
BALANÇO & PERSPECTIVAS
Mídia e Imprensa, enfim separados
Alberto Dines
Pode-se afirmar que o ano mágico não produziu passes de mágica nem mudanças significativas. Não houve alterações no atoleiro mediático. Por isso, tudo indica que teremos mudanças pela frente. Inevitável, a dialética não é uma abstração filosófica. É um movimento vital, incorporado à natureza, concreto.
O saldo dos últimos doze meses é desalentador. Não difere do que aconteceu nas duas últimas décadas. A mídia incorporou-se à nossa civilização, é uma das suas marcas, senão a marca da nossa forma de viver, pensar e reagir. E, como tal, assume-se como responsável pelo mal-estar resultante.
A Era do Espetáculo é uma realidade e a mídia, a sua grande ribalta. E na medida em que este vale-tudo circense se mantiver desregulado, na contramão do interesse social, a degradação do sistema e do ambiente onde está inserido deverá magnificar-se em proporção geométrica.
Onde e de que maneira ocorrerá o curto-circuito?
No campo onomástico, dos nomes próprios. A princípio na esfera da filologia, porque os fenômenos para ser entendidos precisam ser batizados ou rebatizados. A pia batismal costuma ser propícia para a irrupção da verdade.
Nestas últimas décadas, por força da velocidade e da inevitável imantação que dela decorre, fomos esquecendo as dicotomias. Na ânsia de produzir convergências e aplacar angústias ignoramos a existência de uma instituição denominada Imprensa e, sem o perceber, nós a empurramos para o gigantesco triturador engajado na comunicação de massas chamado Mídia. E isto de tal maneira que tornaram-se senão sinônimos, quase isso – similares. Engrenagens com diferentes materiais, raios e velocidades mas incorporadas ao mesmo sistema e suas leis.
Quando as "comunicadoras" Adriana Galisteu e Xuxa são colocadas no mesmo balaio em que estão Daniel Defoe, Hipólito da Costa, Clemenceau, Joseph Pulitzer e Karl Kraus – para citar apenas alguns grandes jornalistas dos últimos 200 anos – significa que algo de muito grave aconteceu em nosso processo classificatório: perdemos o foco e o discernimento. O nivelamento por baixo chegou ao seu limite extremo.
Os indícios que aparecem – como sempre, inicialmente nos EUA – sinalizam para um processo de demarcação e clivagem. Mídia e Imprensa continuarão a ser confundidos no discurso cotidiano por muito tempo ainda, mas suas funções, e sobretudo seus gestos, deverão distanciar-se.
Os veículos impressos serão sempre meios num conjunto que inevitavelmente continuará sendo designado como a mídia ou os media. Mas a Mídia, esse poderoso e sinistro sistema de indução coletiva, com claras conotações político-econômicas, tende a passar por um processo de centrifugação. Cresceu demais, perdeu sua identidade como fator de melhoria do ser humano, acionou alarmes. Vai fragmentar-se, cindir-se. E se a dialética estiver correta, a Imprensa será o grande antídoto da Mídia.
O vexame das eleições americanas oferece o indício preliminar. A grande "barriga" foi produzida pelo cartel televisivo (inocentemente apresentado como pool). Acabou induzindo ao erro grandes jornais institucionais – que imediatamente perceberam onde estavam sendo jogados: na vala comum do descrédito e da descartabilidade.
O leitor pôde acompanhar pelas edições deste Observatório (a partir de 11/11/00) o que jornais como o Washington Post e o New York Times disseram sobre o desempenho da mídia eletrônica no episódio. O Miami Herald, que por diversas razões (inclusive geopolíticas) jamais conseguiu assumir-se no plano nacional como defensor do interesse público, diante das aberrações cometidas pelas autoridades da Flórida e os juízes da Suprema Corte não teve outra opção senão ousar: anunciou uma recontagem particular dos votos nos condados controversos da Flórida.
Óbvio: trata-se de um movimento limitado e episódico. Mas, dependendo do resultado dessas ações e da visibilidade dos danos provocados pela crise político-eleitoral, a dissidência entre Mídia e Imprensa pode ganhar proporções de tendência. Longamente esperada, aliás: grandes jornais de referência nacional e internacional não podem desperdiçar histórias seculares de resistência e bravura, além das fabulosas somas investidas em credibilidade, para tornarem-se tão efêmeros e desacreditados como as redes platinadas de TV.
Consolidando-se o movimento de individuação por parte dos jornalões respeitáveis, teremos fatalmente uma irradiação para o campo das revistas. Isso não significa, obviamente, que todos os jornais e revistas, de repente, levantarão vôo para fazer correções de rota. Significa, sim, a busca de um comportamento "não-mediático", customizado. Personalizado. Distanciamento do "espírito de horda" da parte daqueles que têm gabarito, vocação e recursos para concretizar esta divisão de águas. O sucesso do Economist nos Estados Unidos é uma prova de que alguma séria está acontecendo no segmento dos semanários.
No caso da telenovela Laços de Família – espécie de Flórida cabocla onde o pool comporta-se como efetivo cartel –, a posição de O Estado de S.Paulo em recusar a chantagem global demonstra que existe mercado (e prêmio!) para um divórcio saneador entre Mídia e Imprensa. Entre comunicação de massas e jornalismo. Entre a submissão abúlica, acrítica e o espírito crítico do ser humano, consciente e singular.
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Clique aqui para ler o artigo "Além da sociedade de massas", de Alvin e Heidi Tofler, copyright O Estado de S.Paulo, 17/12/00
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