A IMPRENSA EM QUESTÃO

ARTIGO 222
A fome e a vontade de comer

Lúcio Flávio Pinto (*)

Em 1970, a opinião pública nos Estados Unidos era formada (conduzida, manipulada ou esclarecida) por 50 grandes empresas jornalísticas. Dez anos depois, quando renovou seu clássico inquérito sobre mídia e monopólio, Ben Bagdkian verificou que os formadores de opinião haviam se reduzido a 27 corporações apenas, quase a metade da década anterior. Quantas elas somariam hoje? Quem sabe, 15?

Não é só a monopolização da informação que está acontecendo. É também o desaparecimento das tradicionais empresas especializadas em jornalismo, com base familiar, sepultadas pelos "jumbões" dos negócios, com participação em múltiplas e distintas áreas empresariais. Jornais que eram transmitidos de pai para filho, numa sucessão que tinha uma certa probabilidade de dar certo se o patriarca fosse dado a procriar. Dos muitos filhos que gerava, algum teria "queda" para esse negócio tão sensível que é apurar informações e produzir notícias para o público, vendendo-as sob a forma de mercadoria.

Dizem que a genética conspira contra a longevidade dessas empresas familiares. Nos poucos casos em que a sucessão de gerações não resultou em desastre, a empresa se tornou um negócio como qualquer outro, sem a marca da sua especificidade – o plus, como dizem os engravatados executivos. Mesmo azeitada administrativamente, ela perdeu identidade. O resultado tem sido um jornal que chega às bancas como se fosse uma lata de salsicha ou um repolho. Recebendo gato por lebre, o leitor acabou percebendo a farsa.

Claro que essa tendência não pode ser interpretada como um convite ao conservadorismo e à imutabilidade. O jornalismo escrito, o melhor de todos pelo critério da qualidade (ainda que as outras formas – radiofônicas e televisas – possam ser superiores pelo ângulo do meio, não da mensagem), está tendo que mudar para sobreviver. O fato mais exemplar dessa contingência acontece atualmente com o Wall Street Journal. É o diário que mais vende nos Estados Unidos, com uma tiragem de 1,9 milhão de exemplares diários, um terço maior do que o segundo colocado, o USA Today.

O USA Today foi um fenômeno: em pouco tempo de circulação estava batendo na marca de um milhão de exemplares. É multicolorido, adornado de gráficos, tabelas e ícones do infoshop. Os textos são curtos e esquemáticos. Freqüentemente os adornos ocupam mais espaço do que a notícia, o glacê maior do que o bolo. Mas parou na tiragem pouco superior ao milhão de exemplares. Já o Wall Street Journal raramente publicava foto. Sua primeira página era um tijolaço, com matérias que continuavam nas páginas internas. Textos que podiam ser longos, imensos, se a complexidade da questão exigesse demonstração adequada. Mas quem lia com atenção o jornal podia estar certo de que estava recorrendo ao melhor instrumento de atualização e informação sobre o estado do mundo naquele dia.

Ajuste formal

A folha do mundo financeiro americano, porém, mudou. Passou ser impressa em cores, tendo seções de entretenimento, utilizando fotos como qualquer jornal convencional, e vai procurar atrair novas faixas de leitores, além de não perder os que já tem (o que deve estar ameaçando ocorrer). Confesso que meu prazer íntimo, ao final da leitura do WST, era saber que tanta gente estava fazendo o mesmo, apesar de aquele produto ser exatamente o oposto do que qualquer assessor de marketing recomendaria. Era um elitismo saudável: um produto de qualidade conseguia alcançar um público bem maior do que o de um produto vagabundo, como o USA Today. Era estimulante.

Esse mundo tinha seu glamour. Não era um elitismo parasitário. Lembro que O Estado de S.Paulo, até meados da década de 70, não tinha coluna social nem corretor de anúncios. Quem quisesse anunciar tinha que comparecer ao balcão de anúncios, a Volkswagen ou o João da Silva. O jornal paulista também não fazia "marreta", que são aqueles "cadernos especiais" para arrancar publicidade. A Rádio Eldorado, do mesmo grupo, transmitia o turfe no domingo à tarde, enquanto as outras emissora se esgoelavam com o futebol. Depois, uma ópera completa, sem interrupção. Não admitia publicidade com jingles. Tudo era locução direta. E locutor tinha que saber ler em três ou quatro línguas, mesmo que não entendesse o que estava dizendo, mas a ser dito em pronúncia convincente.

Se a decoração do WST não afetar seu conteúdo, tudo bem. O parisiense Le Monde já fez o mesmo, sob a pressão de uma queda de leitura preocupante, o que não é ainda o caso do diário novaiorquino. Esse ajuste formal aos novos tempos será suficiente para restabelecer o equilíbrio editorial e a saúde financeira das empresas, ou a necessidade de mudar uma fisionomia tradicional (e tradicionalmente bem-sucedida) é um sinal de tempos mais bicudos para um jornalismo de qualidade, nivelado por baixo?

Tratamento profilático

Talvez a abertura da imprensa brasileira ao capital estrangeiro, inovação que tramita pelo Congresso Nacional através de projeto de lei, traga para nosso sertão, mais do que o simples debate acadêmico sobre o tema, a prática dessa linha de frente. Nossas grandes empresas jornalísticas estão sofrendo de arteriosclerose, tanto por degenerescência interna quanto por falta de afinidade com a história. E – o que é tão ou mais importante – por falta de grana, o tão carente capital próprio (fictício como rubrica da contrapartida do empresário ao financiamento estatal e real quando transferido para um paraíso fiscal; no que resulta uma rima, mas não a solução).

A empresa jornalística não podia se vacinar contra a crise econômica geral, evidente. Mas, se bem informada, devia ter-se antecipado a ela e adotado os meios mais eficazes de minimização dos efeitos negativos. O Wall Street Journal parece ter tido em muito maior dose essa capacidade do que o Le Monde, dois jornais que, em sua cultura específica, simbolizavam a possibilidade de um jornalismo de alto nível, um indo do centro para a direita e outro mais para a esquerda, um mais econômico e outro mais político, um sobretudo noticioso e outro mais analítico. Já os nossos jornais parecem mais ao sabor das ondas, seja as das conveniências como as da fantasia, resultantes das ilusões que foram plantadas sistematicamente nas páginas dessas publicações (e parece haver acabado por convencer seus donos).

O ingresso do capital estrangeiro na imprensa brasileira é visto por prismas divergentes. Dos que o consideram positivo, pela entrada líquida de capital que poderá proporcionar, e dos que a ele resistem, por encará-lo como um deslavado cavalo de Tróia. A dúvida pode ter outro enfoque: é ou não inevitável? Se inevitável, no rastro da tal da globalização, qual a maneira mais saudável (a nosso favor) de recebê-lo, enquadrando-o?

Estamos cansados de saber que não é só por falar a nossa língua que o nosso empresário é melhor, na própria terra, do que um gringo. Por outro lado, não é apenas por ser made in USA que o produto é superior. Sob garantias de que o dinheiro será reinvestido, que sua aplicação será passível de controle público e que seu espaço será claramente delimitado, a experiência poderá ser positiva. Desde que, sobretudo, ela não traga, agravado, aquele vírus do monopólio identificado por Bagdkian nos Estados Unidos. O nosso já é grave o bastante para que queiramos agravá-lo ainda mais, com um vírus mais poderoso do que o organismo doméstico. Se for assim, é melhor submeter o paciente a tratamento profilático e sanear o ambiente para que ele se torne fecundo, ao invés de infértil.

(*) Jornalista em Belém (PA), editor do Jornal Pessoal