IMPRENSA EM QUESTÃO

NOTAS DE UM LEITOR
Dois golaços e um gol contra

Luiz Weis

Uma coisa e outra e ainda outra são da Folha de S.Paulo.

Primeiro gol: o repórter Sérgio Dávila, correspondente do jornal em Nova York, e o fotógrafo Juca Varella, de São Paulo, foram os únicos jornalistas brasileiros a estar em Bagdá quando as bombas começaram a cair sobre o mundo de Saddam, na quarta-feira, 19/3.

Passados quatro dias, os enviados do Estado de S.Paulo e do Globo continuavam em Amã, capital da Jordânia, tentando tirar leite de pedra para compensar o fato de terem permanecido do lado errado da fronteira iraquiana, ao contrário da dupla da Folha.

E não se diga que eles não se viraram como Sérgio e Juca por falta de cancha.

O Estado mandou para a batalha o seu repórter mais estrelado, Lourival Sant’Anna, que se cobriu de glórias na cobertura da campanha afegã (tendo conseguido se contrabandear do Paquistão para dentro do país ainda sob controle talebã e tendo feito uma primorosa matéria sobre as madrassas, as escolas religiosas muçulmanas que formam fanáticos, quando não terroristas).

E o Globo despachou o seu correspondente em Washington, o veterano José Meirelles Passos, com um luzidio currículo de repórter investigativo em escala internacional. No começo dos anos 1980, na IstoÉ, ele reconstituiu, com informações exclusivas, as histórias de dois crimes de maior repercussão do pinochetismo: os assassínios do general Carlos Prats, exilado em Buenos Aires, e do ex-chanceler Orlando Letelier, exilado em Washington.

A mais pura curiosidade jornalística manda perguntar por que o comparativamente inexperiente Dávila entrou e os seus rivais ficaram de fora. (No domingo, 23/3, o ombudsman da Folha descreve a batalha que foi obter os vistos de entrada no Iraque.) [Veja reprodução do texto do ombudsman na rubrica Voz dos Ouvidores, nesta edição do OI]

Segundo gol: os textos do enviado da Folha.

Trecho da matéria de 20/3 – "Na cidade de 4,5 milhões de habitantes, a figura de Saddam espiava o vazio em forma de estátuas, retratos e até mesmo numa espécie de presépio iluminado."

21/3 – "Bagdá acordou ontem arrancada da cama por uma realidade que vinha até então se negando a enxergar: a guerra está aqui na porta. Depois da sacudida provocada pelo espocar dos mísseis norte-americanos e das baterias antiaéreas iraquianas, cujo ruído lembra os rojões da entrada em campo de um time brasileiro de futebol elevados à enésima potência, os bagdalis começaram a tomar providências (...)."

22/3 – "A seqüência é de uma rotina assustadora e de uma lógica insuportável, emprestada dos trovões e dos raios. (...) Então, uma grande explosão – o maior e mais inesquecível som já ouvido pelo repórter até hoje. (...) Foi assim o primeiro dia do ‘Big One’, a mãe de todos os ataques, que começou na noite de ontem e promete deixar Bagdá de joelhos."

Textaços! O brasileiro pode passar 24 horas por dia diante da TV e não saberá que o ruído das baterias antiaéreas lembra o dos rojões do futebol elevados à enésima. É para isso que a mídia de um país como o Brasil deve mandar gente para uma guerra a mais de 10 mil quilômetros de distância, que só indiretamente afeta a população.

Análises militares e explicações sobre a tecnologia da destruição dá para fazer daqui mesmo. As matérias de Roberto Godoy, do Estado – o que ele não sabe sobre essas coisas e ainda sobre os segredos dos serviços secretos não vale a pena saber – e de Ricardo Bonalume, da Folha, podiam sair em qualquer jornal do mundo.

Análises políticas e comentários opinativos tampouco são problema. Os jornais transcrevem e as revistas citam grande variedade de artigos de primeira – do New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, Times, Sunday Times, Financial Times, Independent, Guardian, Observer e El País. (Podiam também usar mais o Monde, de Paris, e começar usar os alemães Die Welt e Die Zeit.)

Robert Fisk, do Independent de Londres, é um dos repórteres que mais entende de Oriente Médio e arredores. Suas descrições de Bagdá, às vésperas do ataque, recheadas de informações de background sobre a política e a vida cotidiana na região, são da melhor qualidade. A Folha costuma publicá-lo. Mas ele não pode dar o que não tem: o olhar brasileiro.

As alusões "brasileiras" de Sérgio Dávila lembram aos veteranos as reportagens de Antonio Callado no Jornal do Brasil do fim dos anos 60 sobre o Vietnã do Norte. O lide do primeiro despacho, falando da fechadíssima capital do país de Ho Chi Minh, começava assim: "Hanói parece Campina Grande".

Enfim, o gol contra. A Folha não precisava gastar meia página (A 11, de 21/3) com um anúncio autocongratulatário por estar, sozinha, em Bagdá. Era de imaginar que esse tipo de oba-oba provinciano já tinha caído em desuso.

