|
TORDESILHAS
Pacto Globofolha
e o pacto de silêncio
Alberto Dines
Foram todos pegos de surpresa mas a reação pareceu ensaiada. No dia seguinte ao anúncio da parceria Marinho/Frias (5/10/99), os jornais comportaram-se como se estivessem combinados. Os dois parceiros registraram-na com igual discrição na primeira página e os demais em páginas internas. Exatamente nos mesmos termos – houve release? – como se fosse a coisa mais natural do mundo.
No final de semana a reação dos semanários foi igualmente álgida, curados dos surtos de dramatização. Inclusive na Veja, da Abril, que, no caso, ficou como marido (ou mulher) enganada.
Não fosse a participação de Luís Fernando Levy no Observatório da Imprensa na TV (5/10/99), parecia que a inesperada parceria entre os arquirivais não tinha a intenção de destruir a Gazeta Mercantil [veja o compacto no programa na página principal desta edição, na estação Observatório na TV].
Quinze dias depois, o pacto de silêncio permanece intacto. Seja nos recantos opinionísticos das nossas folhas ou nas tribunas do Congresso. Como se nada tivesse acontecido. Como se a verve e o senso crítico tivessem subitamente evaporado. Como se o processo mediático-político não tivesse recebido um golpe.
A exceção coube à Ombudsman da Folha, Renata Lo Prete, por meio de uma peça serena e vigilante. Plena de bravura, conhecendo-se as suscetibilidades da casa [veja texto abaixo].
Outra exceção, esta caricata, de autoria do marqueteiro de plantão no Jornal do Brasil (9/10/99): num patuá semi-compreensível, a exemplar demonstração do espírito acrítico que domina alguns empresários do ramo.
O pacto de silêncio não é casual. É prova de uma compactuação mais ampla. Comprovação do clima de conspiração e intimidação que doravante vai envolver os movimentos empresariais da imprensa brasileira. Fusões e incorporações em qualquer área podem ser apregoadas, debatidas e contestadas. Menos na mídia.
Os donos da verdade não querem transparência e muito menos controvérsia. Nesta área, justamente a da informação em benefício do interesse público, vai imperar o segredo.
Pacto Folhaglobo
já beneficia a Platinada
A.D.
Nos bons tempos da livre concorrência, do primeiro ao último caderno da Folha, onde havia uma brecha para falar sobre TV, zunia o cacete em cima da TV Globo. De repente, sabe-se lá por que, apareceram outros alvos. A seção diária "No ar" já não discute como os fatos são levados ao ar, discute os fatos em si. No caderno dominical de TV, num passe de mágica, o inimigo público número um parece que é a recém-nascida Rede Pública de TV. Deixou de ser o canal 5 (4 no Rio) e passou a ser o canal 2 [veja remissão abaixo].
Gosto não se discute.
Avaliação do acordo
operacional JB - O Dia
A.D.
Anunciado praticamente na mesma ocasião, o acordo entre os dois jornais cariocas não ameaça a livre concorrência, não favorece a concentração, não afeta a diversidade de opiniões e não implica uma repartição hegemônica do mercado.
O uso das mesmas instalações para imprimir diversos jornais ou revistas – inclusive concorrentes – é comum na Europa. E também nos EUA, no caso de periódicos não-diários. Rentabiliza o gigantesco empate de capital em maquinaria, acaba com a megalomania das sedes suntuosas e representa uma diminuição acentuada nos custos operacionais.
Um sistema coordenado de tabelas de publicidade em jornais que não competem entre si, sobretudo quando se trata de resposta a um grupo que já o pratica (caso O Globo - Extra) é perfeitamente lícito. Mais do que isso: salutar.
No tocante à preservação da diversidade política, o acordo não contém nenhuma ameaça. O Dia busca o segmento popular, não é um jornal de opinião. Acolhe todas. O Jornal do Brasil, teoricamente voltado para os tomadores de decisões, é um jornal opinionado mas não se envolve em cruzadas. O acordo só pode oferecer-lhe mais consistência, vigor e condições de sobrevida.
O que é bom para todos. Sobretudo quando o seu adversário direto é o Grupo Globo, que acaba de neutralizar seu principal opositor.
CARTAS
Prezados, confesso que também fiquei preocupado com o "Tratado de Tordesilhas", mas por outros motivos. Porém, a lucidez dos comentários de Alberto Dines é que me fez atentar para o grande engodo que será a "independência" (duvido) do novo veículo de economia brasileiro. Seus comentários nos motivaram a lutar pelos princípios que regem esta casa. Parabéns e obrigado, cordialmente,
Marcello F. Miniguini, Gazeta Mercantil, Gerência de Circulação, Rio de Janeiro
xxx
O texto sobre a parceria Folha-Globo me parece escrito com tintas sombrias demais. Mas fica registrado. Guardei-o. Daqui a alguns meses, vou relê-lo. Aí descubro se Dines foi catastrofista ou se eu é que fiz papel de ingênuo.
Luís Colombini
xxx
Sinto dizer, mas mestre Dines pisou na bola. A Gazeta Mercantil não é mais referência de jornal econômico no país. Hoje em dia é um jornal anódino, que noticia o que o patrão e o governo querem. Aliás, os donos da Gazeta Mercantil são dos maiores devedores do INSS em São Paulo, além de não recolherem o FGTS dos empregados. Não estamos, portanto, tratando com crianças.
Severino Goes
xxx
Também fiquei muito surpreso com esse anúncio de parceria entre os grupos Folha e Globo. Fiquei ainda mais surpreso ao ler (em O Globo) a declaração de Luís Frias de que esse poderia ser o início de um projeto maior de parceria entre os dois grupos.
