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BALANÇO 1999
O ano que começou
mal e mal começou
Alberto Dines
Janeiro – O dólar flutuou e a mídia boiou
A segunda semana útil do ano (11 a 15 de janeiro de 1999) foi trágica para a economia e para o jornalismo. Os ataques especulativos ao real, a desvalorização da moeda, a troca de presidentes do Banco Central, a inusitada ajuda a dois pequenos bancos (Marka e FonteCidam), depois a nova troca no comando da política monetária foram acompanhados pela mídia dentro do habitual pêndulo: desnorteamento e paroxismo. Nossos veículos informativos comportaram-se como baratas tontas. Imagine-se o que imaginaram os leitores ou telespectadores.
Ficou evidente no caso da cobertura econômica que a mídia só sabe das coisas quando alguém tem interesse em levar as coisas até a mídia.
A utilização abusiva de verbos "fortes" nas manchetes, a enxurrada de palpites adoidados de gurus internacionais e uma total incapacidade para tranqüilizar a sociedade com informações seguras culminaram com a estapafúrdia proposta da Folha de S.Paulo, estampada num enorme editorial de primeira página (domingo, 23/1/99): a centralização do câmbio. Dia seguinte, o dólar disparou, a bolsa despencou, o país tremeu – para usar os verbos usuais. Se alguém próximo ao jornal tivesse, na sexta-feira, tido informação privilegiada sobre o teor do que seria publicado no domingo, ficaria bilionário na segunda-feira. Um jornal tem o dever de manifestar suas opiniões em questões de princípio, mas engajar-se ostensivamente numa jogada tão controversa pode colocar sua conduta sob suspeita (Observatório, 20/1 e 5/2).
Março/abril – Reportagens da Folha reabrem caso PC Farias
Trabalho exemplar de dois repórteres – Mário Magalhães e Ari Cipola – derruba laudos periciais e inquéritos policiais. Investigação cuidadosa, paciente, exemplo da diligência e do esmero que devem acompanhar as ações de jornalistas. Lançamento seguro, sem truques de marketing. Grande momento do jornalismo brasileiro (Observatório, 5/6)
Abril – Mídia descobre o segmento de baixa renda e nivela por baixo
Seguindo o exemplo de O Globo, então arqui-rival, o Grupo Folha lança um jornal destinado às classes C-D-E oferecendo panelas e prêmios. E fecha a tradicional Folha da Tarde que, junto com a Folha da Manhã e Folha da Noite fizeram a glória da empresa.
Virou tendência pelo país afora investir no segmento de baixa renda. Seria ótimo não fosse o fato de que os grandes jornalões continuam mantendo o baixo nível. (Observatório, 5/4)
Abril/maio – CPI e vazamentos: começam os abusos que vão produzir a "lei da mordaça"
A CPI dos Bancos (inventada pelo PMDB para equiparar-se ao PFL, que lançara a CPI do Judiciário) ganha manchetes graças aos vazamentos de documentos sigilosos para a imprensa. Alguns jornais assumem que se trata de procedimento irregular. Outros fingem que é "investigação" (Observatório 5/5).
Junho – "Segredos do poder": o grampo como jogada de marketing
Cópias das fitas do grampo no BNDES (apresentadas em novembro de 98) foram entregues à Folha que as transcreveu na íntegra em 11 páginas e publicou com enorme estardalhaço (25/5) – mesmo reconhecendo a ilegalidade do procedimento e a origem criminosa da informação. Duas semanas depois ninguém falava no assunto, inclusive o próprio jornal. Posteriormente, por decisão judicial, retratou-se jeitosamente (Observatório, 5/6).
Julho – O engodo do formato "moderno"
Quase de sopetão, sem consultar os leitores nem jornalistas especializados, os jornais filiados à ANJ resolveram adotar um novo formato, cerca de três centímetros mais estreito. A intenção primária era economizar no custo do papel, mas isso não poderia ser assumido com clareza (porque, após a desvalorização do real, jornais e revistas, antecipando-se a outros produtos, já haviam aumentado seus preços). A Gazeta Mercantil foi o único dos grandes jornais que recusou a imposição, protestando numa série de anúncios. Grande parte da informação sobre a mudança de formato foi veiculada através de anúncios. Este Observatório foi o primeiro veículo a levar a questão para o âmbito dos leitores (edições de 20/6, 5/7 e 20/7).
Agosto – Exame compra a briga e denuncia os vícios do jornalismo brasileiro
A principal e mais antiga revista de economia e negócios (edição 694), dirigida a um público de elite, em longa matéria de responsabilidade da direção reconhece as mazelas da imprensa brasileira. Cita exemplos de jornais e deixa claro que desses vícios não está alheio o semanário Veja, editado pela mesma empresa (Observatório, 20/8).
Setembro – Aprovada nova redação do artigo 222, que permitirá a capitalização das empresas de mídia. Associação com estrangeiros ficará transparente
Aprovada na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, em 1/9, a nova redação do artigo 222 da Constituição, que regula a propriedade das empresas jornalísticas e de radiodifusão. Admitida a participação de pessoa jurídica e de estrangeiros (sendo que esta já vinha sendo praticada quase que ostensivamente por todas as empresas de porte nacional). O Labjor (Unicamp), matriz deste Observatório, reconhecendo a gravidade da crise que ameaça a imprensa brasileira, a perigosa concentração e a farsa que era a proibição da participação estrangeira foi a primeira entidade que levantou a discussão (edição de 5/9).
Ainda setembro – Tragédia de Timor revela o retrocesso da nossa cobertura internacional
O plebiscito supervisionado pela ONU em Timor Leste provocou uma onda de massacres das milícias pró-Indonésia contra a população que preferia a autonomia. Ficou visível, até para o público não-especializado, o processo de encolhimento e degradação do noticiário internacional que se processou nos últimos 15 anos. A sociedade brasileira, com isso, distanciou-se das grandes questões e causas internacionais. A primeira aparição pública no Brasil de José Ramos Horta, um dos expoentes da resistência timorense (que viria a ganhar o Prêmio Nobel da Paz) só ocorreu em dezembro de 1994 – e isso graças ao Labjor e ao Observatório da Imprensa de Portugal (edição de 20/9).
Outubro – A barriga do ano: o FMI "social"
A leitura apressada de um discurso do gerente-geral do FMI, Michel Camdessus e o total desconhecimento sobre o que se passa naquela instituição levou dois jornais brasileiros (O Globo e Folha) a manterem durante vários dias na primeira página uma não-notícia: o abandono do rigor monetário em troca da ênfase social. A Folha, como sempre, foi mais longe. Quem denunciou a barriga com grande ironia foi o próprio Camdessus em matéria do colunista da Folha Celso Pinto. Ninguém se retratou. (Observatório, 5/10)
Ainda outubro – A surpresa do ano: o pacto Bolha (parceria Globo/Folha)
Arqui-rivais e adversários políticos, em reviravolta surpreendente anunciaram o cessar-fogo por intermédio de uma associação para produzir um novo jornal de circulação nacional, voltado para economia e negócios. Um Tratado de Tordesilhas clandestino que divide o mercado em duas fatias: O Globo não entrará em São Paulo e a Folha compromete-se a não entrar no Rio). Grave ameaça à imperiosa diversidade de opiniões e ao pluralismo democrático que os demais veículos fizeram questão de ignorar. Perigoso adensamento da concentração da mídia brasileira. Assunto também omitido nas duas casas do Parlamento. Os dois Observatórios (TV e on-line) foram os únicos a advertir para os perigos dessa parceria (edições de 5/10).
Novembro/dezembro – Chacina abala a classe média. Violência da mídia, reação da sociedade.
Um sextanista de Medicina dispara uma rajada de submetralhadora contra a platéia que assistia a um dos filmes mais violentos do ano, Clube da Luta. A classe média finalmente despertou para o problema da violência na mídia eletrônica (TV, desenhos, games e cinema). Ganham proeminência as ONGs que lutam contra as agressões televisivas. A Secretaria Nacional de Direitos Humanos convoca as redes de TV comerciais para a criação de códigos de conduta apropriados a concessões públicas. Lança também a idéia do Dia Nacional da Não-Violência na TV (que se realiza em 10-12-99). O Observatório na TV acompanha o assunto desde maio. Uma Urn@ Eletronic@ lançada na versão on-line aprovou a idéia do Dia da Não-Violência com a maioria de 95% contra 5% (resultados na edição de 5/12; para assistir aos compactos dos programas, clique em Observatório na TV).
Novembro/dezembro – A ponta do iceberg: livro desvenda promiscuidade da imprensa com o poder
Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor livro-reportagem de Mário Sérgio Conti, ex-diretor de Veja, teve uma repercussão inédita. Em parte porque citou nomes e detalhes. Alguns com mais ênfase, outros apenas insinuados. Parte da repercussão deveu-se à sua opção: inocentou o patronato, preferiu suas versões e concentrou as acusações nos quadros dirigentes. O Sistema Mediático enganalou-se para circunscrever as mazelas ao período Collor. Analistas disseram tratar-se de vendeta entre grupos de jornalistas rivais. Qualquer que tenha sido o escopo, o livro transcendeu ao projeto inicial. A imprensa já não pode manter-se imune às críticas e longe do escrutínio da sociedade. Exemplo: na sua edição de 17/12 o Jornal Nacional denunciou que o senador Jader Barbalho ofereceu como brinde de Natal 100 pendentes de ouro a jornalistas de suas relações. Nenhum deles devolveu (Observatório de 20/11, 5/11; veja as matérias "O começo do fim do pacto de sangue", abaixo, e "Notícias do litoral", na rubrica Marcha do Tempo)
Janeiro/dezembro 2000 – O iceberg não ficará submerso
Já estão em andamento dois livros para alargar e contestar as denúncias de Conti. Outros virão, não poderia ser diferente. O ano de 1999 começou mal e mal começou. O próximo, último do século e do milênio, pode ser o primeiro de uma nova fase. Esperemos.
O fato do ano
Qual o fato midiático mais importante de 1999?
Ana Lúcia Amaral
Procuradora regional da República em São Paulo
O fato mediático mais importante foi aquele não muito bem cuidado pela mídia. E se não fosse o Observatório da Imprensa eu não teria prestado atenção. Em suma, o mais importante foi aquele que a mídia brasileira não deu a importância devida. Refiro-me à tragédia do Timor Leste. Outros fatos, ainda que não muito bem tratados, apesar da intensidade da sua exploração – estou agora a me referir às CPI’s – foram importantes por terem mostrado que a imprensa, de um modo geral, pode e deve ser os olhos da sociedade. Deixando de lado as "opiniões" dos neófitos na defesa dos direitos à honra, à imagem, à intimidade dos cidadãos – que todos têm e não somente os bem-nascidos –, o fato é que a população, ainda que meio desconfiada, viu que é possível a norma penal sair da senzala e adentrar a casa-grande, para ser aplicada àqueles que se consideram com mais direitos do que os outros quando foram surpreendidos em falcatruas envolvendo o patrimônio público, que tratavam como se privado fosse. Quanto a esses fatos, a imprensa trouxe a público o que é do interesse público.
Carlos Salles
Promotor público
O lançamento do livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, que deixou os jornalistas meio pelados.
Fernando Pacheco Jordão
Jornalista
O grande fato midiático do ano foi a cobertura que a imprensa deu às investigações sobre corrupção entre os vereadores de São Paulo. Elas não teriam ido adiante sem a pressão da mídia. Lembro-me de frase do ex-vereador Vicente Viscome, quando ainda não estava em cana: "Não posso nem sair na rua, no meu bairro, porque começam a me vaiar". Isso graças à grande exposição que teve na mídia.
Gabriel Priolli
Jornalista
O fato midiático mais importante de 1999 foi a aprovação, em comissão da Câmara Federal, da proposta de emenda ao artigo 222 da Constituição, permitindo a participação societária de estrangeiros nas empresas de mídia impressa e de radiodifusão. Embora a mudança tenha que ser ainda ratificada pelo plenário da Câmara e, posteriormente, pelas comissões e plenário do Senado, tudo indica que a tramitação seguirá sem maiores percalços, dado o interesse do empresariado brasileiro na abertura do mercado de comunicação. Isso terá profundas implicações sobre a nossa mídia, podendo comprometer a soberania nacional no plano da cultura e da informação.
