "especiais". Primeiro, "provas" do pouso de Ovnis na Rússia há alguns meses. Depois, extrapolou, com uma série sobre profecias do fim do mundo. A edição, digna do Linha Direta, destacava as "profecias". Não contente, na semana do eclipse [8-14/8/99] a Band começou uma série sobre gravações em vídeo e áudio de fenômenos espíritas. Muita especulação e várias declarações de "cientificidade", mas nenhuma explicação sobre como seriam feitos tais experimentos.
Isso é desserviço, na melhor das hipóteses. Com um pouco mais de rigor, pode-se acusar a emissora de mau jornalismo, ainda mais em agosto de 1999, mês e ano em que os paranóicos estão devidamente excitados.
No jornal onde trabalho fomos inundados por telefonemas e e-mails de leitores com medo do fim do mundo. O flanelinha da esquina perguntou se era verdade. Uma velhinha ligou, apavorada, dizendo que havia visto no canal TNT (que praticamente só passa filmes) que meteoros haviam caído simultaneamente em Nova York, no Japão e "em um país da Europa de que não lembro".
Band, por favor!!! A população brasileira é historicamente carente de formação e informação. O momento é de esclarecimento, não de estímulo à paranóia.
Abaixo, para exemplificar a maluquice geral, transcrevo mensagem que um leitor enviou ao meu jornal:
"A Índia, país com pouco mais de 1/3 do território brasileiro, completa 1 bilhão de habitantes nesta semana. Um em cada 6 moradores do planeta está lá. A quantidade de indianos triplicou em 50 anos. Nesse ritmo, em alguns anos ultrapassa a China (1,2 bilhão). Essa multiplicação populacional é apenas parte de um problema planetário. Mas nem por isto o mundo vai acabar. Já enfrentamos problemas piores, e sobrevivemos.
Ao longo da vida, aprendi que a expectativa negativa é o primeiro passo para a catástrofe. O medo gera uma energia ruim que atrai mais e mais negativismo. Por sintonia, cada um atrai seu clima espiritual. O que alguém pensa, sente e faz em seu dia-a-dia determina seu bom nível ou não.
O mundo está cheio de pessoas encrenqueiras. E também está cheio de pessoas muito boas. O problema é que as pessoas boas, por respeito aos demais, têm o hábito de não fazer barulho. Muitos se aproveitam do silêncio para fazer barulho com 2ªs, 3ªs, 4ªs, 5ªs intenções... A ‘Essência Criadora’ está dentro de todos os seres. Quem ‘A’ percebe nos seres e nas coisas ri bastante, segue trabalhando com firmeza e confiança. Não se abala com profecias e ‘coisas’ do gênero, sabe que tudo é relativo e que o amor interpenetra tudo e todos e prevalece sobre o maior dos barulhos.
Mas há espíritos ‘pesados’ que se alimentam exclusivamente das energias geradas pelo medo. Imagine o banquete que é todo esse pessoal preocupado com o fim do mundo. Vejamos os fatos:
FATO astronômico à Nestes meses de julho e agosto há uma incomum configuração estelar. Os planetas formam quadraturas (ângulos de 90º) e oposições.
FATO astrofísico à Os corpos celestes possuem campos magneto-gravitacionais (fato comprovado), os campos interagem uns com os outros e suas forças se somam dependendo das configurações. Esse ramo da ciência evoluiu muito em razão das viagens interplanetárias, em que variantes dessas energias repercutem nos resultados. By the way, descobri por que não canso de assistir a Armageddon... O filme conta a história de um ‘errado’ que ‘deu certo’. Este e outros filmes dão uma idéia de como funcionam essas forças magneto-gravitacionais.
FATO estatístico à Configurações planetárias de quadraturas e oposições estão inegavelmente associadas a grande tensão. Há diversos locais no mundo em que faculdades dedicam-se a estes estudos, demonstrando que todos os momentos de tensão histórica aconteceram associados a tais configurações.
