DOSSIÊ PERFÍDIA
Quando a mídia cala,
vestais pintam e bordam
Alberto Dines
Comprovado: os jornalistas brasileiros não lêem os livros que precisam ler. Ou, numa hipótese mais grave: só escrevem aquilo que os esquemas patronais ou mafiosos aprovam.
Memórias das Trevas – uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, de João Carlos Teixeira Gomes, está em primeiro lugar na lista dos best sellers de Veja, gênero não-ficção. Vendeu mais do que a biografia oficial de Sílvio Santos e Estação Carandiru, de Drauzio Varella. Ambos badaladíssimos pela mídia.
E apesar disso o livro não mereceu matéria alguma sobre o seu teor, seja nos cadernos ou rubricas ditas "culturais", seja nas páginas de política onde uma investigação deste porte a respeito de tão importante personagem não poderia passar em brancas nuvens (a exceção agora, além da IstoÉ, inclui Valor).
As matérias que apareceram no Grupo Bolha (Globo e Folha) não discutiam o seu teor, montadas para desqualificar o livro colocando-o liminarmente como obra suspeita ou, na melhor das hipóteses, como parte da "guerra dos livros" (engendrada habilmente por ACM & Cia. para neutralizar seus efeitos).
Se o espaço ocupado pela perversa pseudo-celeuma armada para colocar este Observador com censor do autor na TVE fosse dedicado a examinar o conteúdo do livro, ACM não estaria posando impunemente como vestal da moralidade
.
Este é o cerne da questão: o jornalismo político brasileiro, incluídos os principais opinionistas (e aqui não há exceções) está apenas reproduzindo as declarações de ACM, despreocupado com as evidências que o colocam como suspeito de tráfico de influências, enriquecimento ilícito e formação de quadrilha.
E como a mídia não se move, o Ministério Público não se comove.
Mas o público continua comprando o livro desde que apareceu nas livrarias. Há uma mensagem muito clara embutida nesta lista de best sellers: despencou a credibilidade da grande imprensa. Ela já não comanda a sociedade. O leitor qualificado já não se deixa levar pelas maquinações, prevaricações e cortinas de silêncio impostas por um grupo de jornais e jornalistas. O resultado de nossa urn@ eletrônic@ aponta na mesma direção.
Memórias das Trevas não é barato (40 reais), custa pouco mais do que dois meses de assinatura de um semanário e pouco menos do que 30 edições de um dos nossos jornalões. E, mesmo assim, está fazendo bela carreira. Com 0,1% do espaço que foi oferecido a Notícias do Planalto, em cinco semanas deve ter vendido 30% do que vendeu o outro ao longo de um ano.
Algo se mexe no panorama brasileiro. Para melhor. E a grande imprensa nada tem a ver com isso.
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