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IMPRENSA EM QUESTΓO GUERRA FRIA PARTE 2 Alberto Dines Os terroristas souberam utilizar a mídia espetacularmente para magnificar o efeito dos atentados suicidas. A mídia não era o alvo mas o objetivo [veja OI nΊ 138, em Edições Anteriores]. Se os terroristas não tivessem falhado no avião-4 (que caiu na Pensilvânia) teriam encenado outro show de horror, desta vez em Washington, diante das câmeras de TV devidamente alertadas pelo aparelho atirado contra o Pentágono. Missão cumprida, o terror saiu de cena mas continua comandando o espetáculo por controle remoto. A mídia continua pautada pelos terroristas. Com a decisiva ajuda dos sobreviventes da Guerra Fria e do tenebroso relativismo moral segundo o qual americanos merecem morrer pelos males que têm causado à humanidade. Cansados de mostrar o horror (mesmo porque a reiteração só produz banalização) e porque escombros são imóveis e cadáveres não se exibem, desde a semana passada os veículos eletrônicos e impressos de todo o mundo fixaram-se na fascinante parafernália bélica que os Estados Unidos puseram em movimento para punir as organizações terroristas. Televisões encheram-se de imagens de fabulosos aviões supersônicos subindo e descendo de porta-aviões; os veículos impressos, além disso, esmeraram-se nos infográficos e quadrinhos estilo Navarra para mostrar o poderio militar posto em movimento. Todos estão querendo repetir o show da Guerra do Golfo: os chefes militares forçando a intimidação psicomidiática e os responsáveis pela mídia imaginando que poderão repetir a façanha de cobrir outra guerra a partir de confortáveis hotéis na retaguarda. Dupla bobagem: a caçada aos terroristas está ocorrendo e deve consumar-se longe das câmeras, em "operações especiais", enquanto que a exibição do poderio militar americano só exacerba a vitimização dos culpados pela barbaridade da Terça Negra. Como sempre, a mídia obriga-se a esquentar um assunto ao máximo sem saber exatamente como fazê-lo. Mesmo com o espectro das quase sete mil vítimas, a maioria insepulta. A vacilação esquizofrênica manifesta-se mais visivelmente no Brasil: como o material que chega dos EUA é escasso visivelmente controlado e não consegue preencher as doses diárias de vibração, os editores fazem o que sempre fizeram: apelam para o opinionismo e para o achismo. Quem sai perdendo são os nossos acadêmicos, que nesta rendosa azáfama de papos na internet, entrevistas no rádio, enquetes nos jornais e talk-shows nas televisões acabam revelando a dimensão do seu despreparo e o seu inesgotável potencial de sectarismo. Nossos mediadores e aqueles que lhes pagam os salários ainda não avaliaram que a partir de 11 de setembro a mídia foi escolhida para ser um campo de batalha. A guerra psicológica que começa a travar-se pode pender para o terrorismo se a bandidagem politizada sentir-se abrigada pela simpatia e compreensão das massas, sobretudo em países periféricos como o Brasil. Se as facções nostálgicas do confronto ideológico com suas palavras de ordem simplistas não repudiarem cabalmente o terrorismo estaremos reavivando em toda a sua extensão os horrores da Guerra Fria. Pouco adianta despachar um repórter para Preshawar, na fronteira Afeganistão, para assinar o ponto. Seria preciso mandar outros para o Uzbequistão, Tajiquistão, Israel, Estado Palestino e Buenos Aires (onde começa o julgamento dos acusados de dinamitar um prédio da comunidade israelita, com 85 mortos). Este novo tipo de guerra não tem frentes nem trincheiras sobretudo, não tem briefings na barraca do alto comando. Melhor e mais humano seria fixar alguém em Nova York para acompanhar o resgate dos corpos e relatar histórias pessoais de sobreviventes, jornalistas, policiais, bombeiros. A guerra começou ali e ainda não acabou. De Nova York pode-se também esclarecer o público brasileiro a respeito do número aproximado de patrícios vitimados nos atentados e que tem variado entre 5 e 17. Nenhum veículo ou jornalista deu-se ao trabalho de explicar que na linguagem eufemista dos diplomatas há dois tipos de "desaparecidos": os presumivelmente mortos porque estavam no WTC e aqueles cujo paradeiro se desconhece porque lá não estavam. Em nosso mundinho midiático, as maiores aberrações dos últimos dias foram as seguintes: 1. O desgastado recurso da sondagem de opinião pública que as irmãs Folha e Datafolha utilizam para reforçar suas posições editoriais (domingo, 23/9, pág. A1 e A2 do Especial). É uma temeridade estatística afirmar em espalhafatosa manchete de primeira pagina que 79% dos brasileiros pensam isso ou aquilo quando são ouvidos apenas 2.830 pessoas em 127 municípios e no DF. Não se precisa gastar o rico dinheirinho do Grupo Folha para procurar saber se os brasileiros são contrários à retaliação militar. Todo o mundo é, exceto, os americanos óbvio. Mais significativa é a preferência em "localizar, prender e julgar os responsáveis pelos atentados" defendida por 74% dos entrevistados. Praticamente o mesmo percentual dos que rejeitam a ação militar. É uma clara e categórica condenação do terrorismo pela sociedade brasileira no exato momento em que nas colunas de opinião é visível um esforço para suavizar e relativizar a barbaridade dos atentados com cínicas justificativas ideológicas.2. Causa estranheza que a mídia brasileira não tenha se debruçado para estudar o "ataque" contra a CNN iniciado por um novo tipo de hacker, o ideológico como informou este Observatório, na edição passada [remissão abaixo]. Com base num desconhecido site de uma publicação jurídica de Campinas (SP), em poucos dias ganhou o mundo o boato de que as imagens da CNN mostrando o regozijo de alguns palestinos após os atentados seriam falsas reprodução dos festejos pelos Scuds de Saddam na Guerra de Golfo, em 1991. Este é um novo tipo de desinformação habilmente manipulado por pessoas politizadas que não brincam em serviço. Um inocente e-mail na base do você sabia disso? irradia-se com grande velocidade e toma conta dos incautos em todo o mundo. Como em tempos de crise a CNN domina o noticiário mundial, o rumor teve todas as características de contra-informação. Exatamente uma semana depois chegava ao New York Times [veja abaixo]. Mais uma vitória do engenho brasileiro.3. O "Atlas do Terror Islâmico" na última Veja (págs. 88-89) é um acinte. Esquece o terror do ETA, do IRA, das Farc e das loucuras perpetradas pela Unita em Angola, fixando-se apenas nas matanças efetuadas por radicais muçulmanos. A xenofobia, o ressentimento e o preconceito começam assim. Na inclinação para totalizar e na incapacidade para diferenciar. Dos três fundadores das religiões monoteístas, o único guerreiro foi o profeta Maomé (Moisés foi líder político e Jesus, líder místico) razão pela qual a espada tremula em muitas bandeiras islâmicas. Mas a guerra aberta jamais foi condenada, sempre aceita como modo de resolver pendências que o diálogo não contorna. A generalização islamismo=terrorismo é um voto de apoio ao terror. Exatamente igual à pregação hitlerista de que todo judeu era comunista.Leia também Paranóia virtual: sobre verdade e bobagens Nelson Hoineff Anotações de um observador atônito Alberto Dines | ||