Parece-me que isso significa que a Folha está minimizando sua aliança com a Editora Abril, que compete com a Editora Globo em diversos segmentos do mercado de revistas. O fato de a Abril não ter sido informada da parceria demonstra o quanto vai mal de pernas uma sociedade que administra o maior site de conteúdo da língua portuguesa.
O Universo Online está acossado pela concorrência, inclusive internacional, e têm havido alguns entreveros entre os dois sócios, quando, por exemplo, o UOL (cuja diretoria é dominada por gente da Folha) fechou o acesso ao site da revista InfoExame a não-assinantes do provedor, sem avisar sequer à redação da revista.
Ficou-se por um tempo na situação paradoxal (depois consertada) em que os próprios assinantes da revista impressa não podiam ler os produtos exclusivos de sua versão on line. Tudo isso, e mais o projeto de O Globo de fechar parte de seu conteúdo on line, leva a crer que a Folha está analisando uma parceria com o Globo que ponha fim ao UOL, ou então recrie o com outro conteúdo (das empresas do grupo Globo).
Marcus Pessoa de Araújo, estudante de Jornalismo, Belém
ASPAS
Renata Lo Prete
"‘Gostaria de fazer uma pergunta bastante simples: a Folha continuará batendo na Rede Globo?’ A questão deste leitor resume o espírito das manifestações que recebi a propósito da associação que dará origem a um novo diário especializado em economia, com lançamento previsto para o segundo trimestre do ano que vem.
Houve queixas exaltadas: ‘Deveria ter aprendido a não me surpreender com mais nada. Mas hoje tive um princípio de curto-circuito mental’. E outras irônicas: ‘Conseguirá a Redação da Folha se manter incólume diante de tão avassaladora paixão’?
Um leitor comparou a aliança à que foi celebrada entre PSDB e PFL para a eleição presidencial de 1994. A parceria firmada entre os grupos proprietários, respectivamente, do primeiro e do segundo jornal do país em circulação (Folha e O Globo) está inscrita em um movimento de concentração de capital que atinge a economia como um todo.
Faz parte também da estratégia desses grupos para fortalecer posições diante da perspectiva de aprovação da emenda constitucional que abrirá o setor de comunicações à participação estrangeira.
Por seu caráter empresarial e pelo potencial de ampliação para novos negócios, o acordo extrapola os limites do jornal Folha de S. Paulo e de seu relacionamento com o leitor, objeto central da atenção da ombudsman.
Mas não deixa de entrar nesse território. A preocupação manifestada pelas pessoas que me procuraram se refere aos efeitos que a parceria com a família Marinho poderá ter sobre o jornalismo praticado pela Folha.
O presidente do grupo, Luís Frias, afirma que a independência será mantida, seja para criticar as Organizações Globo, seja para divergir do novo jornal, o mesmo valendo para o outro lado. ‘Há uma cláusula clara a esse respeito registrada no acordo’, disse ele em conversa com a ombudsman na sexta-feira.
A desconfiança do leitor da Folha é tão compreensível quanto a lógica de mercado que determinou a aliança.
Exceto pela profusão de notícias sobre fusões e associações no exterior e no país, nada do que ele leu no jornal poderia tê-lo preparado para o anúncio da semana passada. Pelo contrário. Na imprensa brasileira, é a Folha que faz, há anos, a oposição mais sistemática às ambições e métodos do maior grupo de comunicação do país.
Reportagens apontam avanço monopolista das ramificações do império. Colunistas enxergam manipulação e oficialismo no noticiário da Globo e de O Globo. Se não perde de todo o sentido, esse discurso fica bastante esvaziado à luz do acordo.
Levando em conta o retrospecto, o leitor tem o direito de considerar a união tão esquisita quanto os casamentos arranjados da novela das oito. E de temer que o ‘dote’ inclua uma espécie de anistia jornalística.
A Folha nega que isso vá ocorrer. É importante que o faça, mas as dúvidas vão persistir. A declaração de intenções terá de ser testada na prática. Exemplos em todo o mundo mostram que os parceiros tendem a se conter, e suas diferenças, a diminuir (a Folha e O Globo já têm, hoje, mais semelhanças do que tinham há poucos anos). É grande, portanto, o desafio presente no compromisso assumido diante do leitor.
Não é caso de esbugalhar os olhos de espanto, mas de mantê-los bem abertos, para observar o jornal e questioná-lo no momento oportuno.
"De olhos bem abertos", copyright Folha de S.Paulo, 10/10/99
Alberto Dines
"Contam os cronistas que, em 1515, vinte e um anos depois da assinatura do pacto de Tordesilhas, Francisco I, rei da França, teria lançado a pergunta irada e desafiadora: em que cláusula do Testamento de Adão os reis de Portugal e Espanha se fundamentaram para repartir o mundo entre si? Testamento de Adão, fruto da fértil retórica francesa, passou a designar desígnios ilegítimos daqueles que se pretendem donos do mundo.
O convênio luso-espanhol assim como essa e outras contrariedades ficaram restritas às cortes européias simplesmente porque não existiam os mecanismos de comunicação. Mas em 1939 quando Molotov e von Ribbentrop, firmaram o famigerado Pacto de Não-Agressão, a repercussão foi tremenda e o impacto imediato. Graças a ele o nazismo triturou impunemente o leste europeu durante dois anos. Stalin que assistiu à cerimônia no Kremlin fez um brinde: ‘Eu sei quanto o povo alemão ama o seu Fuehrer, por isso brindo à sua saúde’. A cínica manifestação chocou o mundo porque ao longo dos últimos seis anos Hitler e Stalin haviam se enfrentado furiosamente não apenas numa guerra verbal mas no sangrento conflito na Espanha.
