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VEXAME AMERICANO
TV, retórica e embromação
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que deu a vitória da corrida presidencial a George Walker Bush foi uma bomba tão violenta, e a um tempo enigmática, que as emissoras americanas não paravam de checar as informações antes de começar a transmiti-las ao público. A TV foi muito rápida para dar as notícias de última hora sobre a decisão da Corte, mas demorou uma eternidade para descobrir qual era a decisão afinal, como anotou Martha T. Moore [USA Today, 14/12/00]. Repórteres foram ao ar mas não sabiam exatamente que notícia dar. Um show de embromação.
No dia seguinte, Tom Brokaw, da NBC, descreveu o evento como "prova oral para Ph.D. em TV nacional". Dan Rather, da CBS, apelidou-o de "tentativa de trocar pneus em um caminhão em movimento".
A demanda por TV ao vivo foi superior ao papel tradicional do jornalismo: primeiro descobrir o que aconteceu, depois reportar ao público. Quando Peter Jennings, da ABC, chamou a repórter Jackie Judd, ela disse prontamente: "Peter, na verdade passarei a voz para Jeffrey Toobin. É ele quem tem a decisão". Como a ABC, a CBS e a NBC interromperam a programação regular para cobrir o evento. As emissoras permaneceram sem emissão de qualquer conteúdo por alguns minutos.
Na CNN, Larry King avisou: "Sem decisão da Suprema Corte essa noite", quando foi interrompido pelo âncora Bernard Shaw para dizer que a decisão estava a caminho. A MSNBC mostrou um repórter sozinho, em pé, do lado de fora da Suprema Corte, esperando por um correspondente se dispor a assumir a reportagem sobre a decisão.
Na maioria das emissoras ocorreu um fenômeno novo no telejornalismo: repórteres enfiaram a cabeça e correram freneticamente pelas 65 páginas da decisão da Corte. De acordo com Megan Garvey e Bob Drogin [Los Angeles Times, 13/12/00], ninguém sabia o que aquilo significava. Não se conseguiu dizer se a nação, afinal, já teria um presidente.
No início, houve um consenso entre correspondentes confusos e experts em leis de que a recontagem na Flórida ainda seria possível, com o caso sendo remetido novamente à Suprema Corte do estado. Mas ao partilhar suas análises improvisadas, um dos mais bem pagos talentos sobre assuntos legais do país avisou que precisariam ler o documento inteiro para ter certeza.
Na CNN, Woodruff discutiu com o correspondente Charles Bierbauer. Com Bierbauer na escada da Corte e Woodruff falando do estúdio em Washington, cada um leu em voz alta a decisão, decifrando o jargão legal antes de desistir e passar a bola para um correspondente da CNN em Tallahassee. O correspondente, por sua vez, não pôde ajudar muito. "Todos não sabemos direito o que está acontecendo", disse.
"Viu-se a tensão entre estilo antigo de jornalismo, o qual é ‘descobriremos o que é e revelaremos a vocês’, e o novo estilo, algo como ‘descobriremos o que é ao vivo, na frente de vocês, e quase tudo o que falarmos é subjetivo e sujeito a revisão imediata’", afirmou o crítico de mídia Tom Rosenstiel, diretor do Projeto para Excelência em Jornalismo.
Pesquisas realizadas pelos institutos Gallup e Pew Research Center indicam os democratas como preferidos da mídia, embora, na média, 41% terem dito que nenhum partido político é beneficiado pela cobertura da mídia.
Os canais de notícias a cabo, cuja audiência desde as eleições dobraram em relação a outubro, são as fontes de informação consideradas "mais importantes" pelos que acompanharam a briga sobre a recontagem de votos na Flórida. Entre os espectadores desses canais, de acordo com o Gallup, 53% classificaram o noticiário da CNN, a MSNBC e da Fox News Channel como "extremamente importante" ou "muito importante", as duas notas mais altas entre as cinco alternativas oferecidas.
Aflição compartilhada
Depois da dramática noite da terça-feira eleitoral [7 de novembro], as emissoras de TV escaldaram na pressa em declarar Bush vencedor na Flórida. Em 4 de dezembro, tropeçaram nas reportagens sobre as decisões da Suprema Corte sobre a recontagem no estado. No dia 12 de dezembro, o perigo foi ainda maior, pois havia a possibilidade de a decisão da Suprema Corte pôr um ponto final na disputa eleitoral. Por que, então, as emissoras noticiosas não levaram apenas alguns minutos para ler a decisão antes de tentar reportá-la?
A resposta é competição. Nenhuma emissora agüentaria esperar alguns minutos correndo o risco de perder o furo. Sendo assim, as principais emissoras optaram por essa nova forma de telejornalismo, no qual o telespectador divide com o repórter a aflição de querer saber a resposta e a expectativa de encontrá-la o mais rápido possível – ou, pelo menos, mais rápido que as outras emissoras.
Como escreveu o crítico de mídia Howard Kurtz [Washington Post, 13/12/00], o que ninguém mencionou é que, com grande parte da Costa Leste indo para a cama, Gore provavelmente preferiu não apenas se aprofundar nas notas de rodapé, mas também respirar fundo e ter seu momento final ao sol no dia 13 de dezembro, dia do veredicto final.
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