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TIMOR LOROSAE
A mídia deixou o palco
Marinilda Carvalho
Em 3 de setembro, um telegrama das agências de notícia causou surpresa: a mídia estava deixando Timor Lorosae.
No dia 4, quando a ONU anunciou o resultado do referendo de 30 de agosto – em que os timorenses preferiram a independência em vez da autonomia sob bandeira indonésia –, Miguel Frau Rovira, correspondente da agência espanhola EFE, fez longa e triste matéria [ver abaixo, no Aspas] confirmando a retirada e lamentando ter que ir embora. Ele usou pela primeira vez em Timor, que eu visse, a expressão "massacre sem testemunhas" para falar da carnificina anunciada – e cumprida – pelas milícias paramilitares pró-Jacarta.
As TVs européias tinham seu equipamento empacotado no aeroporto de Díli, a capital, aguardando vôo fretado. A BBC chamara de volta seus oito profissionais. Televisión de España retirou a repórter Rosa María Calaf e o câmera neozelandês Martin O’Sullivan. Sairiam também Gonzalo Aragones, de Cambio 16, e Juan Manuel Cuellar, de Cover. O jornal espanhol El País mandava seu correspondente Javier García para perto (Dempasar, na ilha de Báli), mas também o tirava de Timor.
Era 6 de setembro e 250 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas já haviam abandonado a ilha. A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) divulgara alerta geral recomendando que a mídia deixasse a região por absoluta falta de segurança. Em 9/9/99 restavam 23 correspondentes em Timor, todos abrigados no prédio da Unamet – a missão da ONU em Díli, a capital. Com vínculo empregatício, apenas quatro portugueses: Luciano Alvarez, 38 anos, do diário Público; Hernâni Carvalho, da Rádio e Televisão Portuguesa; José Vegar e Jorge Araújo, dos semanários Expresso e Independente. Os demais eram jornalistas free-lance, esse exército da reserva que sustenta a mídia no mundo. No dia 9, pouco antes da retirada da maior parte do efetivo da própria Unamet, três jornalistas (dois indonésios, um timorense) se abrigaram no prédio, vindos do interior. Eles contaram que tentaram chegar a outras cidades. "Mas está muito perigoso", disse um deles. Naquela madrugada, todos embarcaram em vôos de resgate para Darwin, na Austrália.
"Quem quiser permanecer em Díli vai ter que se hospedar em outro lugar. Aqui na sede não fica", decretara Ian Martin, o chefe da missão das Nações Unidas. Luciano Alvarez mandou matéria [ver abaixo] ao Público contando que soube depois o motivo de tal intolerância: ativistas da causa timorense que se faziam passar por jornalistas estavam pondo em perigo toda a missão. Como não era possível tirar uns e não outros, todos tiveram que sair.
Parênteses: é possível que um destes ativistas seja Allan Nairn. Em 1991, ele foi um dos americanos feridos no Massacre de Díli – como ficou conhecido o banho de sangue promovido pelas tropas indonésias no Cemitério de Santa Cruz, quando foram executados 300 jovens, entre os milhares que acompanhavam o enterro de um militante independentista. Um companheiro de Nairn filmou as cenas, que correram mundo. Em novembro de 1994, as autoridades indonésias o proibiram de viajar a Timor. Em março de 1998, ele foi expulso da Indonésia por ter criticado numa entrevista o apoio de Washington a Jacarta.
Nos últimos meses, Nairn trabalhou para vários veículos de comunicação. O último era The Nation, semanário nova-iorquino.
Pois Allan Nairn está desaparecido, segundo matéria da agência EFE, de 15/9, transmitindo denúncia do Instituto Internacional de Imprensa, em Viena. Detido pela polícia indonésia em Díli, não mais foi visto.
Difícil entender a debandada geral dos jornalistas de Timor. A mídia sempre foi a última a sair dos locais mais perigosos – e o número de jornalistas mortos em ação o comprova. Na redação disseram que isso acontecia nos "tempos de glória da imprensa".
Não sei dizer em que momento terminaram esses "tempos", que não considero de "glória", mas de exercício de uma profissão hoje em decadência por muitas razões. Sou capaz de jurar que o tal "ativismo" modus in rebus não é a principal. Vietnã, Indonésia, Oriente Médio, Camboja, Afeganistão, Nicarágua, Guatemala, El Salvador, Ruanda, Angola, Bósnia, Chechênia, Kosovo (devo ter esquecido dezenas de guerras, o esporte que supera a F-1 em patrocínio), em cada caldeira do diabo havia repórteres registrando.
Eu, que daria quase tudo para estar em Timor, não faço, entretanto, aqui do meu bem-bom no Rio, um julgamento de colegas. Só queria entender. Devorei a tela do cinema vendo Peter Arnett (Mel Gibson) em O ano que vivemos em perigo (1982, sobre o genocídio na Indonésia em 1965) e Sydney Schanberg (Sam Waterston) em Gritos do silêncio (1984, sobre o genocídio no Camboja em 1975). Vocês hão de dizer: "Eles também saíram". É verdade. Acrescento que em 1996 foram registradas 49 mortes de jornalistas. Em 1997, 55; em 1998, 50 (dados da FIJ, que incluem brasileiros). A maioria morreu por ter feito denúncias em tempos de paz. Não estavam cobrindo guerras. Não quero que ninguém morra, Deus me livre! Não é à toa porém que antigamente tinha sempre alguém dizendo: "Quem não gosta do inesperado na profissão de jornalista que vá ser bancário." (Hoje não dá mais, os bancários são vítimas freqüentes de assaltantes.)
Disse lá em cima que todos deixaram Díli. Todos, menos três. Mas só tenho o nome de um: Irwan Firdaus, da Associated Press. Nada sei a respeito dele. Por que ele ficou, sem qualquer apoio, sem Unamet, sozinho com seus medos e o celular móvel conectado ao laptop?
Uma das matérias que mais me impressionaram sobre jornalistas – na época até capturei do JB Online para guardar – foi "Profissão de risco em todo o planeta", de 3 de maio de 1996. Era assinada pelo veterano correspondente da AP no Líbano Terry Anderson, que ficou sete anos como refém do Jihad Islâmico. Disse ele:
"Se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa [3 de maio] significa para você o New York Times ou os papéis do Pentágono, ou então seu jornal local lutando contra o conselho municipal, tudo bem. Mas para mim sempre significará K. C. Hwang reportando para a Associated Press da antes autoritária Coréia do Sul; e Fred M’membe, editor do maior jornal de Zâmbia; e Ahmad Taufik, presidente do sindicato independente dos jornalistas da Indonésia, e muitos, muitos outros. Cinqüenta e um jornalistas foram mortos no desempenho de suas atividades no ano passado. Eu os saúdo e às centenas que se encontram nas prisões e a todos que trabalham diariamente com o conhecimento de que podem ser os próximos."
Era isso que eu queria dizer.
Massacre anunciado
M. C.
Num exemplo da dimensão que pode assumir o papel da imprensa, o maior dos escândalos em Timor Lorosae, depois dos massacres, ainda não explodiu. Contaram a história Sydney Morning Herald, Sunday Times, Público, Le Monde, Libération (o Jornal do Brasil reproduziu). Mas o assunto não prosperou, de tão delicado que é.
O repórter americano Thom Fawthorp, que saiu de Timor na última leva, revelou em Darwin (Austrália) ter provas de que a ONU sabia antes do referendo (30 de agosto) que haveria o massacre e que Díli seria destruída. Ele obteve e repassou à Unamet quatro documentos – o primeiro de 10 de julho, dando conta de que partidos pró-Jacarta estavam armando as milícias. Os papéis descreviam os planos, o número de armas, os nomes das milícias, a área de atuação de cada uma, tudo. Os observadores militares da ONU confirmaram.
A ONU ignorou os relatórios e preferiu acreditar "nas boas notícias sobre a cooperação do Exército da Indonésia" [ver texto abaixo]. Logo a Indonésia, aquele bastião da tortura e do genocídio, que em 1965 matou entre 500 mil e 1 milhão de seus próprios cidadãos a pretexto de que eram comunistas!
Resultado: a ONU abandonou uma Díli devastada. E também centenas de milhares de timorenses, que acreditaram em suas garantias de paz. [ver abaixo]
Depois criticam a imprensa, que – alegam – não entrega seus segredos para não estragar o furo.
À sombra das grandes potências
Luiz Roberto Guimarães da Costa Júnior (*)
A história de Timor Leste é muito interessante e merecia mais espaço na imprensa. Esta, entretanto, procura apenas passar o consensual à opinião pública mundial: a defesa da autodeterminação do povo timorense, que é justa.