Guilherme Canela
Núcleo de Estudos Sobre Mídia e Política da UnB
Foi a inesperada união Globo-Folha, visto que a competição verdadeira entre estes dois gigantes da mídia nacional era o que restava de esperança para termos uma cobertura mais democrática
Isak Bejzman
Médico e jornalista
Um tanto quanto constrangido, porque sou parte deste processo, sinto-me mesmo assim à vontade para dizer que considero os avanços do Observatório da Imprensa o fato midiático mais importante de 1999. O programa de TV espraiou o espaço do OI na internet. Sem pejo e com tranqüilidade, vejo o OI como uma escola de leitura de mídia.
João Ubaldo Ribeiro
Jornalista e escritor
Como sempre, não sei responder direito a este tipo de pergunta, porque sou um desmemoriado que não presta atenção a datas e anos. Mas eu diria que foi o crescimento acentuadíssimo de "jornais" e "revistas" na internet, nisso compreendida a possibilidade de qualquer cidadão manter sua publicação – pessoal ou em grupo –, através de sites na rede. Vários amigos e conhecidos meus, que só dispunham das seções de cartas dos leitores, hoje são editores, redatores e repórteres. Se bem que a massa de informação e opinião se torne avassaladora, é inegável que se trata de um avanço na chamada liberdade de imprensa.
Luiz Egypto
Redator-chefe do Observatório da Imprensa
O aparecimento do livro Notícias do Planalto – a imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti, tanto pelas informações que traz quanto pelos desdobramentos que provoca.
Marinilda Carvalho
Editora-assistente do Observatório da Imprensa
Meu fato midiático do ano é o programa Via Brasil, da Globo News. Em meio ao mar de banalidade, violência, baixaria, sensacionalismo, exploração da miséria e desrespeito ao próximo, Via Brasil é um retrato singelo e vibrante de um país que não dá bola para Fantástico, Ratinho ou Carla Perez.
Nesses programinhas deliciosos, simples, banhos de reportagem de meia hora – é possível sentir o prazer e o entusiasmo dos repórteres –, a gente vê um país com identidade. E capta afinal o conceito de nação que abnegados como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e tantos outros brasileiros relegados ao ostracismo tentaram resguardar.
Valeu, Via Brasil!
Nahum Sirotsky
Correspondente da RBS em Israel
A ascensão do semanário Época, demonstrando que, como aconteceu com o aparecimento do rádio, posteriormente da TV aberta e da TV paga, a resposta da mídia impresssa à internet está no talento e sensibilidade de editores para inovar. A história do desenvolvimento dos meios de comunicação, em geral, tem sido a do crescimento ou sobrevivência de veículos que atualizam sua linguagem e sabem se comunicar com o indivíduo de sua "época". Isto se aplica tanto à comunicação em massa como aos chamados jornais acadêmicos.
Spacca
Ilustrador
O maior evento midiático do ano tem tudo para ser o mais discreto: o pacto Globolha. Se é verdade que a mídia tem mais autonomia para criticar e investigar o poder (no sentido restrito: o governo), é porque o poder de fato (o poder de quem pode) está com ela. Protegida pelo manto da invisibilidade pactual, a mídia poderá exercer mais tranqüilamente o seu duplo poder: de dominar a comunicação entre a produção e os consumidores, e de estabelecer o padrão de interpretação dos fatos. Domínio material e espiritual total, na era da Globolhização.
Fim de ano, edição dupla
Esta edição do Observatório da Imprensa traz data dupla – 20 de dezembro de 1999 e 5 de janeiro de 2000. Nos quatro anos em que o O.I. aparece periodicamente na internet, o recurso à edição dupla tem sido a forma de a equipe garantir um pequeno período de folga, necessário ao recarregamento das baterias.
E como o final de um ano é época dada a balanços, saiba o leitor que durante 1999 (até o nº 80, de 5/12) o Observatório da Imprensa on line circulou na internet um total de 1.018 matérias, reproduziu 470 textos na seção Entre Aspas, publicou 853 cartas e acolheu 287 autores em suas páginas virtuais. Aos colaboradores do O.I., listados a seguir, nossos melhores agradecimentos. Apareçam sempre. (L.E.)
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Adriano Rodrigues de Faria
Afonso Albuquerque
Alan Severiano
Alberto Asfora
Alberto Dines
Alencariano Falcão
Alexandre Cebrian Araújo Reis
Alexandre Dines
Alexandre Freire
Alexandre Reis
Alfredo Sirkis
Almyr Gajardoni
Aluízio Batista de Amorim
Ana Amelia Schuquer de Oliveira
Ana Lagôa
Ana Lúcia Amaral
Anatrícia Borges
André Luiz de Barros Leite
André Roca
Andreas Adriano
Angela Adnet
Antonio Alberto Trindade
Antonio Augusto Mello de Camargo Ferraz
Antônio Bulhões
Antonio Caetano
Antonio Fernando Beraldo
António Marinho e Pinho
Antonio Teles
Aquiles Emir
Argemiro Ferreira
Armando de Brito
Beatriz Wagner
Beatriz Wey
Ben Hur de Marco
Betch Cleinman
Beth Carmona
Beth Klock
Beth Saad
Beto Almeida
Bianca Rodrigues Moura
Carlos Alberto de Salles
Carlos Alberto Furtado de Melo
Carlos Alves Müller
Carlos Eduardo Copetti Leite
Carlos Heitor Cony
Carlos Müller
Carlos Tautz
Carlos Vasconcellos
Carlos Vogt
Carmem Pereira
Carolina Juliano
Gonçalo Jr.
Carolina Ribeiro
Ceci Maria A. Honório
Celso Coimbra
Celso Fernandes da Cunha
Celso Pinto
Cesar Valente
Chico Bruno
Chico Caruso
Cícero Félix
Cícero Sandroni
Clarinda Rodrigues Lucas
Claudia Antunes
Cláudia Lemos
Claudio Beckert Juni
Claudio Buongermino
Claudio Carneiro
Cláudio Weber Abramo
Clayton Eduardo
Cristina Laura A. Ribeiro
Cristina Yumie Aoki Inoue
Guilherme Canela de Souza Godoi
David Capistrano Filho
David França Mendes
Davide Mota
Deonísio da Silva
Djalma Luiz Benett
Dora Kramer
Douglas Duarte
Ed Wilson Araújo
Edilene Florentino
Édison Pecoraro
Eduardo Diatahy de Menezes
Eduardo Lamas
Eduardo Martinez
Eduardo Meditsch
Eduardo Sol
Eduardo Viveiros
Eliane Pszczol
Elisa Sayeg
Elisabeth Costa
Emma Bonino
Emmanuel Nogueira
Enézio E. de Almeida Filho
Esdras do Nascimento
Fernanda Suhet
Estela Regina Wonsik
Eugênio Viola
Evaldo Vieira
Fabiano Golgo
Fabio Leon Moreira
Fabio Lucas
Fábio Metzger
Fabrício Francis
Fabrício Marta
Fátima Gonçalves
Felipe Pena
Fernando Conceição
Fernando Correia da Silva
Fernando Oliveira Paulino
Flamínio Araripe
Flávio Eustáquio Bertelli
Flávio R. L. Paranhos
Flavio Rodrigues
Francisco José Castilhos Karam
Francisco Moreno de Carvalho
Francisco Whitaker Ferreira
Franco Lajolo
Fritz Rivail F. Nunes
Gabriel Priolli
Geraldo Araújo de Castro
Gilberto C. Marotta
Gilmar Ribeiro
Graça Caldas
Guilherme Canela de Souza Godoi
Guilherme Jorge de Rezende
Gustavo Gindre
Gustavo Lopes
Henrique Vidal
Heródoto Barbeiro
Hugo Nigro Mazzilli
Inaiê Sanchez
Inaiê Sanchez
Irineu Franco Perpétuo
Isabela Nogueira
Isak Bejzman
Ivana Jesic
J. D. Borges
J.S. Faro
Jack Driscoll
Jairo Faria Mendes
João Brant
João Brito de Almeida
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João Ubaldo Ribeiro
Joaquim Moura
Jocélio Leal
José Afonso R. Queiroz
José Angel Teran
José Antonio Palhano
José Coelho Sobrinho
José Corrêa Leite
José Luiz Passos Jorge
José Maria Leitão
José Miguel Bendrão Saldanha
José Pedro Castanheira
José Rosa Filho
José Rubens Barbosa Júnior
José Salvador Faro
Juliano Maurício Carvalho
Nilson Lage
Erasmo de Freitas Nuzzi
José Sergio Rocha
José Tadeu Arantes
Juca Kfouri
Juliana Peres
Julio Wainer
Leonardo Ayres
Liliana Minardi Paesani
Lira Neto
Luciana Christante de Mello
Luciano Burger Balarotti
Luigi Bonafé de Felice
Luís Alberto Scotto
Luis Mir
Luiz Afonso S. P. Santos
Luiz Alberto Bahia
Luiz Andrioli
Luiz Augusto Araújo Pereira
Luiz Egypto de Cerqueira
Luiz Fernando Benezere Belatto
Luiz Francisco Torquato Avolio
Luiz Maklouf Carvalho
Luiz Martins da Silva
Luiz Roberto Guimarães da Costa Júnior
Luiza Cristina Fonseca Frischeisen
Lurian Cordeiro Lula da Silva
Maira Bittencourt
Maísa Picasso
Malcia Afonso
Marcelo Cerqueira
Marcelo Fagá
Marcelo Henrique dos Santos
Marcelo Nogueira
Marcio Ehrlich
Márcio Mancini
Marco Antonio Teixeira
Marco Aurélio Marcondes
Marco Aurélio Távora
Marcos Santarrita
Marcus Vinicius Mannarino
Margarethe Born Steinberger-Elias
Maria Angélica Dias Moreira
Maria de Fátima Xavier
Maria Salete Souza Amorim
Marinilda Carvalho
Mario Luiz Bonsaglia
Masao Kawata
Maurelio Menezes
Mauro Malin
Mauro P. Porto
Michelle Prazeres
Miguel Chaia
Moises Rabinovici
Mônica Macedo
Mônica Nicida Garcia
Maria Luísa R. L. C. Duarte
Nahum Sirotsky
Nilson Lage
Nilson Vargas
Nilza Amaral
Nivaldo T. Manzano
Norma Couri
Novély Vilanova da Silva Reis
Orlando Lemos
Orlando Tambosi
Otavio Frias Filho
P.C. Barreto
Pablo Ribeiro Uchôa
Paolo Marconi
Paula Papis
Paula Pires
Paulo Augusto
Paulo Campos
Paulo César de Paiva
Paulo Ferro
Paulo Lotufo
Paulo Oliveira
Paulo Polzonoff Jr.
Luciano Burger Balarotti
Paulo Sérgio Cornacchioni
Paulo Vaz
Petar Lukovic
Rafael de Almeida Evangelhista
Rafael Fortes
Renato Nascimento Fabbrini
Ricardo Bonalume Neto
Roberto Andrade
Roberto Medeiros
Roberto Takata
Rodrigo Haidar
Rogério Pacheco Jordão
Rogério Souza Silva
Roney Cytrynowicz
Rosa Nívea Pedroso
Rosana Soares
Rosemary Segurado
Rui Araujo
Ruy Vasconcelos
Sandra Soares
Sérgio Rego Monteiro
Sheila Grecco
Shirley Sammia M. Barreto
Spacca
Stephenson Groberio
Sylvia Moretzsohn
Tânia Cotrim
Telma Domingues da Silva
Teresa Barros
Teresa Citeli e Carla Rodrigues
Thadeu Niemeyer
Toni André Scharlau Vieira
Toni André Scharlau Vieira
TT Catalão
Valci Zuculoto
Valdir Gomes
Vera Chaia
Vera Silva
Victor Gentilli
Victor Sznejder
Vilmar Berna
Virgílio Alvarez Aragón
Vitor Menezes
Wagner Guerra
Wanda Jorge
Wilson Marini
Xico Vargas
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ACM - ISTOÉ
O começo do fim
do pacto de sangue
Alberto Dines
O fax do Presidente do Senado Antônio Carlos Magalhães ao Diretor da sucursal da IstoÉ em Brasília não constitui apenas uma quebra do decoro parlamentar [reprodução ao lado e transcrição abaixo]. Isso é flagrante e inequívoco. Também não é apenas uma amostra da sobrevivência das práticas ditatoriais.
A truculência exibida pelo coronel-senador decorre do "pacto de sangue" que mantém com um núcleo de jornalistas e empresários que o converteu, nos últimos 20 anos, no homem mais poderoso da mídia brasileira.