Quando no dia 1º de julho as arquirivais Brahma e Antártica proclamaram com grande estardalhaço a megafusão preocuparam não apenas os bebedores de cerveja, os fabricantes das outras marcas, trabalhadores, fornecedores. O assunto foi levado ao Executivo, Legislativo e Cade. O mesmo aconteceu nesta semana nos EUA com a fusão das telefônicas MCI e Sprint. As autoridades americanas, convictamente democráticas e, por isso atentas ao perigo dos carteis e trustes, não gostaram -- os benefícios para o usuário serão nulos e os malefícios para o mercado, enormes.
Não ultima segunda-feira tivemos em nosso arraial outro surpreendente e gigantesco pacto. Numa área institucionalmente mais sensível e com teor de ameaças maior do que cervejas. O acordo Globo-Folha, misto de armistício e associação tem, implícito, uma pretensão ou viés – para usar a palavra da vez – de Tordesilhas. Divisão do mundo.
E, até o momento, cinco dias depois do anúncio (uma eternidade nos dias que correm), não apareceu nenhum francisco como o rei de França para investir contra o intangível, imponderável e ilusório Testamento de Adão. Malignidade instantânea, esse silêncio inicial além da estupefação, é comprometedor. Desvenda o potencial de intimidação contido no súbito aumento de concentração na super-concentrada mídia brasileira.
Compreende-se que as duas dezenas de articulistas das duas casas aliadas sintam-se constrangidos em comentar uma decisão empresarial. Estranha que os demais veículos tenham sido tão álgidos nas reações. Mas é estarrecedor que seis centenas de parlamentares, eleitos para zelar pelos interesses da sociedade, omitam-se em comentar a ‘fraterna’ parceria de dois figadais adversários que, através de opções íntimas ou cotoveladas públicas, estabeleciam uma polarização extremamente salutar para o debate nacional. Medo de incorrer na ira de tão poderosos veículos ou simplesmente ignorância sobre as necessidades vitais de um regime democrático?
É evidente que os Grupos Globo e Folha mantêm sua independência. A associação visa o lançamento de um terceiro veículo, diário, na área de economia e negócios. Continuam concorrentes. Mas não se pode ignorar que sócios tendem a entender-se. A vocação orgânica de parceiros é para preservar parcerias. Quando há interesses comuns, a controvérsia arrefece, limita-se às formalidades – deixa de ser controvérsia.
Quando a Folha acusava O Globo de praticar um ‘jornalismo chapa branca’ isso era bom para todos. Quando O Globo respondia denunciando a Folha como ‘arrogante e irresponsável’ também era muito bom para todas as partes. Apesar da falta de compostura, a democracia saía fortalecida. A disputa também.
Aqui entra Adão e o seu mitológico e tirânico testamento. A nova parceria configura a mesma demarcação do mundo, autoritária e inadequada, subjacente aos Tratados (foram dois) assinados na vila de Tordesilhas em 7 de Junho de 1494.
Como Espanha e Portugal que nos 100 anos seguintes convergiram até fundir-se num único país, a partir desse primeiro lance, evidencia-se a existência de um mapa-múndi onde os novos parceiros delimitam seus domínios e abdicam tacitamente de invadir os do outro. Assumem-se como os donos do pedaço e o partilham como lhes convém: o Grupo Globo não entrará, direta ou indiretamente em São Paulo e o Grupo Folha passa ao largo do Rio de Janeiro.
A linha traçada pode interessar aos signatários. Mas não àqueles que estão apostando no desenvolvimento, expansão e diversidade da nossa imprensa. No momento em que a emenda ao artigo 222 da Constituição tramita célere na Câmara e prenuncia uma recapitalização e revitalização das empresas jornalísticas, a apressada promulgação desse Testamento de Adão tenta impor um formato arbitrário e capenga ao nosso processo mediático e político. Com o pretexto hipócrita e mesquinho de desenvolver o segmento de jornalismo de negócios.
Belo ‘trailer’ de ética empresarial. O formidável poder de fogo da TV Globo combinado à tremenda penetração da Folha estão fadados a estraçalhar a Gazeta Mercantil ou qualquer outro que se interponha a esse projeto hegemônico. Esse é um dado que as silenciosas testemunhas a partir de agora não podem ignorar.
Graças a Tordesilhas e o suporte do Testamento de Adão fomos descobertos pelos portugueses. Com a nova Entente voltamos à era das capitanias hereditárias."
"O Testamento de Adão", copyright Jornal do Brasil, 9/10/99
Folha de S.Paulo
‘Estou muito feliz e já ansioso pelo novo jornal econômico. Achei excelente a idéia de a Folha fazer essa parceria que, com certeza, irá revolucionar a área. Torço para poder contar com grandes reportagens de jornalistas como Luís Nassif, Joelmir Beting e muitos outros.’
Frederico Vanetti de Araújo (Pato Branco, PR)
xxx
‘Essa parceria entre o Grupo Folha e as Organizações Globo não é nada boa para a Folha. Não é certo que um jornal que se mostrou imune a interesses particulares em toda a sua história se junte a essa organização nefasta. É obvio o interesse da Globo em dominar o ramo dos jornais diários no Brasil, único setor das comunicações de massa que está livre dos caprichos do sr. Roberto Marinho.’
