IMPRENSA EM QUESTÃO

O JORNALISMO PODE MATAR?
David Kelly foi vítima dos holofotes

Alberto Dines

Roger Salengro era ministro do Interior da França em 1936 no gabinete da Frente Popular. Acusado pela imprensa de extrema-direita de desertor na Primeira Guerra Mundial, não resistiu à pressão e suicidou-se. Pierre Bérégovoy, também socialista, era primeiro-ministro em 1993. A notícia de que favorecera um rico amigo do presidente Mitterrand ganhou as manchetes e Bérégovoy matou-se.

Leneide Duarte examinou de Paris, para este Observatório, os livros publicados sobre os dois suicídios ocorridos com um intervalo de quase 60 anos e fez a perturbadora pergunta: o jornalismo pode matar? [veja remissão abaixo]

O cientista inglês David Kelly, que trabalhava para o centro de biodefesa da Grã-Bretanha, também se suicidou na semana passada perto de Oxford: não foi acusado de trair o país como Salengro, nem de prevaricar com recursos públicos como Bérégovoy. Não foi executado na Torre de Londres mas num patíbulo dominado pelos fantasmas dos reis-facínoras criados por Shakespeare:

** A BBC ensandecida no esforço para valorizar a sua independência no mercado internacional de TV all news.

** A mídia comercial assanhada para desmoralizar a denúncia da BBC de que o governo Blair havia "esquentado" a informação que justificaria a invasão do Iraque.

** O governo Blair desesperado com o desprestígio da adesão incondicional ao esquema troglodita da família Bush.

** Os deputados conservadores doidos para cortar o orçamento de uma empresa pública como a BBC.

** A esquerda inglesa exaltada com a possibilidade de livrar-se do perfumado neotrabalhismo de Tony Blair.

** A ferocíssima imprensa inglesa no jejum do verão, incapaz de meias medidas, pronta para crucificar o primeiro que aparecer – o mordomo da rainha, um político homossexual ou uma garota de programa.

Os que assistiram pela BBC World o massacre a que foi submetido David Kelly na Comissão de Inquérito do Parlamento podem entender os motivos que o levaram a cortar o pulso.

A indignação convertida em estratégia política às vezes derruba a Bastilha e às vezes mata gente pacata e reservada. A super-exposição pode confundir-se com linchamento quando a malta está exaltada. Os holofotes da mídia não queimam – consomem, corroem, aniquilam.

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O jornalismo pode matar? – Leneide Duarte

Perfil de David Kelly – Entre Aspas [O Estado de S.Paulo, 21/7/03]