A explicação para este surpreendente surto de violência ostensiva num homem público que pela Constituição é o terceiro na ordem da sucessão presidencial, está na subserviência a que foi acostumado no trato com a imprensa. ACM manda nos principais veículos de comunicação brasileiros e raramente foi contrariado. Só no ano passado (1998) é que Veja libertou-se de uma perigosa promiscuidade que estendeu-se ao longo de 20 anos. E alimentou-se com a lógica imoral da transação: ele fornecia informações confidenciais e em troca recebia apoio e cobertura para as suas jogadas.
O Caso ACM é um dos que já não podem mais ser mantidos nos bastidores. A edição de IstoÉ que começa a circular neste fim de semana (18-19 de dezembro) pode afinal liqüidar uma promiscuidade que compromete a lisura da imprensa brasileira.
A nota do senador
Senado Federal – Presidência
Data: 13/12/99
De: Senador Antonio Carlos Magalhães
Para o Jornalista Tales Faria
Revista IstoÉ
Fax: 225-4062
Número de páginas incluindo esta: 1
Todo canalha é um mentiroso. É o seu caso. Na sua coluna o senhor informa sob o título "Novos Inimigos" que "não andam nada boas as relações entre ACM e seu apadrinhado prefeito de Salvador Antonio Imbassahy. Convidado pela aniversariante Teresa, filha do cacique baiano, Imbassahy viu-se expulso da festa. Ríspido, Antonio Carlos perguntou apenas: o que o Sr. está fazendo aqui se eu não o convidei?"
O senhor mentiu, o que não é novidade. O aniversário de minha filha é no dia 8 de outubro, data em que ela se encontrava em Portugal, recebendo um prêmio, e eu em Nova Iorque, na ONU para entregar um documento sobre a erradicação da pobreza no Brasil. Logo, a sua afirmação é falsa.
Ademais, a nossa família não tem comemorado aniversários desde o falecimento do deputado Luís Eduardo Magalhães. A propósito, é bom lembrar que o Luís Eduardo, na casa do senador Hugo Napoleão, quando o senhor ousou tomar liberdade com ele, o senhor foi posto para correr com medo de ser jogado na piscina com um merecido murro.
Acho que já é tempo do senhor me respeitar, seu filho da...!
(a) Antonio Carlos Magalhães.
Quanto vale uma fonte?
Tales Faria
O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) é uma excelente fonte. Em janeiro de 1994, deu-me uma entrevista, na Folha de S.Paulo, que considero decisiva para o país. Principal cacique do PFL, ele propunha, pela primeira vez, uma aliança de seu partido com o PSDB em torno da candidatura presidencial do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. A aliança pegou, e FHC foi eleito e reeleito. Naquela época, ACM não me classificava como mentiroso, canalha, nem filho da p.... Queria me conquistar e tornou-se uma das minhas principais fontes.
ACM é uma excelente fonte, e sabe disso. Logo, logo ele começa a cobrar o preço das informações privilegiadas. No meu caso, nosso primeiro grande rompimento ocorreu quando eu estava no Globo, na cobertura da crise do Banco Econômico. Ganhei um prêmio interno no jornal, uma viagem. Mas ACM não gostou de ver o Globo, de seu amigo Roberto Marinho, mostrando com todas as letras a sua arrogância e as pressões que exercia sobre Fernando Henrique para proteger o banco. A cobrança é imediata: quer que eu continue sua fonte? Então não me critique, cubra os fatos com um olhar a meu favor.
Passado algum tempo, voltamos a um relacionamento cordial. Mas, depois, escrevi um coluna, no Panorama Político do Globo, que gerou a encrenca definitiva. Contava o plano de ACM para, em troca da emenda da reeleição, fazer de FHC seu refém, elegendo-se presidente do Senado e fazendo do filho, Luís Eduardo Magalhães, senão ministro ou coordenador político do governo, certamente o candidato único de FHC à sua sucessão. Ali o pai e o filho romperam comigo. Foi na casa de Hugo Napoleão sim, mas não foi da forma citada por ACM no fax. Só não me estendo nesse ponto em respeito à morte de Luís Eduardo. Tudo bem.
No fundo, o que essa história mostra é o seguinte. A fonte às vezes acha que comprou o jornalista quando lhe deu informações. ACM até já disse que há jornalistas que se vendem por informações. Talvez ele esteja certo, talvez haja mesmo jornalistas assim. Mas vale a pena, para manter a fonte, pagar o preço da mentira, ou deixar de contar a verdade sobre os fatos?
PRÊMIO ESSO
Importante, desejado,
disputado, criticado
Paulo Oliveira (*)
A idéia de criar no Brasil um prêmio de jornalismo inspirado no Pulitzer norte-americano foi do jornalista Ney Peixoto do Valle, que convenceu a Esso Brasileira de Petróleo a patrocinar um certame que se tornaria sinônimo de qualidade jornalística. Embora o incomodasse o apelido de "Esso’s boy", pespegado pelas redações que visitava, Valle soube mostrar à Esso a oportunidade de melhorar sua imagem institucional, prejudicada por campanhas nacionalistas como "o petróleo é nosso", que resultou na criação da Petrobras.
A empresa resolveu bancar o prêmio. O ano é 1956. O repórter Mário de Moraes convalescia de uma inflamação nos rins provocada pelo tifo contraído ao fazer a reportagem sobre a viagem de migrantes nordestinos nos caminhões paus-de-arara. A matéria deu capa na revista O Cruzeiro, onde trabalhavam Mário e o Ubiratan de Lemos. Alquebrado pela doença e contrariando a família, Mário resolveu ir ao barbeiro para melhorar a aparência de quem estava 30 quilos mais magro. Quando sentou na cadeira, leu na primeira página de O Jornal que ele e Ubiratan eram os primeiros vencedores da história do Prêmio Esso. Desmaiou de emoção.
Nos 45 anos seguintes, o Prêmio Esso virou sinônimo de reportagem de qualidade. Esta, aliás, é sua principal característica. Mas não se pode negar que nesse tempo todo o prêmio também ganhou outros atributos. Cresceu importância, conquistou visibilidade e passou ser considerado como produto de marketing jornalístico, transformando-se em objeto de disputas de poder e protagonista de intrincadas jogadas de bastidores.
Olavo Luz, dono da ECP – Empresa de Comunicação Programada, organizou o programa institucional da Esso durante 20 anos. Ele lembra de uma tentativa de veto ao nome de um jornalista que integraria a comissão de seleção. Em 1983, Zuenir Ventura foi colocado em suspeição pela Assessoria de Segurança da companhia. Longas conversações foram mantidas com a direção da empresa até que Zuenir fosse reintegrado na comissão.
Luz não esconde que sempre houve pressões de jornalistas para influenciar no resultado do concurso. Disse que ficou particulamente constrangido quando um diretor de redação (não revelou o nome) pressionou a comissão formada por Murilo Melo Filho, Mussa José de Assis, Murilo Felisberto, Cláudio Abramo e Carlos Castello Branco para premiar uma reportagem de capa do jornal Ex [edição nº 16], sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog. Diz o ex-organizador do prêmio: "...[o diretor de redação] conseguiu convencer dois jurados, mas o restante ficou com a matéria ‘Assim vivem nossos superfuncionários’ [de Ricardo Kotscho, para O Estado de S.Paulo, que revelou e deu significado à palavra mordomia], vencedora de 1976". Registre-se, contudo, que Olavo Luz vetou a indicação de Alberto Dines para uma comissão de jurados porque a coluna Jornal dos Jornais, publicada por Dines na Folha de S.Paulo, entre 1975 e 1976, havia colocado em dúvida os critérios de seleção dos jurados do Prêmio.
A portas fechadas
Durante os governos militares a Esso teria cogitado acabar com o prêmio, temendo estragos que matérias de denúncia pudessem causar a suas relações com os vários níveis de governo. Foi preciso muita negociação para o programa prosseguir. E, pelo que se viu, os generais não foram tão rigorosos com o Prêmio Esso quanto Roberto Marinho, que boicotou sua divulgação em O Globo por quase de 10 anos.
Em 1986 houve uma reunião entre o presidente da Esso no Brasil, Bill Jackson, e o dono da Globo. Roberto Marinho estava convencido que todos participantes das comissões de seleção e premiação eram contra O Globo, e por isso seu jornal jamais seria premiado.
Não se conhece os argumentos utilizados na reunião reservada, mas a conversa do dr. Roberto com o executivo da Esso mudou da água para o vinho a com o jornal e os rumos do prêmio, a partir dali, sofreram alterações notáveis. Em 1987, O Globo voltou a inscrever matérias no Esso e, deste então, é o único jornal do país a ter sempre um representante nas comissões seletivas do Esso.
Dados do livro Prêmio Esso, 40 anos do melhor em jornalismo [Guilherme J. Duncan de Miranda (org.); Ruy Portilho (coord.), Relume Dumará, 1995] e da RP Consultoria, atual organizadora do evento, mostram que desde de 1987 O Globo emplacou 19 jurados e ganhou 21 vezes. Nas categorias principais faturou três prêmios de Jornalismo, seis de Reportagem e dois regionais Sudeste. Mal comparando, o time de Roberto Marinho é o único invicto na atual fase da competição.
A trajetória de O Dia também revela a importância da presença de jurados nas comissões – no mínimo para que as matérias da casa sejam defendidas com mais empenho. Em 1989, 91, 96, 97, 98 e 99 o jornal conseguiu oito prêmios – principalmente na categoria Regional Sudeste, onde obteve cinco vitórias. As exceções ocorreram em 1994 e 95, quando editores de O Dia participaram das comissões de seleção mas ficaram de fora da comissão de julgamento. Não houve prêmios para o jornal.
Metodologia de apuração
A partir de 1994, o Prêmio Esso optou por seguir os padrões do Oscar. Foram então criadas duas comissões: a primeira indica os três finalistas de cada categoria e é formada por um número entre 9 e 13 jornalistas – a maioria editores dos jornais do eixo Rio-São Paulo. A segunda comissão, formada por chefes de redações e diretores, é quem decide a premiação final.
Os jurados da primeira fase ganham um jeton de R$ 500; os da segunda, segundo Ruy Portilho (da RP Consultoria, organizadora do prêmio), não recebem pro labore algum. Mas já houve um bom dinheiro, ali: Olavo Luz lembra da época anterior, quando havia uma comissão única, formada por 5 jurados. Cada qual ganhava o equivalente a um mês de salário de um editor da Veja.
Um episódio envolvendo O Dia serviu para que os organizadores passassem a convidar com mais freqüência os editores do jornal para integrar as comissões. Em 1993, a direção de redação de O Dia irritou-se com a desclassificação de uma matéria que considerava boa para conquistar uma premiação. O jornal ameçou deixar de participar do Esso e publicou anúncio de meia página exaltando o Prêmio Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que premiara a mesma reportagem. Os organizadores do Esso tentaram contemporizar e, no ano seguinte, convidaram um editor de O Dia para a comissão de seleção. Naquele ano, o jornal classificou um trabalho para a final, mas não ganhou prêmio. O jornal protestou novamente por não ter representantes no julgamento da última etapa. A partir de então, nunca mais fica sem um nome na comissão final de premiação.
Boicotes e ameaças viraram armas das empresas jornalísticas e produziram ações que revelam a vontade dos editores em influenciar na escolha. Em 1999, a revista Veja não participou do concurso, por motivo não esclarecido. Ainda assim, Ruy Portilho afirma que recebeu entre 12 e 15 inscrições de repórteres da revista. "Não revelo o nome dos inscritos. Eles podem sofrer algum tipo de represália por parte do veículo", imagina.
Em off
"A vergonha começa com a escolha dos jurados. Os organizadores sempre ligam para as redações e pedem indicações aos editores e diretores. Poucas vezes rejeitam os nomes. Eu mesmo já fui jurado e, quando percebi que o jornal que trabalho estava ficando de fora de todas as categorias. tive que gritar." [Editor, no Rio, que pediu anonimato]
Palavra de Ruy Portilho – "Eu e o Guilherme Duncan, coordenador de assuntos externos da Esso, saímos pelo Brasil. Tem ano que chegamos a visitar 80 redações de jornais. Nós esclarecemos dúvidas a respeito do prêmio e identificamos profissionais interessados no trabalho jornalístico. Desse contato, muitas vezes surge um convite [para integrar comissões]."
Fato: Existe grande rodízio de profissionais na primeira comissão, a de seleção. A maioria, porém, pertence aos grandes jornais do Rio e São Paulo. Na comissão de premiação, que elege os grandes vencedores, observa-se nos últimos anos uma tendência para a repetição de nomes.