Artur Cavalera (Jales, SP)
Painel do Leitor, copyright Folha de S.Paulo, 6/10/99
xxx
"A Folha sempre pautou a sua linha editorial por um posicionamento plural, crítico e apartidário. O grupo ‘Globo’, ao contrário, sempre praticou um jornalismo servil aos poderosos de plantão. A dinastia Marinho sempre esteve mais preocupada em bajular os governantes do que informar claramente seus leitores e/ ou telespectadores.
Embora já haja declarações em contrário vindas da cúpula do jornal, não acredito que a Folha continue com o mesmo espírito crítico e independente que sempre se contrapôs ao estilo Globo.’
Lauro Augusto Bittencourt Borges (São João da Boa Vista, SP)
xxx
Horroriza pensar que a Folha possa estar se associando com aqueles que manipulam dados e têm como regra o noticiário tendencioso e partidário. A Folha perde um leitor.’
Claus Pereira (Porto Alegre, RS)
Nota da Redação – A própria publicação de manifestações como as duas mensagens acima é indicativa de que a Folha está determinada a manter sua linha editorial de independência e crítica, que o acordo com as Organizações Globo em nada altera.
Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 14/9/99
RODA VIVA
Lula veta repórter (*)
Luiz Maklouf Carvalho
O presidente de honra da PT, Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a responsabilidade pelo veto de seus assessores à participação deste jornalista como um de seus entrevistadores no programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira 4/10/99.
"Eu estava em Paris, voltei sábado à noite e domingo de manhã fiquei sabendo do veto. E eu concordo com o veto. Porque o problema meu com o Maklouf é um problema pessoal, não é um problema político. E eu acho que a minha assessoria agiu corretamente", disse Lula ao responder um questionamento do jornalista Ricardo Noblat, diretor de redação do jornal Correio Braziliense e um dos cinco entrevistadores.
A informação sobre o veto da assessoria do Lula apareceu no começo do programa, logo após a apresentação dos jornalistas presentes. "Gostaríamos também de registrar que o jornalista Luiz Maklouf Carvalho foi convidado pela produção do Roda Viva para participar da bancada dos entrevistadores. A assessoria de Lula vetou a participação de Maklouf em nosso programa", disse o apresentador Heródoto Barbeiro, sem mais comentários.
Em sua primeira intervenção, Noblat questionou: "Você anunciou que um jornalista tinha sido convidado e tinha sido vetado pela assessoria do Lula. Como eu nunca vi isso no Roda Viva, pelo menos publicamente, eu gostaria de entender porque houve o convite e o nome do jornalista foi vetado".
Lula deu a resposta acima transcrita, e Noblat retomou: "Eu não vou entrar na discussão do pessoal, mas eu não sabia que essa prática existia no Roda Viva." "E nem no PT", acrescentou Eliane Cantanhêde, diretora da sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília. Noblat concluiu: "Eu pelo menos participo há muito tempo e nunca tinha tomado conhecimento de uma questão dessas".
"Sempre há uma primeira vez", disse Lula.
O próximo e último a tratar da questão foi José Paulo Kupfer, jornalista da TV Bandeirantes e colunista do Diário Popular e de mais 30 jornais. "O PT tem feito coisas esquisitas, além desse veto a um jornalista, mesmo que você tenha um caso pessoal..."
"Não tenho caso nenhum", respondeu Lula dando risada.
"Um problema pessoal", corrigiu Kupfer, arrematando: "Isso é muito esquisito".
Os outros entrevistadores foram Carlos Alberto Sardenberg, da TV Cultura e da CBN; Roberto Muller, diretor de redação de A Gazeta, de Vitória; e Luiz Felipe D"Ávila, diretor e colunista político das revistas Bravo! e República. Os três, assim como Heródoto, não se pronunciaram a respeito do veto.
"Problema pessoal"
é conversa fiada (*)
L. M. C.
Devo dizer, a título de esclarecimento, que nunca tive qualquer relacionamento de natureza pessoal com Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os contatos que tive com ele ao longo dos últimos anos foram estritamente profissionais – o que me dá o direito de desqualificar sua "explicação" sobre "problemas pessoais". O que sempre fiz – e vou continuar fazendo – foram diversas reportagens sobre Lula e o PT. Fiz perfil, entrevistas exclusivas e coletivas, entrevistas pelo telefone. Juntando tudo, dá para fazer um livrinho. Três dessas reportagens ficaram mais conhecidas: o furo sobre sua filha Lurian (abril de 89, no Jornal do Brasil), a entrevista exclusiva com Paulo de Tarso Venceslau, denunciando tráfico de influência no chamado caso CPEM (Jornal da Tarde); e a matéria documentada que desmontou parte da versão contada pelo petista para explicar a compra de seu apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo (Folha de S.Paulo), de resto ainda obscura. Em todas elas, Lula foi procurado para dar sua versão. Não quis fazê-lo no caso CPEM e na matéria sobre a cobertura. Em todas elas e nas demais não sofri pessoalmentente um único processo. Nos que existiram, contra os veículos que as publicaram, Lula e o PT perderam. Também perderam as oito ações (oito, repito, porque deve ser um recorde!) que moveram contra o economista Paulo de Tarso Venceslau.
Desconfio que está aí o motivo real do veto vergonhoso. Talvez seja o medo das perguntas incômodas ao vivo e a cores, talvez seja a falta de respostas claras, talvez seja a impossibilidade de dá-las, talvez seja o fato de não ter como explicar com a toda a transparência que deve seu crescimento patrimonial dos últimos anos.
Seja o que for, não é dignificante, não é democrático, não é limpo. É essencialmente covarde. Mas são problemas do Lula e do PT do Lula. Como diz o ditado, quem não deve, não teme. Ou, como dizia um jornalista norte-americano: "Não existem perguntas embaraçosas. Só respostas embaraçosas".
