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IMPRENSA EM QUESTÃO FAZENDO CONTAS Alberto Dines A situação da mídia brasileira é grave: sob o ponto de vista econômico, financeiro, empresarial, institucional. Se ocorresse no setor bancário, aéreo, automotivo, siderúrgico, químico ou têxtil os alarmes já estariam soando. Não no caso da mídia. Em algum momento a emergência deixará os bastidores. Então, teremos escancarada uma crise de credibilidade e a situação poderá ser classificada como dramática. Na véspera da temporada eleitoral este não é o cenário mais tranqüilizador. A crise internacional, o desaquecimento da economia e a disparada da moeda americana contribuíram para agravar o panorama. Mas o quadro vem sendo desenhado há cerca de quatro anos ao juntarem-se os seguintes fatores: ** Mudou o regime cambial e a dívida do setor, em dólar, sofreu súbito aumento.** A bolha da internet e das tecnologias da informação excitaram a imaginação e a ambição de nossos altos executivos fazendo com que não apenas esquecessem a prudência mas também a razão de ser das respectivas empresas (o tal core business do jargão).** A megalomania da diversificação somada à paranóia da hegemonia funcionou como overdose da qual a fatal atração Globo–Folha foi o exemplo mais expressivo. Os desdobramentos do caso tendem a acrescentar ingredientes emocionais que certamente alcançarão a opinião pública e, por conseguinte, a imagem dos veículos envolvidos e, mesmo, da própria instituição.Sinal mais recente é o vai-e-vem da parceria Jornal do Brasil–Gazeta Mercantil revelando improvisações preocupantes num setor que por sua importância dentro da sociedade deveria exibir mais segurança. As duas matérias publicadas na última semana no Valor e na Gazeta Mercantil sobre a situação da Editora Abril, embora revelem um padrão de transparência e fair play inusitados em empresas de mídia no Brasil, flagram um endividamento preocupante numa empresa que celebrizou-se nas últimas décadas pelo apuro dos controles financeiros [veja reprodução em Aspas, nesta edição]. É evidente que nas duas reportagens podem ser identificadas boas porções de mágoa e rivalidade já que os dois jornais de economia – ou seus acionistas – têm razões de sobra para vingar-se da Abril. Já o endividamento do poderoso Grupo Globo, embora protegido por uma pesada cortina do silêncio, é consideravelmente maior. Coisa de primeiro mundo. A empresa investiu uma soma fabulosa para promover assinaturas do semanário Época com resultados pífios: acabou ligeiramente acima da lanterninha IstoÉ. E neste caso foi despesa efetiva e, não, contábil – cash. Os próximos lances acionários na empresa que edita Valor também exigirão um grande aporte de capital do Grupo Globo – que certamente não desejará manter uma sociedade com uma empresa como a Folha da Manhã, que edita a Folha, reconvertida à condição de furiosa adversária. Será fatalmente levada a comprar os restantes 50%. Outro grande sorvedouro de recursos deve ser o recém-lançado Diário de S.Paulo, pomo da discórdia no mercado paulista. Para obter verbas publicitárias expressivas terá que posicionar-se para buscar um segmento socioeconômico acima do adotado e aí terá que enfrentar os dois poderosos jornalões (Estadão e Folha) irmanados no ódio comum ao Grupo Globo. Nenhum desses movimentos implica investimentos na área editorial. O acirramento da concorrência na mídia brasileira em geral não passa pelo mercado de trabalho. Os pools e parcerias de serviços tornam mínima a necessidade de novas contratações. Nesta quadra eleitoral as diferenças políticas dos diferentes grupos jornalísticos poderão ficar disfarçadas no âmbito da grande imprensa. Mas devem acirrar-se no plano regional. As grandes oligarquias estaduais estão montadas em torno de conglomerados de mídia majoritariamente afiliados à Rede Globo, conforme este Observatório vem informando há anos (e o Estadão finalmente descobriu, cf. sua edição de domingo, 21/10, págs. A-10/A-11). A Central Globo de Jornalismo está começando a preocupar-se com os desvios no noticiário político local das afiliadas. Mas não poderá intervir nos jornais editados pelas mesmas empresas, hegemônicas justamente graças ao privilégio da exibir a programação da Globo. A situação das agências de publicidade também não é animadora. O número de outdoors em São Paulo de agências vendendo os seus próprios serviços é um indicador de que sobra espaço e faltam anunciantes. Nessas circunstâncias a distribuição de verbas é rigorosamente "científica". Não se deve esperar muita coisa do governo como poder regulador. As tramitações da emenda do artigo 222 da Constituição e do projeto da Lei da Radiodifusão devem ser demoradas. A última coisa que os partidos de oposição querem neste momento é uma alteração expressiva no panorama mediático. Os seus projetos de poder, por mais reformistas que sejam, não contemplam uma alteração substancial na atual legislação. Ruim com ela, pior sem ela. O pior de tudo é que ao leitor, ouvinte ou telespectador é vedado o conhecimento integral da situação. A pulverização da informação, neste caso, interessa a todos nela envolvidos. | ||