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MÍDIA & GOVERNO
Um presidente marcado pela mídia
Luiz Antonio Magalhães
A revista Veja desta semana (edição 1.178, com data de capa de 20/11/02), traz uma longa entrevista com o presidente Fernando Henrique Cardoso, concedida ao jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Trata-se de um balanço dos fatos que marcaram os oito anos da gestão tucana no governo federal. No trecho reproduzido abaixo, Cardoso faz um breve comentário sobre a relação de seu governo com a mídia e cita um veículo em especial: o jornal Folha de S.Paulo.
"Veja – O senhor disse muitas vezes: ‘Preciso fazer isso, preciso fazer aquilo, senão eu caio’. Parecia assombrado pela crônica brasileira de tantos presidentes depostos. O senhor se sentiu alguma vez realmente ameaçado?
FHC – Houve tentativas, mas sempre tive maioria confortável no Congresso. Acho que nenhum presidente, talvez só Getúlio, foi alvo de tanta agressividade de certos setores da mídia como eu. Não esqueça que a Folha fez uma edição de várias páginas com argumentos para o impeachment, por causa do episódio da escuta telefônica. Não esqueça que durante três anos uma infâmia, o Dossiê Caribe, circulou como se fosse uma possibilidade. O número de pedidos de impeachment no Congresso é imenso. Advogados da mais alta respeitabilidade pediram impeachment, com fundamento em recortes de jornais.
Veja – ‘Fora FHC’ era o lema.
FHC – Isso foi o tempo todo. Não perdi o diálogo nem a calma. Mas a atitude não foi democrática. O denuncismo não era para apurar efetivamente se houve erro e de quem. Era para atribuir culpa, e por causa dela pedir medidas políticas.
Veja – Esse comportamento não abala sua convicção de que as instituições democráticas estão garantidas?
FHC – O fato é que esse comportamento gerou gritaria, mas não teve conseqüência prática. Houve a tribunalização da política no Brasil. Quando se aprova uma lei, o partido que perdeu vai ao Supremo Tribunal e questiona sua constitucionalidade. Quando se baixa um ato de governo, aquele que se julga prejudicado entra com uma ação popular. Há advogados especializados em abrir ação popular. E a mais vistosa é contra o presidente da República. Dá para imaginar o gosto de um procurador quando acusa o presidente. Mas, enfim, acho que isso faz parte do processo de redemocratização. Em vez de reagir com indignação pessoal, reajo com compreensão histórica."
A comparação feita por Fernando Henrique Cardoso sobre o comportamento da imprensa durante o seu governo é espantosa. O presidente se julga vítima de ataques similares apenas aos sofridos por Getúlio Vargas, que culminaram no suícido do líder trabalhista, em 24 de agosto de 1954 . Não é preciso ser historiador para perceber que se trata de um evidente exagero. Uma retrospectiva é sempre esclarecedora: em 1994, a candidatura de FHC à presidência da República foi apoiada por praticamente todo o baronato da mídia brasileira. O Plano Real virou um mito e seus criadores foram transformados pela imprensa em semideuses. Todas as vozes críticas eram ridicularizadas ou tratadas como antibrasileiras.
Com exceção de alguns colunistas mais críticos, o fato é que nos primeiros quatro anos de governo, Fernando Henrique só foi realmente atacado – e mesmo assim, por apenas alguns veículos – em dois episódios: quando decidiu negociar uma mudança constitucional para garantir a sua própria reeleição, que culminou na denúncia de compra de votos de parlamentares para garantir a aprovação da emenda no Congresso; e quando estourou o escândalo das fitas cujo conteúdo revelava uma postura nada edificante de integrantes do primeiro escalão do governo durante o processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce. O dossiê Cayman, que Fernando Henrique Cardoso prefere chamar de Caribe, jamais foi seriamente investigado. Se circulou "como possibilidade", como diz o presidente, a verdade é que teve um efeito quase nulo em termos políticos: em 1998, Fernando Henrique era reeleito, mais uma vez com o apoio quase unânime da imprensa brasileira, que lhe dedicou o favor, durante a campanha eleitoral, de fazer sumir da pauta assuntos desagradáveis como seca e desemprego.
A lua-de-mel entre a mídia e o governo tucano a rigor prosseguiu durante quase todo o segundo mandato de FHC. Somente neste ano, talvez a partir da metade da campanha eleitoral (quando ficou claro que o candidato oficial tinha chances mínimas de vencer a disputa), é que parte da grande imprensa começou a portar-se com certa independência e a noticiar criticamente a grave crise que o país atravessa.
