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IMPRENSA EM QUESTÃO LEITURA DE VEJA
Desde que as torres gêmeas do World Trade Center foram atacadas e destruídas, Veja – muito acertadamente, diga-se de passagem – resolveu privilegiar a cobertura internacional. O "espelho" da revista foi modificado e o que tem entrado logo após as seções "páginas amarelas" e "cartas" é noticiário internacional e não nacional, como usual. São páginas e páginas destinadas praticamente a convencer o brasileiro a se alistar no exército. Dos EUA, de preferência. O fato é que esta edição de Veja inicia a sua "cobertura" internacional na página 49, com o texto "O míssil e o barbudo" e termina na página 111. São 62 inacreditáveis folhas. Um leitor mais bem humorado não deixaria de rir ao ler o, digamos, "perfil" de Mohamed Omar que a revista preparou. O título já diz tudo: "O mulá bibi fonfom". Não por acaso, a matéria saiu sem assinatura. Se na semana anterior a preocupação maior de Veja havia sido com a glorificação do chamado "American Way of Life", a edição em questão do semanário preferiu atacar o mundo islâmico. Sessenta e duas páginas depois de um verdadeiro bombardeio, o leitor se depara com a tal foto dos deputados-sindicalistas Jair Meneguelli (PT-SP) e Luiz Antonio Medeiros (PLSP), a mesma republicada neste espaço. Só para o leitor sentir o clima, de novo, a foto saiu em página dupla, no canto superior, acima da seguinte manchete: "Os Sindicalistas das Arábias". Seria cômico se não fosse trágico. Algumas colunas de bastidores políticos especularam que a fotografia pertenceria à ex-mulher de Medeiros, que teria entregue uma cópia da foto à revista, a pedido do líder da Força Sindical, que estaria incomodado com o fato de Meneguelli ter sido o parlamentar que pediu a abertura de uma investigação ma Câmara para investigar as denúncias de desvio de recursos na fundação da Força. Veja não deu crédito e nem contou com teve acesso à imagem, apenas disse que se tratava de um instantâneo de uma viagem realizada a Israel, em 1988, pelos dois sindicalistas, "à custa de uma entidade patronal". No texto da reportagem, Meneguelli não é acusado de coisa alguma, exceto de ter se divertido na viagem e recebido "um mimo" de empresários. Na verdade, o jornalismo de quinta categoria da revista Veja não é feito só de palavras. A composição da imagem, manchete (a palavra "Arábias" do título, por mais incrível que possa parecer, foi ressaltada: saiu em vermelho) e pequenas ironias são mais do que suficientes para passar o recado. Meneguelli aparece como um irresponsável por se vestir de árabe em um momento tão "delicado" como o que o mundo está passando; como um vendido por aceitar viajar "de primeira classe" com as despesas pagas pelo PNBE –que, diga-se, não é nenhuma FIESP–; e como um traidor por acusar o companheiro ao lado de quem posou todo sorridente. Tudo isto para não falar da tentativa de associar subliminarmente os líderes sindicais ao terrorismo de bin Laden. Como se vê, a cada semana que passa, Veja fica mais marrom. *Adaptado de artigo publicado originalmente no Correio da Cidadania (www.correiocidadania.com.br) | ||