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GRAMPO-BUMERANGUE
O triste fim do jornalismo fiteiro

Alberto Dines

Inevitável e previsível: a utilização intensiva e abusiva de gravações telefônicas pela mídia acabaria pegando a própria mídia. A lama jogada no ventilador acaba sempre respingando naquele que liga a máquina.

Não é preciso ser profeta, astrólogo ou mágico: basta o senso comum para adivinhar que o desfecho da fábula do aprendiz do feiticeiro aplica-se a qualquer maquinação levada ao extremo. Com um conhecimento mínimo da dinâmica dos negócios humanos seria possível prever o desenlace desses anos de arapongagem generalizada patrocinada pelos mais escusos interesses e que a mídia, inocente ou maldosamente, confundiu com interesse público.

Quem pagou o preço foi o jornalista Ricardo Boechat, então o colunista mais lido de O Globo – porque a corda sempre rompe no lado mais fraco. Ou menos forte. Mas quem avacalhou o jornalismo investigativo brasileiro, confundindo-o com a divulgação de falsos dossiês ou grampos ilegais, foram os chefões da mídia que receberam dos respectivos patrões a luz verde para seguir em direção ao abismo do descrédito.

Quem converteu as antigas colunas mundanas em espaços autônomos, sem qualquer controle de qualidade jornalística, foi a fórmula de fazer barulho engendrada nos laboratórios da Folha de S.Paulo; e, por macaquice, convertida em padrão generalizado. O negócio era gastar o mínimo de texto – informações – tirando o proveito máximo dos títulos.

Jornais dentro de jornais, a serviço dos interesses e critérios alheios aos compromissos da empresa jornalística com a sociedade. Os profissionais aproveitaram: fizeram contratos fabulosos, tornaram-se celebridades, senhores do mundo, abriam e fechavam portas, eventualmente embolsaram alguma grana. Ou favores que revertiam na dita cuja. Jamais foram refreados ou advertidos, ao contrário: receberam todos os estímulos e todo o destaque de modo a continuar no que faziam. O sensacionalismo não existe isoladamente. Combina-se a outras matérias-primas que gravitam à volta até converter-se num instrumento de poder.

Ainda é cedo para emitir opiniões definitivas sobre este Grampo dos Grampos que enredou a mídia e jogou-a no mesmo mar de lama em que está metida tanta gente.

Por enquanto, no primeiro dia do caso, conviria anotar alguns dados relevantes:

** Ricardo Boechat foi castigado de forma estúpida e exemplar. Boi de piranha – para saciar os apetites punitivos, encerrar o assunto e livrar a cara de muita gente. Que faz coisa pior há mais tempo.

** A matéria onde foi penitenciado é exemplo clássico de prepotência: fuzilamento antes de julgamento. O jornal transcreveu o que um semanário de empresa rival publicou, não ofereceu ao acusado a menor chance de defesa e na primeira página proclama a sentença irrevogável: afastado (O Globo, 25/06/01, págs. 1 e 4). Com isto consagra o grampo ilegal como prova irrefutável. Como foram as malsinações ao tempo da Inquisição.

** O grampo foi feito nos telefones do empresário Paulo Marinho (que aparece nas três conversas reproduzidas com diferentes interlocutores). Os três são inimigos de Daniel Dantas, o dono do banco Opportunity. Portanto, o beneficiário da divulgação do grampo e seu autor intelectual só pode ser o dito Dantas. Considerando a tumultuada crônica judicial que envolve o criativo banqueiro desde os tempos da privatização da telefonia, qualquer material ou informação produzida com a sua chancela deveria merecer o benefício da dúvida. Veja e O Globo, embora arqui-rivais, curvaram-se docilmente aos seus caprichos.

**Veja recebeu a matéria de mão-beijada, todos os indícios apontam para isso. Normalmente teria badalado o seu "feito" investigativo na "Carta ao Leitor". Desta vez, nenhuma linha louvando o trabalho da jornalista da sucursal carioca que assina a matéria. Injusto e inédito. A própria chamada da capa mostra uma cautela que o semanário não teria se o material tivesse sido produzido em sua esfera: "Fitas revelam os bastidores da guerra da telefonia". Também na chamada do sumário: "Nelson Tanure: no centro de uma negociação bilionária". Nem parece escândalo.

** Aceitando a premissa de que a matéria foi produzida fora da Veja, não é impossível que o material publicado tenha sido gentilmente oferecido pela direção do Grupo Globo, o maior beneficiário do "escândalo".

** Duas evidências: Ricardo Boechat, velho amigo do empresário Tanure, hoje principal acionista da controladora do Jornal do Brasil, estava de malas prontas para deixar O Globo e passar para o concorrente. Tanure, dono de uma apreciável fortuna e grandes contatos internacionais, foi muito bem sucedido nos seus primeiros movimentos como controlador do JB, a começar pela contratação de Mario Sergio Conti para dirigir o jornal. Se Tanure ganha a parada contra Daniel Dantas junto com os parceiros canadenses, ganha muito fôlego para reanimar o JB. É a última coisa que os Marinho precisam neste momento.

** Por que razão O Globo não publicou sozinho o material que Dantas lhe passou? Simplesmente porque ficaria escancarada sua intenção de abortar o re-erguimento do JB. Não pega bem.

** Prova de que havia intenção de avacalhar o que resta da credibilidade do JB foi a inclusão extemporânea de uma conversa entre Tanure e seu amigo Marinho sobre uma diligência que José Antônio Nascimento Brito fizera junto ao presidente do Senado, Jader Barbalho. Embora comprometedora, nada tem a ver com a briga pelo controle das operadoras de telefonia, razão de ser do grampo e do escândalo para divulgá-lo.

** E quais as razões que levaram Veja a fazer o trabalhinho para os Marinho, do Grupo Globo, contra o Marinho do grupo Tanure? No mínimo cinco, a mais evidente é tão arcaica quanto a condição humana: vingança. Vendeta contra Mario Sergio Conti pelos desconfortos causados na Editora Abril com as revelaçõesdo livro Notícias do Planalto. O seu nome também aparece de maneira forçada no meio da reportagem (pág. 42).

Há muitas questões a serem formuladas e dúvidas a esclarecer. Uma coisa é certa: o grampo, invenção dos novos grupos de poder para usar a imprensa em favor das suas jogadas, está com os dias contados. Nos últimos anos, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães orquestrou a divulgação de alguns desses grampos e acabou ferrado por uma incontinência verbal durante uma gravação que seria entregue a uma revista "inimiga". Agora este grampo-bumerangue derruba um jornalista famoso, acerta num jornal em recuperação e escancara o grau de comprometimento da mídia na guerra suja entre grupos econômicos.

Boechat perdeu o emprego. Conseguirá outro. A sociedade brasileira perdeu a confiança na sua imprensa. Levará muito tempo para recuperá-la.[Em 25/6/01, às 15 horas]

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