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REGULAMENTAÇÃO & OMISSÃO
Crise do capitalismo começa na mídia

Alberto Dines

"A história do jornalismo é clara no tocante à diferença entre jornais grandes e medíocres: a qualidade dos seus proprietários."

Quem faz a temerária avaliação não é um jornalista marginal, alternativo ou revolucionário; é Russel Baker, veterano do New York Times, no qual desempenhou importantes funções como colunista e correspondente. Homem do sistema, digno de crédito e confiança, o que não invalida sua independência e senso crítico.

O incômodo texto saiu como resenha do quinzenário New York Review of Books ("O que ainda é notícia?"), sobre cinco livros recentes publicados nos EUA e que tratam de jornalismo, imprensa & mídia [veja matéria "A era do jornalismo da melancolia", na rubrica Armazém Literário, nesta edição do OI].

Se escrita na década passada, a contundente observação seria considerada um acesso de mau-humor. Tem outra conotação agora, em julho de 2002, quando o capitalismo em geral, e o americano em particular, enfrentam um de seus piores momentos e a mídia mundial passa por uma de suas crises mais graves.

Russel Baker dá dimensão, consistência e pertinência ao que Howard Kurtz e Harold Evans publicaram sobre as práticas financeiras e contábeis dos grandes conglomerados de mídia, que em nada diferem das infrações e prevaricações dos conglomerados de outros segmentos [veja na seção Entre Aspas, nesta edição].

Na edição de março-abril deste ano, a Columbia Journalism Review, a mais responsável publicação no gênero dos EUA, estampou na capa a constrangedora pergunta: "Enron – what did we know and when did we know it" ("Enron, o que sabíamos e quando o soubemos?"). A resposta está contida nos fatos relatados ao longo das 5 páginas e 1/3. Conclusão óbvia: a mídia sabia das mumunhas nos livros contábeis do gigante do negócio de energia, deixou-se embalar pelo canto de sereia das altas cotações em Wall Street e esqueceu de soprar o apito.

Na mesma semana em que The Economist, o mais encarniçado defensor da desregulamentação da economia, dizia na capa que o capitalismo americano está sendo batido, a Bussines Week informava que a Pearson PLC, proprietária do semanário (e do Financial Times), entrou na lista negra dos investidores. Originalmente inglesa, teve o seu controle comprado em 1997 por um grupo americano.

O sistema entrou em pane e a mídia não consegue descolar-se do sistema para exercer o seu papel fiscalizador. Isto porque o capitalismo do século 21 está pedindo urgente recauchutagem em regras elaboradas no século 18, o que em linguagem apropriada significa regulamentação. E regulamentação é palavra-tabu, proibida, faz lembrar recônditas ameaças aos sagrados princípios da liberdade econômica.

Quando Russel Baker nomeia os proprietários como responsáveis pela grandeza ou mediocridade dos respectivos veículos está pensando também nos publishers – estes, não necessariamente acionistas. Está pensando nos altos executivos das empresas de mídia rigorosamente ignorantes a respeito das peculiaridades do negócio jornalístico. Às vezes não são os proprietários – em férias na Flórida ou outros rincões amenos – que determinam os drásticos cortes nas despesas editoriais para permitir balanços capazes de aumentar o preço das ações em bolsa.

Publishers e seus delegados, regiamente pagos pelos acionistas, estabeleceram tantos limites à cobertura de economia & negócios que a mídia ficou capenga, tornando-se impotente para fazer soar o alarme e evitar os desastres. Em outras palavras: a mídia chegou tarde à crise do capitalismo da qual é uma das vítimas. Traiu o leitor, traiu o acionista, traiu o cidadão ao transformar um processo a ser corrigido gradualmente numa bola de neve capaz de fazer um estrago irreparável.

No caso brasileiro, como não poderia deixar de ser, a omissão da mídia é notável e mais notável ainda que denúncias como as de Kurz e Evans tenham sido republicadas em edições dominicais de possantes jornalões nativos. Não ficaram confinados às gavetas só porque tratam da CNN, da Disney, do Post ou do NYT. Não era com eles.

A situação periclitante e as práticas irregulares da maioria das empresas jornalísticas brasileiras jamais mereceria igual destaque porque jornalões e revistões – sem exceção – passam por aflições enormes e inéditas. Sem falar na TV, aberta ou fechada, capaz de buscar o equilíbrio na cobertura eleitoral mas incapaz de correção e transparência na cobertura de uma situação de emergência no próprio setor mediático.

Não se trata apenas de modéstia, aversão à exposição pública ou fotofobia, medo de operar à luz do dia. A razão do embargo é conceitual: noticiar uma crise no próprio sistema é fazer um convite à regulamentação. E a mídia em geral, mas a brasileira de forma extremada, tem ataques de erisipela quando se aventa qualquer hipótese de ordenamento.

Ignorância em história econômica e/ou história geral: a humanidade sempre avançou quando buscou algum tipo de codificação e controle. O livre-arbítrio individual interrompe-se quando pode afetar a soberania do grupo.

Um mínimo de ordem no coreto só melhora a qualidade da banda.


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