Devo dizer, também, que lamento a postura do Roda-Viva, onde tantas vezes compareci. Primeiro, porque aceitou a censura prévia, de tristíssima memória. Segundo, porque o fez passivamente – como se a assessoria de Lula mandasse no programa – sem sequer marcar uma posição de protesto.
Desconvite inédito (*)
L. M. C.
Recebi e aceitei o convite da produção do Roda Viva na terça-feira, 28/9/99, à tarde. Como sempre fazem, confirmaram o endereço para enviar o material de pesquisa sobre o entrevistado. Na sexta, 1/10, também à tarde, recebi um telefonema constrangido em que a produção me desconvidava. Marco Antônio Coelho, o jornalista que dirige o programa, confirmou o desconvite. "A assessoria do Lula vetou o teu nome", disse, manifestando surpresa e indignação. Logo após a conversa ligou novamente para a assessoria, tentando demovê-la. Não conseguiu. A resposta, taxativa, foi na base do "ou ele ou o Lula".
Na noite da segunda, dia do programa, Marco Antônio ligou, perguntando se eu queria me manifestar. Não quis. Achei, e ainda acho, que seria coonestar.
(*) Copyright Profissão: Repórter <www.geocities.com/TheTropics/8662/fundo.htm>
DINHEIRO SUJO
Política na nova mídia
Rogério Pacheco Jordão
Que a internet é um meio privilegiado para o livre debate e difusão de idéias não é nenhuma novidade. Na arena do embate político, os zapatistas no México talvez sejam o melhor exemplo disso. É interessante pensar que a agenda da informação já não gira necessariamente em torno das mídias tradicionais. Vide o exemplo da Nike, denunciada na web por usar mão de obra semi-escrava no Sudeste da Ásia.
Dentro desta ótica, destaca-se a questão da corrupção. Começo levantando a seguinte hipótese: os esquemas de lavagem de dinheiro se constituíram em um enorme problema político para o Brasil, pois ligam o dinheiro da droga ao dinheiro de outras origens como caixa dois de empresas, caixa de campanha de políticos, dinheiro de endinheirados em geral (nos bancos isso muitas vezes ganha o nome de private banking). Não são muitos os técnicos – os que têm know-how de todo o processo– que sabem fazer o dinheiro sujo voltar como limpo, via paraísos fiscais. O gargalo é estreito e, por isso, eles são um elo importante. Isso significa dizer, dentro desta hipótese, que nenhum combate ao crime organizado, e portanto à corrupção por ele gerada, dará certo no Brasil por causa das alianças políticas já estabelecidas.
A iniciativa está com a sociedade civil – mais especificamente com tudo que não é governo, nem autoridades constituídas, nem o que gira em torno delas (jornais, por exemplo). Nesse sentido, a nova mídia é um instrumento eficiente, pois gera a possibilidade de novas redes de pessoas se comunicando.
Na Itália, durante as investigações da Operação Mãos Limpas, em 1992, um dos jornalistas que trabalhava na historia descobriu que o grau de envolvimento de políticos, empresas (de comunicação, inclusive) em corrupção era de uma tal magnitude que só restava o caminho radical de fundar uma rádio pirata. No Brasil, acredito que só é possível levar a fundo discussões sobre corrupção por intermédio de meios alternativos.
Quando o assunto é dinheiro saindo do país, isso acontece por causa do gargalo estreito acima referido. Não é que tudo vira pizza; não é que "brasileiro é corrupto mesmo"; não é que "faz parte da nossa cultura": mas é por que há interesses casados criando uma espécie de paralisia.
Até aí nenhuma novidade. A coisa fica mais dramática, porém, quando entramos na seara de drogas, uma multibilionária indústria ilegal à qual nos integramos primeiro como rota de transporte e mais e mais como lavanderia.
O Brasil está sem os meios políticos para lidar com esse problema estratégico. E como a mídia reage a isso?
No início de outubro, autoridades do governo federal estimaram que o Brasil lavou, em 1998, cerca de 35 bilhões de dólares. Se esse dado – na verdade uma estimativa – estiver perto da realidade, significa que o Brasil pode estar lavando atualmente 10% do dinheiro sujo do planeta. Isto é: se também estiverem algo perto da realidade as estimativas que dão conta que lava-se anualmente entre 300 bilhões de dólares e 500 bilhões de dólares.
A lavagem de dinheiro foi tema de dois papers feitos para o FMI, em 1996; existem centros importantes de pesquisa publicando regularmente sobre o tema (como, por exemplo, a revista Journal of Money Laundering Studies, do Institute of Advanced Law Studies da Universidade de Londres). Já se transformou em um enorme problema econômico-financeiro-político e todo mundo que tem um pouco de bom senso (e não tem dinheiro em paraísos fiscais) deve estar realmente preocupado com esse volume de dinheiro sujo flutuando pelos mercados de capital.
Aqui insiro uma frase pescada de uma conversa com uma economista holandesa, que trabalha para o governo daquele país, na área de mercados financeiros, depois de saber do meu interesse pelo tema e das implicações para a America Latina: "Your guys have a real problem down there". Não tive tempo de perguntar por que, e nem de contestar o "down there" – como "down there"?!? – porque estávamos em uma recepção no suntuoso prédio do Foreign Office, e ela se afastou para pegar uns canapés e nunca mais voltou.
E como a mídia retrata isso?
As pessoas e grupos e organizações e instituições e cérebros que estão lidando com anti-corrupção estão usando muito a mídia, mas não a tradicional. Por exemplo: pesquisando sobre corrupção descobri um site com uma série de teses universitarias sobre o tema. Na internet há vários guias práticos de como se investigar atividades de corporações.