"É difícil falar. Os jornalistas acabam fazendo uma disputa comercial do interesse das empresas. O prêmio virou indústria. Aí, o que você vê é uma guerra de jornalistas que dependem do emprego, defendendo suas empresas. Ter isenção é difícil. Só para citar um exemplo, os representantes de jornais concorrentes passam o tempo todo querendo derrubar a matéria do outro. Foi uma boa experiência, mas não quero repetir." [Jurado da Comissão de Seleção 1999, que pediu anonimato]
Versão do organizador, Ruy Portilho – "Cada jurado defendeu a sua matéria, isso é muito comum. Às vezes, alguns profissionais acompanharam mais a repercussão que teve a matéria de seu jornal, e costumam trazer para a comissão elementos que não estão ali publicados. Acho até que a contribuição dessas pessoas é muito enriquecedora. Não tem o caráter de tentativa de impor o trabalho da publicação."
Fato: Participantes das comissões seletivas acreditam que é preciso o apoio da direção dos jornais para uma matéria chegar à finalíssima. Outro detalhe: além de fazer as reportagens, alguns jornalistas inscritos são incentivados por seus editores a obter informações de cocheira sobre matérias concorrentes – que depois serão usadas como argumentos nas discussões finais de julgamento. Nessas ocasiões, são pedidos, por exemplo, a identificação de fontes de informação e eventuais evidências de que a matéria em julgamento tenha trechos compilados de outros textos.
Também chamam atenção as constantes quebras de sigilo dos nomes dos jurados. Na semana anterior à de premiação de 1999, Ruy Portilho afirmou que o júri só seria conhecido no dia da entrega dos prêmios. No entanto, às vésperas da cerimônia, pelo menos quatro nomes vazaram para um boletim eletrônico especializado. "Não proíbo, mas aconselho os jurados a não tornarem público os convites para evitar assédio e constrangimento. É uma recomendação. Não posso fazer nada se eles resolvem se expor", disse.
Reconhecimento profissional
Os vencedores de 1999, como tem ocorrido na história do Prêmio Esso, são exemplos de uma prática jornalística identificada com a notícia, com a apuração criteriosa e com o interesse público. Na noite de 14 de dezembro, num hotel da Avenida Atlântica, no Rio, foi impossível conter a emoção quando Ari Cipola , Mário Magalhães e Paulo Peixoto, da Folha de S.Paulo, ganhadores do Esso de Jornalismo de 1999, deram seus depoimentos. O trabalho dos três repórteres provocou uma guinada de 180 graus nas investigações sobre o caso PC Farias. Cipola relatou as ameaças que sofreu e dedicou o prêmio à mulher e ao filho de 13 anos, que vivem numa espécie de "prisão domiciliar", sob proteção policial. Os vencedores ainda tiveram a dignidade de citar dois jornalistas da IstoÉ, que também deram contribuições importantes para as reviravoltas do caso PC .
À cerimônia de premiação estavam presentes apenas três jornalistas e um estagiário da redação do jornal Extra!, um dos concorrentes ao Regional Sudeste. Da parte do concorrente, O Dia, estavam lá a direção de redação, editores, repórteres, fotógrafos e diagramadores, comemorando, antes do anúncio oficial, a premiação nas categorias Regional Sudeste e Criação Gráfica.
A insatisfação como o Prêmio Esso impeliu a diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro a negociar um patrocínio da Embratel para, em 2000, realizar uma premiação semelhante, com o apoio da Fenaj e organização do próprio sindicato. O anúncio foi feito em 15 de dezembro. Embora a versão oficial seja de que o evento servirá para "levantar o moral da categoria", comenta-se que o sindicato pretende organizar um prêmio de jornalismo sem a influência dos editores, e com dotações em dinheiro mais generosas. Comerá muito angu até de superar o Esso, que bateu o recorde de inscrições em 1999, com 1.021 trabalhos concorrentes.
(*) Com Luiz Egypto
Nota do O.I.: O Observatório da Imprensa não desmerece a qualidade dos trabalhos vencedores do Prêmio Esso, que no geral se impuseram aos critérios falhos de escolha dos jurados do certame.
ASPAS
PRÊMIO ESSO
Jornal do Brasil
"O JORNAL DO BRASIL conquistou anteontem o Prêmio Esso de Fotografia de 1999. É a 12ª vez que o jornal recebe o mais prestigiado e importante prêmio de fotografia do país. Em 44 edições dessa iniciativa para apontar o que de melhor foi produzido pelo jornalismo brasileiro no ano, já chega a 70 o número total de vezes em que uma foto, uma reportagem, a cobertura de um caso e uma charge do JB foram laureadas. Nenhum outro veículo de imprensa pode se orgulhar de colecionar tantos Prêmios Esso. A foto vencedora este ano foi de Marco Terranova, intitulada Domingo de pavor, que registrou, no dia 1° fevereiro, o pânico na orla de Ipanema e Leblon provocado por um tiroteio entre 15 policiais e assaltantes de um banco. Outra foto do JB ficou entre as três finalistas: a de Carlo Wrede, mostrando um pai desesperado ao ver o corpo do filho morto, após um acidente de carro na Lagoa, em junho.
O registro de Terranova foi feito numa manhã em que tinha sido escalado para cobrir uma partida de vôlei de praia. Ao ouvir os tiros, ele correu para o calçadão e, em meio à confusão, com todos se abaixando, procurou o melhor ângulo e fez a foto. ‘Naquele momento só estavam correndo os bandidos, os policiais e eu. A fotografia do JB é aguerrida e vai à luta. A gente veste a camisa mesmo, sobra raça aqui. Tudo isso se deve ao ótimo ambiente de trabalho. O prestígio pela premiação não é só meu. Todos no JB ganharam com esse prêmio, que dá ânimo e renova as energias’, diz Terranova, que, além de um diploma, recebeu R$ 7 mil. ‘O Marco está de parabéns e, se tivesse sido eu o vencedor, teria o mesmo discurso que ele’, completa Carlo Wrede.
A cerimônia de entrega foi realizada na noite de terça-feira, no Hotel Sofitel Rio Palace, em Copacabana. É a 44ª edição do prêmio, criado como projeto institucional da Esso em 1956. Este ano, foi batido um recorde: houve 1.021 trabalhos inscritos – entre eles, 660 reportagens, artigos e séries, 136 fotos e ensaios fotográficos e 225 concepções gráficas –, 20% a mais que a média das últimas edições. Criou-se uma categoria nova este ano, abrindo uma chance para os jornais do interior do país, totalizando 12 prêmios. A comissão julgadora da fase final foi composta pelos jornalistas Ary Schneider, da revista Jornal dos Jornais, Dácio Malta, de O Globo, Eduardo Martins, do Estado de S. Paulo, Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, e Ruth de Aquino, de O Dia.
A cerimônia, iniciada às 20h com um coquetel seguido de jantar, teve a participação do conjunto Os Cariocas, que interpretou clássicos da Bossa Nova. Às 22h teve início a premiação em si, estendendo-se até uma da manhã. Os apresentadores Sérgio Rondino, âncora do Jornal da Band, e Viviane Medeiros, repórter da Rede Globo, iam aos poucos convidando executivos da Esso para a entrega de diplomas – os agraciados receberam ainda prêmios em dinheiro, que variavam de R$ 3 mil a R$ 20 mil, na principal categoria. O que mais se via entre as mesas eram jornalistas com celular – àquela altura, alguns ainda passavam informações às respectivas redações.
Ao ser chamado, depois de muita expectativa, Marco Terranova, o fotógrafo premiado do JB, improvisou um texto, descontraído. ‘Como ninguém ainda dedicou a vitória aos pais, então eu dedico’, disse logo de início, provocando aplausos da platéia – até então os agraciados só tinham lembrado de agradecer a chefes, editores ou aos próprios veículos em que trabalham. Outro momento marcante foi a fala dos repórteres de O Globo Chico Otávio, Ascânio Selene e Amaury Ribeiro, que venceram o Prêmio Esso de Reportagem, com a recuperação do caso Riocentro. Dizendo que após a publicação da matéria oficiais foram indiciados e que ‘muitos generais ficaram preocupados’, eles foram muito aplaudidos. Mas coube mesmo a Ari Cipola, da Folha de S. Paulo, da equipe que ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com as novas investigações sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, o discurso mais emocionante da noite. Ele lembrou que sua mulher e seu filho, de 13 anos, estão passando por maus momentos em Maceió, protegidos pela polícia, e finalizou com um desabafo: ‘Tomara que isso acabe logo.’
Um jornalismo que fez e faz a história do país
Novembro de 1959. Boa parte dos orfanatos do Rio recebe verbas públicas e não cumpre as tarefas de alimentar, vestir e tratar com dignidade as crianças que abriga. As autoridades impõem barreiras quase intransponíveis para a adoção de órfãos. A velha e ainda comum prática de criar dificuldades para vender facilidades alimenta a indústria dos orfanatos e produz um drama social.
A jornalista Sílvia Donato inicia uma série de reportagens e mobiliza, nas páginas do JORNAL DO BRASIL, a sociedade carioca. O jornalismo faz história: orfanatos são fechados e a legislação de adoções é alterada. O rigor e a repercussão do trabalho rendem à autora o Prêmio Esso de Jornalismo de 1961 na categoria principal, o primeiro dos nove conquistados por profissionais do JORNAL DO BRASIL nas 44 edições do evento. O jornalista José Gonçalves Fontes, hoje chefe de reportagem da editoria de Cidade, denuncia ao longo de seis meses, com provas fartas, a fraude nas eleições de 1960 no Rio. A persistente investigação faz com que a Justiça Eleitoral casse o mandato de um deputado e mude de modo significativo o processo de votação. Graças ao seu empenho, o JORNAL DO BRASIL recebe novamente o prêmio mais importante, em 1962.
Em 1981, uma equipe de repórteres e editores é premiada por demonstrar que os dois militares envolvidos no episódio da bomba do Riocentro são ao mesmo tempo vítimas e responsáveis, ao contrário do que aponta o inquérito oficial. Em 1975, Juarez Bahia recebe o Prêmio por uma reportagem que revela o assustador crescimento do tráfico de drogas.
Em 1990, Teodomiro Braga e Teresa Cardoso são escolhidos, também na categoria principal, pela histórica descrição do xadrez político e legal que leva primeiro ao lançamento e depois à retirada da candidatura do empresário e apresentador de TV Sílvio Santos à Presidência da República.
Na cerimônia de 1964, ano do golpe militar, Walter Firmo transforma-se no primeiro e único fotógrafo a ter um trabalho laureado na categoria principal, com seu amplo mergulho jornalístico na Amazônia, uma região bela e repleta de problemas sociais.
Reportagens, charges e fotos publicadas pelo Jornal do Brasil foram laureadas em 15 categorias diferentes, da principal à de Informação Científica (1 vez), passando por Informação Econômica (4) e Esportiva (4). Ao todo são 70 prêmios – o jornal com mais Prêmios Esso depois do JB tem duas dezenas a menos. Vários profissionais premiados seguem na redação, como o cartunista Ique e o repórter esportivo Oldemário Touguinhó, este, assim como Fontes e Bahia, um dos mais premiados na história do evento.
Entre as categorias nobres, a que rendeu o maior número de menções ao JORNAL DO BRASIL foi Fotografia (12). As imagens eleitas estão guardadas no imaginário da sociedade brasileira, como a que mostra quatro negros, presos pela PM, amarrados um ao outro pelo pescoço como se fossem escravos, de Luiz Morier.