Na Segunda Guerra Mundial morreram 60 mil timorenses orientais. Esta heróica resistência ajudou a impedir que a Austrália fosse invadida pelo Japão. No início da década de 1970, surgiu um movimento anticolonialista em Timor Leste. Como reflexo da Revolução dos Cravos em Portugal, em agosto de 1975 os portugueses abandonaram a ilha. A Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), de orientação marxista-leninista, declarou independência, que durou uma semana: a Indonésia invadiu Timor Leste em dezembro de 1975 e o anexou como sua 27ª província, um ano depois. Estados Unidos e Austrália apoiaram a invasão para impedir um enclave "comunista" naquela área justamente após o fim da Guerra do Vietnã. Ambos os países forneceram armas, em distintos períodos, para os combates que resultaram no genocídio de 200 mil timorenses. A Austrália reconheceu como legítima a ocupação (a ONU, não), e assinou o Tratado de Timor de 1989 com a Indonésia, de olho no petróleo de Timor Leste.
Xanana Gusmão foi preso e condenado em Jacarta. Timor Leste continuaria esquecido se não fosse o massacre de Díli, em 1991. As tropas da Indonésia mataram duas centenas de civis, mas cometeram dois "erros": permitiram que uma câmera filmasse tudo e depois espancaram dois repórteres americanos. A causa de Timor Leste reapareceu: o mundo viu as cenas do massacre e a agressão a dois americanos.
Começaram a ganhar projeção o bispo Carlos Filipe Ximenes Belo, que participou do resgate aos feridos no massacre, e o ativista político José Ramos-Horta, exilado em Portugal e na Austrália, líder independentista que cortara ligações com o movimento guerrilheiro e buscou apoio internacional para um plano de paz para a região. Ambos receberam o Nobel da Paz de 1996, apesar dos protestos da Indonésia. A comissão norueguesa que julga os candidatos ao Nobel da Paz destacou a luta de ambos e descreveu o regime imposto aos timorenses como uma "opressão sistemática".
Em maio de 1998 chegavam ao fim os 32 anos de governo ditatorial do general Suharto, na Indonésia, em meio a profunda crise econômica, saques e manifestações contra o regime. Entre 14 e 20 de agosto, ocorreu a histórica Conferência de Sydney: o Fretilin do comandante Xanana Gusmão abandonou o marxismo-leninismo da via revolucionária e adotou a via reformista para chegar à independência, defendendo um governo de unidade nacional e definindo bandeira e hino a serem adotados.
O novo governo de Jacarta, capital da Indonésia, estava nas mãos do vice-presidente B.J. Habibie, pupilo do ditador Suharto e elevado à condição de presidente. Em 5 de maio foi assinado acordo intermediado pela ONU entre Indonésia e Portugal para a consulta popular de 30 de agosto sobre a independência. Habibie acabou convocando o referendo sem prévia aprovação do Congresso e muito menos do Exército (que controla o poder político na Indonésia há décadas), visando conseguir apoio internacional para a eleição presidencial marcada para novembro de 1999. O comparecimento às urnas chegou a 99% dos eleitores. O projeto indonésio de ampla autonomia para a província foi derrotado pela proposta da independência, por 78,5% dos votos.
A Indonésia necessita de apoio financeiro internacional para superar a gravíssima crise econômica, e, portanto, permitiu no domingo, 12 de setembro, que uma Força Multinacional de Paz da ONU entre em Timor Leste. Nos anos 60 e 70, as potências ocidentais apoiaram o regime da Indonésia contra o "perigo comunista", por interesses econômicos e políticos. Em 1999, o Ocidente já prefere um enclave democrático de feições liberais para procurar influir sobre o mundo islâmico. À hegemonia dos Estados Unidos interessa agora impor seu atual modelo de regime – defesa das liberdades, da autodeterminação dos povos, do livre mercado, se representa combate ao "perigo comunista" ou ao fundamentalismo islâmico.
A imprensa ocidental tem focado a questão da autodeterminação dos povos e exaltado Xanana Gusmão, que possivelmente será o primeiro presidente de Timor Leste. Não se pode criticar essa cobertura, que segue a cartilha consensual. Mas pode-se questionar o ostracismo a que esteve relegada a questão timorense durante todo o tempo em que interessava omiti-la – acusação feita há muitos anos por Noam Chomsky.
Acusar Portugal de abandonar a colônia é não perceber que Lisboa não tinha força internacional. A única coisa que conseguiu foi que a ONU condenasse a invasão em resolução do Conselho de Segurança, exortando o princípio da autodeterminação dos povos. A questão timorense ganhou destaque apenas na década de 1990 porque dois repórteres americanos foram agredidos, e posteriormente dois ativistas timorenses ganharam o Nobel da Paz, em 1996.
Apesar da presença atual da ONU, Timor Leste continuará existindo à sombra das grandes potências, uma pecinha no jogo das relações internacionais movida no momento em que interessa – do ponto de vista ocidental – a resistência do povo timorense como contraponto ao mundo islâmico indonésio.
(*) Mestrando em Ciência Política (IFCH/Unicamp)
ASPAS
Onde fica Timor? (*)
Alberto Dines
"A repórter estava nervosa, não sabia onde ficava a ilha nem o que lá estava acontecendo. Dezembro de 1994, Rio, 2° Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa. Um dos convidados era o advogado timorense José Ramos Horta, exilado em Lisboa, que vinha ao Brasil pela primeira vez para falar sobre a tragédia da sua terra.
Embora fosse um congresso de jornalistas, as redações foram avisadas, algumas se sensibilizaram e mandaram cobrir a fala daquele que dois anos depois seria agraciado com o Nobel da Paz. O grau de desconhecimento sobre a situação em Timor era total. A cobertura no dia seguinte foi pífia, os gate-keepers (porteiros, decidem o que deve ser publicado) não se comoveram com o relato dos repórteres.
E, no entanto, três anos antes, a 12 de novembro de 1991, as forças de segurança indonésias haviam massacrado 200 timorenses reunidos no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, capital de Timor Leste, para enterrar um estudante assassinado. A chacina foi filmada pelo jornalista inglês Max Stahl e exibida na Europa e nos EUA. Dan Rather, o famoso âncora da CBS, comentou no ar: ‘Não há nada de novo em matéria de massacres em Timor. A diferença é que, desta vez, havia alguém para contar’.
Essa diferença não fez diferença na mídia brasileira: as agências internacionais não consideraram a matança suficientemente relevante para incluí-la no serviço destinado aos clientes da América Latina. Os seus gate-keepers acharam que Timor era muito longe, ninguém sabia onde ficava, não interessava – não ‘vende’. A sangueira de Santa Cruz teria sido completamente ignorada aqui não fossem os despachos solidários dos correspondentes brasileiros baseados em Lisboa.
Noam Chomsky, o lingüista-quixote, verdugo da mídia mercantilista, um dos primeiros a sair em defesa do povo maubere antes da queda de Suharto, repetia sempre: ‘Por causa de vocês, jornalistas, ninguém sabe o que se passa em Timor’. Há as exceções de Max Stahl e do australiano John Pilger, que fizeram juntos um comovente documentário de hora e meia de duração, ‘A morte de uma nação’.
Quem bateu o tambor e despertou a consciência mundial para o que se passava em Timor Oriental foi a Real Academia de Ciências da Suécia ao conceder o Nobel da Paz a Ramos Horta e ao bispo de Díli, D. Ximenes Belo (1996). O genocídio apenas pressentido ficou escancarado. Depois disso, Ramos Horta teve seus livros aqui publicados e durante algum tempo chegou a fazer comentários semanais na Rádio Eldorado (São Paulo).
Não vingou a idéia de um boicote nacional aos produtos indonésios e aos passeios a Báli - onde é que o emergentes brasileiros iriam gastar os sobrevalorizados reais? Como é que poderiam viver sem as cadeiras de vime, Reeboks, pareôs e sarongues?
O episódio de Timor desenha claramente o papel da mídia como sentinela dos direitos humanos. De todos os direitos humanos. A imprensa não pode mais sujeitar-se às ‘leis do mercado’. Mas é injusto colocá-la sozinha no banco dos réus. Nossos diplomatas e políticos (inclusive os da oposição) têm culpa igual. Quem o disse foi o próprio Dom Carlos Ximenes Belo, numa dramática entrevista em Lisboa a uma jornalista brasileira (Estado de S.Paulo, 28/10/96, pp. 1 e 10): ‘O Brasil nunca se interessou por nós. Nunca recebi em Díli a visita de um embaixador, cônsul, vice-cônsul, representante da embaixada ou de quem quer que seja da parte do Brasil.’