Awe, pasmo e pavor

Quem teve a idéia de saturar Bagdá de mísseis foi o estrategista americano Harlan Ullman.

O que passou por sua cabeça, como contou numa entrevista antes da guerra, foi a seguinte cena: "Você é um general sentado em Bagdá e, de repente, o QG de sua divisão é varrido do mapa". O objetivo, portanto, seria "chocar, pasmar e atordoar (shock, awe and stun) a liderança iraquiana".

Os marqueteiros do governo Bush pegaram a deixa no ar e batizaram a ofensiva de "Operation shock and awe". E criaram uma dificuldade para a imprensa brasileira: como traduzir awe (pronuncia-se "ó")?

Awe, diz o Oxford Advanced Dictionary of Current English, significa "respeito combinado com medo e reverência". Awe é o que um católico sente ao entrar na Catedral de Chartres. Awe é o que devem ter sentido os indígenas do que viria a ser o Brasil diante da aproximação da nau capitânea de Cabral. Awe é uma experiência compartilhada, ao que parece, por todos os astronautas.

Salvo melhor juízo, em português não existe uma palavra que traduza awe perfeitamente. Existe uma expressão – "temor reverencial" – mas correria o risco de ir para o olho da rua o redator que propusesse ao editor de Internacional adotar a fórmula "operação choque e temor reverencial".

No começo, o Estadão usou "pasmo". Este jornalista também. Depois, o jornal mudou para "pavor" (idem a Folha, O Globo e Época, entre outros). O Jornal do Brasil preferiu "intimidação". Veja ficou com o temor e cortou o reverencial.

"Pavor" é a pior tradução, mas nenhuma outra alternativa tem a mesma força. A manchete do Globo de 22/3 ("Choque e pavor") e a chamada de capa idêntica da Época podem não transmitir direito o espírito da idéia de Mr. Ullman – que não falou em scare, mas em awe. Jornalisticamente, porém, ganha de um hipotético e mais sutil "Choque e pasmo".

That’s life.

"Abafa" abafado

A julgar pela leitura das edições de 22/3 dos três grandes – Folha, Globo e Estado –, o noticiário político, por preguiça, descaso ou insensibilidade, está facilitando a vida dos interessados em esterilizar a sindicância aberta na Comissão de Ética do Senado para investigar o que os manuais mandam chamar de "suposto envolvimento do senador Antonio Carlos Magalhães no grampo ilegal na Bahia" – quando o certo, pelo menos do caso dos telefones do deputado Geddel Vieira de Lima, seria escrever "autoria confessa".

Começando pela Folha. Sob o título "Maldade demais", a sexta nota da seção "Painel" (edição de 22/3) avisa: "Não é piada: senadores de oposição têm chamado Aloizio Mercadante, líder do governo na Casa, de líder da bancada carlista. Tudo por que ele orientou o PT a não pedir a convocação de Adriana Barreto, ex-namorada [‘amante’, nem pensar, não é mesmo] de ACM, para depor...".

Continuando com o Estadão. Pirulito de 20 linhas/coluna que abre a seção "Breves", sob o título "Simon suspeita de ‘acordão’ no caso ACM" cita o senador gaúcho como tendo dito que sente "cheiro de um acordão" na sindicância. Fica-se sabendo que Pedro Simon desconfia de um acerto entre o PT, o PSDB, o PFL e o PMDB para o que o povo chama de "livrar a cara" do oligarca baiano. O PT não estaria a fim de comprar briga com os pefelistas porque precisará deles na votação das reformas. A materiola termina com os desmentidos dos líderes petistas Tião Viana e Aloízio Mercadante, que garantem apurar o escândalo "até o fim".

Fechando com o Globo. Nem um pio sobre o assunto.

Chega a ser constrangedor repetir o óbvio: seja por quem é o acusado de tê-lo mandado fazer, seja pela torpeza dos motivos, especialmente no caso de Adriana Barreto, seja pelo caráter de reincidência desse óbvio atentado ao decoro parlamentar, os desdobramentos do grampo deviam merecer atenção incomparavelmente maior de uma imprensa que se diz séria.

É uma vergonha, como diria o Boris Casoy, que, no final da semana em que o Conselho de Ética se decidiu pela sindicância, como preliminar para um processo por quebra de decoro, a suspeita de que se esteja articulando a salvação da pele de ACM só mereça da Folha uma notinha irônica na sua coluna de fofocas políticas, do Estado um "breve" e do Globo coisa alguma.

Claro que, nesse dia, o assunto não tinha como competir com a "bateção de cabeça" dentro do governo, denunciada pelo presidente petista da Câmara, João Paulo Cunha. Mas o leitor tinha o direito de esperar que os mencionados jornais fossem muito mais fundo nesse rumor – o qual, a ser verdadeiro, representa um escândalo em gestação que não fica muito a dever ao que se atribui ao Malvadeza.