Os vencedores em 1999
A relação completa dos vencedores do Prêmio Esso de Jornalismo 1999 é a seguinte:
JORNALISMO
Mário Magalhães, Ari Cipola e Paulo Peixoto, com o trabalho Caso PC: Uma investigação sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, publicado no jornal Folha de S. Paulo
REPORTAGEM
Chico Otávio, Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Júnior, com o trabalho Riocentro, publicado em O Globo
FOTOGRAFIA
Marco Terranova, com a foto Domingo de pavor, publicada no JORNAL DO BRASIL
INFORMAÇÃO ECONÔMICA
Jorge Bastos Moreno, com o trabalho Queda de Gustavo Franco, publicado em O Globo
INFORMAÇÃO CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E ECOLÓGICA
Cláudio Cerri, com o trabalho Rastros indomáveis, publicado na revista Globo Rural
CRIAÇÃO GRÁFICA – CATEGORIA JORNAL
André Hippertt e Renata Maneschy, com o trabalho O preço da liberdade, publicado em O Dia
CRIAÇÃO GRÁFICA – CATEGORIA REVISTA
João Carlos Alvarenga Freire, com o trabalho Um cadáver político, publicado na revista Istoé
ESPECIAL INTERIOR
Rita Magalhães, com o trabalho HB apura desaparecimento de corpo, publicado no Diário da Região de São José do Rio Preto, São Paulo
REGIONAL NORTE
Orlando Farias e Síglia Regina, com o trabalho Violência entre galeras faz legião de mutilados, publicado em A Crítica
REGIONAL NORDESTE
Ariadne Araújo e Equipe, com o trabalho Caso Campelo – Documentos inéditos ligam diretor da PF a caso de tortura, publicado em O Povo
REGIONAL CENTRO-OESTE
Sandra Kiefer, Francis Rose, Déa Januzzi e Evaldo Sérgio, com o trabalho Criança no lixo, nunca mais, publicado no Estado de Minas
REGIONAL SUL
Eliane Brum, com o trabalho A vida que ninguém vê, publicado no Zero Hora
REGIONAL SUDESTE
João Antônio Barros, com o trabalho O preço da liberdade, publicado em O Dia
Folha ganha na principal categoria em 99
O Prêmio Esso de Jornalismo, a principal categoria em disputa, coube este ano a Mário Magalhães, Ari Cipola e Paulo Peixoto, responsáveis pelo trabalho Caso PC: Uma investigação sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, do jornal Folha de S. Paulo. Ao longo de nove meses, foram publicadas reportagens sobre o tema em pelo menos 100 dias. A cobertura feita trouxe novos e reveladores fatos à tona, mudou os rumos do inquérito e fez com que o caso, que estava para ser arquivado em maio, fosse reaberto em junho. Em novembro, a Polícia indiciou Augusto Farias e oito ex-funcionários de PC como co-autores do crime. ‘O resultado é importante por reconhecer um trabalho investigativo que tomou muito tempo e esforço. Os três estão de parabéns pela meticulosidade com que conduziram essas reportagens’, diz Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo.
A história dessa série de reportagens da Folha começa em dezembro de 1998, quando o jornal decidiu voltar a investir no tema, já abandonado por quase toda a imprensa, e designou um repórter exclusivamente com essa missão. ‘Em janeiro, eu comecei sozinho. Em março, publicamos as primeiras matérias, apontando várias falhas no laudo de Badan Palhares, entre elas a altura de Suzana’, lembra o carioca Mário Magalhães, 35 anos. A partir daí, Ari Cipola e Paulo Peixoto foram escalados para ajudar Mário. O resultado final do excelente trabalho, que culminou com a premiação de anteontem, evidentemente deixou todos os três felizes. Infelizmente, no entanto, também teve conseqüências na vida pessoal de Ari Cipola. Ele, a mulher e os dois filhos – um adolescente e um bebê de colo – recebem proteção 24h por dia da Polícia e quase não saem de casa, com medo de serem alvo de vingança."
"JB é o veículo de imprensa mais premiado do Brasil", copyright Jornal do Brasil, 16/12/99
Folha de S.Paulo
"O Prêmio Esso de Jornalismo de 1999 foi conferido aos jornalistas Mário Magalhães, Ari Cipola e Paulo Peixoto, da Folha, pela série de reportagens que investigaram as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino.
Em cerimônia realizada anteontem à noite no Rio, com a presença de mais de 400 jornalistas de todo o país, o trabalho intitulado ‘Caso PC: uma investigação sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino’ foi escolhido como a melhor produção editorial do Brasil neste ano.
Concorreram ao prêmio 1.021 trabalhos, inscritos por 786 profissionais de 142 publicações.
O trabalho vencedor traz revelações que acabaram por reabrir as investigações oficiais sobre a morte de PC Farias, amigo e tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor. Um novo inquérito está em curso.
O Prêmio Esso de Reportagem, o segundo em importância concedido na cerimônia, foi conferido à série de reportagens sobre o caso Riocentro produzida pelos jornalistas Chico Otávio, Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Júnior, de O Globo.
Dificuldades
Na entrega do prêmio, os jornalistas da Folha relataram as dificuldades na investigação das mortes em Alagoas e agradeceram ao ministro da Justiça, José Carlos Dias, pela proteção policial concedida ao repórter Ari Cipola e a sua família, em Maceió, depois que receberam ameaças de suspeitos de envolvimento nos crimes.
Essa premiação para jornalistas, conferida pelo 44º ano, é a mais antiga no país. Durante a cerimônia, foi exibido um breve documentário lembrando a implantação da Esso no Brasil, há 88 anos, e o fato de que a empresa tem a imagem vinculada ao extinto Repórter Esso, que foi por muitos anos a principal emissão jornalística nas rádios e na televisão do país.
Os ganhadores do prêmio principal receberam um diploma e R$ 20 mil. A escolha ocorreu entre 36 finalistas selecionados por uma comissão de 13 jornalistas, que se reuniram por dois dias no último mês de novembro. Anteontem, uma outra comissão de cinco jornalistas fez a escolha final.
O júri final foi composto pelos jornalistas Ari Schneider, da revista Jornal dos Jornais; Dácio Malta, de O Globo; Eduardo Martins, de O Estado de S.Paulo; Josias de Souza, da Folha, e Ruth de Aquino, de O Dia.
O Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa foi dado à revista Jornal dos Jornais, que se propõe a fazer uma cobertura crítica dos meios de comunicação.
"Folha ganha Prêmio Esso por caso PC", copyright Folha de S.Paulo, 16/12/99
NOTÍCIAS DO PLANALTO
Faltou checar
Cassio Sader
É preciso alertar: o livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, não pode ser visto como uma confissão, das que fazemos rapidamente e depois nos sentimos livres para novos e antigos pecados.
E também não pode ser tomado como verdade acima de qualquer suspeita.
Explico melhor: à altura da pagina 57 o autor narra um episódio ocorrido ao fotógrafo Raymond Efraim Frajmund. Por azar do escritor encontrei Raymond e sua agradabilíssima esposa, Rose, e comentei sobre a passagem do livro em que ele é citado. Resultado: Mario Sergio Conti manteve da verdade apenas as tais três costelas do fotógrafo que Collor quebrou, e inventou todo o resto.
Raymond não foi levado por Carlos Chagas a nenhuma academia, Collor é que apareceu na academia que Raymond freqüentava – Carlos Chagas nunca apareceu por lá. Collor foi expulso no dia seguinte e, ao contrário do que narra o autor, nunca soube que Raymond tinha fotografado a cena em que o pai de Collor, Arnon de Mello, matou Silvestre Kairala.
E aí vem mais uma falha muito comum ao jornalismo dos nossos tempos: as fotos não inocentam Arnon, pelo contrario. Mostram o senador Silvestre Kairala desarmado no momento em que o senador Arnon de Mello atira sem saber para onde apontava o revólver.
Ou seja, Mario Sergio Conti escreveu sobre fatos e pessoas e não se deu ao trabalho de checar nada sobre este caso. Matéria da Folha de S.Paulo da época da eleição de 89, feita por Marcelo Tas, mostra as tais fotos – o que acabou resultando no cancelamento de um encontro entre Collor e a direção do jornal.
Eu nem passei da pagina 70. Encontrei o Raymond por acaso. E o livro caiu no meu conceito terrivelmente.
Esta é a imprensa que está fazendo um mea culpa? Vamos dar o caso por encerrado agradecendo a um jornalista que não fez o básico, que é checar informações?
Quantas outras histórias deste livro estão, como esta, mal-apuradas?
Raymond e Rose estão indignados com este episódio.
Nota do O.I.: Procurado pelo Observatório, Mario Sergio Conti ainda não nos respondeu.
Jornalismo e realidade
Luiz Fernando Castro (*)
O papel da imprensa vem sendo questionado freqüentemente nas últimas semanas, após o lançamento do livro Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti. A grande pergunta é: até que ponto o jornalismo tem relação de verdade com a realidade?
Acredito que a relação do jornal com o real pode ser pensada a partir da análise do campo jornalístico e do processo de produção da informação nos órgãos de imprensa.
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, existe uma relação de forças internas e externas que age sobre o campo jornalístico, como um todo, e sobre os elementos desse campo. Essa relação de forças estaria, então, internalizada em cada um desses elementos. É como se cada um soubesse a posição que ocupa no campo e no órgão do qual faz parte. Assim, cada um saberia o que pode e o que não pode escrever sobre os fatos reais e são vencidos pela força do campo.
Troca de significados
Torna-se importante, então, ressaltar que a cobertura jornalística da realidade esbarra nas deficiências estruturais do campo jornalístico, na interpretação pessoal e no próprio processo de produção. Bourdieu identifica uma particularidade no campo jornalístico que é a dependência de forças externas, principalmente no que diz respeito ao campo econômico e sua influência. Assim, a cobertura jornalística é muitas vezes arbitrada por interesses mercadológicos, ou seja, interesses comerciais. Portanto uma televisão dá mais ênfase a notícias espetaculares que lhe rendem bons índices de audiência e um jornal dá destaque em primeira página a fatos que lhe proporcionam uma venda maior de exemplares. Excluindo, assim, fatos e posições muito polêmicas que possam contrariar fatias desse mercado. A televisão em especial, pelo grande poder de produção de significados e toda a sua simbologia, é apontada como grande vilã na relação jornalismo/realidade.
Essa importância da TV pode ser identificada por sua influência sobre outros campos e sobre o próprio meio jornalístico. Essa força, em termos de produção de significados ou de uma mensagem, impõe diversos efeitos negativos a esses campos onde julga fatos e idéias como útil/inútil ou falso/verdadeiro. Muitas vezes desvirtuando o foco de atenção da opinião pública para assuntos de interesse menor ou até irrelevante.
Levando em conta ainda o processo de produção da informação, desde o repórter até o editor ou o diagramador, podemos verificar que o discurso produzido inicialmente pelo repórter pode ter seu significado invertido ou trocado pelo editor, pelo diagramador e até pela assimilação do público. Isso leva muitas vezes à simplificação ou à banalização excessiva dos fatos. Ocasionando a elaboração de uma realidade muitas vezes falsa ou inexistente.
Assim, a relação jornal/real é influenciada tanto pelas forças externas e internas como pela própria limitação dos elementos que compõem o campo jornalístico, incluindo os próprios jornalistas, o processo estrutural do campo e os órgãos de imprensa. Talvez isso ocorra pelo fato de que socialmente o campo jornalístico é visto como monopolizador ou identificador do real e da própria realidade.
(*) Estudante da ECO/UFRJ
ASPAS
Fernando de Barros e Silva
"Sexta-feira, 15 de dezembro de 1989, antevéspera do segundo turno da eleição presidencial, que ocorreria no domingo, dia 17. O ‘Jornal Nacional’ tinha acabado de ir ao ar, minutos antes, com a edição do debate realizado na noite anterior entre os candidatos Fernando Collor, do PRN, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. O telefone toca na redação do ‘JN’. É Roberto Marinho. Manda chamar o ‘responsável’ pela edição daquela noite. ‘Alô, Ronald, é Roberto Marinho. Esse é exatamente o tom que eu quero na cobertura política. A maneira como foi tratado o debate, é assim que eu quero.’ Despediu-se e desligou.
‘Ronald’ é Ronald Carvalho, então editor de Política da Rede Globo. É dele a transcrição aproximada, feita de memória, do que lhe teria dito Roberto Marinho naquela noite. A conversa é confirmada por outras duas pessoas. ‘Entendi o telefonema do dr. Roberto como uma instrução para o futuro, não como um elogio. Ele não me perguntou ‘como vai?’, nada disso, foi direto ao assunto. Lembro-me do tom seco.’
Ronald Carvalho foi um dos responsáveis diretos, mas não o único, nem o principal, como assumiu em entrevista à Folha, por uma das edições mais controvertidas da história do ‘Jornal Nacional’. Alberico Souza Cruz, na época diretor de telejornais da emissora, superior hierárquico de Carvalho, participou diretamente da confecção da reportagem que foi ao ar, fato que nega até hoje.
O episódio gerou muita confusão na época, até uma manifestação de artistas em frente à Globo, na véspera da eleição. Também dentro da emissora, provocou um racha entre os profissionais do jornalismo. Seus ecos se fizeram sentir meses depois, na queda de Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Jornalismo, e na ascensão de Alberico.
À véspera de completar dez anos, a edição histórica voltou a provocar discussões acaloradas há duas semanas, quando foi lançado ‘Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor’ (Companhia das Letras), livro de Mario Sergio Conti, ex-diretor de Redação da revista Veja. No que se refere ao episódio do debate, tratado no capítulo 17, os envolvidos têm mais críticas do que elogios ao relato de Conti, por razões várias.