O religioso que presenciou tantas atrocidades já não tinha motivos para usar linguagem diplomática. Foi direto e inequívoco: além do descaso pelos 250 mil timorenses mortos e pela sorte dos 650 mil sobreviventes (hoje ainda menos), acusou o Brasil de vender armas ao regime de Suharto. Foi mais longe: condenou o pragmatismo do Vaticano que se manteve reticente para não comprometer os 4 milhões de católicos indonésios que vivem sitiados pelos 200 milhões de muçulmanos.
Agora, três anos depois, o mundo assiste horrorizado às barbáries perpetradas pelas milícias pró-Indonésia. Em 1991, no Cemitério de Santa Cruz, havia apenas um jornalista para ‘fazer a diferença’ e contar o que vira. Agora, são centenas de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas flagrando o dantesco espetáculo oferecido pela fina flor do militarismo asiático a serviço dos tigres falsificados.
Com alguns anos de atraso os jornalistas fizeram a sua parte. As autoridades, parlamentos, sociedades, religiosos e ONGs precisam fazer a sua. Inclusive no Brasil. Não podemos mais tolerar os eufemismos e firulas da linguagem diplomática. Estamos embromando há 10 anos.
Agora chega: está na hora de falar grosso e agir. Além da solidariedade universal, há vínculos concretos que não podem ser ignorados às vésperas da temporada de festinhas quinhentistas. A melhor comemoração do aniversário do Descobrimento será uma atitude audaciosa em benefício de Timor Leste. Temos um pacto com a nossa identidade. Temos compromissos atávicos e permanentes com aqueles que estão sendo assassinados por teimar em falar a nossa língua.
Os portugueses estão praticamente sozinhos, não têm condição de dar um murro na mesa. Mas o tal Brasil-Potência tem neste episódio uma rara oportunidade para mostrar a sua disposição de influir no cenário internacional.
Está superada a questão da emancipação de Timor Leste ou sua capacidade de sobreviver como nação independente. O recente plebiscito mostrou a preferência da maioria absoluta em favor da independência. Falta interromper imediatamente o banho de sangue promovido pelos camisas-negras. A Indonésia não quer e não tem condições de fazê-lo.
O século 20 começou com a sangueira nos Bálcãs. Em plena Belle Époque e em nome dos princípios de não-intervenção permitiu-se uma brutal operação-limpeza etno-religiosa. Este século deve aos próximos uma revisão dessa hipócrita ‘soberania nacional’ quando estão em jogo valores maiores como a própria essência da humanidade.
Nenhum homem é uma ilha, proclamou John Donne no século XVII. Hoje ficou claro que mesmo nações-ilhas não têm o direito de ficar de costas para o mundo. A Indonésia é uma falácia insulana que os timorenses, intimoratos, tiveram a ousadia de desmascarar."
(*) Copyright Jornal do Brasil, 11/9/99
Tratamento neutro (*)
Carlos Chaparro
"A Semana da Pátria, no Brasil, foi de festa e protesto. Festa, por causa dos 177 anos de Independência do país; protesto, porque, no aproveitamento da festa, a sociedade civil, liderada pela Igreja Católica, realizou o ‘Grito dos Excluídos’ em concentrações populares nas grandes cidades e em locais simbolicamente estratégicos, a principal delas em Aparecida do Norte, no santuário da Padroeira do Brasil. Havia também crise política no seio do governo, entre os desenvolvimentistas e os defensores da estabilidade. Ministros brigaram, um deles se demitiu, o presidente deu socos na mesa. Um prato cheio para a imprensa.
Entretanto, Timor Leste passou a chamar-se Timor Lorosae, o que significa Timor Ilha do Sol Nascente. No clima criado pelo referendo em que os timorenses fizeram a escolha pela independência, esse foi o nome que Xanana Gusmão sugeriu para a pátria independente – Timor Lorosae, nome e grito de esperança de um povo que as milícias armadas pela Indonésia tentam dizimar.
Há em Timor um genocídio em marcha, um massacre cínico e odioso que a Indonésia controla. É a Indonésia o verdadeiro agressor, escondido sob as milícias que matam. Os assassinados já são milhares, quantos milhares não se sabe. E os que não morreram, fugiram, e boa parte desses sofre de fome, sede e frio nas montanhas. Díli é hoje uma cidade-fantasma, retrato de barbárie intolerável nos alvores do século 21.
Tão intolerável quanto o genocídio foi, durante dias, a complacência das instituições internacionais e da própria diplomacia brasileira. Mas aconteceram reações notáveis. A Inglaterra e a França, por exemplo, pressionaram duramente a Indonésia em incisivos pronunciamentos dos seus principais governantes. E Portugal mobilizou-se de norte a sul, num movimento nacional de solidariedade com grandeza semelhante à das grandes manifestações do 25 de Abril.
Esses clamores de indignação contribuíram para acordar as organizações internacionais. No dia 10 de setembro, finalmente, primeiro Clinton, depois as Nações Unidas, pela voz do seu secretário-geral, dirigiram-se à Indonésia com a dureza que a dramática situação dos timorenses exige – e espera-se agora que as salvaguardas da vida e da cidadania voltem rapidamente a Timor Lorosae.
Entretanto, não se pode esquecer que o que se passa em Timor envolve um povo da comunidade lusófona, em relação à qual temos compromissos fraternais de solidariedade. Os grandes jornais brasileiros, porém, tratam o massacre de Timor como coisa distante, não considerando como critérios de valor os elementos de identidade histórica e cultural que nos ligam aos timorenses. Parecem não perceber que se trata de um crime hediondo contra a humanidade, diante do qual a chamada neutralidade jornalística é abominável.
O único jornal que mandou um enviado especial a Díli foi a Folha de S. Paulo. Cobriu bem o referendo, e o jornal aproveitou com destaque o material recebido. Mas nos dias do massacre, sabe-se lá por que, a Folha passou a tratar o drama de Timor como coisa secundária, entre as chamadas da primeira página.
Também para o Estadão o massacre de Timor tem sido assunto menos importante nas primeiras páginas do que as intrigas palacianas de Brasília, a volta da chuva ao centro-sul do Brasil e as falas de Armínio Fraga sobre política econômica. Neste domingo, dia 12, dedicou a Timor duas páginas do noticiário internacional, com bons textos e abordagens variadas, dando boa conta da gravidade da situação; mas na primeira página, nada, nem sequer uma daquelas microchamadas de uma linha. Veja, a mais importante revista semanal do mundo de língua portuguesa, relata e comenta em duas páginas, e em linguagem contundente, ‘o contra-ataque sanguinário’ (como escreve a própria revista) ao resultado do referendo, no qual 78,5% da população se manifestou favorável à independência. Mas explora na primeira página a notoriedade de oito estrelas emergentes da televisão brasileira, o que representa, pelo menos no que se refere a boa parte dessas estrelas, a glorificação da idiotice. Na lógica da Veja, isso vende mais do que a denúncia do crime contra a humanidade que a Indonésia instigou em Timor Lorosae.
Como contraste de critérios jornalísticos, saliente-se que no Washington Post e no The Independent, sem laços com a comunidade lusófona, o que se passa em Díli foi manchete de primeira página nas edições de terça-feira, dia 7.
Na televisão brasileira, o tom das notícias sobre o drama de Timor ganhou intensidade depois que, mais recentemente, a origem da informação passou a estar na Casa Branca e na sede das Nações Unidas. A tragédia dos timorenses tornou-se, nos últimos dias, a notícia internacional de maior destaque, merecendo diariamente alguns minutos de relato e imagens nos principais telejornais. Em nenhum momento, porém, a solidariedade lusófona aparece como razão de relevância jornalística. Na realidade, o maior ou menor destaque que a TV brasileira atribui à luta e ao martírio do povo timorense reflete eixos e fluxos do noticiário internacional das agências.
Se o que acontece em Timor Lorosae ocorresse em qualquer outra ilha oriental, a lógica seria a mesma."
(*) Copyright Reescrita <www.reescrita.jor.br>, 12/9/99
O que mídia não mostrou
O que se passou em Dili, no relato de D. Carlos Ximenes Belo, Prêmio Nobel da Paz 1996
D. Carlos Ximenes Belo, bispo de Díli, teve de fugir aos ataques das milícias pró-Jacarta. Depois de acolhido pela Austrália, d. Ximenez Belo viajou ao encontro do papa, passando primeiro por Lisboa. Chegou à capital portuguesa na manhã de 10 de setembro e foi recebido pelas mais altas autoridades do país e por milhares de pessoas, nas ruas. Diante da multidão emocionada, fez um discurso em que relatou, com rigor e detalhes surpreendentes, o drama do povo timorense e os sofrimentos e perigos que pessoalmente teve de enfrentar. O texto do discurso, que se transcreve, foi extraído do jornal Público, de Lisboa.
