IMPRENSA EM QUESTΓO

MÍDIA EM CRISE DE CREDIBILIDADE – I
"Diga, pesquisa minha, se há
alguém mais confiável do que eu?"

Alberto Dines

Se alguém insiste em perguntar "estou bem?" uma coisa é certa – este alguém sabe que não está bem. E se fica cobrando "como é que estou me saindo?" pode-se ter a absoluta certeza de que está rigorosamente inseguro. O senso comum é infalível na avaliação dos comportamentos humanos.

Também de instituições políticas.

A insistência da mídia em apelar para pesquisas de opinião que garantam sua confiabilidade é a melhor demonstração de que está absolutamente perdida no turbilhão de dúvidas a respeito do seu desempenho.

O que aconteceu no 3Ί Congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ) encerrado no dia 14/8, no Rio, é sintoma não apenas da grave crise de credibilidade que corrói a alma das empresas jornalísticas em geral e dos diários, em particular. O novo surto "pesquisótico" que irmanou gregos e troianos é, em si, clara demonstração de que a imprensa não tem a menor credibilidade pelo menos em matéria de numerologia.

Afirmar com a boca cheia – como o fizeram os principais jornalões e jornalóides – que a maioria da população considera os diários como a segunda instituição mais confiável do país é, no mínimo, inconfiável.

Acreditar que uma sondagem com 1.605 pessoas em apenas cinco cidades brasileiras pode garantir um ranking desta importância equivale a chamar o leitor brasileiro de palerma. Quais os critérios que levaram à exclusão de cidades do porte de Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Salvador, Manaus, Cuiabá ou Campinas (esta, maior do que muitas capitais de estados) e que hospedam diários com respeitáveis números em matéria de circulação?

Além desse, a pesquisa da Datafolha comete erros primários. A começar pela nebulosidade a respeito dos entrevistados – quem são, qual a idade, grau de instrução, classe socioeconômica, hábitos de leitura e mesmo crença religiosa (já que duas igrejas foram incluídas no rol de instituições e a católica foi consagrada como campeã)? Quem assegura que este universo impreciso e vago pode ser considerado representativo da sociedade brasileira?

O próprio questionário é tão mambembe que parece concebido para produzir resultados enganosos. Num quadro pergunta-se qual o meio de comunicação que o entrevistado prefere para se manter informado e, no outro, quais as instituições mais confiáveis. Só que entre as instituições também estão listados os diferentes meios de comunicação da pergunta anterior.

O resultado é kafkiano: num quadro temos os jornais com o percentual de 11% de confiabilidade e, no outro, os mesmo jornais têm 50% de preferência (sendo que um dos motivos da preferência é o fato de trazerem notícias confiáveis). Dá para entender?

Dá para entender: metade dos entrevistados preferem ser informados por veículos nos quais apenas 11% confiam. Em outras palavras, grande parte dos brasileiros que compram jornais estão jogando dinheiro no lixo. Ou comprando papel para embrulhar peixe.

As opções oferecidas aos entrevistados para explicar por que preferem os jornais também são pífias: a) conteúdo abrangente; b) pode ser lido em qualquer lugar e c) apresenta notícias confiáveis. Das três apenas esta última refere-se diretamente à questão da credibilidade, mas não há indicação sobre qual delas tem maior peso. Faz sentido?

Faz sentido: números, porque aparentemente exatos, são a melhor maneira de confundir leitores desavisados. A precariedade da amostragem pode ser também comprovada pela insistência em reapresentá-la seguidamente em diferentes veículos. Entre terça-feira (14/8) e domingo (19/8), tivemos sucessivas edições da mesma pesquisa com diferentes formatações para garantir unanimidade na leitura dos resultados. A Folha de S.Paulo – porque é proprietária do Datafolha e preocupa-se em defender a sua imagem – publicou a mesma pesquisa pelo menos duas vezes em dias seguidos. O Estado de S.Paulo – porque um dos seus diretores é o atual presidente da ANJ – acompanhou-a no coro.

Os dois jornais paulistanos, arqui-rivais, estão tiriricas com a entrada do Grupo Globo no seu território depois da aquisição do Diário Popular. E ficaram ainda mais enfezados porque O Globo, além da primazia na divulgação da pesquisa, também foi o primeiro a torpedeá-la por meio de um brilhante texto do jornalista Luiz Garcia (cuja função equivale à de um Ouvidor e geralmente expressa os pontos de vista da direção do jornal na esfera mediática).

Também o Ouvidor da Folha questionou com firmeza tanto a pesquisa como os seus resultados [veja, abaixo, remissões para a íntegras dos textos].

A lamentável exibição de insegurança da mídia impressa diária contestada por dois profissionais desse quilate comprova mais uma vez que pouca coisa mudou desde abril de 1984, quando Veja fez a famosa avaliação sobre a credibilidade da mídia. Na ocasião, o campeão da confiança pública eram os Correios com a nota +72. A imprensa ficou com –13, um pouco melhor do que os –28 da TV e os –60 atribuídos aos deputados e senadores. Isto logo depois do barulho da campanha das Diretas e às vésperas do fim do regime militar [clique aqui para ler o resumo da pesquisa].

Os míseros 15% de credibilidade arranjados para conferir algum mérito aos jornais mostram que Observatório está correto. Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito é uma convocação para que a sociedade aprenda a desconfiar da sua mídia. Esta pesquisa é o diploma de descrédito.