FHC & FSP
Queixoso do comportamento da Folha de S.Paulo no caso da "escuta telefônica", o presidente tem uma percepção bastante peculiar sobre a cobertura do episódio. À época, a então ombudsman do jornal paulista, Renata Lo Prete, criticou em seus artigos a postura da Folha por motivos exatamente opostos aos de FHC. Para Lo Prete, o jornal ficou o tempo todo muito aquém das revistas semanais na apuração dos fatos e deu a impressão de participar do que ela qualificou de "operação resgate" dos integrantes do governo envolvidos no escândalo. Assim escreveu a ombudsman, em 29/11/98:
"Os jornais saíram do caso do grampo no BNDES da mesma maneira que entraram: em flagrante desvantagem diante das revistas, que o tempo todo ditaram o andamento da história. (...) Enquanto isso, a Folha estava, como notei na crítica interna, no pior dos mundos (talvez só melhor que o do ‘Estado’, que optou por simplesmente ignorar o assunto em sua capa de domingo). Tentou contornar a ausência de informação colocando na manchete uma entrevista em que o ministro das Comunicações, na véspera do anúncio de sua demissão, apresentava suas idéias sobre administração pública (‘Mendonça defende prática de mercado’). Ou seja, o jornal deu a impressão de que participava de uma operação de resgate, o que, além de impróprio por definição, àquela altura foi tolo (a Folha já havia destacado o aviso de André Lara Resende de que o governo daria ‘um basta’ no barulho do grampo, um dia antes de ‘Carta Capital’ tornar ainda mais complicada a situação do presidente do BNDES)."
Uma semana antes, na coluna de 22/11/98, analisando o caso das fitas antes de seu desfecho, a ombudsman publicou o artigo intitulado "Honestos por definição", no qual já criticava a postura condescendente da Folha (nunca é demais lembrar que alguns dos envolvidos no escândalo eram e são até hoje articulistas do jornal, como o próprio protagonista, o então ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros). Renata Lo Prete terminou aquele texto lembrando uma reveladora frase do próprio presidente:
"Críticos do rumo tomado pelo episódio alegam que ele envolve enorme disputa política, e que a imprensa faz o jogo dos interessados – sejam eles os descontentes com os resultados da privatização, com o programa como um todo ou com a escolha de Mendonça de Barros para o futuro Ministério da Produção. De novo, é algo que não pode servir de argumento para o abandono do caso. Melhor fará o jornal se tornar a disputa transparente para o leitor. Dos diálogos revelados, há um sobre o qual pouco se falou ao longo da semana. ‘A imprensa está muito favorável, com editoriais’, disse o ministro ao presidente da República, a respeito do leilão da Telebrás, em um dos trechos publicados em ‘Veja’. ‘Está demais, né? Estão exagerando até’, respondeu FHC. Não é difícil entender o silêncio da imprensa diante da troça do presidente. Faz lembrar um daqueles almoços familiares em que uma tia dispara, do nada, um comentário tão desagradável quanto verdadeiro. Diante do constrangimento geral, só resta mudar de assunto e pedir para alguém passar o macarrão."
Não deixa de ser interessante imaginar que comentários Getúlio Vargas terá feito sobre os editoriais dos jornais brasileiros no ano de 1954. O disparate da comparação elaborada por Fernando Henrique Cardoso, porém, pode ter uma explicação plausível. Na mesma entrevista concedida a Roberto Pompeu de Toledo, o presidente comenta o incômodo das críticas que recebeu ao longo de todos esses anos. Diz ele:
"Veja – O senhor dá a impressão de se sentir mais incomodado com a crítica dos intelectuais, dos acadêmicos, do que com a dos políticos. É assim mesmo?
FHC – É. Porque, entre os políticos, um dá uma canelada, outro dá outra. A briga intelectual é mais ardilosa. Ela esconde o motivo real. O político briga pelo poder. Todo mundo sabe disso. O intelectual faz de conta que está dizendo a verdade. Finge que fala em nome da ciência, quando está sendo partidário. Outra coisa é que nunca fui favorável à atitude condescendente de certos intelectuais. Há um setor da intelectualidade que é condescendente. Se vem dos de baixo, é bom. Se é dos pobres de espírito, que maravilha. Isso é uma traição dos intelectuais à sua missão. Não pode ser bonzinho, assinar tudo que é manifesto. Estar sempre do chamado, aspas, ‘lado bom’. E, aí, não fazer mais nada. Você apaziguou sua consciência, ao assinar um manifesto do ‘lado bom’. E passa o resto da vida sem mexer uma palha para melhorar o país."
Assim, é preciso saber então em que condição falava Fernando Henrique Cardoso quando conversou com o jornalista da revista Veja. Se respondia como político, vivendo seu ocaso na presidência, seria bom dar um desconto: pode ser apenas uma canelada na Folha, coisa à toa, jogo de poder. Dificilmente, portanto, foi o laureado sociólogo quem falou à Veja, pois este jamais apaziguaria sua consciência com frases bombásticas e comparações estapafúrdias.
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