IMPRENSA EM QUESTÃO

LETRAS AO VENTO
O "sociojornalismo" de Touraine

Muniz Sodré (*)

Num artigo recente (caderno "Mais!", Folha de S.Paulo, 3/6/2001), o sociólogo Alain Touraine oferece uma boa demonstração da progressiva indistinção entre o discurso jornalístico e o discurso das ciências sociais – pelo menos o de certas práticas dessas ciências. Touraine parte da hipótese de que os países sul-americanos, com exceção do Brasil, são incapazes de uma atitude de autonomia frente aos interesses norte-americanos corporificados na ALCA, o que daria ao Brasil uma posição de soberania ou poder no âmbito da política internacional.

Por trás do diagnóstico do sociólogo francês – que morou no Chile e permanece razoavelmente afeito às questões sociais do Continente – está uma espécie de consenso ou de opinião generalizada entre "brasilianistas" estrangeiros no sentido de que a América Latina tem hoje "um futuro brilhante atrás dela".

Ou seja, apesar de todos os esforços de agências de desenvolvimento, governos e imprensa para manter acesa a chama das expectativas quanto a um futuro róseo, dá-se na realidade a falência do paradigma desenvolvimentista que sempre sustentou o entusiasmo futurista das elites. A intelligentsia emergente na encarnação neoliberal desse paradigma está mais preocupada com o "futuro do passado" (a preservação patrimonialista das heranças econômicas, sociais e simbólicas) ou com os dispositivos tecnológicos da globalização, mais ou menos nos termos em que se coloca Derrick de Kerckove, discípulo do velho McLuhan: "Não penso mais o coletivo, penso o conectivo".

Teoria idealista

Reconhecendo implicitamente nisso tudo uma falta de atitude e de ação coletivas, Touraine abre exceção para o Brasil. Mas em vez de argumentação sociológica (noblesse oblige...), recorre ao que o jornalismo tem de pior: o editorialismo faccioso. Com efeito, em seu texto, o que garante ao país essa posição diferenciada é pura e simplesmente a presença no poder de seu velho colega de academia no Chile, o ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Uma interpretação científica do fenômeno social não deve confundir-se com o êxito social de ideologias teóricas coladas à contemplação fascinada do progresso tecnológico e às imagens idílicas do paradigma neoliberal. Ideologia teórica tem aqui o sentido de uma homogeneidade de idéias acadêmicas sobre a realidade, que a justifica como algo ontologicamente dado e não-transformável.

Essas ideologias são muito populares, por exemplo, no campo da comunicação. Consistem normalmente em versões universitárias de uma generalizada escatologia comunicacional (por exemplo, idéias do tipo "a cibercultura é o terceiro estágio da humanidade", "cibercultura é a presença virtual da humanidade diante de si mesma" etc.) que procura impor-se, com pano de fundo quase-religioso, na ausência de estruturas ético-políticas.

São posições presentes tanto em certos setores do mundo acadêmico quanto do jornalístico, que se juntam apenas para ver "desfilar" todo um mundo técnico já pronto e acabado. O cientificismo empirista – gerado pela teoria idealista do conhecimento ou por sociologias do tipo da praticada por Touraine – ajusta-se perfeitamente à visão midiática (mercadológica) do mundo.

Informações duvidosas

É fato observável que o jornalismo – em especial, o jornalismo dito "de qualidade" – tem assumido progressivamente o controle do discurso mantido pelas ciências do homem sobre a vida social em todos os seus aspectos, ainda que o jornalista não legitime o seu texto por uma "posição epistemológica". A maior parte da mitologia comunicacional contemporânea é jornalisticamente veiculada.

Mas outras mitologias cientificistas comparecem também sob a égide de representantes das disciplinas sociais. Garantido por sua identidade profissional e protegido por argumentos de autoridade, o acadêmico pode praticar seus artigos jornalísticos com o tom de quem enuncia verdades pesquisadas. É bem o caso de Touraine no artigo em questão: parece sociologia, mas não é; parece jornalismo argumentativo, mas é editorial de compadre.

Para esse tipo de discurso sabido, nada melhor do que evocar a atitude-padrão do bom editor-chefe (mais atento ao coletivo do que ao conectivo) diante de um assunto com informações duvidosas: "Manda apurar!"

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ.