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RECORDAR É VIVER
Olha o grampo, meu bem! (*)
Alberto Dines
É isso aí, emergimos para a modernidade. Dos trombadinhas aos seqüestradores, depois aos maníacos do parque e, agora, despencamos solenemente em plena Era da Grande Delinqüência. Chicago, abaixo do Equador, na virada do milênio.
Coisa de Primeiro Mundo: aquele fax fajutado sobre contas secretas nas Ilhas Cayman de quatro figuras públicas de primeira grandeza e a gravação clandestina na presidência do BNDES mostraram que já dispomos de uma bandidagem empresarial capaz de associar-se aos bandoleiros da política. Para o gozo das revistas de escândalos que substituíram os jornais na sanha de "fazer barulho".
Imagina esta hipótese absurda: chega na redação uma carta anônima contendo um monte de pesadas acusações envolvendo o dono de empresa jornalística, profissional famoso ou âncora charmoso. Responda depressa: como é que se comportaria o jornalista padrão? a) Faz como no velho oeste, sai atirando e depois pergunta ao cadáver "quem vem lá"? Ou: b) Vai investigar e só depois publica se achou algo comprometedor ?
Errou: não publica coisa alguma e não investiga nada. A imprensa está acima de qualquer suspeita. Mas os "outros" são sempre culpados, até que provem sua inocência. Lei da selva. Os "outros" são os homens públicos. E quanto mais decentes, mais vulneráveis. Na ânsia de mostrar que o Rei está nu, a mídia não reparou que está pelada. Com um corpanzil horroroso.
Veja o seguinte: você é um funcionário graduado da administração pública e alguém consegue gravar clandestinamente suas conversas telefônicas. A divulgação desta conversa é legitima (considerando o interesse público) ou configura invasão da privacidade individual? Neste caso, quem é criminoso – você que falava descontraído e empolgado com o seu colega ou aqueles que fizeram o grampo?
Aí acontece que a mídia resolve divulgar certas frases da conversa gravada clandestinamente. Você reclama, esperneia – se o crime não compensa, como premiar uma ação criminosa? Quer, ao menos, que as frases sejam devidamente contextualizadas. Íntegra nem pensar, jornalismo íntegro nestas plagas faz-se sem íntegras, leitor não tem paciência para ler tudo. Além do mais, a barra está pesada, mídia de caixa baixa e esse negócio de transcrever textos completos consome muito papel.
Danou-se amigo, você está literalmente ferrado. Pede o boné e vai cuidar da vida. Então, sabe o que acontece? Da noite para o dia você vira uma grande figura, um santo. A mesma mídia que o desancou ontem no fim da tarde, hoje de manhã chama-o de insubstituível etc. etc.
Aí você fica pensando que tudo isto é uma obra inédita de Franz Kafka. Ou uma espécie de circo onde aqueles sujeitos de casaca e chicote ficam inventando atrações sensacionais para vender mais ingressos.
Olha, cara, com esta mania de gravar conversas e uma imprensa disposta a publicá-las é melhor tomar cuidado. Até com aquela louraça que pousou ao seu lado na ponte aérea. Para começar, não lhe dê o telefone, apenas o e-mail. Se ela descobrir o seu Graham Bell e ligar, paciência, desconverse: mencione os seus cabelos sedosos, o xampu que usa, diga em alemão krampe, qualquer coisa que lembre aquele enfeite que se costumava usar na carapinha e hoje designa um dos métodos modernos de chantagem.
Ou, para simplificar, só use videofone.
(*) Publicado na revista VIP, janeiro de 1999

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