LENDAS antigas à Diversas escrituras antigas como a Biblia, escritos maias, Hopy, Nostradamus e outros referem-se, direta ou indiretamente, a um período crítico em julho/agosto de 1999. Segundo estudiosos das profecias de Nostradamus, este período que atravessamos seria o único a que ele se refere expressamente indicando data. Nostradamus escreveu suas profecias numa época em que bruxos e adivinhos eram carbonizados em fogueiras. Para esconder a natureza de seus escritos, os redigiu na forma de poemas, e utilizou três línguas, carregadas de expressões de outras tantas, criando dificuldades de interpretação. Mas somente em um único momento correu o risco de deixar expressa referência a uma época específica. A propósito, um dia a história fará justiça a Nostradamus como sendo quem preveniu o mundo moderno a impedir a expansão do fanatismo religioso do Oriente Médio, cortando o mal que adviria de seu crescimento bélico (IIIª World War).
FATO astrofísico à O ponto máximo – em termos de energias planetárias, não necessariamente em efeitos – será dia 11 de agosto, quando haverá um eclipse solar.
FATO social à Profecias interpretadas sem auxílio da dualidade despertam nas pessoas medo, e todas espécie de expectativa negativa. Todas as pessoas que utilizam a interpretação astrológica são unânimes em afirmar que essa configuração, conjunção de Sol e Lua em Leão (1), oposta a Urano ingressando em Aquário (2), enquanto, formando ângulo reto, Saturno está em Touro (3) e Áries em Escorpião (4), implicam predisposição, isto é, energias voltadas para educação e desenvolvimento individual (1), mas com consciência do coletivo (2) e responsabilidade para a Terra, os cuidados de que o planeta necessita (3) e necessidade de investigar o ainda não conhecido (4).
As pessoas necessitam compreender que essa tensão planetária, corretamente direcionada, impulsiona profunda transformação, evolução, pessoal e coletiva, propiciando a redescoberta de valores que começavam a ficar em segundo ou terceiro planos. Permitirá que a humanidade, em conjunto, supere a tendência atual, e se liberte em direção a valores mais espirituais, com relativo desprendimento dos valores materiais e atingindo uma compreensão mais profunda do que é a vida – preparando-nos para o fascinante mundo que está por vir.
Vocês são FORMADORES DE OPINIÃO e têm a responsabilidade de espalhar essa compreensão da energia positiva que a dualidade propicia. Não deixem ninguém se apavorar... O mundo não vai acabar, mas evoluir. Esclareçam as pessoas, passem adiante esta mensagem que escrevo inspirado na Caminhada de Compostela."
É mole?
(*) Foca
A farsa acabou
Ed Wilson Araújo (*)
A farsa do fim do mundo acabou, deixando um rastro de frustração para uns e a sensação de desejo realizado para outros. Nesta condição, os donos da mídia (a televisão principalmente) alimentaram até os últimos segundos a profecia de Nostradamus, transformando-a num celeiro de fabricação de espetáculos midiáticos de idiotização do público.
Em vez de orientar e esclarecer a população sobre a falsidade das profecias, explicando o fenômeno do eclipse, a mídia prestou um desserviço à sociedade, estimulou a tensão, provocou a dúvida, expôs pessoas ao ridículo numa abordagem tacanha e grotesca do fenômeno.
Na "cobertura" do eclipse, a mídia patrocinou um espetáculo de mediocridade e exemplo de mau jornalismo. Resultado: antes do apagar das luzes, três pessoas se suicidaram no Piauí. Mesmo que não haja relação de causa e efeito entre o eclipse e os suicídios, a tragédia poderia ser evitada se a mídia cumprisse somente uma de suas funções: informar. Mas preferiu substituir a cobertura jornalística pelo espetáculo, passando ela própria a assumir o palco do circo em que se transformou (principalmente) a TV.
Já que o mundo não acabou, resta proclamar o fim dessa mídia que se lambuza de Mister M, Tiazinha, Sasha e sushi erótico.
Aos que acreditam e lutam para que um dia, não muito distante, os meios de comunicação sirvam para o crescimento do ser humano, desejo um ano 2000 repleto de boas notícias. E que as más não sirvam de motivo para a corrida desesperada pelo pódium da audiência.
(*) Jornalista de São Luís, MA
ASPAS
TT Catalão
"Há milhares de anos que o homem mira o céu. Espantoso como ainda se admira o fenômeno natural de um eclipse. A diferença agora é que o espetáculo tem marketing para faturar natureza e mídia para alimentar a quase histeria que foi esse tal de ‘fim do mundo’
Os 56 blocos de Stonehenge, que há mais de 4 mil anos desafiam o conhecimento ao norte de Salisbury (Reino Unido), talvez seja o marco mais significativo da ciência unindo observação racional e magia. Tanto tempo depois nada disso valeu na cobertura de circo que se armou para a farra do fim. A TV, com sua manipulação digital, liderou a festa, foi a grande sacerdotisa. A malvada comedora de criancinhas ao levar tantos pequeninos ao quase pânico.
(...) Se considerarmos a falta de ferramentas científicas e a dominação de castas sobre a inteligência no passado, daria até para tolerar mistificações sobre eclipse e tragédias. Mas hoje? Tivemos a mídia para substituir o charlatanismo e fazer o povinho tremer e balbuciar frases desconexas. A mídia em seu faro de show jamais obteria ‘notícia sensacional’ com reflexão. Não abordaria o fim do mundo, por exemplo, pela seguinte ótica: quando se mata a natureza de todos os dias, o mundo morre aos pouquinhos. Ou: quando se desrespeitam os direitos humanos básicos de uma pessoa ou um grupo social a raça humana inteira estaria ameaçada. É exigir muito para o noticiário – mercadoria que se retroalimenta como produto.
A irresponsabilidade que presenciamos recaiu principalmente sobre as crianças. Nem a sordidez dos ratinhos livres causou tanto estrago deflagrado pelas fúteis imagens editadas sem consideração com a concepção crua, direta e limpa da galerinha. Crianças que não contavam com familiares mais esclarecidos, ou professoras abnegadas que dramatizaram o problema ficaram muito angustiadas pela possibilidade de um fim do mundo mesmo! Não entendiam como piadinha. E nada parecia indicar ser uma piada. Havia montagens, ‘autoridades’, ensaios, enquetes que, para muita gente, soavam sérias.
Considerando o alcance da TV na faixa mais excluída do povo, vejam o quanto de carga negativa foi acumulada junto à dose cotidiana de miséria, fome, violência, degradação e desrespeito que essas crianças sofrem. Nossa mídia funcionou como mistificadora, quase como o historiador da Grécia antiga Tulcídides, que acreditava que, depois dos eclipses ‘o mundo sofria devastadores terremotos’.
Ao perceberem o pânico infantil, seguraram a onda alarmista, mesmo irônica, e racionalizaram o noticiário. E daí? Criança tem percepção concreta e não se distancia muito diante de uma alegoria ou metáfora. Entendem na veia. Vejam o personagem Calvin dos quadrinhos que, quando ouve gírias tipo ‘Papai deu no pé’ realiza, em sua cabeça, o pai espancando os dedos, e não o pai fugindo de uma situação. Há criança que tem medo de ser sugada pelos ralos, acha que o sol não vai voltar depois da noite, que a mãe não virá buscá-la no fim da aula etc. O fim do planeta foi jogado sem o menor critério. Foi a mais flagrante mostra de que mídia não é educação. Nem quer ser isso.
Nossa mídia agiu como tribos orientais que soltavam fogos para ‘expulsar a sombra sobre o sol’ ou espantar ‘o dragão que comeu o dia’, como revelam textos sagrados da dinastia imperial chinesa. Recuamos séculos fazendo o papel, no tantantan parabólico de egípcios que acreditavam na serpente Apep (Senhora dos Mortos) engolidora do barco solar do deus Ra.
Foi a demonstração nociva de uma tardia Idade Média high-tech, revelando a mídia como controle e submissão manipuladora. Ao ficar escrava do entretenimento e ter pavor à contextualização e análise das notícias, os modernos aparatos tecnológicos – onde até a ferramenta Internet se insere – não passaram de bufões assustados como a lenda boliviana do Cão de Sangue, que renasceria no eclipse para devorar humanos ou as antigas crendices iugoslavas sobre vampiros do juízo final. Caímos no final de juízo irracional.
(...) Mas 2025 vem aí e o show não pode parar! Tomara que as crianças do próximo século já vivam em outro mundo, sem ignorância. Este sim um mundo obscuro em crônica eclipse. A sombra mais perversa sobre a humanidade. Embora pareça tão moderninho com TVs alta definição, coberturas online, impressões magnetizadas etc. e tal."