"Em primeiro lugar, estou comovido e impressionado com esta recepção que eu não esperava e não espero, tendo no aeroporto da Portela os mais altos magistrados da nação portuguesa. Rendo a minha homenagem e o meu sincero agradecimento pela vossa presença. Estou de passagem por Lisboa. Entre as viagens que fiz [a Portugal], trazia sempre algo de alegria, de consolação, por ver este país à beira-mar plantado. No entanto, desta vez, vim com certa dor na alma ao ver Timor nesta situação dramática.
Vou a caminho de Roma, que é o objectivo principal desta saída de Timor, depois de ter consultado o meu colega em Timor-Leste [D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau], para relatar ao Santo Padre e aos meus superiores de Roma, ao secretários de Estado [do Vaticano], o que se passa em Timor. Se D. Basílio está na sua sede, demos graças a Deus por isso. Porém, quanto ao que diz respeito à diocese de Díli, temos as estruturas desmontadas, destruídas.
Neste momento, o meu vigário-geral está em Jacarta, porque a Curia foi destruída no domingo passado e eu também saí [de Díli]. Temos de falar da cura de almas ao Santo Padre, como é que a Santa Sé pode providenciar para que os cristãos da diocese de Díli, os cristãos de Timor e também da sede de Baucau possam viver. No dia 30 de Agosto realizou-se o referendo. No sábado [4/9/99] anunciou-se o resultado do referendo, mas na sexta-feira à noite já tinha refugiados em casa.
‘Disse para não saltarem, para não gritarem’
No meu pátio já havia 109 pessoas quando foi anunciado (o resultado). Disse para não saltarem, para não gritarem e para deixarem o momento de celebração para outra altura, porque não era a ocasião própria, uma vez que as pessoas estavam a sair das suas casas. Dito e feito. Sábado, domingo, o número foi aumentando para mil, 2 mil, 3 mil, até segunda-feira, 4 mil pessoas. Fiz todas as tentativas. No domingo fui ao aeroporto (de Díli) de propósito para esperar quatro ministros – Ali Alatas (dos Negócios Estrangeiros), Muladi (da Justiça), Faizaltanjum (Director da Política) e o general Wiranto (da Defesa e comandante das Forças Armadas). Falei apenas com dois, Faizaltanjum e Wiranto, juntamente com o líderes da Resistência e da Autonomia. Um, que era Maupudum, apenas conseguiu lá chegar depois de testemunhar o incêndio da sua própria casa e ter entregue as filhas ao cuidado das irmãs Carmelitas, em Fatuara, na zona de Montaiel.
No dia seguinte, na segunda-feira [6/9/99], telefonei ao comandante militar pedindo protecção para as 4 mil pessoas refugiadas. Telefonei também ao comandante das milícias. Apenas respondeu: ‘Nós já tratamos disso e vamos falar com o chefe da Polícia de Díli’. Às 9h30 chegaram dois camiões com as tropas especiais. Convidei o comandante a entrar na minha casa, agradecendo a presença dele e esperando a vigilância, a segurança naquela zona. Mas, [o comandante] quando saiu, deu ordens, para eles regressarem. Minutos depois apareceram uns jovens de motorizada e começaram a disparar tiros para o ar, pedradas para cima da casa e gritando. Cinco minutos depois, tiros, de todos os cantos. Eu estava dentro, na sala do refeitório, protegido por cinco ou seis jovens que disseram: ‘Senhor Bispo, sente-se no chão, debaixo da mesa’. Mas eu andava de um lado para o outro, a ver se as pessoas não morriam. Via perfeitamente os vidros a partirem-se, atravessados pelas balas. O fumo começava a subir, abrimos a geleira e tirámos garrafas de água para apagar o fogo. Nisto, fez-se um silêncio, uma pausa, não havia tiros nenhuns, quando eu decidi: ‘vamos todos sair’. Havia uns jovens que fecharam os portões para eu não sair, mas eu ralhei com eles e saímos. Gritei a todas as pessoas: ‘saímos, evacuamos’. Já tivemos a experiência em Liquiçá, em Memo, em que os refugiados foram esfaqueados e morreram no sítio.
Fomos para o jardim da Nossa Senhora Imaculada Conceição, 4 mil pessoas. Logo a seguir, juntaram-se outras mil pessoas que estavam refugiadas na Cruz Vermelha Internacional. Quinze minutos depois aparece a polícia. Não fez nada. Vinte minutos depois aparece um camião das tropas. Ficaram a observar. E, nisto, chega um ‘Jeep’ para me dizer: ‘O comandante quer falar consigo’.
‘Eles tinham destruído tudo’
Fui para a sede de comando, do chefe da polícia, perto do aeroporto de Komoro. Quando lá cheguei disseram-me: ‘O bispo para onde quer ir? Para onde quer descansar?’. Ele disponibilizou um helicóptero. Sobrevoei a cidade de Díli ao meio-dia. Muitas casas a arder. Olhei para baixo, a minha casa ainda estava intacta. Pensei que a coisa estava salva. Mas quando cheguei a Baucau, às três ou quatro da tarde, foi-me dito que tinham entrado [na sede diocesana de Díli] e que tinham destruído aquilo tudo. Neste momento, só ficaram paredes, tudo o que é da Diocese, arquivos do século passado, os relatórios, não se salvou nada.
Chego a Baucau, passo a noite com D. Basílio. Pelas seis ou sete da tarde chegam dois camiões de Díli, trazendo refugiados para aquela zona. Entretanto, os militares e os polícias, como tinham descoberto que havia chegado gente, no dia seguinte, organizaram um assalto à casa de D. Basílio. De manhã, entre as 10h30 e as 11h, meia hora de tiroteios. Eu estava na Câmara Eclesiástica de Baucau, abri a janela e vi perfeitamente os polícias a atirar para o ar, afugentando todo o pessoal. Cerca do meio-dia, pára à frente da casa um carro da Unamet, um senhor do Uruguai disse, a gritar: ‘Quem quiser sair para a Austrália pode vir’. Eu corri para fora e disse: ‘Posso ir ?’. Bom, chegámos ao aeroporto, umas quinze pessoas, crianças, jovens, raparigas, mas eles ficaram [no aeroporto] porque o chefe das milícias de Baucau não deixou.
‘Quando Xanana entrar em Díli encontrará apenas pedras e animais’
Eu disse: ‘Vou falar com o Santo Padre’. Então, com a ajuda do chefe da polícia, eu tive de entrar num avião militar e fui para Darwin. Esta situação, posso dizer, pode confirmar um genocídio, uma limpeza das aldeias, das vilas, dos habitantes, quer da independência quer da autonomia. Não sei qual é a estratégia dos indonésios. Por isso, eu já na Austrália dizia: ‘Quando o senhor Xanana entrar em Díli como presidente, encontrará apenas árvores, plantas, pedras e animais. Não encontrará timorenses’.
Neste momento trago no coração dois desejos. Primeiro, que as forças de paz entrem imediatamente em Timor, para restabelecer a paz e defender as populações inocentes que ainda estão nas montanhas e nas florestas. Em segundo lugar, apelo ao Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas, juntamente com a Cruz Vermelha Internacional, para ir a Timor Ocidental e às outras ilhas, tentar recuperar aquelas pessoas, pró-independência ou pró-autonomia, que não querem abandonar Timor porque têm as suas próprias famílias, as suas aldeias, as suas terreolas, têm as campas dos antepassados têm as suas plantações e as pessoas não podem... não querem ficar fora de Timor.
‘O importante é salvar as pessoas’
Este é um trabalho a fazer. Como: através das Nações Unidas e da Cruz Vermelha Internacional convencer o governo indonésio, sobretudo o exército, para que deixem as pessoas regressar às suas terras e às suas aldeias. Díli é uma cidade destruída, uma terra queimada. Diziam eles: ‘Tudo o que foi feito no tempo dos indonésios tem que ser destruído. E, se queremos reconstruir Díli, temos que começar do zero.’
Mas, o importante é salvar as pessoas. Sei perfeitamente qual é a situação dos refugiados, porque já fui refugiado em 1975: falta de água, falta de alimentação, falta de medicina. As pessoas que fugiram, obrigadas a sair, não têm dinheiro, não têm roupa e vivem assim, esperando pela solução que lhes possa aparecer de outras partes do mundo, sobretudo da comunidade internacional. Portanto, que estas palavras que digo aqui sirvam. Já vi pelos jornais a vossa grande solidariedade e as manifestações, mas isto não chega. É preciso que as instâncias internacionais, sobretudo o Conselho de Segurança, tomem medidas para salvar aquilo que ainda se pode salvar.
Mais uma vez, pela presença do Presidente da República, dos membros do Governo e do Sr. Patriarca, manifesto o meu profundo agradecimento. Obrigado."
