Procure no arquivo

O OCASO DE BARBALHO
Na imprensa do Pará, Jader ainda respira

Lúcio Flávio Pinto

Acima da Bahia, o jornal de maior circulação no Brasil é O Liberal, de Belém, com uma média de 50 mil exemplares de tiragem. É lido por 85% dos leitores de jornais da capital paraense, que tem 1,2 milhão de habitantes. Há pelo menos três semanas, os 250 mil leitores de O Liberal não lêem um texto de autoria da própria redação do jornal sobre o principal tema político da imprensa nacional: a sorte do presidente do Congresso Nacional, o senador paraense Jader Barbalho (PMDB). Todas as matérias têm origem nas agências nacionais de notícias, com seu crédito bem destacado. Mesmo quando, como no caso de uma dessas agências, o correspondente é também repórter de O Liberal. Que, para este efeito, deixa de sê-lo.

Os leitores mais perspicazes devem estar atrás de uma explicação para este fato intrigante. Ainda mais porque o jornal, o mais antigo dos veículos das Organizações Rômulo Maiorana, detentoras de um quase-monopólio das comunicações no Pará (sobretudo porque sua emissora de televisão é afiliada à Rede Globo), sempre foram anti-Jader. Especialmente em períodos eleitorais, quando costumam abrigar ataques virulentos ao líder do PMDB. Por duas vezes Barbalho se elegeu governador do Estado enfrentando a poderosa máquina de informação da família Maiorana. E só conseguiu estabelecer tréguas com ela na base da farta distribuição de publicidade oficial, o bastante, porém, para ter direito a alguma boa vontade apenas até uma nova eleição.

Além de evitar que matérias de denúncias contra o senador peemedebista saiam de sua redação, o jornal, quando a onda de acusações se tornou abundante demais, tratou de barrá-la em espaços menos amplos do que se podia imaginar. Como se estivesse querendo mandar um recado ao indigitado personagem: de que estava publicando apenas o inevitável, notícias que, se suprimidas, lançariam sobre a empresa a clara conivência com os ilícitos do mais influente político no Pará nas duas últimas décadas. Talvez um novo acerto de contas fique para depois que os interesses comerciais da corporação sejam atendidos.

No momento, o grupo Liberal está dependendo agonicamente de uma linha de crédito do BNDES para a ORM Cabo, empresa criada como extensão dos planos da Globo, da televisão fechada, por cabo. Menos de um quinto do cabeamento foi instalado até agora, num atraso que irrita os parceiros nacionais, atormentados, por sua vez, pelo alto endividamento em moeda estrangeira. Para atualizar o cronograma, o grupo Liberal precisa dos R$ 50 milhões solicitados ao banco estatal, mesmo que só consiga ajustar os prazos (a defasagem tecnológica do sistema é outra questão). E certamente Jader Barbalho, como presidente do Senado, tem à mão o poder de fazer andar ou obstruir a tramitação do processo e de outras demandas que passam pela câmara alta. Convinha não desagradá-lo. Agora, as coisas podem mudar.

Vão mudar também para a rede de comunicação que Barbalho começou a formar em 1982, quando montou, precariamente, o Diário do Pará. Desde então, seu maior desafio tem sido a profissionalização. A linha editorial estava sujeita ao calendário eleitoral: mal se aproximavam novas corridas ao voto, se transformava em jornal de campanha, deixando de lado as normas redacionais para fazer o jogo político. Perdia o que havia conquistado de credibilidade. E leitores, naturalmente.

À custa de cortar na própria carne, publicando integralmente o farto material das agências de notícias que contratou, inclusive ácidos comentários de colunistas sobre o dono da empresa, o Diário do Pará conseguiu assumir o segundo lugar entre os quatro diários de Belém, diminuindo a distância que o separava de O Liberal, antes abissal. Mas quando as eventuais críticas foram substituídas por uma cascata de acusações, despejada diariamente a partir das sedes das agências, a liberalidade passou a ser vista como suicida. Subitamente, sumiram das colunas reproduzidas pelo jornal as referências ao polêmico senador. Matérias, só as que expressavam as iniciativas dele, sempre na defensiva. Mesmo não havendo eleição desta vez, o Diário voltou a ser um jornal de campanha. Não mais para eleger Barbalho e seus apaniguados, mas para tentar preservar o último mandato que conquistou, há seis anos e meio, ameaçado como nunca, que pode arrastá-lo do poder. Ainda que, agora, à custa de voltar a perder os leitores que o ensaio de profissionalização havia permitido conquistar.

Quanto ao leitor, bitolado pela timidez editorial conveniente que os interesses do grupo Liberal lhe impuseram e impedido de uma maior amplitude de cobertura, que se tornou suicida ao Diário, mesmo que o leve a uma nova crise, a saída para a melhor informação está nos jornais, revistas e noticiosos das redes nacionais, lidos e vistos como nunca. Neles, os fatos são relatados com muito mais abundância do que na imprensa local. É claro que se Jader Barbalho acabar cassado, os que ainda receiam atacá-lo, temendo que, mais uma vez, sua incontestável habilidade e sua sagacidade política lhe permitam sair do xeque-mate em que foi deixado pela grande imprensa nacional, vão colocar o bloco na rua. Para abrir alas a todo o noticiário que, por um motivo ou por outro, está reprimido na terra em que o nome de Jader Fontenele Barbalho ainda inspira respeito, ou intimida. O único território, neste momento, em que tais características podem ser observadas no Brasil.



                         Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe