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IMPRENSA EM QUESTΓO
NOTÍCIA & INFORMAÇÃO Ivo Lucchesi (*) A capacidade que a mídia (impressa e eletrônica) tem de produzir informação é realmente algo fantástico. O problema, todavia, reside na relação entre volume de informação e massa de conhecimento, à altura de qualificar novos estados perceptivos. Esta é uma questão antiga. Já em 1947, os teóricos Adorno e Horkheimer sentenciavam, na obra Dialética do esclarecimento, que "a imprensa não passou de uma invenção grosseira". É possível que tenham exagerado na crítica; entretanto, para os padrões atuais, talvez seja conveniente reavaliar, sempre com o propósito de redefinir direções. Fiquemos apenas com três temas que ocuparam o noticiário mais recente: 1) a eleição do "dublê de ator", agora investido da função de "dublê de governante", Arnold Schwarzenegger; 2) a liberação (via Medida Provisória) pelo governo brasileiro do plantio da próxima safra de soja, com base no processo transgênico; 3) o conflito político na Bolívia, resultando na renúncia de Gonzalo Sánchez de Lozada. Os três temas selecionados mereceram, em semanas distintas, amplo destaque jornalístico, supostamente cobrindo os possíveis ângulos que o limite da informação possa abarcar. O problema, porém, é saber se o saldo final da massa de informação circulante efetivamente terá cumprido o papel desejado. O herói das telas na sociedade do ridículo Ficou patente o desconforto da mídia em noticiar, com objetividade jornalística, a vitória do "astro" Schwarzenegger como expressão da vontade majoritária dos eleitores californianos. No mínimo, a democracia sofreu mais um abalo que a mídia procurou contornar. O episódio em si já não cabe no conceito de "sociedade do espetáculo", conforme o concebeu Guy Debord. Mais apropriado, talvez, seja o reconhecimento de um novo estágio: a "sociedade do ridículo". Assim, poder-se-á melhor compreender como desliza o imaginário californiano que, na matriz do "espetáculo", elegeu Ronald Reagan e, agora, num degrau acima (o ridículo), entroniza Schwarzenegger. Nessa escalada, o que se consigna é a desdramatização da política em aliança com a banalização da democracia, com base na "virtualização" do voto. Ao "templo midiático" da informação pareceu restar um acordo cínico no qual o fato é registrado como um gesto natural a mais no "jogo da democracia". Por fim, tudo se esgota numa foto estampando o sorriso largo do "exterminador do futuro", recoberto como num ritual de bênção por centenas de papéis picados e coloridos. O caso dos transgênicos A respeito do tema em questão, a mídia não fez por menos. Promoveu entrevistas, rememorou tratados assinados, explorou cantos e recantos sobre vantagens e desvantagens, transformando o fato numa histérica discussão, quase no melhor estilo de programas esportivos, para, no final de tudo, o assunto ser posto à margem. Pragmaticamente, o governo, evitando desgastes políticos e ajustando interesses de balança comercial, legalizou o que era (e é) ilegal. Foi uma grande lição num país cujo rigor ético não figura no elenco de prioridades. Curiosamente, a mídia não deu destaque a dois pontos: 1) a dependência futura que os atuais e entusiasmados agricultores gaúchos terão para a compra de sementes transgênicas, sob a tutela da Monsanto; 2) a decisão da Monsanto em fechar, na Europa, seus escritórios de representação comercial, ante a ausência de clientes. Ilustremos o primeiro ponto, praticamente ignorado pela mídia, recorrendo à observação crítica formulada pelo pensador húngaro István Mézsáros no livro O século XXI: socialismo ou barbárie?: "(...), o governo dos Estados Unidos está fazendo o possível para impor ao resto do mundo produtos cuja adoção garantiria ao forçar eternamente os agricultores de todo o mundo a comprar sementes não renováveis da Monsanto o domínio absoluto para os Estados Unidos no campo da agricultura. As tentativas de empresas norte-americanas de patentear genes visam objetivo semelhante" [Boitempo, 2003, pp.51-52]. Se a mídia brasileira estivesse efetivamente comprometida com a missão de problematizar, encontraria no tema dos transgênicos amplo espectro crítico. Se o continente europeu com reduzida área agricultável, frente às crescentes demandas resiste às tentações do monopólio americano, que dizer do Brasil (detentor da maior reserva agricultável do planeta)? Sem entrar em questões de âmbito científico, até porque nada há de conclusivo a repeito, bastaria o argumento em favor da soberania nacional. O Brasil pode tornar-se hegemonicamente o maior exportador de produtos agrícolas por métodos naturais com a garantia de mercados tanto na Europa quanto na Ásia. Vê-se, portanto, que, nos bastidores do tema sobre os transgênicos, muito há por ser informado à opinião pública e igualmente cobrado em âmbito de política governamental. A tensão na Bolívia No contraponto do episódio sobre o "governador-herói", cuja densidade política foi reduzida a patamares cômicos, a mídia deslocou o foco para a rebelião na Bolívia, quase tentando demonstrar que a política ainda move os destinos do mundo. Conflitos, quebra-quebra, greves, prisões, feridos e mortos pautaram as coberturas com oscilações ora épicas, ora dramáticas. Em nome de fervorosos princípios e ideais, 74 participantes abortaram suas vidas, no confronto sempre desigual com as forças de repressão que, em nome da preservação da democracia, adquirem o direito de matar. A respeito dessas perdas de vidas anônimas, pouco ou nada soubemos. Acabam como registro congelado num número. A mídia não lhes conferiu nada de especial. Inexistiu matéria capaz de pôr em questão a validade de certos protestos dos quais emanam novos heróis, diferentes acordos, amplas faturas. Nenhuma página escrita sobre a irracionalidade enfurecida que põe, lado a lado, delírios de governantes e populações destituídas de quase tudo. Não, isto não é pauta jornalística terá dito um zeloso profissional da informação. Assim, a vida dos ingênuos escoa pela margem dos acontecimentos. Ainda na "novela boliviana", houve espaço para a inclusão de uma trama paralela: o resgate de turistas brasileiros, no mais alto estilo do cinema-aventura, com direito ao mítico vôo do Hércules da Força Aérea em parceria com o cântico do Hino Nacional. Ou seja, embora a iniciativa tenha sido demonstração de prudência, não se pode deixar de reconhecer quanto também houve de exagero. Quem sabe, daí possa advir um filme. Roteiro não faltará. Como conseqüência imediata, a sociedade boliviana parece haver restabelecido a ordem, alçando à presidência o mais influente profissional da mídia local. Os três temas, a despeito de suas respectivas singularidades, são perfeitamente conciliáveis entre si como exemplo do quanto a mídia é capaz de selecionar e de ocultar. Não havendo redirecionamento ético e conteudístico, a mídia brasileira acabará na condição de subproduto da indústria de cosméticos, dada a competência com que promove a maquilagem do real. (*) Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) RJ | ||