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IMPRENSA EM QUESTΓO
BOMBAS & MANCHETES Alberto Dines Precisamos de uma imprensa livre para
ajudar a prevenir uma ruptura que pode ter desastrosas conseqüências ao
aumentar o potencial das formas extremas de violência. Precisamos
identificar as razões deste estado de coisas altamente emocional
e, juntos, detê-lo. A mídia tem uma responsabilidade
pedagógica.(Sérgio
Vieira de Mello, Viena, 21/11/2002) Sem repercussão o terror não aterroriza. O terrorista não é apenas um narcisista, é um propagandista: precisa que falem dele e de seus atos. A sangueira precisa ser exposta e badalada porque só assim promovem-se os seus pretextos. O 11-Setembro é o exemplo maior do seqüestro da mídia pelo terrorismo internacional. O atentado foi cuidadosamente planejado para alcançar dois objetivos: ** matar o maior número de pessoas; ** produzir um espetáculo inesquecível. Este Observatório mostrou na ocasião que o intervalo entre os dois choques contra as torres-gêmeas foi indispensável para que a mídia, alertada pelo primeiro impacto, estivesse pronta para cobrir o segundo. Assim, a mídia ocidental acabou produzindo o mais badalado comercial de todos os tempos para promover os valores opostos a uma mídia livre [leia também "Anotações de um observador atônito" (19/9/2001)]. Os dois atentados sucessivos em Mombai, na Índia, no último domingo, 24/8, seguiram a mesma sanguinária lógica: um intervalo de cinco entre um e outro para ajudar a mídia a divulgar a mortífera exibição. Ao contrário do que escreveu Umberto Eco depois do 11/9, a mídia não deve ser "prudente" na cobertura de acontecimentos. Não há como escamotear fatos nem abrandar dimensões este é o suporte da sua legitimidade [leia também "Mídia foi o melhor aliado de bin Laden" (2/12/2001)]. Qualquer sugestão para que se diminua o destaque ou se atenuem as dimensões de atos terroristas equivale a sugerir controles e censura. Impensável. Não esqueçamos que os censores militares brasileiros em setembro de 1973 sequer tentaram impedir que a mídia ignorasse a morte de Salvador Allende, queriam apenas que o assunto não chegasse às manchetes. Alguns jornais capitularam à "prudência", outros inventaram formas distintas para destacar o episódio. Devemos repelir qualquer insinuação para que a imprensa seja mais "responsável" ao noticiar atos terroristas. Mas precisamos incentivar a imprensa, como instituição moral, para resistir às seduções do relativismo "politicamente correto" e eticamente abjeto que finge lamentar o sangue derramado pelos terroristas enquanto cinicamente valida suas causas e métodos. Não podem passar em brancas nuvens as manifestações de autoridades, políticos e de certa imprensa dita "independente" que, a propósito do brutal assassinato de Sérgio Vieira de Mello, aceitaram e consagraram a diabólica lógica dos fins que justificam os meios [leia também "Terror: nem mas nem meio mas" (23/8/2003)]. A cobertura de CartaCapital, longe de ser uma condenação ao estado das relações internacionais produzido pela inépcia de George W. Bush, é um inequívoco endosso ao terrorismo como tática e como idéia. Com o cadáver do Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos sendo velado no Rio, insultou-se não apenas sua memória mas também suas idéias. O brasileiro assassinado em Bagdá testemunhou na África, na ex-Iugoslávia e no Timor o poder mortífero das mensagens de rancor e do ressentimento politizado [veja, nesta edição, "A responsabilidade pedagógica da mídia", de Sérgio Vieira de Mello]. Convém não esquecer que a cobertura sensacionalista deste mesmo semanário impediu a libertação da senadora colombiana Ingrid Betancourt nas mãos das FARC conforme denunciou sua irmã Astrid, em entrevista ao Globo (1/8/2003, pág. 29). O que nos leva ao show internacional pró-terrorismo na selva amazônica e do qual participaram os dois jornalões paulistas (Estado e Folha, domingo, 24/8). As entrevistas com o n° 2 das FARC, Raúl Reyes, foram cuidadosamente preparadas pelos marqueteiros da organização para caracterizá-la e legitimá-la. Ainda que a Folha designe as FARC como guerrilha-terrorista e o Estadão tenha formulado perguntas que irritaram o entrevistado, a tentativa de branqueamento do terrorismo ficou evidente: ** quando, ao Estado, Reyes tentou desvincular as FARC do narcotráfico brasileiro e em especial de Fernando Beira-Mar; ** quando a Folha, ingenuamente, tentou comprovar a "ausência do Estado" no território onde foi armada a promoção [leia, nesta edição, "Sozinhos na selva ou quase"]. No Complexo da Maré, no Rio, também verifica-se diariamente a tal "ausência do Estado" mas a ninguém ocorreria a insanidade de classificar o banditismo lá reinante como guerrilha. É narcoterrorismo. O homem-bomba e o carro-bomba precisam da mídia sem ela sua demência fica confinada, escondida, inútil. Sua demagogia é escrita com o sangue dos inocentes. O terrorista precisa explodir-se em notícias. Mas os compromissos morais e pedagógicos do jornalista não podem torná-lo refém da loucura e do descaso com a humanidade. O jornalismo só pode ser exercido em ambientes democráticos. O terrorismo só é efetivo onde não existe democracia. Impossível conciliar a defesa dos direitos humanos com ações terroristas o terror indiscriminado contra inocentes é um preito à morte, violência contra a vida. Percebe-se no pronunciamento de Sérgio Vieira de Mello que este Observatório publica em primeira mão que ele reconhecia a importância do media criticism (crítica da mídia) na questão dos direitos humanos. Vale a pena recordá-lo, vale a pena respeitá-lo: "Envolver a mídia no monitoramento de suas próprias atividades e no fornecimento de treino e recursos aos jornalistas para promover no seu trabalho, de forma simples e sábia, os direitos humanos e a liberdade". Leia também Coleção de matérias do OI sobre o 11-Setembro e seus desdobramentos A mídia como campo de batalha Alberto Dines (26/9/01) Informação inteligível em lugar dos tambores de guerra Ulisses Capozzoli (19/9/01) Sobre verdades e bobagens Deonísio da Silva (19/9/01) White plates press Luiz Weis (26/9/01) Uma cobertura para não esquecer A.D. (3/10/01) De Schwarznegger ao Afeganistão Muniz Sodré (3/10/01) A primeira estrela da guerra Nelson Hoineff (3/10/01) Guerra sem espetáculo parece cobertura política A.D. (10/10/01) A primeira vítima D. da S. (10/10/01) Patriotismo e patrulhas na mídia americana Arnaldo Dines (10/10/01) Antraz coloca mídia na linha de frente A.D. (17/10/01) Nada de novo na frente Luís Edgar de Andrade (17/10/01) Imprensa em tempos de cólera L.W. (17/10/01) Mídia esquece a mídia nos ataques de antraz A.D. (31/10/01) Produção de imagens e ação política Luiz Gonzaga Motta (21/11/01) Mídia prefere Apocalipse A.D. (11/9/02) | ||