"A farra do fim", copyright Correio Braziliense, 15/8/99
Carlos Heitor Cony
"Não tenho certeza, mas acho que, como todo mundo, já corri alguns riscos ao longo da vida. Nada de trágico até aqui, o que não chega a ser vantagem. Pouco me arrisquei, nunca ateei fogo às vestes, não me atirei do alto do Corcovado e tenho como saudável norma de vida evitar a culinária baiana. Mesmo assim, fiquei preocupado quando, na segunda-feira, cheguei em casa à hora em que a cozinheira, o motorista e a faxineira almoçavam na copa.
Surpreendi a conversa desses amigos que são parte do meu cotidiano e me ajudam a viver e não a morrer. Falavam sobre o fim do mundo. Bem mais informados do que eu, que não ouço rádio e só leio nos jornais o que não me interessa (política, arte, economia e outras inutilidades).
Eles estavam preocupados com o noticiário de algumas emissoras, dessas que varam a noite dando conta de tudo o que acontece ou deixa de acontecer. O motorista chegou a perguntar se devia mesmo encher o tanque para o resto da semana, segundo ele, a gasolina devia dar até o dia fatal que aguardava o mundo.
Pois fiquei sabendo que este mesmo mundo estava mais uma vez para acabar, acho que na quarta-feira ou mesmo na sexta, que é data lúgubre, sexta-feira 13 – e de agosto ainda por cima. Não sei se a previsão nasceu dos búzios de um pai-de-santo ou de sofisticada equação de algum cientista. Como sempre, há um versinho de Nostradamus que serve para qualquer catástrofe ou até mesmo para nenhuma catástrofe.
O fato é que o planeta Terra iria se desintegrar, ou pelo impacto de um gigantesco asteróide ou pela explosão de suas entranhas que vomitariam fogo em cima de todos nós. Como sempre, também, a Lua estaria envolvida nisso, a mesma Lua que Puccini chamou de ‘amante descorada dos mortos’.
Não chega a ser novidade essa história de fim do mundo. Em criança, ouvi e dei crédito à mesmíssima profecia. Minha mãe chegou a fazer um estoque de velas bentas na matriz de Nossa Senhora da Guia, velas abençoadas por frei Tiago Mattioli – um frade da Ordem dos Servos de Maria, nascido em Cremona, terra de Stradivarius –, que faturou horrores à custa da desgraça universal anunciada num jornal radiofônico que tinha como patrocinador o colírio Moura Brasil (duas gotas, dois minutos, dois olhos claros e bonitos).
Diziam que somente as velas bentas dariam luz para iluminar os três dias que antecederiam o cataclismo final. Aproveitaríamos esses dias para fazer, como os artistas de teatro, um laboratório do fim do mundo, dedicando-os às despedidas, pedindo desculpas ao próximo e perdão ao Todo-Poderoso.
O mundo não acabou naquela ocasião, ele não continuou melhor do que era antes. Pelo contrário, agravou seus pecados. E também não acabou desta vez –o que é pena.
Já que a morte individual é certa, morrer de fim de mundo tem duas atrações suplementares. Primeira: o espetáculo em si, que seria literalmente o ‘maior espetáculo da Terra’ sem produção de DeMille e sem direção de Spielberg, excelente garantia de bom gosto. Nem mesmo os fazedores de efeitos especiais do cinema e da TV seriam capazes de produzir o show final.
Segunda e a mais importante atração: o mundo acabando, nada teríamos a fazer, de maneira que não haveria mais história, nem manhãs, nem tardes, nem flores brotando, nem mulheres, nem prazeres.
O chato da morte individual é que a gente vai embora mas os outros continuam. Exemplo: Napoleão, que foi o homem mais poderoso de seu tempo, nunca acendeu uma lâmpada elétrica, nunca usou um aspirador de pó, nunca ouviu a dupla Leandro e Leonardo nem se comoveu com o primeiro aniversário da filha de Xuxa. O fim do mundo globalizado e instantâneo nos tornaria absolutos, como aquele rei da França que dizia: ‘Depois de mim, o dilúvio!’
É famosa a passagem da vida de São Luiz Gonzaga, muito lembrada nos conventos e prostíbulos. O filho de Branca de Castela estava no recreio, jogando um troço qualquer, quando lhe perguntaram o que faria se o mundo fosse acabar naquele momento. O santo respondeu: ‘Continuaria fazendo o que estou fazendo agora’.
Falei acima que o exemplo do protetor da castidade de todos nós é sempre lembrado nos conventos e bordéis por óbvios motivos. Nos conventos, para que todos continuem a guardar a castidade. Nos puteiros, para que todos continuem pecando contra. O fim do mundo não deve prejudicar essas coisas.