Também eu sou culpado (*)
Luciano Alvarez
Público
"Quantos homens, quantas mulheres, quantos velhos, quantos jovens ajudei eu a empurrar para a morte? Durante o mês e meio que estive em reportagem em Timor-Leste, no período de acalmia que antecedeu a campanha para o referendo, fui uma peça ingénua da engrenagem monstruosa que arrastou o povo timorense para a ignóbil armadilha em que está a ser meticulosamente aniquilado.
Ao longo de todo esse tempo, a repugnante coligação de interesses e hipocrisia a que continuamos a designar por ‘comunidade internacional’ convenceu-nos a todos de que, sob a égide das chamadas Nações Unidas, os timorenses iriam poder finalmente escolher o seu destino. E nós, centenas de jornalistas de todo o mundo, em particular os portugueses, juntamente com um milhar de homens e mulheres ao serviço da ONU, gente de boa vontade, muitos deles voluntários mal pagos e a viver em péssimas condições, andámos por lá (e de lá para todo o mundo) a espalhar a notícia tão ansiada.
Acreditámos, ou pelo menos demos o benefício da dúvida, a uma máquina e a uma superestrutura internacional supostamente preocupada com direitos humanos e com valores universais. Lamentavelmente esquecemos aquilo que muitos sabemos há muito, aquilo que vimos no Vietnam, na América Latina, em Angola, ainda agora no Kosovo – sim no Kosovo –, um pouco por todo o lado onde as grandes potências, e acima de todas aquela que tudo pode e manda, têm pequenos ou grandes interesses.
Secundarizámos os sinais e os acontecimentos que prenunciavam morte e terror, minimizámos aquilo que julgámos meras fanfarronices dos miseráveis que montavam calmamente a ratoeira mortífera. Um documento (Plano B) que nos últimos dias foi divulgado como a prova de que a chacina estava no estaleiro há meses passou quase despercebido quando um jornal australiano o tornou público, nos primeiros dias do Agosto, e a diplomacia indonésia o desmentiu com protestos indignados.
Declarações como aquela que o sinistro Herminio da Silva Costa, patrão de milícias assassinas e homem de mão das forças obscuras que controlam a Indonésia, fez à TSF, a dizer que se os independentistas ganhassem transformaria as cidades em mato, e ao Público, a salientar as diferenças entre o 25 de abril de Portugal e a Reforma da Indonésia, perderam-se na criminosa mistificação de que todos participámos. Ao Público disse assim: ‘O que se passa é que em Portugal caiu o Governo, a PIDE, a polícia e a tropa. Aqui na Indonésia só caiu o Governo. A PIDE, a polícia e a tropa estão connosco.’ Foi a 17 de Julho, em Díli, nas comemorações do 23º aniversário da proclamação de Timor-Leste como província indonésia. Mas aquilo que parecia mais uma ‘boutade’ de um gabarola meio analfabeto ficou apenas no meu bloco-notas e na memória do computador porque não pareceu relevante, nem cabia nas páginas do jornal.
Na verdade todos nós estávamos embriagados com uma ficção criada em nauseabundos bastidores diplomáticos, possivelmente com a participação de pessoas de boa fé, mas seguramente com a candura de quem deveria saber mais do Estado enquanto tal, dos homens e daquilo que os move.
Quantos timorenses me disseram que não acreditavam que as coisas fossem correr bem, que não acreditavam nos indonésios, que eles nunca cumpririam o que assinaram? Quantos me descreveram os horrores porque passaram para fundar o seu cepticismo? A quantos eu tranquilizei, candidamente, com a aldrabice da ‘comunidade internacional’ e das ‘Nações Unidas’? Quantos eu reconfortei, nas conversas permanentes onde a palavra de um português valia mais do que uma jura de sangue, confirmando que sim, que com a Unamet (Missão das Nações Unidas para Timor-Leste) tudo ia ser diferente, e o voto ia ser livre, e a consulta ia ser genuína e secreta, e ninguém sofreria represálias pela sua escolha, e o futuro ia ser aquele que o povo quisesse?
De quantos tormentos relatados duvidei eu, atribuindo-os a tempos passados e a excessos compreensivos em quem tanto sofreu?
Como é que foi possível que eu não adivinhasse, que eu não vomitasse, que eu não gritasse ‘cuidado’ – quando vi na capa do meu jornal, no dia 30 de agosto, a seis colunas, um canalha chamada Eurico Guterres, a abraçar um comandante guerrilheiro, sob os auspícios da Unamet, ao lado de um feliz e sorridente Aluk Deskartes, o comandante das Falintil [N.R.: a guerrilha independentista, que ficou quieta nas montanhas ‘para não piorar as coisas’, a pedido do líder Xanana Gusmão] que dois meses antes eu entrevistara na selva de Los Palos?
E agora?
O que é que eu vou dizer aos sobreviventes? O que é que eu vou dizer aos filhos do homem que conheci em Los Palos e a quem as milícias cortaram a cabeça ainda antes do referendo? E às crianças que a ONU se prepara para abandonar na sede da Unamet, em Díli, deixando-as as elas e às suas famílias à mercê da barbárie que tomou conta da cidade?
De que cor é que vou pintar a cara? A quem é que eu vou pedir as contas que os mortos me exigem sem palavras?
Vou-me limitar a gritar contra os senhores do mundo e da guerra, contra o sorriso repelente de um tal William Clinton, contra as falinhas mansas daqueles que foram capazes de arrasar a Jugoslávia, um país soberano, por causa de um conflito interno de dimensões bem mais limitadas, e não são capazes de levantar um dedo em defesa das vítimas da vergonhosa intrujice para onde as arrastámos, num território ilegal e brutalmente ocupado há 24 anos?
Fomos nós, a ONU, a Unamet, a dita Comunidade Internacional, os jornalistas quem cavou a vala comum e abriu as portas à deportação que está a tragar os timorenses.
Todos nós, uns mais do que outros, somos culpados do embuste. E eu também."
(*) Copyright Público, de Lisboa, 13/9/99
Falar para todo o mundo
L.A.
Público
"Mesmo com as telecomunicações cortadas, os jornalistas que estão no quartel-general da Unamet continuam a fazer reportagens para todo o mundo graças aos preciosos telefones satélites [celulares móveis]. Alguns dos free-lancers que ficaram em Díli, e que ainda formam a maioria do contingente não português de jornalistas, estão a trabalhar para mais de dez órgãos de comunicação social. Os portugueses recebem todos os dias e com todo o prazer as dezenas de telefonemas das rádios portuguesas e não só. As rádios e os jornais espanhóis e italianos também já têm solicitado muito a comunidade lusa, e por vezes acontecem algumas surpresas. Há dois dias, ainda antes de as telecomunicações terem sido cortadas, tocou o telefone no gabinete da Unamet onde habitualmente estão os jornalistas. Como não estava ninguém, atendi: ‘Bom dia, quem fala?’, disseram em inglês do outro lado da linha. ‘Um jornalista português’, respondi. ‘OK, fala da ABC e estamos em directo para o programa Bom dia América, conte-nos como está a situação em Díli.’ Contei.
Digamos que foram os meus 15 minutos de fama."
(*) Copyright Público, 8/9/99
Jornal do Brasil
"Díli – Contrariando vários jornalistas, a Unamet proibiu que repórteres permanecessem com os 40 voluntários deixados em Díli. Quem quisesse que se hospedasse fora da sede. Mais tarde o repórter português Luciano Alvares, do Público, ouviu de um informante da ONU o motivo do rigor: dois ou três ativistas se faziam passar por jornalistas, prejudicando a Unamet. ‘Descobrem documentos da CIA; incentivam revoltas, sempre de câmera de filmar em riste; furam todas as regras de segurança; mentem da forma mais vil para o mundo ‘ajudar’ a defender sua causa’, escreveu Alvares. Como era impossível deixar uns e retirar outros, ‘as últimas testemunhas são assim obrigadas a partir’.
‘Jornalismo é verdade e rigor’, prosseguiu. ‘Há uma coisa que estes ‘grandes amantes’ da causa timorense nunca dispensam: receber a peso de ouro ‘informações’, imagens que encenam para que o dramatismo seja maior. Vampiros que procuram sangue (e quanto mais melhor) para ganhar dinheiro. Essa gente me enoja.’"
"Ativistas x repórteres", copyright Jornal do Brasil, 11/9/99
Masacre sin testigos (*)
Miguel Frau Rovira
EFE
"Dili – Los milicianos rodean el hotel, algunos soldados se calientan enfrente en una hoguera y periodistas y observadores nos disponemos a pasar la noche sin saber cómo saldremos, mientras en los pasillos se amontonan cajas y cajas del material que ya no servirá para transmitir lo que ocurre en Timor.