Na semana de 10 a 15 de outubro, ocorreu a IX Conferência Internacional Anti-Corrupção, na África do Sul, e a melhor maneira de saber mais sobre isso é na internet, na URL <http://www.transparency.de>. O encontro acontece a cada dois anos e dessa vez reuniu mais de mil participantes, entre pesquisadores, organizações não-governamentais, instituições e autoridades como ONU e Banco Mundial. Se autoridades estiveram lá, então é provável que ouçamos falar da conferência nos jornais (fulano diz que, sicrano afirmou ontem que...).
(*) Rogerio Pacheco Jordão é jornalista com mestrado em Política Comparada pela London School of Economics and Political Science. E-mail: jordaor@hotmail.com
JORNALISMO ECONÔMICO
Mapa da mina
Inaiê Sanchez (*)
Muitos analistas e jornalistas financeiros haviam, há um bom tempo, decretado a morte do ouro como opção de investimento, mesmo com caráter de longo prazo. Não o recomendavam nem para os piores inimigos. No entanto, algumas previsões de baixa para o metal não continham uma frase obrigatória no final das avaliações consideradas sérias: a de "outros fatores permanecendo iguais". Isto significa, em outras palavras, que uma certa projeção deve se realizar a não ser que algum fato novo venha a causar alterações. E foi exatamente nessa armadilha em que caíram os incautos.
A onça do metal, em baixa desde 1980, chegou há algumas semanas a 250 dólares após o Banco da Inglaterra ter anunciado, no segundo trimestre, que venderia parte de suas reservas. No entanto, um fator inesperado fez com que os preços virassem: a decisão anunciada, no final de setembro, de que a totalidade das vendas de ouro dos bancos europeus ficaria limitada a 2 mil toneladas nos próximos cinco anos, e a 400 toneladas por ano.
Como conseqüência, a onça agora está sendo negociada nos mercados internacionais por volta de 318 dólares – seu maior patamar desde abril do ano passado, mais do que compensando as perdas geradas pela decisão do Banco da Inglaterra. Ou seja, bom para aqueles que, de olho no longo prazo, seguiram seu instinto imaginando que, devido aos preços tão deprimidos, eram grandes as chances de o preço do metal acabar subindo por um motivo ou por outro.
Entretanto, a recente alta não deve convencer em definitivo os avessos a esse tipo de investimento. Estimativas apontam que atualmente existem em estoque 140 mil toneladas de ouro, o suficiente para dar conta de mais de 40 anos de demanda. Mas, afinal, as forças que movem a oferta e a demanda não são estáticas.
Apenas uma hipótese: se se tornasse realidade o sonho de alguns de restaurar o papel monetário do ouro para pôr fim à falta de estabilidade das moedas, o metal recuperaria seu status. Afinal, até 1914, quando terminou o Padrão-Ouro Clássico, as moedas nacionais eram simplesmente nomes para certas quantidades fixas de ouro. Havia, na verdade, um único mercado global com uma moeda única. Também em Bretton Woods – como ficou conhecido o sistema que ditou as regras monetárias internacionais desde o pós-Segunda Guerra até 1971 – o ouro ocupava um papel central.
Tal idéia, obviamente, é descartada por completo pela ordem neoliberal vigente, que defende a livre flutuação nos mercados de moeda. Mas não deve ser esquecida, uma vez que ainda não se sabe exatamente onde a crescente volatilidade cambial pode levar o sistema monetário internacional.
"Se outros fatores permanecerem iguais", é bem provável que o ouro não retome o esplendor de antigamente. De qualquer forma, a reviravolta dos últimos dias deixa pelo menos duas lições aos jornalistas econômicos de discurso pronto: primeiro, a necessidade de se pesquisar o assunto sobre o qual se propõem a escrever. O despreparo leva à credulidade e à simples reprodução do que lhes é dito. Segunda lição: mais estudo também possibilitaria uma melhor escolha das fontes. Como em qualquer outro ramo do jornalismo, o financeiro também está sujeito a fontes que não dominam o assunto ou com interesse em defender opiniões parciais. Cabe então ao profissional diferenciar o joio do trigo mas, para isso, é preciso muita leitura. Parece óbvio, mas não é – ainda mais quando se trata do campo econômico, onde aparecem novidades todos os dias.
Mas, alto lá! Não é só a erudição que forma um bom jornalista. Um pouco de faro também não faz mal a ninguém...
(*) Autora de Para entender a internacionalização da economia, Editora Senac, 1999
NÚMERO-NOTÍCIA
Chato é quem explica
Antonio Fernando Beraldo (*)
No último feriadão (9-12 de outubro), nossa tranqüilidade foi perturbada, mais uma vez, por uma espécie de enxame de números a brotar dos jornais, numa chatura descomunal que só a precisão exagerada ou o seu oposto, o chute deslavado, podem proporcionar. No começo do fim de semana, a ansiedade dos apostadores no sorteio da Megasena foi pauta obrigatória. Gastou-se muita tinta nas previsões de quanto seria o montante, quais as chances de ganhar, quantos apostadores ganhariam. Na noite de domingo, 10/10/99, enfim, o alívio (ou o desapontamento): só havia um cartão com as dezenas, que levou o prêmio de mais de 64 milhões de reais.
Já conformados, passamos a aproveitar o que restava do feriado. Qual o quê... No dia da Santa Padroeira, 12 de outubro, além da tradicional visita a Aparecida, SP, promoveu-se uma festa imensa no Maracanã, com nada menos de nove padres-cantores, alguns saltitantes, outros não, mais um coral de 1.500 vozes e 3.000 pessoas que pulavam e dançavam no gramado. Segundo a Suderj, compareceram ao evento 161.722 pessoas, fora uns 10.000 que entraram, correndo e pulando sem convite, mesmo. Um público 40,46% superior à lotação de segurança do Maracanã, que é de 122.250 pessoas, sentadas e quietas. Enfim, um monte de números complicados. E os jornais deitaram e rolaram.
Foi uma farra no Globo, na Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Dia. O Globo, além das cifras, citou até o recorde de público no Maracanã de 1969, quando um jogo entre Brasil (1) e Paraguai (0) teve platéia de 183.341 pessoas. Relacionou também outro grande público, na visita do Papa João Paulo II, quando cerca de 115 mil fiéis foram à festa. Muita gente, mas um público menor do que o da festa deste ano, dado que o Papa não pula e canta razoavelmente mal. Segundo o jornal, "apesar do número de fiéis reunidos, nenhum incidente grave foi registrado. A segurança foi feita por 1.600 policiais militares de 30 batalhões, 320 pessoas de apoio e 200 voluntários da arquidiocese". O astro da festa foi o padre-cantor-saltitante que, nas 24 horas que passou no Rio, distribuiu cerca de 20.000 medalhinhas, o que dá uma média de 13,89 medalhinhas por minuto.
O Jornal do Brasil trouxe algumas cifras repetidas, mas ficamos sabendo que, em Aparecida, Roberto Carlos cantou músicas religiosas para cerca de 45.000 pessoas, lotação da Basílica dedicada à padroeira. Na cidade, segundo o jornal, "de acordo com a arquidiocese, visitaram o Santuário 130 mil romeiros apenas ontem [12/10], praticamente o mesmo número registrado no ano passado, de 127 mil fiéis. Desde sábado, passaram pela cidade 280 mil pessoas". O jornal O Dia apresentam números diferentes: "Mais de 300 mil romeiros passaram pela Basílica de sábado até ontem. Chegaram ao santuário 2.326 ônibus, 6.922 carros e 235 vans". Vinte mil a mais ou a menos não fazem lá muita diferença, quando se misturam números exatos (seis mil, novecentos e vinte e dois carros!) e estimativas. E em Aparecida as pessoas ficam andando de um lado para o outro, sem pular nem dançar – daí que a contagem é muito complicada.
Na Folha, primeira página, "Festas católicas reúnem 329 mil". As cifras: 167 mil fiéis em Aparecida, mais de 161 mil pessoas no Maracanã. Ou seja, na Folha, Aparecida e Roberto Carlos batem no Maracanã de Marcelo Rossi e outros, por 167 mil a 161 mil. No JB, Aparecida perde para o Rio de 161 mil a 130 mil. Na Folha, a lotação da Basílica sobe para "cerca de 50.000" fiéis. A platéia do Papa João Paulo II sobe para 120 mil, Frank Sinatra (que não pulava, e cantava muito melhor que os 9 padres juntos), 140 mil. O número de penetras na festa de terça-feira sobe para 20 mil, e o coral sobe para 2.000 vozes.
Que bagunça, não? Infeliz de quem chegou até aqui, neste artiguinho, atolado em cifras, afogado em números [veja remissão abaixo]. E que chatura, essa espécie de pôquer de estatísticas desencontradas, misturando uma exatidão desnecessária e inócua, com duvidosos "grandes números", chatice típica de quem manda "qualquer coisa" e estamos conversados.
Diz-se que "chato" é aquele a quem a gente pergunta "como vai?, e ele explica. No clássico Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme Figueiredo, o autor, no final do livro, deixa umas páginas para que o leitor faça anotações, incluindo novos tipos de chatos. Eis aí uma oportunidade de acrescentar estes novos tipos. Aliás, nem tão "novos" assim. E, como já dizia Fernando Sabino, "o chato não tem perdão". E nós não temos sossego, nem nos feriados.
(*) Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora
Assim não é, embora lhe pareça
A GAZETA
Hitler em espaço nobre
Victor Gentilli
O Espírito Santo tem ocupado bons espaços na imprensa nacional. IstoÉ já há duas semanas vem trazendo documentos que ligam o ministro da Defesa, Elcio Alvares, ao crime organizado. Semanas atrás, a Folha de S.Paulo trouxe uma série de matérias mostrando que o Banco do Estado fez um grande empréstimo ao então governador eleito, para quitar dívidas da campanha eleitoral. Duas empresas obtiveram também empréstimos no dia 30 de dezembro, e com estes recursos o governador eleito pagou sua dívida ao banco.
Um precatório pago fora da ordem no mesmo dia 30 de dezembro também tem sido assunto na mídia nacional.
Mas os jornais locais preferem esfriar estes assuntos.
Enquanto isso, um cidadão que se apresenta como Uchoa de Mendonça e se intitula jornalista escreve bobagens três vezes por semana, ocupando um dos espaços mais nobres de A Gazeta. Na página 4, ao lado do editorial e da charge, Uchoa de Mendonça já reclamou da padaria, do barulho na esquina, do PT, do Lula, do governador. Uchoa adora reclamar de tudo. Seus artigos são sistematicamente deixados de lado pelos leitores.
Uchoa defende a revisão histórica do nazismo e do holocausto e admira Hitler. Evidente: sempre que trata deste assunto, destila seu mais rasteiro anti-semitismo. No dia 13 de outubro, Uchoa publicou mais uma de sua série, sob o título "Hitler tinha razão?"
Cada um que pense e escreva o que quiser. Cada jornal que publique o que achar conveniente.
