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IMPRENSA EM QUESTΓO
O ASSASSINATO DE LIANA E FELIPE Afonso Caramano (*) Uma vez mais a sociedade brasileira, pouco afeita a debates, parece deixar escapar a oportunidade de discutir com profundidade uma questão premente: a da violência, suscitada pelo caso Liana e Felipe, os adolescentes de classe média brutalmente assassinados. A mídia espaço privilegiado para a repercussão de tal discussão também peca quando permite que o foco do debate se desvie, resvalando para o puramente noticioso ou para o sensacionalismo dando voz a oportunistas de plantão ou a antiquados discursos, com a promessa de soluções mirabolantes contra a violência. O momento exige um mínimo de reflexão, dosada de bom senso e ética no tratamento jornalístico, bem como nos seus desdobramentos, já que envolve a delicada questão da maioridade penal e de uma crescente juventude marginalizada. Talvez nem o tempo aplaque a dor das famílias vitimadas por tamanha violência e crueldade revolta e indignação reclamam o "olho por olho, dente por dente" como último recurso numa sociedade em que o sentido de justiça se esvazia pela impunidade e a desigualdade extrema. Se o Estado se sente acuado (quando o crime organizado declara guerra à polícia, por exemplo) imaginem a população. Responsabilidade de todos Ampliar a discussão parece o mais sensato, abordando a questão em sua multiplicidade e complexidade, sem escamotear as diferenças e reais dificuldades ou apelar apenas para medidas emergenciais. Mesmo que se adotem ações imediatas com o propósito de coibir o crescimento da criminalidade e de crimes violentos cometidos por jovens infratores, deve-se encarar, sem hipocrisias, o imenso fosso social, de desigualdades seculares e alienação política, que só têm acirrado o processo de exclusão social violência silenciosa e devastadora, que cada vez mais expõe suas garras, ainda que se alegue que tamanha brutalidade e barbárie não se justifiquem, nem à exclusão. É hora de propor mudanças que tornem o Judiciário mais eficiente e rápido (instrumentalizando-o em conjunto com o Legislativo), a fim de diminuir a impunidade, inclusive nos crimes de corrupção. Propor, sem discussão mais aprofundada, a redução da maioridade para aplicação de penalidades talvez obrigue à construção de mais presídios, em vez de escolas. Investir maciçamente em educação, lazer e cultura (ainda que não dê muitos votos) continua sendo o caminho mais razoável e justo, embora exija mais tempo. E será preciso muito tempo para inverter esse quadro de falta de perspectivas, de desrespeito à vida, de miserabilidade cultural, humanística e espiritual, enfim, de mediocridade, vulgaridade e perda de sentido. Quando se dão prioridade a certos investimentos, imediatistas (como o noticiado no SPTV da manhã do dia 19 de novembro, sobre a verba liberada pelo governo federal, algo em torno de R$ 31 milhões que seriam destinados à compra de bloqueadores de celulares a serem instalados em presídios do estado de São Paulo), em detrimento daqueles cujos resultados se obteriam a médio ou longo prazo, significa que alguma coisa vai muito mal o Estado, afinal, parece estar perdendo terreno nessa batalha, e todos perdem com isso. Mudanças significativas de valores demandam um investimento sério e amplo e envolvem toda a sociedade, quer na conscientização de suas necessidades, quer nos seus deveres e direitos. É uma responsabilidade de todos também da mídia, em fornecer elementos e respaldo a esse debate. (*) Poeta e funcionário público, Jaú, SP | ||