Tomei informações para saber se o mundo desta vez acabaria mesmo. Telefonei para o Janio de Freitas, para o Ruy Castro e para meu irmão mais velho, cujo mundo acaba toda vez que o Flamengo perde. No dia seguinte, li os jornais. Ou deu bobeira geral na turma e foram todos furados – o que não chega a ser raridade – ou tudo continua na mesma. Com uma novidade apenas: na impossibilidade de acabarem com o mundo, ACM e FHC querem acabar com a pobreza."
"Fim do mundo mais uma vez adiado", copyright Folha de S.Paulo, 13/8/99
João Carlos Ferreira da Silva
"O mundo não acabou na quarta-feira [11/8/99], como todos já sabiam que não iria acabar. Assim, segue tudo na mesma: o Brasil com seus problemas, a vida com seus altos e baixos e a mídia com sua imbatível capacidade de valorizar qualquer disparate. O comportamento da mídia, os últimos dias foram fartos em demonstrar como pode ser frívolo e irresponsável. Nenhum dos jornalistas com comentários supostamente sérios sobre a possibilidade de fim do mundo acreditava nisso; todos sabiam que as tais profecias de Nostradamus já haviam sido desmentidas inúmeras vezes, que a correta observação do calendário seria suficiente para invalidá-las, que o eclipse é fenômeno bonito, impressionante, mas absolutamente natural, independente de anticristos e previsões em linguagem cifrada. Por que, então, ao invés de agir de forma coerente com o conhecimento que têm, transformaram a incerta profecia em possibilidade concreta, trataram de divulgá-la, enfeitá-la, colocá-la no centro de discussões aparentemente profundas (embora espertamente conservando um sorrisinho nos lábios, como defesa contra o ridículo)?
Talvez aleguem que colocar frente a frente astrônomos e recém- descobertos astrólogos para debater o eclipse, é sinal de abertura intelectual. Mas não é, pelo mesmo motivo que num trabalho jornalístico não se coloca frente a frente um médico diagnosticando uma verruga e um místico que prefere enxergar naquele pontinho estranho uma gravíssima doença, só combatida por suas poções milagrosas. Pode-se aceitar que alguém prefira obedecer a sua intuição e não ao conhecimento científico, mas não há muito o que debater num caso desses: se o programa for sério, acaba com a primeira explicação do médico; se não for, a dúvida que provocar poderá trazer prejuízos reais a pessoas menos esclarecidas.
Talvez aleguem que não só a mídia brasileira embarcou nessa canoa. É possível. Mas, se quisessem seguir exemplos estrangeiros,poderiam começar pelos bons. Já está gasto o velho golpe de citar com ar de nojo os ‘tablóides sensacionalistas ingleses’ para, em seguida, usar seus textos e imagens. O que há, na realidade, é escassa ética profissional, aliada ao costume dos nossos meios de comunicação de jamais ‘ficar atrás’: se um levanta a lorota do fim do mundo, todos logo aderem ao tema, com medo de não parecer suficientemente modernos. Já vimos, assim, a cobertura exagerada das mortes de Diana e John John, o entusiasmo na revelação dos encontros sexuais de Clinton, a idolatria da filha de Xuxa (que, aliás, recebeu da mesma mídia um espaço para responder – com razão – ao ministro da Saúde jamais oferecido a pessoas não alinhadas com o pensamento dominante). Nada disso mereceria tantas páginas, palavras e imagens fartamente gastas em jornais, rádio e TV; mas, como não publicar, se o concorrente está em cima do assunto?
De qualquer jeito, o mundo não terminou, embora, como foliões resistentes, os comunicadores tenham mostrado intenções de estender o ‘carnaval’ além da quarta-feira. Claro, agora juntando ao sorrisinho irônico certo ar de superioridade intelectual, como o do apresentador da Globo que encerrou o noticiário da manhã do eclipse garantindo: ‘Nesta edição, você ficou sabendo que o mundo não acabou’. Ufa, que alívio! Então tudo segue em frente, a vida continua! Fim do mundo, por enquanto, só a nossa mídia..."
"Foi o fim da picada", copyright Correio Braziliense, 15/8/99

Má notícia é boa notícia
Xuxa e o capitalismo
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