O problema é que cada um precisa pagar o preço de suas escolhas. A Gazeta, a continuar neste caminho, vai terminar perdendo credibilidade. Os leitores não são burros.
RONALDINHO
A mídia escravizada
Marinilda Carvalho
O mais estranho fenômeno do futebol brasileiro está sendo solenemente ignorado pela mídia: o patético futebol de Ronaldinho nos jogos da Seleção Brasileira. Os narradores esportivos descrevem os gols perdidos pelo ex-craque em tom natural, os colunistas insinuam que a recuperação do ex-matador tem sido muito lenta, as matérias sobre os jogos falam muito da namorada, do casamento, do filho do ex-goleador, e nada de seu triste desempenho em campo. Ninguém diz que o técnico da Seleção erra ao convocar seguidamente o ex-melhor-do-mundo.
Por quê? Estará em andamento algum acordo de cavalheiros, alguma conspiração de silêncio sobre a verdade mais visível do nosso futebol, a de que Ronaldinho não sabe mais girar, driblar, arrancar, chutar, finalizar, fazer gol? Em qualquer timeco o ex-astro ficaria no banco até voltar à antiga forma. O próprio Inter de Milão, que paga ao ex-atacante um salário que exige retorno, o põe eventualmente na reserva.
Mas a mídia brasileira, escravizada ao marketing do ex-driblador, nada questiona, não esperneia contra o fato de um ex-fenômeno ser titular absoluto da Seleção – embora um monte de jogadores esteja dando show de gols pelo Brasil e aspire com justiça a vaga do ex-tudo. Enquanto isso, a Seleção empata graças a gol de lateral. Que pobreza...
EDMUNDO
Quem é o animal?
Flaminio Araripe (*)
Cenário: porta de cadeia. Horário: perto do fechamento, já noite. Pauta: o Animal vai sair da jaula. Depois de uma noite na prisão, Edmundo será libertado.
Lá fora, a selva da disputa por um espaço para enquadramento de fotógrafos e cinegrafistas.
Radialistas, repórteres de gravador em punho, no afã de alguma declaração da fera, catam informações sobre alimentação do preso, uso de celular, visitas.
De que lado está a animalidade? Essas coberturas a cotoveladas têm de ser assim? Pelo menos dá para organizar o circo? Menos sangue? Ossos do ofício?
Sei não... Acho que podemos aprender a fazer melhor. Quem sabe o assunto cabe à Sociedade Protetora dos Animais, se um Código de Ética ou uma convenção sindical não der jeito.
(*) Jornalista
MÍDIA EM CAMPANHA
Ciro na Veja
Gilberto C. Marotta
Mesmo uma leitura desleixada da imprensa atual não impede a percepção de que alguns grandes jornais (escritos e falados) – e não só os candidatos, como seria de se esperar – já estão em campanha. Ora miram em 2002 para acertar 2000. Ora o contrário.
Um episódio recente e exemplar dessa história é a ressurreição daquela velha campanha em torno da já mundialmente consagrada violência do Rio de Janeiro, que ganhou novo impulso na mídia por conta da proposta demagógica (também esta ressurreta) do prefeito Conde de colocar os exércitos nas ruas.
Que o PFL do prefeito tenha saudades do exército nas ruas é fato passível de compreensão. Afinal, algumas vocações são tão naturais e arraigadas que não seria sensato esperar que se apagassem assim, na poeira do tempo. O que se estranha no caso é a complacência da mídia com tais vocações – logo a mídia que, de um modo geral, foi tão atingida por elas.
Pouco importa que todas as estatísticas comprovem que a violência exacerbou-se no Rio (pari passu à truculência da polícia) a partir do governo Moreira Franco. Para a opinião pública ficará sempre a impressão de que foi Brizola quem trouxe a insegurança para o estado, tal a força da campanha orquestrada por importantes setores da mídia contra ele.
Também não importa que se comparem as estatísticas do Rio com São Paulo: haverá sempre gente capaz de dizer que o Rio é a metrópole mais violenta do país, quiçá do mundo. Eis a herança que nossa imprensa nos legou, com uma cobertura tão sensacionalista de um assunto tão sério.
Há mais por trás de tudo isso, porém. Sempre que um candidato de esquerda avança no país, demonstra algum fôlego para alcançar o poder majoritário, forças conservadoras extremamente organizadas se unem para minar seu caminho, e contam com a ajuda, ora explícita (como na edição para o JN do debate Lula x Collor em 89 ou, mais recentemente, no episódio do Ibope nas eleições para o governo do estado de São Paulo), ora velada (isso temos visto todos os dias), de boa parte da imprensa nacional, que lhes tem servido de garota de recados.
Nada, porém, do que tenho visto, teria me preparado psicologicamente para a última proeza de Veja. Desde a capa, elegendo Ciro Gomes o expoente máximo de uma tal esquerda "light" (que será isso? terão as ideologias se deteriorado tanto a ponto de as correntes político-partidárias poderem ser comparadas a refrigerantes ou margarinas, com versões light e diet, para todos os gostos?), até o outdoor degradante ("Sabe quem está namorando o Ciro Gomes agora? O eleitor"), passando pela extensa matéria, Veja esforçou-se ao máximo para oferecer aos leitores tudo, menos jornalismo de qualidade. Ou melhor, esforça-se já, tão prematuramente, diante do óbvio fracasso de suas apostas anteriores, para oferecer aos eleitores um cardápio diferente e mais palatável que Lula em 2002. E isso é só o começo...

Acordo Folha-Globo, primeira avaliação
Folha vs. TV Cultura
Assim não é, embora lhe pareça
|