Naquela mesma noite de 15 de dezembro, Ronald Carvalho recebeu outros dois telefonemas, ainda na Redação do ‘JN’. Um deles de seu amigo pessoal Paulo Henrique Amorim, então editor de Economia da Rede Globo.
‘Ronald, o que aconteceu, como é que você fez aquilo? Não me lembro exatamente das suas palavras, mas o teor era o seguinte: ‘Eu fiz assim para mostrar que havia sido um trabalho de tal forma parcial que iria provocar a indignação das pessoas’.’
Ronald Carvalho dá outra versão da conversa: ‘Não me lembro exatamente o que falei ao Paulo Henrique, mas não deve ter sido isso, porque considero que a edição do ‘JN’ refletiu de modo fiel a vitória de Collor no debate’.
Momentos depois, Carvalho fala ao telefone com o jornalista Ricardo Noblat, também seu amigo. Carvalho afirma que foi Noblat quem lhe telefonou; Noblat diz que foi o contrário. Diretor de Redação do jornal Correio Braziliense há quatro anos, Noblat era então articulista do Jornal do Brasil. Sua coluna, ‘Coisas da Política’, foi uma das que mais atacaram a candidatura do PRN durante a campanha. O titular foi demitido do JB quatro dias depois que Collor se elegeu.
‘Lembro-me de Ronald meio cínico ao telefone’, diz Noblat. ‘Ele sabia que havia feito uma cagada, ligou para saber o que eu tinha achado da edição. Já sabia o que iria ouvir de mim. Desde então, sempre que o assunto vem à baila, Ronald assume a edição como uma coisa pessoal dele. É uma falsa questão. Quem meteu a mão na massa não tem muita importância. Eles estavam cumprindo uma ordem do dono’, diz Noblat.
Versões contraditórias
Entre as 141 pessoas que Mario Sergio Conti ouviu para escrever seu livro não está Ronald Carvalho. O autor diz que se considerou ‘satisfeito’ com o único depoimento de Carvalho, braço direito de Armando Nogueira. Diz Carvalho: ‘A Alice me disse que tinha recebido um telefonema do João (João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo) e que ele havia achado a edição do ‘Hoje’ descompensada. Era o que eu tinha achado. ‘Ronald, faça uma nova edição’, me pediu a Alice’.
‘Um dos editores que eu tinha’, segue Carvalho, ‘chamava-se Otávio Tostes (era então editor de Política do ‘JN’). Eu disse a ele: ‘Assim como em futebol, quem tem que bater o pênalti é o presidente, não se meta nisso. Eu não quero que amanhã respingue para ninguém. Eu sou responsável por essa merda’. Dispensei o Otávio e fui pessoalmente para a ilha, para editar sozinho. Marquei os pontos em que o Lula perdeu, em que o Collor ganhou e vice-versa. Evidentemente, os pontos em que o Collor ganhou foram muito maiores. Editei com base nesse critério. Em nenhum momento o Alberico pisou na ilha de edição ou na redação, ele nem sequer viu a fita antes de ela ir ao ar.’
A versão de Alberico é semelhante à de Carvalho. Foi relatada à Folha em entrevista de duas horas, na sede da Rede TV!, onde Alberico exerce as funções de diretor de Jornalismo. Sem tirar os óculos escuros em momento algum, Alberico não permitiu que a conversa fosse gravada. ‘É que o gravador me inibe’, afirmou.
Eis sua versão do que se passou naquele dia: ‘Estava em São Paulo no dia 15. Cheguei à Globo por volta de 16h. Fui para minha sala e telefonei para o Ronald:
– Como está edição do debate no ‘JN’? É a mesma do ‘Hoje’? – Não, a Alice falou com o João e ele disse que o dr. Roberto tinha achado a edição errada, favorável ao Lula, disse que não refletia o debate e mandou mudar’.
‘O Daniel Tourinho (presidente do PRN, cargo que ocupa até hoje)’, prossegue Alberico, ‘estava na minha ante-sala. A missão dele era saber qual seria a edição do debate e passar para o Collor. O cara era um chato, um político obscuro, e eu o cozinhei lá.
Ronald me liga às 19h.
– Como ficou?, perguntei.
– Já levei para a Alice e ela não quis ver, disse que confiava em mim, que estava bem-feito. Você não quer dar uma olhada?
– Bota no ar.’
Embora diga que não tenha visto a edição, Alberico afirma hoje que a aprovaria integralmente: ‘Ela exprimia o que ocorreu de fato no debate, a vitória do Collor’. Os dois relatos, o de Carvalho e o de Alberico, muito próximos e complementares, são desmentidos por todos os demais envolvidos no episódio. A começar por João Roberto Marinho.
Em fax enviado à Folha, o vice-presidente das Organizações Globo afirma: ‘Não é verdade que eu nem meu pai nem meu irmão tenhamos transmitido à Alice-Maria a orientação de mudar a edição do debate que foi ao ar no ‘Hoje’. Nenhum de nós viu antes a edição do ‘Jornal Nacional’. Mas considero que ela ficou mais próxima de exprimir o que ocorreu no debate da véspera. A edição do ‘Hoje’ passou a idéia de um equilíbrio entre os candidatos, o que não houve. Na minha opinião, na opinião de membros destacados do PT e na pesquisa realizada pelo Ibope, Collor teve melhor desempenho do que Lula no debate’.
Ricardo Kotscho, atual diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes em São Paulo, na época assessor de imprensa de Lula, concorda que o petista foi derrotado por Collor. ‘Já saímos todos do debate com aquela sensação, mas a edição da Globo adulterou o resultado da partida. Transformou a vitória num massacre.’
João Roberto Marinho, de qualquer forma, se confunde num ponto, o da autoria da pesquisa. A que foi ao ar no ‘JN’ daquela noite era de responsabilidade do Vox Populi. O instituto era contratado por Collor desde o início da campanha. Um de seus sócios, Marcos Antônio Coimbra, é primo torto do ex-presidente; é dele, inclusive, a autoria da sigla PRN. O pai de Marcos Antônio, o embaixador Marcos Coimbra, seria depois secretário-geral da Presidência de Collor. Até aquele dia 15 de dezembro de 89, a Globo priorizava as pesquisas de opinião do Ibope. Houve uma decisão política na emissora de incluir os números do Vox Populi, muito favoráveis a Collor.
Ainda assim, a versão de João Roberto desautoriza o que dizem Alberico e Carvalho. Há outras na mesma linha. Alice-Maria, que não fala sobre o episódio, aliás sobre nenhum assunto envolvendo a Globo em público, diz, na reportagem de 93 da ‘Interview’, uma única frase, lacônica e por intermédio de terceiros: ‘A minha versão é a do Pinheirinho’.
‘Pinheirinho’ é Francisco Vianey Pinheiro, ex-diretor regional da Rede Globo em São Paulo. Na reta final da campanha, ele fora deslocado para o Rio, para coordenar, ao lado de Carvalho, o fechamento dos telejornais da casa. É de Pinheiro a edição do debate que foi ao ar no ‘Jornal Hoje’.
‘Logo depois de exibido o ‘Hoje’, diz Pinheiro, ‘o Armando me telefonou da sala dele, para me parabenizar.’ ‘Falei com o João Roberto’, disse Armando, ‘ele achou a edição equilibrada, muito boa; por favor, repita no ‘JN’. Fiquei aliviado, dei uma relaxada. Lembro-me de que me dirigi ao Otávio Tostes e disse: ‘Tigrão (era assim, carinhosamente, que costumava se referir aos colegas), você vai coçar o saco; a questão do debate está resolvida. É só acertar algumas vinhetas, retocar a edição do ‘Hoje’ e botar no ‘JN’.’
Pinheiro teve um acesso de choro no estacionamento da Globo, logo depois que assistiu à edição do ‘JN’. Quis bater em Ronald e Alberico e foi contido. Afirma que, ‘várias vezes durante a campanha’, viu Alberico conversando ao telefone com Collor ou Leopoldo, seu irmão. ‘Era uma troca de telefonemas permanente. O Ronald era homem do Alberico, nos momentos que antecederam a eleição era difícil tê-lo à mão.’
O relato de Armando Nogueira segue na mesma linha. Reafirma o telefonema que lhe deu João Roberto (que o empresário não confirma), a orientação que deu a Pinheiro e diz ter sido traído por Alberico. ‘O Alberico havia me dito pelo telefone que faria pequenas mudanças de forma. Qual não foi minha surpresa quando vi no ar aquela tragédia. O Alberico fez as mudanças para servir a ele, aos interesses dele. Ele era um profissional a serviço da eleição do Collor, não da Rede Globo’, afirma.
Conhecimento técnico
Nesse cipoal de versões, há um personagem-chave para que se esclareça melhor o envolvimento direto de Alberico no caso. É Otávio Tostes. Era ele quem operava as reportagens sobre política nas ilhas de edição. Tinha já então excelente conhecimento técnico do maquinário, que Ronald Carvalho dominava com dificuldades. Tostes, além de Alice-Maria, é o único, entre os personagens de 89, que trabalha atualmente na Globo. Deixou a emissora em 94 e voltou para lá este ano, como coordenador do ‘JN’ em São Paulo. Por determinação da direção da emissora, Tostes não pode se pronunciar publicamente sobre o assunto. Procurado pela Folha, recusou-se a falar.
A reportagem ouviu, porém, três de seus colegas na época, que solicitaram o anonimato. A eles, Tostes teria contado o que ouviu de Carvalho, quando este teria recebido de Alberico a ordem de mudar a edição para o ‘JN’: ‘Prepare-se: vamos ter que tapar o nariz e botar a mão na merda’.
Ainda segundo os colegas, Tostes lhes teria dito que foi ele, cumprindo ordens, quem de fato operou na ilha a edição. Teria recebido quatro orientações bem precisas, duas partidas de Ronald e duas de Alberico, todas as quatro para favorecer Collor. Isso tudo, repita-se, na ilha de edição, onde Alberico afirma não ter pisado. Ainda segundo o relato de Tostes para os colegas, Alberico foi o último a assistir à edição, 15 minutos antes que a fita fosse ao ar.
Evidências
Embora nessa história vá haver sempre alguém disposto a contestar suas muitas variantes, a versão de que Alberico coordenou a edição a mando de Roberto Marinho, que teria atropelado a hierarquia, passando por cima da autoridade formal de Armando Nogueira, é a que soa mais lógica e convincente. Mario Sergio Conti escreve que, na tarde de 15 de dezembro, Roberto Marinho teria mandado que Alberico fizesse ‘a matéria correta’ para o ‘JN’. Dizer isso parece pouco. Os indícios de que houve manobra política, sem eufemismos, são vários:
* O telefonema de Marinho a Ronald Carvalho, parabenizando-o pela edição e sinalizando os rumos do telejornalismo.
* O fato de que Alberico determinou a todas as praças regionais da Globo quais seriam os entrevistados dos ‘Bom Dia’ locais no dia 15, seguinte ao debate, e qual seria a primeira pergunta que lhes deveria ser feita. A história está insinuada no livro ‘Como Ganhar uma Eleição’, do consultor de marketing político Ney Lima Figueiredo, colaborador da campanha de Collor, e foi confirmada à Folha por dois jornalistas que trabalhavam na Globo em 89.
* O fato de que Roberto Marinho desautorizou, publicamente, as declarações que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, deu à Folha, no dia 17 de dezembro de 89. Boni disse que houve um ‘erro de avaliação’ por parte do jornalismo da emissora e que a edição ficara ‘mais favorável a Collor’. Marinho disse no dia seguinte, à mesma Folha: ‘Boni é o melhor especialista em televisão do Brasil, mas nunca o tive como especialista em questões eleitorais’.
* Finalmente, o fato de que Roberto Marinho, contrariando os filhos, que preferiam Evandro Carlos de Andrade, então diretor de Redação do jornal O Globo, nomeou Alberico para dirigir a Central Globo de Jornalismo, em 90. Alberico, cuja amizade com Collor já se tornara então notória, ficou na função até 95. Carvalho subiu junto e foi, até 93, quando deixou a Globo, diretor editorial de jornalismo da emissora."
"Roberto Marinho avalizou edição do ‘JN’ coordenada por Souza Cruz", copyright Folha de S.Paulo, 11/12/99
Folha de S.Paulo
"Cid Moreira: A campanha eleitoral no segundo turno teve seu momento mais importante na noite de ontem. Foi o duelo entre os candidatos pela televisão. o debate durou quase três horas e foi transmitido por um pool formado pelas principais quatro emissoras de TV. Reveja agora alguns momentos do debate.
Lula: É preciso saber de antemão que desde 1980, portanto já há dez anos, atrás, o partido dos Trabalhadores, ele foi fundado na base da liberdade política, na base da liberdade de autonomia sindical, na base do pluralismo político.
Collor: De um lado está a candidatura do centro democrático, por mim representada, do outro lado está uma candidatura que esposa teses estranhas ao nosso meio, teses marxistas, teses estatizantes, teses que não primam pelos princípios democráticos consagrados na nova carta constitucional, até porque o partido daquele que é meu adversário se negou a assinar, ou não a assinar, mas votou contra o texto constitucional.
O Tratamento das Greves (vinheta com locução de Cid Moreira)
Lula: E nós vamos tentar criar instrumentos para que essas categorias essenciais passem a ser tratadas como categoria essencial do ponto de vista do salário que cada um vai receber.
Collor: Agora, há um outro tipo de greve, que é a greve política, que é a greve patrocinada pela CUT, que a greve patrocinada pelo braço sindical do outro candidato. Essa greve política é feita apenas para realçar, colocar no noticiário as suas lideranças. E este grevismo político já recebeu uma resposta drástica, uma resposta negativa da sociedade, que não aceita mais este grevismo político.
A Questão do Nordeste (vinheta com locução de Cid Moreira)
Lula: O problema do Nordeste não é um problema de cerca, de seca, é um problema de cerca. Daí porque defendi a reforma agrária, senão morreriam milhões e milhões de nordestinos, como está aí a imprensa dizendo que o IBGE afirmando que é possível até nascer uma sub-raça.
Collor: Eu quero de alguma maneira repelir essa insinuação de que nós sejamos sub-raça, até porque sub-raça eu não sou, como também acredito que meu adversário não seja sub-raça somente pelo fato de ter nascido no Nordeste. A prova de que não somos sub-raça, deputado, é que nós estamos aqui disputando a eleição presidencial, duas pessoas com origens no Nordeste.
A Violência na Campanha (vinheta com locução de Cid Moreira)
Collor: Nós nunca fomos intolerantes, baderneiros e bagunceiros para irmos lá e fazer o que eles fazem e o que fizeram nos nossos comícios. Agora mesmo, fora de uma manifestação, numa passeata, a jogadora de basquete, a Norminha, foi agredida, agredida covardemente por seis marmanjos, que brandiam a bandeira vermelha, com a foice e o martelo do PT. Isso é uma atitude democrática?
Lula: Eu, que durante várias vezes, o meu partido foi acusado de violência, eu acredito que pouca gente nesse país foi vítima de violência como o foi o Lula em toda a sua vida política. Portanto, eu estou tranquilo que cumpri com meu dever cívico enquanto candidato, estou tranquilo que cumpri com meu dever cívico enquanto a pessoa preocupada em elevar o nível de consciência do nosso povo, e estou tranquilo de que essa contribuição será e foi ouvida pelo nosso povo.
Salários (vinheta com locução de Cid Moreira)
Lula: A pergunta que eu queria fazer ao meu adversário é o seguinte: quais as medidas concretas que você tomaria caso um político seu, um político do seu partido, tentasse legislar em causa própria, tentasse fazer uma legislação para tirar proveito pessoal do seu projeto de lei?
Collor: Eu tenho um caso concreto. Recentemente, o deputado Renan Calheiros, líder do PRN na Câmara dos Deputados, encaminhou um projeto de lei para congelar os salários já polpudos dos senhores deputados federais e dos senhores senadores da República, que, como disse há pouco, como o deputado do PT passa a ganhar 200 mil cruzados novos, mais de 100 vezes, mais de 100 vezes o salário mínimo no país. Que tem mordomias, como operações em, hospitais caríssimos. E esse projeto de lei, foi solicitada urgência urgentíssima a todos os partidos. O PT se negou a assinar.
Os Acordos Políticos (vinheta com locução de Cid Moreira)
Collor: O ex-governador Leonel Brizola afirmou que o vice do outro candidato, afirmou com letras maiúsculas, que o vice do outro candidato é corrupto. Eu queria saber do outro candidato: o ex-governador Brizola está mentindo ou o seu candidato a vice-presidente é realmente corrupto?
Lula: Brizola disse que o Bisol contraiu um empréstimo que ele considera imoral e o Bisol disse que o empréstimo é correto e que vai processar o Brizola. Ora, obviamente que eu, quando eu fiz a aliança com o Brizola, eu não pedi pro Brizola passar a gostar do Bisol e não pedi para o Bisol passar a perdoar o Brizola. O que eu pedi era para que os dois se entendessem e que o momento maior era ganhar as eleições.
Collor: É rigorosamente inacreditável. O ex-governador Brizola chama o candidato a vice do adversário de corrupto e o candidato acha que é perfeitamente normal. Apenas pede aos dois que não se digladiem, que não se xinguem nesse período para tirar proveitos eleitorais, para que não afete a questão eleitoreira.
Alexandre Garcia (entre os dois candidatos, durante o debate): Estamos iniciando a última parte do último debate desta campanha eleitoral. Para as últimas palavras dos dois candidatos. Por sorteio, vai falar em primeiro lugar o candidato Fernando Collor de Mello e, por último, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Collor: Eu gostaria de transmitir a todos vocês a minha enorme confiança de que continuaremos juntos no próximo dia 17. Sim, no dia 17 vamos dar um basta definitivo à bagunça, à baderna, ao caos, à intolerância, à intransigência, ao totalitarismo, à bandeira vermelha. Vamos dar sim à nossa bandeira. Essa que está aqui (aponta para o peito), a bandeira do Brasil, a bandeira verde, amarela, azul e branca.
Lula: Nós, que pertencemos à classe trabalhadora, sabemos perfeitamente bem que a nossa luta titânica é para escapar da fome, é para escapar do desemprego, é para escapar da favela ou de baixo de uma ponte. Em função não de méritos pessoais, mas em função da competência de uma categoria profissional, em função da competência de milhares de brasileiros, em função da competência dos partidos com que eu me orgulho de estar aliado, eu estou hoje disputando a Presidência da República para ganhar as eleições no dia 17.
Cid Moreira: E quem venceu o debate? O Instituto Vox Populi fez esta pergunta a 490 telespectadores em 114 municípios. 22% dos entrevistados acharam que o debate foi ótimo; 39,5% o consideraram bom; o debate foi regular na opinião de 28% dos telespectadores; e 7,7% disseram que o encontro ficou entre ruim e péssimo. Veja agora a avaliação do desempenho dos candidatos.
(vinhetas com locução de Cid Moreira)
Melhor desempenho
Collor: 44,5%
Lula: 32%
Idéias mais claras
Collor: 45%
Lula: 34,1%
O mais preparado para governar
Collor: 48%
Lula: 30%
Melhores planos de governo
Collor: 45,9%
Lula: 33%
Quem atacou mais o adversário?
Collor: 33%
Lula: 30,8%
Cid Moreira (no estúdio): O debate dos candidatos teve um alto índice de audiência e o público superou o do debate anterior. Ao transmitir o encontro dos presidenciáveis, a televisão cumpriu mais uma vez o seu papel na democracia. Alexandre Garcia.
Alexandre Garcia (no estúdio): Ontem à noite as ruas desertas das cidades atestavam audiência de Copa do Mundo com Brasil na final. Era a audiência da televisão brasileira no último debate entre os candidatos à Presidência. Nesses dois debates, a televisão foi fonte de aperfeiçoamento da democracia, foi união entre a eleição e o eleitor. Fez entrar em milhões de lares os dois candidatos defendendo suas idéias e posições. Ter participado daqueles momentos em que a televisão foi confirmada como principal veículo no principal processo da democracia, que é a eleição, é algo que muito nos orgulha. Nós vamos continuar ao seu lado até que se conheça o resultado e depois dele, porque aperfeiçoar a democracia é uma prática constante. E agora é votar: cada voto, o seu voto, tem o poder de nomear o presidente da República. É um poder e um direito, porque quem nomeia é também quem paga o salário do presidente e quem sustenta o governo com os impostos que são uma parte do trabalho de cada um. Nosso trabalho como profissionais de televisão foi e continuará sendo o que fez a televisão nesses dois debates: manter aberto esse canal de duas mãos entre o eleito e os eleitores para que melhor se exerça a democracia. * As falas dos candidatos foram transcritas tal como foram ditas, sem correção de estilo ou gramatical."
"Conheça a íntegra da edição do debate no ‘Jornal Nacional’*", copyright Folha de S.Paulo, 11/12/99
***
"Alguns já leram e não gostaram, outros já não gostaram antes de ler. Entre os personagens envolvidos na edição do debate entre Collor e Lula, feita pelo ‘Jornal Nacional’, há muita divergência e ressentimento recíproco, mas todos, ou quase, têm algo em comum: esconjuram o livro ‘Notícias do Planalto’, de Mario Sergio Conti.
Ronald Carvalho leu: ‘Considero o livro impreciso e mal informado. No episódio em que fui um dos principais personagens, simplesmente não fui ouvido. Mario Sergio não tem o meu depoimento’, afirma Carvalho, que era editor de Política da Rede Globo em 89. ‘Este livro se define na introdução, quando o autor diz que não revelaria quais fontes contaram os casos narrados no livro.’
Conti rebate as objeções: ‘Considerei suficiente o depoimento que ele, Ronald, deu à revista Interview em 93, que aliás não corresponde à verdade. Ele deve se achar mais importante do que eu o considerei’. Quanto ao sigilo das fontes de informação, Conti argumenta que ‘essa era a única maneira de obter informações importantes e reconstituir diálogos, sem revelar quem os contou’. ‘Tirei do livro vários diálogos e fatos em que as versões não batiam umas com as outras.’
As críticas de Paulo Henrique Amorim, que saiu brigado da Globo, em 96, são de ordem mais geral e política. O livro, diz ele, ‘não tem projeto’: ‘Não encontro ali uma tese, uma proposta de discussão. Não encontro ali as verdades maiores sobre as relações da mídia com o poder’.
Em segundo lugar, prossegue Amorim, especificamente sobre a edição do debate: ‘O livro atenua, minimiza, alivia a responsabilidade de Roberto Marinho e de Alberico. A ordem ali era botar no ar todos os defeitos do Lula e todas as virtudes do Collor, todos sabiam disso. Na campanha, eu e o Ronald tínhamos a autonomia de vôo de uma barata’.
Conti refuta as críticas: ‘O livro não parte de uma tese, procura narrar o envolvimento da imprensa com o poder, mostrar com fatos como ele se deu. Sua proposta é essa. Procurei tratar a Globo com isenção, coisa que Paulo Henrique tem dificuldades. Considero a interferência do Dr. Roberto na edição do debate bastante clara no livro, e o capítulo 29, sobre a campanha da Globo contra Alceni Guerra (ministro da Saúde de Collor), é um retrato de um massacre televisivo, uma amostra do Dr. Roberto atuando. Eu não escrevi no livro que ‘todo mundo sabia’ de determinada coisa, como ele faz’.
Armando Nogueira se sente pessoalmente atingido pelo retrato que Conti faz de sua atuação profissional. ‘É uma desfaçatez do Mario Sergio me pintar como um ocioso, um jogador de tênis ou um voador de ultraleve, dizer que eu não dava bola para a TV. Ele fere minha dignidade, sabe que eu só voava nos fins-de-semana e que só jogava tênis de manhã, antes do trabalho. Nunca faltei com minhas obrigações.’
Conti argumenta que o perfil de Nogueira, como de todos os principais personagens do livro, ‘é resultado do cruzamento de várias entrevistas’. ‘Eu não quis ridicularizar nem proteger ninguém; é natural que a auto-imagem do Armando não corresponda à imagem que o livro faz dele.’ "
"Personagens contestam livro de Conti", copyright Folha de S.Paulo, 11/12/99
ANOS 2000
Dez aforismos para
descartar no milênio
Carlos Vogt
I
Furo bom é o que não
deixa vazar nada
antes da matéria
publicada.
II
O que a imprensa diz
de original num dia,
dia seguinte vira sabedoria,
no terceiro, vai com
a água, o bebê e a bacia.
III
Não se fie das grandes revelações
em geral
os fatos são modestos, corriqueiros, banais;
o editor os veste de espetáculo,
o leitor consome o inusitado
para ir contra a corrente
nada mais.
IV
Se o cachorro morder o homem,
trivial;
se o homem morder o cachorro,
notícia.
Se o cachorro morder o cachorro
e o homem, o homem,
malícia!