Lo único que tenemos claro quienes hacemos los preparativos para salir en cuanto algún avión pueda evacuarnos de Dili es que las milicias leales al Gobierno de Yakarta están cada vez más cerca de su objetivo, la máxima impunidad.
No quieren testigos y cuentan con la total complicidad del Ejército y la policía de Indonesia, como hemos podido comprobar hasta límites nauseabundos.
No es sólo el acoso, las amenazas, las intimidaciones y la violencia, sino la impunidad con la que actúan, sin que nadie ponga coto a sus fechorías y desmanes, lo que verdaderamente puede irritar.
La repetición de los relatos de las impunes actividades de los milicianos no los hace ni más ciertos ni más creíbles, las imágenes que los cámaras han podido grabar, arriesgando la vida, son más que elocuentes.
En cualquier caso han alejado a los observadores extranjeros y a la prensa internacional de los lugares más castigados como Maliana, Liquisa, Ermera, Suai o Gleno, localidades algunas de ellas abandonadas por la Misión de Naciones Unidas para Timor Oriental, difícil saber lo que allí ocurre, peor imaginarlo.
Los secuaces de sanguinarios peones como Eurico Guterres, el jefe de la milicia ‘Aitarak’, quien hoy viajó a la isla de Bali, quién sabe con qué propósitos, si escapar de la quema o buscar nuevas metas en su desaforada carrera hacia la destrucción, tampoco se sabe porqué motivos actúan.
El líder de la resistencia timoresa, Xanana Gusmao, acusó hoy al Ejército indonesio de haber infiltrado como civiles a 2.000 miembros de los temidos ‘Kopassus’, cuya brutalidad han reiterado en multitud de informes las organizaciones defensoras de los derechos humanos. (...)
En esa guerra de desgaste parece que llevan las de ganar, pues las armas difícilmente son parables; cámaras y bolígrafos poco pueden hacer frente a los fusiles automáticos M-16, cuya restringida circulación nadie sabe quien controlaro todos lo sospechan. El general Wiranto, jefe de las Fuerzas Armadas de Indonesia, afirma que las informaciones de la prensa internacional exageran, al menos no ha dicho que no coincidan, lo cual refleja una cierta, sino homogeneidad, sí coincidencia, algo que difícilmente se puede coordinar.
Probablemente los militares prefieran la época en la que los periodistas tenían vetado el acceso a Timor Oriental; en cualquier caso será difícil, muy difícil que lo que les ocurra a los timorenses, aterrorizados por lo que se avecina, pueda ser contado libremente por observadores y periodistas extranjeros, cuyo número en Dili se reduce dramáticamente día a día."
(*) Copyright EFE, 4/9/99
Da imprensa internacional
Transcrição do jornal Público, Lisboa, 11/9/99
THE ECONOMIST
A gigantesca importância do "insignificante"
"Por si só, Timor-Leste não significa grande coisa: é um minúsculo território de cerca de 800 mil pessoas cobiçado pela Indonésia, um país de 200 milhões de habitantes. É por isso que o resto do mundo nunca se preocupou muito com o que aconteceu lá. Mas mesmo os lugares minúsculos podem tornar-se significantes. Se o mundo falhar aos timorenses outra vez, as consequências vão ser sentidas bem para lá das fronteiras do Sudeste Asiático. (...)
Mas a diplomacia pode não ser suficiente. Nesse caso, a ONU – ou seja, o Conselho de Segurança – vai ter que ameaçar com a força, e estar pronto a usá-la, mesmo sem a autorização da Indonésia. Se não o fizer, dificilmente será levado a sério quando estas circunstâncias se repetirem. Em vez disso será tratado como uma instituição que organiza votações e que depois foge, deixando os bandidos locais tomarem o controlo (como no Camboja). Isso inspiraria os déspotas por todo o mundo e frustaria as esperanças de milhões em países onde as grandes potências não têm interesses diretos.
No entanto os grandes países também iriam sofrer. A China, a Rússia e o Ocidente têm todos a ganhar com um mundo ordeiro. Se a ONU se desintegrar como a Liga das Nações, as perspectivas de encontrar soluções internacionais para problemas internacionais - tais como o alastramento das armas de destruição maciça – vão simplesmente desaparecer. Talvez então aqueles países ocidentais que não puderam tolerar o assassínio em massa no Kosovo se interroguem porque é que o toleraram tão prontamente no ‘insignificante’ Timor-Leste." [in editorial "A tragédia de Timor-Leste"]
THE GUARDIAN
Pactuar com a ficção
"Durante esta semana diplomatas americanos em Jacarta têm afirmado que aquele minúsculo Timor-Leste não é estrategicamente importante comparado com o destino de uma nação de mais de 200 milhões de habitantes. Com uma nova administração prestes a ser formada, depois das primeiras verdadeiras eleições em 45 anos, a Indonésia não deve ser pressionada com muita força. ‘Não queremos provocar um problema complicado para o próximo governo democrático’ terá dito o embaixador norte-americano. Quando a violência explodiu em Díli, depois da votação, Portugal pediu ao Conselho de Segurança da ONU para autorizar uma nova missão – ‘Unamet 2, com guardas armados’. Em vez disso, o Conselho de Segurança emitiu um apelo fútil á Indonésia para garantir a segurança da Unamet. A situação piorou rapidamente. Os embaixadores americano e britânico foram ter com Habibie para oferecerem educadamente ajuda e foram recambiados. Ao recusar-se a responsabilizar directamente as forças armadas indonésias, a comunidade internacional estava a pactuar com a ficção de que enviar para Díli mais tropas indonésias para ‘repor a ordem’ era a solução." [in análise de John Gittings, "A Indonésia joga um jogo de paciência" ]
LA VANGUARDIA
Catástrofes anunciadas
"Há uma autoridade mundial reconhecida (a ONU), há agressões à paz que não podem amparar-se na antiga doutrina da soberania nacional, há tragédias espantosas que se produzem frente às vacilações das Nações Unidas – o que significa dos Estados que as formam. É evidente que as intervenções nos chamados assuntos internos apresentam não só dificuldades, mas também perigos, porém não é por isso que pode continuar a situação atual. A verdadeira mudança significa muitas alterações: para começar, dar à previsão um importância que as prioridades enganosas de interesses particulares não permitem. O mundo esteve e está cheio de catástrofes anunciadas. As que mencionei (Ruanda, Bósnia-Herzegovina e a Jugoslávia de Milsosevic) foram-no. E a de Timor-Leste também o é, a velha questão em que triunfou a inação e a demora apesar das denúncias de alguns países e de associações privadas." [in opinião de Joan Gomis, "A ONU e Timor"]
THE SIDNEY MORNING HERALD
Mais uma derrota da ONU
"A sede da ONU é o último raio de esperança que as pessoas de Díli têm, o último frágil suporte da comunidade internacional em Timor-Leste, e a última coisa que impede os militares indonésios de reduzirem o território a um cemitério. A inesperada ação dos militares indonésios ontem, entregando cargas de comida, remédios e outros géneros na sede da ONU não pode apagar o seu falhanço no dia anterior em evitar os ataques das milícias armadas aos próprios veículos da ONU. Esta última derrota é consistente com a completa má gestão desta crise pela ONU. As lições dos conflitos na Somália, no Ruanda e no Kosovo é que os problemas têm que ser antecipados e tem que haver uma preparação. Mas a inércia é a regra do jogo e mais uma vez a tragédia é o resultado". [in Editorial "Deixando Díli" ]
ABC
O autoritarismo sempre
"Um poder militar alheado dos desejos de democracia do seu povo. Um regime ainda verde que já se situa de costas voltadas para o mundo. Um grupo de oficiais que mantém um contacto fluido com o exterior graças ao seu controle dos recursos económicos. Um pesadelo de desordens deliberadamente toleradas ou instigadas para justificar depois a intervenção militar. Não há dúvidas: entre matanças atrozes e rumores de golpe, a Indonésia está a entrar no autoritarismo pela via birmanesa. Na realidade, não faz mais do que regressar a ele: o Presidente Habibie afastou-se demasiado de quem desde 1965 detém o poder e agora paga por esse erro. Pouco pode durar a sua experiência democratizadora, por muito que mantenha as aparências. Convocou o referendo em Timor e o exército não lhe perdoou o resultado. Menos ainda a possibilidade de um ‘sim’ a uma missão de paz na ilha. A lei marcial foi decretada, porém não se sabe quando será levantada. Nem tão pouco se sabe se não será alargada a outros territórios. A incógnita central é agora saber qual é a facção do exército que cantará mais alto. De momento, o general Wiranto destituiu o comandante de Timor. Parece que está por cima de todos". [in Editorial "Indonésia, pela via birmanesa"]
CARTAS
Folhetins de amenidades
Está acontecendo um fenômeno muito estranho, para dizer o mínimo, nas revistas semanais. Com a terrível crise de Timor Leste aparecendo com destaque na mídia internacional, até mesmo na dita "americanocentrista" CNN, as revistas do nosso lusófono país quase ignoram o que está acontecendo.