Se não a enormidade do delito, para uma imprensa que vive falando em ética de boca cheia, pelo menos o elementar apelo jornalístico da possível tentativa de se enfiar essa sujeirama para baixo do tapete devia estimular a salivação – e a apurática – de editores e repórteres políticos.

Pastel de vento

A primeira das quatro matérias da Folha de 23/3 sobre o Fome Zero, com a retranca "Programa em xeque" e o título bombástico "Já falta comida às famílias do Fome Zero em Guaribas" (pág. A 4) é um pastel de vento.

São 177 abundantes linhas (mais um box de 50 outras, como sobremesa) para descobrir a pólvora: o mês dura mais do que os alimentos a que têm acesso as 960 famílias da cidade, inscritas no Fome Zero e/ou em alguns dos programas criados pelo governo Fernando Henrique (Bolsa Escola, Peti, Auxílio Gás).

"Muitos beneficiados do Fome-Zero já não se alimentam adequadamente. A primeira distribuição dos R$ 50 para as famílias foi feita pelo governo no mês passado", informa o repórter Rafael Carello. "Já gastaram o dinheiro recebido, consumiram o óleo, o arroz e o leite comprados, e voltaram à dieta de feijão com farinha, feijão com milho ralado ou simplesmente feijão, só, cozido sem óleo."

E antes do Fome Zero, do Bolsa Escola, do Peti, do Auxílio Gás? Com a palavra, na enxundiosa reportagem, o enfermeiro Lauro César de Morais, do comitê gestor do novo programa: "Se com eles é difícil, imagina sem."

Nutritiva e saborosa é outra matéria (pág. A 7) do mesmo enviado especial sobre a queda de braço entre petistas e pelistas pelo controle do Fome Zero em Guaribas.

Sem falar no filé mignon, que devia abrir o conjunto e ter uma chamada na capa (apesar do espaço tomado pela guerra), "Lula estuda submeter toda política social ao modelo do Fome Zero", de Marta Salomon e Luciana Constantino (pág. A 6).

Coisa substanciosa, sem falar na tabela que a acompanha, mostrando quais são, quanto custam e a quantos beneficiam os programas de transferência de renda do governo federal.

Com uma calculadora de bolso e conhecendo a regra de três, o leitor interessado pode chegar a algumas conclusões superinteressantes sobre o projetado custo-benefício do Fome Zero para este ano.

Açim fica difícil

O Estadão corre o risco de ser, entre os principais diários brasileiros, o que mais estropia o português. Não passa dia, praticamente, sem que o jornalão despeje uma bomba sobre o idioma.

Não se está falando nem dos atributos (ou de sua escassez) que precisam estar presentes em um texto jornalístico para que tenha a qualidade que o leitor-consumidor merece em troca dos seus caraminguás.

O assunto é mesmo o excesso de erros ortográficos, de vocabulário, acentuação, pontuação e concordância – o básico.

Abra-se a página A 15 da edição de 21/3. E lá está, em um artigo traduzido do Times de Londres, de autoria de Anatole Kaletsky: "E os danos infligidos à economia dos EUA pela administração Bush será dificilmente reparada em 18 meses".

Isso, depois de o leitor ser informado, linhas acima, de que "os americanos assumiram que o mundo estava (...) viceralmente aterrado com o 11 de Setembro". E, como o diabo está nos detalhes, a palavra acabou caindo na quebra da coluna e saiu hifenizada: "vice-ralmente".

A tentação é dizer que deu um nó nas vísceras do aterrado leitor, mas isso talvez já seja exagero.

O vexame não ficou nisso. Legenda do cineminha de fotos reproduzidas da BBC, que flagrou Bush se preparando para falar aos americanos na primeira noite da guerra, descreve: "Uma cabeleireira dava o toque final em seus cabelos [não seria melhor "no seu penteado"?], enquanto o presidente fazia contorsões faciais".

Se o legendista não sabe como se escreve contorções, podia pelo menos ter recorrido ao corretor ortográfico de seu programa de texto.

Passam-se dois dias – e o Estadão ataca de novo.

Página A 4: "Falta um gerente [no governo Lula] para contornar problemas como duplicidade de benefícios...". Duplicidade é ser fingido, ter duas caras. O problema a contornar é a duplicação de benefícios.

Página A 25: "Causou constrangimento dentro do governo as declarações...".

E não se venha dizer que é implicância ou que o que importa de verdade em uma matéria é a boa informação e não o bom português.

Esses exemplos – e uma infinidade de outros casos do gênero que poluem a grande imprensa diária brasileira – confirmam que, em regra, as redações se transformaram em times sem defesa. Ninguém lê o que o outro escreve. Ninguém previne o pior.

Ironicamente, o mesmo jornal, na mesma edição, dedica toda a página A 12 a matérias sobre o problema. O gancho são as iniciativas de faculdades para melhorar a leitura e a escrita dos alunos – "Quando a universidade tenta corrigir o português", diz a manchete.

Pena que nenhuma faculdade de comunicação tenha entrado na história.

O resto é sabido. Mataram os revisores, não foi? Foi niço que deu.