V
Contra a mordaça,
liberdade de impressão.
VI
Caminha psicografado
por Monteiro Lobato,
psicografado
pela mídia/imprensa,
psicografada
pelo sertanejo - country:
Brasil, plantando dá,
não plantando, dão.
VII
Na falta do fato,
a versão;
na falta da versão
o fato;
na falta dos dois,
a falta.
VIII
Apoiado na coluna
dos editoriais,
o leitor fotografa-se
para a posteridade
do dia seguinte.
IX
Um pouco de enredo
não faz mal à notícia;
se o fato é parco de veracidade,
vista-o de verdade fictícia.
X
Carta ao leitor:
decifra-me,
ou nos devoram.
CADERNOS CULTURAIS
Mídia burra ou comprometida?
Dioclécio Luz (*)
De cabo a rabo é tudo igual. Já se falou do pensamento único da imprensa brasileira. E de como isto é urdido visando a manutenção do que está aí. Mudar sem mudar – é a lei da gravidade que assola as redações da grande imprensa brasileira. A segunda Lei de Newton prescrita a esta imprensa estabelece que, antes de tudo, vale a parceria com as elites.
Bem, mas sobre isto Bernardo Kucinski já escreveu (e muito bem), em A síndrome da antena parabólica (Ed. Fundação Perseu Abramo). Em tempo: a imprensa escrita só conhece os livros da Companhia das Letras e da Record – fora disso não existe vida. A pergunta é: existe vida inteligente nas redações dos cadernos de Cultura?
Você abre o Segundo Caderno [de Zero Hora], assim, como quem não quer nada e querendo, absolutamente livre de anúncio de prisão de ventre, tranqüilão, e relaxado, e então é pego de surpresa. No latifúndio da arte e da cultura vale tudo – um dia está ocupado pelo mais novo livro (do baú) de Fernando Pessoa no outro comenta o novo disco de Bostãozinho e Bostozó, uma dupla breganeja de sucesso. Você pensa: tudo bem, vale como análise de comportamento... Lá dentro tem os colunistas sociais – e você pensa: tudo bem, vale como comportamento dos ricos... Na Folha de S.Paulo tem até artigo semanal de Arnaldo Jabor – e você pensa: tudo bem, é cronista da TV Globo...
Agora, olhando bem, você descobre que foi enganado. O caderno de Cultura é um caderno de comportamento – onde se inclui de moda a modismos, muita bestagem e pouca luz . Os textos são retos, quadradinhos, e a diagramação parece propaganda de Maizena. Pegue os grandes jornais – Folha e Estadão, O Globo e JB, Correio Braziliense, Estado de Minas, Zero Hora.. – e verá que não há o que ver. Nenhum deles ousa, nenhum arrisca, um poderia ser o outro que não haveria diferença. A forma – salvo as exceções de praxe – repete a linguagem da TV: curto e grosso, cartesiano. O texto, dizia, é um reclame de Biotônico Fontoura adaptado aos anos 99. Isto é, nada de novo a não ser a fartura numerológica. Jornalista bom, hoje em dia, é aquele que não consegue escrever uma linha sem citar números. E, principalmente, números da economia – deusa-mãe da classe jornalística nos dias de hoje.
Propaganda enganosa
Quando um filme entra em cartaz, a primeira preocupação do repórter é informar aos colonizados instalados abaixo da linha do Equador que lá na matriz ele já rendeu tantos quilhões de dólares. Informa também, porque isto é importante, que o filme custou uns patrilhões de dólares. Informa ainda que ele teve 37 locações no deserto e mais 42 em Los Angeles e que o ator principal vai faturar 13,85% da bilheteria e que, muito importante, a atriz holliudiana ganhou 3,65% da bilheteria e mais alguns quitilhões de dólares somente para mostrar o bico do seio. Ah, bom... Agora, o filme presta? O filme tem alguma estética? É arte? O repórter, que antes cobria Polícia, infelizmente não sabe dizer, porque, afinal, ele não tem opinião, é só um repórter. E repórteres, nessa visão bruduga de profissionalismo, acham que não têm que achar nada. São paus-mandados, em outras palavras. Mandam, e o repórter obedece.
Eis dois exemplos. Dois filmes. O primeiro, Star wars. A indústria holliudiana mandou para cá a ordem (com dólares): falem bem deste filme. E todo mundo saiu atrás. A Folha de S.Paulo, no seu Caderno "Mais!", onde semanalmente perfilam pensadores, cientistas, a intelligentsia, abriu as pernas para o filme – cinco ou seis páginas! Nunca um filme foi tão analisado como este. Pensei: deve ser arte. Não era. Foi somente mais um filme recheado de efeitos especiais. Um filme medíocre. Mas consegui saber todos os números: quantos atores e atrizes, efeitos especiais, locais de filmagens... Descobri até que havia uma brasileira no elenco. Ela entra muda e sai muda, faz uma pontinha no meio de 2 milhões de figurantes, mas, como o repórter observa, num box, isto é muito importante. Veja ficou igual a Caras, igual a Istoé, igual a Contigo. A manchete era a mesma: o filme do século.
O segundo filme foi De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, que recebeu os mesmos cânticos de louvação. O filme é mal realizado, tem um roteiro sem substância e, principalmente, é mantido por uma dupla de atores medíocres – o tempo inteiro Tom Cruise e Nicole Kidman representam a si próprios. Mas chegou com campanhas de publicidade tornadas matérias jornalísticas. Desde a morte de Kubrick que os negociantes da área se jogaram no negócio: vamos vender este filme. E foi notícia o corte de segundos no filme original para agradar a hipócrita sociedade americana. E os rapazes daqui, defensores da liberdade de criação, empurraram artigos e artigos contra esta medida americana, porque afinal era uma obra de arte e não podia ser tocada, e bla-bla-blá... Esgotado este veio, a indústria do cinema empurrou o filme destacando cenas de amor tórridas do casal. E o diabo é que o filme não tem nem isso. Propaganda enganosa.
In english
A imprensa foi burra ou foi comprada? Acho que uma parte foi burra e a outra foi comprada. O curioso é como um produto como este é empurrado goela abaixo e alguns engolem e até se arvoram a fazer análises psicológicas do filme, tentando descobrir o que Kubrick quis dizer. A estes um lembrete: análise psicológica se faz de tudo. Um filme de Disney se permite versões psicológicas maiores que este filme menor de Kubrick. E, afinal, dizer que o diretor é um gênio – coisa da indústria – é um exagero.
Aliás, essa história de "cenas tórridas de sexo" foi também o chamariz adotado para divulgar Um copo de cólera – um filmezinho ruim, onde o ator principal, marido da boa atriz Júlia Lemmertz, não sabe o que faz com os pés, as mãos, não sabe caminhar, não sabe falar, não sabe o mínimo de interpretação. As cenas de sexo no filme não estimulam nem pau de tarado – se me permitem grosseria. Outra propaganda enganosa. Tudo isso descamba no Oscar. Claro, o caderno de Cultura não diferencia o que é arte do que é negócio. Portanto, já festeja a indicação do medíocre Orfeu como representante brasileiro no medíocre Oscar.
A imprensa escrita sempre me pareceu mais inteligente que a televisão. Talvez por isso a gente se espante com este desfile de inutilidades nos cadernos de Cultura. A televisão chegou ao máximo de sua capacidade criativa: mesmo mantida e administrada por grandes cabeças, consegue ser o veículo de comunicação mais medíocre em atividade no planeta.
Para finalizar, mais um olhar sobre a linguagem. Desta vez sobre a presença do americanês. A Veja tem um caderno "Kids"; a Folha é "Teen". Notou como os repórteres, coitados, não conseguem mais escrever sem utilizar termos em americanês? Um dia desses a Folha exagerou. Para anunciar o surgimento de um exímio guitarrista escreveu algo assim: "surge o new best sing da guitar". É ridículo, mas estava lá.
Diante disso só nos resta aguardar o fim do jornalismo de Cultura e o surgimento de um caderno intitulado algo como "Supermercado de entretenimento", ou somente "Entretenimento", ou ainda, o que parece mais a caráter, "Entertainment today". Antes que isso ocorra eu desligo os jornais.
(*) Jornalista, escritor, plantador de macaxeira em Brasília
CARTAS
Maklouf contesta Lurian
A versão – contada dez anos (!) após a publicação da reportagem – não corresponde aos fatos. A primeira a ser procurada, por mim e pelo fotógrafo José Carlos Brasil, foi a mãe de Lurian, no hospital em que trabalhava. Ela concordou com a entrevista e nos levou à escola em que a filha estudava. Não a encontrando, levou-nos para a casa de sua mãe, avó de Lurian. Ao chegar da escola, Lurian, sua mãe e sua avó deram entrevista e foram fotografadas pelo José Carlos Brasil. Lurian foi buscar o álbum com os recortes de reportagens sobre o pai famoso. As fotos publicadas, dela e da mãe, mostram, claramente, a felicidade da menina em finalmente tornar público que Lula era seu pai. O motorista que nos acompanhou foi o Ferreirinha, ainda hoje no Jornal do Brasil. Ele pode testemunhar o trajeto com a mãe de Lurian, entre o hospital, a escola e a residência da avó.
Lula foi ouvido antes da publicação da reportagem – na qual constam as declarações que fez. No dia da publicação, o jornalista Ricardo Kotscho, amigo e assessor de Lula, deixou uma carta para mim, na redação da sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil.
Diz a carta: "Caro Maklouf, Vim aqui pra te cumprimentar pessoalmente sobre a belíssima matéria sobre a filha do Lula. E aproveitar para pedir desculpas pela reação emocional que ele teve ao falar com você pelo telefone ontem à noite (...) Parabéns. Abraços. Ricardo Kotscho"
É no mínimo estranho que Lurian tenha esperado dez anos para contar uma versão que sucumbe diante de todos os fatos – de resto jamais aventada por quem quer que seja, aí incluído seu próprio pai. Estão aí, para serem ouvidas, se necessário for, as diversas testemunhas da apuração e da publicação da reportagem: Ferreirinha, José Carlos Brasil, Ricardo Setti (diretor da sucursal à época), Ricardo Kotscho e outros. Além, é claro, da própria reportagem, que fala por si só.
Luiz Maklouf Carvalho [[maklouf@br.homeshopping.com.br]]
Nota do OI : Carta de Lurian, filha de Luiz Inácio Lula da Silva, já publicada no Observatório [veja remissões], é reproduzida abaixo.
CARTA DE LURIAN AO O.I.
Resposta a Maklouf
Lurian Cordeiro Lula da Silva
Será certo esta revista criticar o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva por ter vetado o nome do "tão premiado jornalista Luiz Maklouf de Carvalho"? Lula foi contestado por censurar a liberdade de imprensa, mas quem questiona a falta de ética do jornalista? Eu, como vítima dele, posso julgá-lo sem qualquer problema.
Aos que desconhecem a história: em abril de 1989 eu tinha 15 anos, e este cidadão me procurou usando o nome do assessor de imprensa do meu pai, o Ricardo Kotscho, dizendo que estava colhendo depoimentos para o livro da campanha presidencial de 1989 que o PT estava elaborando. Eu morava com a minha avó, e como nós sabíamos que o Kotscho estava escrevendo um livro da campanha, ingenuamente caímos no conto desse mau caráter.
Ele ainda teve a cara de pau de sugerir que eu comprasse o Jornal do Brasil do dia seguinte, que iria sair uma "notinha" sobre o livro.
Qual não foi minha surpresa, no dia seguinte, quando vi que eu era a manchete do JB, intitulada "A filha que Lula omitia." Gostaria de frisar aqui que meu pai nunca foi um pai omisso. Desde que nasci recebi seu nome, e se não o vi antes dos 4 anos foi porque minha mãe não permitiu. Infelizmente, minha maior testemunha destes fatos faleceu em março deste ano. Mas ela, mesmo sendo minha avó materna, desmentiu minha mãe e a imprensa em todos os momentos.
E este jornalista tão premiado (que na minha opinião não merecia o Prêmio Jabuti, mas sim o Prêmio Jaburu) sequer teve o procedimento ético de se redimir e assinar uma matéria corrigindo a manchete do JB. Sequer se preocupou com as conseqüências que tal reportagem poderiam causar a uma adolescente de 15 anos de idade.
Por um lado foi bom. Graças a jornalistas com ele resolvi seguir a carreira. Hoje curso o sexto semestre de Jornalismo na Umesp, e meu objetivo é provar a esses ditadores da imprensa marrom que é possível fazer jornalismo com ética.

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