Eu achava que pelo menos uma dessas "três grandes" publicações (Veja, IstoÉ e Época) fosse colocar o tema como matéria de capa. Ledo engano meu. Na corrida para, no vocabulário modernoso, "alavancar as vendas", estas revistas vão cada vez mais na direção de folhetins de amenidades, algo como a revista Manchete há alguns anos.
É decepcionante abrir a Veja desta semana e ver que os massacres das milícias em Timor Leste mereceram apenas duas páginas. O mesmo número de páginas que a mesma edição da revista dedicou, vejam só, à incrível trajetória de uma loira emergente na alta sociedade do Rio. Dei uma olhada na Época e ela concedeu um pouco mais de atenção ao assunto Timor. Três páginas...
Ainda não vi a IstoÉ, mas há grande chance que tenha tido o mesmo "interesse" que as outras.
O que é de se notar é que mesmo durante a ditadura militar no Brasil havia por parte de veículos como a própria Veja mais empenho em mostrar o que ocorria no mundo, como na cobertura do golpe de Pinochet no Chile. Será que estaríamos vivendo agora o período da nova censura, a feita pelo mercado? É para pensar.
Marcelus Zalotti
Distância olímpica (*)
(*) Mensagem originalmente enviada a Alan Chartock, da National Public Radio (EUA)
Sou compelida a escrever para vocês sobre o tema do Timor Leste. É crucial que a cobertura da imprensa continue e que os americanos incitem uma ação em conjunto pela causa. Não apenas eu vivi lá por dois anos quando criança, jovem o bastante para me impressionar mas ao mesmo tempo com idade suficiente para me lembrar, como também tenho passado os últimos vinte e cinco anos imaginado porque ninguém nos Estados Unidos nunca tinha ouvido falar no Timor Leste e com o fato de nosso governo ter se envolvido intimamente na invasão de 1975.
Ford e Kissinger disseram que não faziam nenhuma objeção, venderam armas para o exército indonésio e, ainda, não houve uma cobertura visível da mídia sobre o genocídio que ocorreu lá. Muitos jornalistas têm morrido no Timor ao longo dos anos. Eu penso imediatamente em um grupo de dez jornalistas australianos que foram mortos por militares indonésios, em 1975, ou então no heróico vídeo-jornalista que morreu durante o massacre de 1991. Penso também nos vinte jornalistas que estão hoje arriscando suas vidas para servirem de testemunhas da violência e intimidação.
E ainda assim a nossa mídia não faz justiça para um povo que representa tudo que essa nação representa: vida, liberdade, religião. Por que isso acontece? Você não acha que esse seria um tópico bom e oportuno para o Projeto de Mídia? Vocês todos reclamam de como os jornalistas são limitados por seus editores e pelos interesses comerciais. E quanto às histórias de que jornalistas precisam ser vigilantes para relatar as verdadeiras notícias? Eu me empenho em entender porque neste país de liberdade de expressão é tão difícil conseguir qualquer notícia internacional. Estou contente em ver o Timor Leste nas manchetes todas as semanas, e manter esta história no centro das atenções irá certamente salvar vidas de jornalistas estrangeiros, membros do clero, membros da ONU e os próprios timorenses.
Mas porque nós não estamos publicando a greve dos membros das Nações Unidas (algo sem precedentes na história) que ocorreu no Timor e como vinte ou mais repórteres os apoiaram? E quanto à milícia veio até Alan Nairn, preparada para matá-lo, mas em vez disso prendeu-o e libertou-o mais tarde, quando ele informou ser militar americano? E os militares que cortaram linhas telefônicas e eletricidade e confiscaram todos os telefones celulares. Isto é notícia de verdade.
Eu estou em uma lista de serviços (agências, programas de rádio e outros) que me fornece de maneira muito mais aprofundada e em maior quantidade a cobertura das notícias do Timor Leste. Mas mais uma vez me sinto sozinha na jornada de informar os americanos que conheço tudo aquilo que nossa imprensa deveria estar informando.
Eu gostaria de saber por que o Vaticano tem se mantido tão timidamente quieto enquanto padres e freiras são mortos. Eu gostaria de saber sobre Xanana, poeta e líder do Timor Leste. Ele tem sido chamado de Nelson Mandela da Ásia e ainda assim, para uma mente tão grande, não há voz. Ele se refugiou na embaixada britânica (a mais segura) depois de ser solto da prisão e ainda não sabia que seu pai de 82 aos foi morto pelo exército indonésio.
Seria marcante se o senhor, um pensador independente, um professor, uma personalidade do rádio, pudesse colocar um pouco de luz nesses assuntos. O Projeto de Mídia, como eu havia dito, seria uma excelente ferramenta. Não apenas seria uma oportunidade de se fazer reportagens de primeira linha, como você estaria salvando vidas e levantando um real e corajoso sentimento de democracia no Timor Leste.
Alexandra Forman, Ashfield, MA (EUA)
JORNALISMO E FICÇÃO
Reconstituições
Mauro Malin
Em 1977... "Enquanto somava-se à fila dos que iam cumprimentar os noivos, o dr. Quinteros teve de festejar uma dúzia de piadas contra o governo contadas pelos irmãos Febre, dois gêmeos tão idênticos que, comentava-se, nem suas próprias mulheres conseguiam diferenciá-los. A multidão era tanta que o salão parecia a ponto de desabar; muitas pessoas haviam permanecido nos jardins, esperando a vez para entrar. Um enxame de garçons circulava oferecendo champanhe. Ouviam-se risadas, brincadeiras, brindes, e todo mundo dizia que a noiva estava lindíssima. Quando o dr. Quinteros conseguiu chegar até ela, viu que Elianita seguia aprumada e viçosa a despeito do calor e do aperto.
- Mil anos de felicidade, magrela - disse ao abraçá-la. E ela contou-lhe ao pé do ouvido:
- Charito ligou de Roma hoje de manhã para me dar os parabéns, e também falei com tia Mercedes. Quanta delicadeza a delas!
O ruivo Antúnez, suando em bicas, vermelho como um camarão, coruscava de felicidade:
- Agora eu também vou ter que chamá-lo de tio, dom Alberto?
- É claro, sobrinho. - Deu-lhe umas palmadinhas o dr. Quinteros. - E além disso vai ter que me tratar de você."
Em 1999... "A conversa no Palácio da Alvorada não teve testemunhas. Começou por volta das 23h20 de sexta-feira, num tom de compreensão, com ministro e presidente concordando com os prejuízos políticos causados pelo discurso de Carvalho, feito no seminário do PSDB, na véspera. Mas Fernando Henrique não disse, até minutos antes do fim do encontro, que queria demitir o ministro, provocando a iniciativa deste.
‘OK, presidente. Me diga, o que o senhor quer?’, perguntou Carvalho, de forma direta, para concluir a conversa.
‘Gostaria que colocasse o cargo à disposição, que eu aceito’, respondeu imediatamente Fernando Henrique, provocando reação imediata do ministro. ‘Tudo bem, mas não será a meu pedido’, disse Carvalho."
1977 – Ano em que foi publicada originalmente, no Peru, a cena inventada pelo personagem Pedro Camacho, prolífico novelista boliviano de Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa.
1999 – 5 de setembro, ficção publicada no Estado de S. Paulo sobre a demissão de Clóvis Carvalho do ministério do Desenvolvimento. Só pode ser ficção, pondera o venerável Armenio Guedes, na medida em que o texto diz no início que a conversa "não teve testemunhas" e, mais adiante, reitera: "Ao deixar o Alvorada, na madrugada, o motorista de Carvalho deu sinais de luz para que os portões fossem abertos e ele saísse livre da imprensa. Ao deixar o apartamento, de manhã, rumo a São Paulo, onde mora sua família, parou o carro apenas para deixar-se fotografar." Etc.
Baixou o santo na reportagem do Estadão. Quando se trata de um Gore Vidal, ainda vai. Quando não...
A Veja era chegada a essas "reconstituições". Anda agora mais timorata.
A propósito, tem uma genial do Jornal do Brasil numa data qualquer da segunda metade dos anos 1980, período antológico de besteirol do caderno Cidade:
"Joaquim da Silva foi assassinado na Rua Pereira Antunes às três da manhã de ontem, depois de pedir de joelhos a um assaltante que não o matasse. Antenor Costa, única testemunha do crime, também foi morto pelo bandido."
E já que o Benício Medeiros andou rememorando pérolas para Marinilda Carvalho, tiro do baú um título espetacular do mesmo Cidade do JB (4/11/87): "Marinheiro não precisava ter matado família".
IMPRENSA REGIONAL
Jornais capixabas
comeram mosca
Victor Gentilli
Matéria da Folha de S.Paulo (16/10/99) mostra que o então governador eleito do Espírito Santo José Ignácio Ferreira conseguiu manter sua conta bancária pessoal negativa em 2,6 milhões de reais. Para pagar as dívidas da campanha eleitoral, foi socorrido por um empréstimo que duas empreiteiras paulistas conseguiram junto ao Banestes (Banco do Estado do ES). O assunto surpreendeu apenas os leitores desavisados.
Os jornalistas políticos dos dois principais jornais capixabas (A Gazeta e A Tribuna) sabiam dos fatos e estavam apurando. O jornal A Gazeta tinha mais documentos do que a Folha e, quando este observador fechou esta nota, em 17 de setembro, o jornal trazia um noticiário muito mais completo, mostrando ter havido esforço dos jornalistas na apuração do episódio.
O jornal A Gazeta comeu mosca por excesso de zelo na apuração. Não teve o furo, mas deu muito melhor que a Folha. Mérito do repórter André Hess.
De todo modo, é triste um jornalismo regional com enormes possibilidades ver suas apurações saírem antes em jornais ditos "nacionais".
A Folha, neste caso, não praticou o denuncismo: checou todas as informações mas tinha apurado muito menos do que A Gazeta.
O fato é que todos agora estão repercutindo. A prática de ignorar a matéria produzida pelo concorrente, desconhecendo seu interesse público, pelo menos neste caso, não está vigorando.
DEPTO. DE JUSTIÇA
Jornalistas nos tribunais
Marinilda Carvalho
Alguém reparou que os jornais deixaram de noticiar condenações e mesmo simples julgamentos que envolvam jornalistas ou jornais? Segundo o jornalista Márcio Chaer, os donos da mídia perceberam que isso estimula novos processos. "Assim, embora os tribunais decidam quase que diariamente processos contra jornais e jornalistas, as informações já não chegam ao leitor comum", diz ele.
Pois um veículo está publicando estas noticias (entre outras): é a Revista Consultor Jurídico, que Márcio Chaer dirige e Rodrigo Haidar edita no endereço <www.conjur.com.br>. Chaer promete nos manter informados sobre os julgamentos relacionados à mídia, e esta parceria – promissora! – já começa nesta edição: no Caderno da Cidadania [ver remissão abaixo] está a matéria "STJ mantém absolvição – Jornalista foi acusado por comparar candidata a macaca", que trata da sentença do Superior Tribunal de Justiça em favor do jornalista Marcone Formiga, ex-colunista do Correio Braziliense, que em 1992 contou piada racista sobre a hoje vice-governadora do Rio, Benedita da Silva.
"O jornalista em questão trabalhou no Correio na chamada ‘era da marreta’, quando não se distinguia notícia de material pago. Hoje ele tem um jornal próprio, onde aplica os ‘conhecimentos’ adquiridos naquele tempo", conta Chaer. Formiga foi absolvido em todas as instâncias. Chaer estranhou a fundamentação da sentença do juiz Jair Oliveira Soares, da 4ª Vara Criminal de Brasília., que achou engraçada a comparação da senadora com uma macaca. "Isso autoriza um jornalista a comparar o juiz a um animal qualquer", acrescenta Chaer.
Boas-vindas aos nossos novos parceiros.
DEPTº. HAJA PACIÊNCIA
A idade mental de Veja
José Sergio Rocha (*)
Abra a Veja despreocupado. Esqueça que você tem opiniões diferentes, esqueça que a cobertura da marcha em Brasília teve como principal personagem o celular do Lula, os impropérios contra Brizola e a corrente de opinião que representa.
Esqueça as exaltações ao caçador de marajás e a entrevista do irmão caçula que o detonou. Faça como FHC e esqueça tudo o que foi escrito em Veja. Não pare nem para ler o textinho sobre dom Hélder Câmara, no qual somos "informados" de que o estado de Pernambuco é habitado por gente tão atrasada que ainda pensa um mundo dividido entre esquerda e direita.
Apenas abra a revista e vá diretamente à matéria principal da edição de 8 de setembro, "A idade verdadeira". Veja sabe que todos gostamos de fazer testes para saber se estamos mais magros, mais gordos, mais felizes, mais inteligentes etc. Com certeza, o livro do médico americano Michael Roizen, no qual se baseou a matéria, venderá como banana da terra em nossa república idem, depois da força que Veja lhe deu.
Até aí, tudo bem. Se fosse nos anos 40 ou 50, veríamos em O Cruzeiro mais uma fotomontagem de discos voadores ou o último plano comunista para sufocar as liberdades no Brasil. Mas estamos nos estertores dos 90 e a agenda de preocupações do fim do milênio reserva lugar de honra à busca da eterna juventude. Continue lendo e se divertindo. Êpa! O que a Sandy e o Júnior fazem no meio disso aí? Que importância tem, para os que buscam o rejuvenescimento, se a idade física ou mental dos meninos cantores de Goiás é pouco maior ou menor do que as que constam das respectivas certidões de batismo?
Eu estava assim, como você, lendo a revista sem preconceito, até bater o olho no mais marrom de seus parágrafos, que diz textualmente: "Se assim fosse, o governador Itamar Franco poderia rejuvenescer a tal ponto que sua idade física finalmente se equipararia à sua idade mental."
Reli a frase, o parágrafo inteiro. Não tive mais dúvidas de que o objetivo da revista, do editor e da autora da matéria foi mesmo ofender – gratuitamente! – o ex-presidente da República. Li muito O Cruzeiro. Não sei por que um texto sobre rejuvenescimento me fez lembrar das campanhas dos Diários Associados contra o governo Goulart.
Veja já entrou em campanha eleitoral. Será que deixou de fazer em algum momento? Imagine se Veja existisse há mais tempo? Que revista brasileira daria mais destaque ao Plano Cohen, à Carta Brandi, aos conluios subterrâneos para instalar os comunistas no poder e a outros documentos enganosos, medíocres e falsificados que ajudaram a mergulhar o país no Estado Novo de 1937 e na ditadura militar de 1964?
Veja devia se submeter ao teste do doutor Roizen. Pena que alguns leitores chatos se sintam ludibriados com o recheio excessivo do pensamento político da autora, de seu editor e do patrão de ambos num assunto que devia ter leveza e boas intenções, em vez da gordura rançosa e saturada do ressentimento. Passaram do ponto mais uma vez. Deve ser por isso que Veja, apesar dos 32 anos de idade física, exibe um corpinho de 72.
(*) Jornalista
Caras para (outros) bichos
M. C.
Recebemos um release anunciando que em outubro chega às bancas uma nova revista: Focinhos, a cara dos bichos.
A publicação vai mostrar o "estilo de vida" dos animais de estimação dos... ricos e famosos. "Cães, gatos, aves, peixinhos, tartarugas, cavalos, iguanas e tantos outros que, diante das lentes dos fotógrafos da revista, revelarão todo o glamour que existe no universo dos bichos de estimação", diz o release.
Que continua: "O charme da Focinhos está em buscar sempre animais de donos famosos. Vários atores, atrizes e apresentadores de TV, astros da música, personalidades do mundo dos negócios e socialites já posaram ao lado de seus bichinhos para as páginas da nova revista." Acompanham instruções para cuidado dos animais – tudo em papel couché, formato 20,8cm x 27,4cm, 64 páginas, 4 cores. Publicação da Fractal Edições.
Gostaram?
Domingão arrasa-pobre
Fabrício Francis (*)
Indiscutivelmente, ser pobre no domingo é cada vez mais difícil. Os programas humorísticos são uma ofensa à maioria dos brasileiros. O humor funciona em piadas envolvendo pessoas de poder aquisitivo baixo.
Miguel Falabela, em Sai de baixo, no papel de Caco Antibes, ironiza os pobres com piadas engraçadas para uma minoria... os ricos. Brinca com o dia-a-dia do pobre sem o menor respeito. Ironiza o cotidiano dos explorados. Assim como existe uma lei que previne o racismo, deveria existir também uma lei que defenda essa classe. Vivemos num país em que os pobres estão ficando mais pobres e os ricos mais ricos. As leis não dão conta de tantas injustiças.
A TV é um simulacro da realidade, a ilusão do real. Mostra a perfeição, como o corpo belo, as roupas mais bonitas, o carro do ano. Aos pobres, só resta a revolta com a própria situação. E o que é pior, ouvindo piadas. Pobre é boneco nas mãos dessa classe que domina a economia brasileira.
E a TV é seu porta-voz.
(*) Estudante de Jornalismo do Centro Universitário do Triângulo Mineiro
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